Duas Garotas Românticas / Les Demoiselles de Rochefort

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Nota: ★★★★

Se fosse para enumerar os dez melhores musicais da História, eu pediria um tempo para pensar. E minha lista seria, é claro, motivo de todo tipo de crítica: não há lista que agrade a todos, toda lista é necessariamente falha, ou questionável, ou as duas coisas.

Mas, se a pergunta fosse sobre os cinco musicais de que eu mais gosto, seria muito mais simples. Les Demoiselles de Rochefort estaria lá, junto com seu primo quase irmão, Les Parapluies de Cherbourg.

Les Demoiselles de Rochefort é um dos mais belos, mais encantadores, mais alegres, mais extraordinariamente bem realizados filmusicais que já vi ou de que ouvir falar.

Quando Roger Ebert – que Deus o tenha num lugar confortável onde ele possa continuar vendo muitos filmes – escreveu que ver bons filmes nos fazem pessoas melhores, seguramente estava pensando em obras como Les Demoiselles de Rochefort.

Este aqui é um daqueles filmes muito especiais que deixam você, sem perceber, alguns milímetros acima do solo. E, quando você pousa de novo com os pés no mundo real, está melhor do que estava antes de começar a ver aquilo: está mais feliz, e portanto mais paciente com tanta coisa ruim que cerca você, mais compreensivo com as pequenas e as grandes bobagens que as pessoas fazem a cada momento a seu redor.

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Confesso que tive um certo medo de rever o filme. Bobagem!

Fazia bastante tempo que não revia o filme, e confesso, bastante envergonhado, que tive até um pouquinho de medo: xi, será que não vou me decepcionar, ao rever agora?

Às vezes isso acontece: a gente tem um carinho absolutamente especial por um filme que viu quando muito jovem e, ao rever, percebe que, ahnn, não é tão genial assim… Ou, muitíssimo pior, percebe que, ahnn, na verdade, ficou datado, tem coisas bem fracas – se for pensar bem, é ruim.

Revejo as anotações. Anotei que vi o filme em 1969, e revi, já com Mary, é claro, em 2004. Não posso garantir que tenham sido apenas essas duas vezes. Minhas anotações são boas, confiáveis, mas têm falhas: houve períodos conturbados em que deixei de anotar direitinho os filmes que via. Então não dá para dizer com segurança que esta vez agora foi apenas a terceira em que vi o filme. Me parece que já vi outras vezes, mas sempre num passado mais distante.

Dá parta confiar que a penúltima vez tinha sido em 2004, 11 anos atrás, portanto.

E que bobagem esse medo de me decepcionar agora. Revi o filme o tempo todo em absoluto estado de graça.

zzroche2 - certoUm cineasta apaixonado pelo cinema, por Agnès Varda e pelos encontros

Acho que não estaria errado se dissesse que Jacques Demy (1931-1990) foi um cineasta apaixonado pelo cinema, por Agnès Varda, sua mulher, pelo amor e pelos encontros e desencontros da vida, as peças que o destino prega nas pessoas. Não necessariamente nessa ordem, é claro.

Seus filmes falam basicamente sobre os encontros e desencontros, as peças que o destino nos prega.

OK, alguém poderia argumentar que encontros e desencontros são os temas básicos de absolutamente todas as histórias – da literatura, da dramaturgia, do cinema. Verdade. Mas tenho a absoluta certeza de que há um grupo de realizadores que tratou desse tema mais que todos os outros: Jacques Demy, Claude Lelouch e Krzysztof Kieslowski.

Na vida é um tanto assim, e nos filmes todos é um tanto assim, mas, nos desses três aí, as pessoas se encontram e se desencontram constantemente; passam pela mesma rua, cruzam-se sem se verem, para só se conhecerem bem depois.

Demy estabeleceu isso como verdade – e depois Lelouch e Kieslowski seguiram nesse caminho, e mais tarde muitas das comedinhas românticas usaram a mesma coisa. Medianeras, o fantástico filme do argentino Gustavo Taretto de 2011, por exemplo, usa e abusa desse tipo de coisa. Mas foi Demy que fez disso seu estilo pessoal: as pessoas se encontram e se desencontram constantemente; passam pela mesma rua, cruzam-se sem se verem, para só se conhecerem bem depois. Ou se reencontrarem.

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Um marco: o primeiro filme em que todos os diálogos são cantados

Esse tema dos encontros e desencontros estava no seu primeiro longa, Lola, de 1961, em que um sujeito que está de mal com a vida, um tal Roland Casssard, por acaso tromba com uma mulher – a Lola do título, que vem na pele maravilhosa de Anouk Aimée – que ele havia conhecido quando os dois eram bem jovens. Lola é uma ronda à la Max Ophüls, um quadrilha à la Drummond: fulano que amava fulana que estava com fulano, que saía com sicrana, que dava para um outro.

O terceiro filme de Demy foi Les Parapluies de Cherbourg, lançado em 1964. É um fiapo de história – assim como era um fiapo de história Um Homem, uma Mulher, de 1966, o filme também com Anouk Aimée que transformaria Claude Lelouch num dos raríssimos diretores a ganhar pelo mesmo filme a Palma de Ouro de Cannes e o Oscar de melhor filme estrangeiro.

A trama de Les Parapluies é assim: mocinho e mocinha se amam demais da conta; mocinho é convocado para servir o exército na guerra da Argélia; quando volta, a mocinha – que havia ficado grávida dele – estava casada. Com Roland Cassard, o personagem que havia vindo do filme anterior. Então, ao voltar, mocinho também se casa, com uma moça gentil, suave. Os dois amantes se reencontram numa véspera de Natal – e ali, onde outrora ribombaram hinos, não há mais nada.

zzroche4A trama de Les Parapluies, embora fiapinho, é linda, emocionante. Marcou meu coraçãozinho adolescente como se fosse um daqueles marcadores de gado que a gente vê nos westerns. O grande amor acaba – Jacquot Demy demonstrou, ou então eu erroneamente achei que ele demonstrava. Lamentavelmente, o que a gente achava que era a maior coisa do mundo, que fazia a terra tremer, simplesmente acaba, some, desaparece, vira poeira na memória.

Pequetito enquanto trama, história, reunião de eventos, Parapluies foi no entanto um marco: foi o primeiro filme jamais feito só com música, em que todos os diálogos são cantados. Não há em Parapluies uma única frase que não seja cantada. Quando a personagem de Catherine Deneuve, agora já uma senhora burguesa, esposa de Roland Cassard, pára na véspera de Natal num posto Esso que por mero acaso é do seu ex-grande amor Guy, ela se dirige à filha e pede para ela não buzinar – cantando!

(Se minha memória não me trai, ela diz, quer dizer, ela canta: “Le klaxon n’est pas un jeu”.)

E aí os dois ex-amantes se vêem pela primeira vez desde a despedida na estação ferroviária, de onde ele partiu para a guerra da Argélia, e eles conversam pela primeira vez desde que o grande amor acabou – cantando.

Este aqui é talvez o único filme em que todo mundo dança quase o tempo todo

Quando foi fazer seu segundo musical com o camarada e cúmplice Michel Legrand, em 1967, três anos depois de Parapluies, Jacques Demy foi menos radical: há diálogos não cantados em Les Demoiselles de Rochefort.

Quase tudo, no entanto, é rimado. Mesmo os diálogos não cantados são rimados. E são rimas ricas, interessantes, fascinantes, as que Jacquot Demy criou, para os diálogos sem música, e também para as letras das canções que são ouvidas em, digamos, 80% dos gloriosos 120 minutos do filme, que passam rapidissimamente, como se fosse um curta-metragem.

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Então Les Demoiselles não é totalmente, inteiramente cantado.

Em compensação, dança-se quase todo o tempo.

Um personagem está caminhando pela rua – ele meio caminha, meio que dança. Começa a só dançar – e as pessoas que vão passando por ele nas ruas, os transeuntes, todo mundo, todos os habitantes de Rochefort começam a dançar também!

Nunca, em nenhum musical, da Metro ou de qualquer outro grande estúdio de Hollywood, aconteceu de todas as pessoas dançarem no meio das ruas quase o tempo todo.

Transeunte, passante, neguinho que anda pela rua, todo mundo, absolutamente todo mundo dançar, só em Les Demoiselles de Rochefort!

E mesmo os gestos normais do dia a dia são como que coreografados. Lá pelas tantas, Madame Garnier (o papel da esplendorosa Danielle Darrieux) passa a mão pelo balcão de seu bar na praça central da cidade, como se estivesse fazendo uma afirmação peremptória, dando a palavra final – o gesto é quase uma dança, e a música de Michel Legrand realça isso com um grande acorde de final de canção.

Oito personagems principais, todos prontos para o grande amor

E, no libreto, na trama, Demy foi ainda mais radical do que havia sido nos dois filmes anteriores citados aqui.

Nesta fantasia musical de Demy, o grande amor – bem ao contrário do que acontece em Les Parapluies – prevalece.

Em Les Parapluies, o grande amor não dura mais que uns cinco anos. Se esfarela, fica cocô do cavalo do bandido – e, quando o casal que teve o grande amor se reencontra, não há sinos tocando, não há terra tremendo, não há absolutamente nada trincando as fibras do coração.

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Pois em Les Demoiselles o grande amor está aí, pronto para ser descoberto. É apenas uma questão de tempo. Jacques Demy, o autor, o roteirista, brinca com seus personagens, seus marionetes: olha só, vocês vão se encontrar, seus grandes amantes, só não chegou a hora ainda. Vocês vão se encontrar na vida – se não for antes, será no balé final do filme.

São, no total, 15 personagens com alguma fala – ou canto –, oito deles mais importantes na trama.

Os primeiros que vemos, na abertura do filme, são Etienne (George Chakiris, Oscar de melhor ator coadjuvante por West Side Story, de 1961) e Bill (Grover Dale). Os dois trabalham numa revendedora de motocicletas, e estão chegando a Rochefort para participar da feira comercial e de diversões que será armada na praça principal da cidade naquele fim de semana de verão.

Diversas equipes de artistas e artesãos estão chegando naquele momento à cidade. É sexta-feira pela manhã, conforme nos informa um letreiro, logo ao fim dos créditos iniciais.

Etienne e Bill têm suas parceiras, Judith e Esther (Pamela Hart e Leslie North, respectivamente), e os quarto dançam na praça principal enquanto começam a montar a estrutura do palco em que vão se apresentar – ao mesmo tempo em que outros grupos de artistas fazem o mesmo.

O único filme em que Catherine e Françoise trabalharam juntas como protagonistas

Nessa abertura, Jacques Demy e seu diretor de fotografia Ghislain Cloquet (um dos maiores nomes da fotografia do cinema europeu nos anos 60) presenteiam o espectador com alguns admiráveis planos-seqüências – aqueles planos longos, demorados, que vão acompanhando os atores sem corte algum. Filmar plano-sequência exige muito ensaio, muita precisão, em especial se o plano vai focalizar um número grande de pessoas, e esse é exatamente o caso ali desse início de filme, com dezenas de figurantes andando na praça.

Um plano-sequência, em especial, deixa o cinéfilo mesmerizado: a câmara pega toda a movimentação da praça, as dezenas de pessoas atarefadas montando seus palcos, suas barracas, gente dançando, gente cantando. E aí ela vai fazendo um zoom em direção a uma grande edificação de uns três andares diante da praça, e o zoom vai chegando mais e mais perto de uma janela do segundo andar, e aí a câmara entra na ampla sala que dá para a praça, e vemos les demoiselles de Rochefort, as duas garotas românticas do título brasileiro, as gêmeas Delphine e Solange Garnier, interpretadas pelas irmãs Catherine Deneuve e Françoise Dorléac.

Foi a terceira vez em que as duas irmãs contracenaram – e a única em que foram as protagonistas da história.

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Alguns poucos cineastas tiveram a sorte grande, a mega-sena de dirigir tanto Catherine Deneuve (nascida Catherine Fabienne Dorléac, em 1943) quanto Françoise Dorléac (nascida, com o mesmo nome que usou na vida artística, em 1942, a primogênita das quatro filhas de Maurice Dorléac e Renée Deneuve).

François Truffaut dirigiu Françoise em Um Só Pecado/La Peau Douce (1964), e Catherine em A Sereia do Mississipi (1969) e O Último Metrô (1980).

Roman Polanski dirigiu Françoise em Armadilha do Destino/Cul-de-sac (1966) e Catherine em Repulsa ao Sexo/Repulsion (1965).

Em um mesmo ano, 1964, Philippe de Broca dirigiu Françoise em O Homem do Rio e Catherine em O Irresistível Gozador/Un Monsieur de Compagnie.

Édouard Molinaro dirigiu as duas em A Caça ao Homem/La Chasse à l’Homme (1964). E elas estiveram juntas também, bem em início de carreira, em Les Portes Claquent (1960), de Michel Fermaud e Jacques Poitrenaud, um filme não lançado comercialmente no Brasil.

Jacques Demy dirigiu Catherine em Les Parapluies de Cherbourg (1964), e mais tarde em Pele de Asno (1970) e Um Homem em Estado Interessante (1973). E foi o único a dirigir Françoise e Catherine juntas e em cores, em muitas cores, nos papéis principais, neste filme aqui.

A mãe das duas moças ainda é jovem e é belíssima

Delphine-Catherine é bailarina e professora de balé. Solange-Françoise é compositora e pianista.

Quando a câmara de Ghislain Cloquet vem vindo desde a praça e invade a sala do apartamento das gêmeas, elas estão terminando de dar uma aula de balé para um grupo de crianças.

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As duas são filhas de Yvone Garnier (o papel da já citada Danielle Darrieux, à esquerda na foto), dona de um bar-lanchonete localizado bem na praça central da cidade, onde haverá todo o agito da feira de diversões no fim de semana.

No café conheceremos três dos coadjuvantes da história. Há Josette (Geneviève Thénier), a simpática garçonete; Pépé (René Pascal), o pai de Yvonne; e Subtil Dutrouz, um senhor de mais idade, velho conhecido de Pépé e freguês do bar.

Yvonne, senhora belíssima, teve as gêmeas quando era muito, muito jovem – e Etienne e Bill, que frequentarão o bar com assiduidade durante aqueles dias, dirão que ela parece mais irmã das gêmeas do que mãe.

Muitos anos depois das gêmeas, Yvonne teve um filho temporão, Boubou (Patrick Jeantet), que está então com uns oito, nove anos.

E há um cliente do bar que terá importância na história, um rapagão chamado Maxence, um pintor, tipo romântico, avoado, meio poeta, que está em Rochefort servindo na Marinha, prestes a concluir o serviço militar obrigatório. Maxence, interpretado por um belo Jacques Perrin jovenzinho e louro, fala sempre, para quem quiser ouvir, que tem o sonho de encontrar a mulher de sua vida. Ele até já a pintou – e o quadro está em exposição na galeria de arte pertencente a Guillaume Lancien (René Pascal), um sujeito chato, emproado, que namorava Delphine, a bailarina.

Nessa sexta-feira, no entanto, Delphine visita a galeria e rompe o namoro. Não estava mesmo interessada naquele chato daquele Guillaume.

Mas ela vê, na parede da galeria, o quadro pintado por Maxence que… é a sua cara, escrachada! Delphine pergunta quem fez aquele quadro, Guillaume mente que o pintor viajou para longe.

Quando Andy-Gene Kelly conhece Solange, os sinos tocam, a terra treme

Faltam ainda dois personagens, e os dois são importantes.

Simon – o papel de um Michel Piccoli que ainda tinha cabelo! – é ligado a música. Estudou no Conservatório em Paris; continua amante de música, mas não toca profissionalmente – tornou-se dono de uma loja de instrumentos musicais e partituras. Poucos meses antes de a ação começar, tinha deixado Paris e se instalado ali em Rochefort.

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Solange, a compositora, pianista, é freguesa da loja de Simon, compra lá papel pautado para escrever o que compõe. Até parece que Simon arrasta uma asinha por ela – embora, na verdade, Simon esteja ainda apaixonado por uma mulher que conheceu no passado, uns dez anos atrás. A mulher havia conhecido um milionário e se mudado com ele para Acapulco, mas não saía da cabeça do simpático Simon, cujo sobrenome é Dame – algo que o perturba bastante.

Naquela sexta-feira, Solange vai até a loja de Simon e conta para ele que está pensando em se mudar para Paris. Simon conta que poderá interceder por ela junto ao famoso músico americano Andy Miller, que havia sido seu colega no Conservatório, e desde então ficara muito famoso. Por uma grande coincidência, Andy tinha chegado recentemente dos Estados Unidos a Paris.

Andy é o último personagem que faltava ser apresentado.

De Paris ele resolve viajar até Rochefort, para reencontrar o velho amigo Simon. Chega num conversível branco, ele mesmo vestido de branco – na pele de ninguém menos que Gene Kelly.

São demais os perigos desta vida, a vida vem em ondas como o mar, e a vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro na vida, como escreveu Vinicius, e então, numa cena mágica, Solange, que tinha ido pegar seu irmãozinho Boubou na escola, vai catar no chão da rua os cadernos e lápis que o garoto estouvado tinha deixado cair, e Andy estava passando por ali naquele exato instante, e se abaixa para ajudar a bela moça a recolher o material.

Olham-se, e os sinos das catedrais tocam, e a terra treme – mas Demy é Demy, e então Andy comenta que a combinação de Solange está aparecendo, e ela vai embora com Boubou. E Andy olha para o chão e percebe que aquele anjo ruivo havia deixado cair uma partitura – a partitura em que ela havia anotado o terceiro movimento do concerto que vinha compondo.

..., Gene Kelly, ...

Andy sai dançando pelas ruas de Rochefort, e todo mundo que está nas ruas, todo mundo, também dança. Como não dançar, se estamos em filme de Jacques Demy com música de Michel Legrand, e no centro da tela está Gene Kelly?

Para os dois visitantes, seus agora assíduos fregueses, Etienne e Bill, a bela Yvonne-Danièle Darrieux contará que, uns dez anos antes, teve um grande amor, mas, por uma besteira, uma bobagem – o sobrenome dele, ridículo, patético –, fugiu da vida dele, desapareceu. E fez chegar a ele, através de um amigo, a informação, obviamente falsa, de que havia se mudado para o México. Tudo isso porque ela não suportava a idéia de se chamar Madame Dame!

A trama é uma maravilha. E a forma com que é encenada é sublime

Delphine, a bailarina, e Maxence, o pintor. Andy, o músico, e Solange, a compositora. Yvonne e Simon Dame.

Três duplas de pessoas feitas uma para a outra.

En passant, Jacques Demy ainda inclui na sua história de encontros e desencontros e reencontros um elemento que agrada às platéias francesas, na verdade às platéias do mundo inteiro: algo que eles chamam de fait divers, expressão que engloba crimes, acidentes. Está agindo, ali em Rochefort, naqueles dias, um assassino!

A história, o libreto, a trama é uma maravilha. Mas a forma com que ela é encenada, interpretada, cantada, dançada, musicada… Ah, é algo sublime.

Les Parapluies havia vencido a Palma de Ouro em Cannes, e tido 5 indicações ao Oscar, em dois anos diferentes. Em 1965, teve indicação ao prêmio de melhor filme estrangeiro. Mas participaria da premiação novamente em 1966, concorrendo aos Oscars de roteiro original, melhor canção (para o tema principal, em inglês “I will wait for you”), melhor trilha sonora original e melhor trilha adaptada.

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Talvez isso explique por que Les Demoiselles, que veio depois, não tenha tido tantos prêmios. É muito pouco comum que o Oscar repita premiações ao mesmo realizador. O fato é que esta pérola aqui mereceu apenas uma indicação ao Oscar, na categoria melhor trilha sonora. O filme não participou da mostra competitiva de nenhum dos três principais festivais, Cannes, Veneza e Berlim.

O que não é demérito algum.

“Querem ouvir Stravinsky? Mozart? Jazz? Ou Michel Legrand?”

Algumas informações esparsas – trivia, como diria o IMDb:

* Há momentos em que Jacques Demy se permite fazer piadas internas, brincadeiras com os companheiros. Uma hora lá alguém se dirige aos amigos Etienne e Bill e pergunta: – “Ah, vocês são o Jules e o Jim?” Mais adiante, Etienne e Bill estão visitando as gêmeas no apartamento delas, e Solange pergunta o que eles querem ouvir: – “Querem Stravinsky? Mozart? Jazz? Ou Michel Legrand?”

* Há uma clara citação de West Side Story, o musical que havia feito a cabeça de todo mundo que gosta de musical – além da presença no elenco de Georges Chakiris. É no final da noite de sexta-feira, quando todos os principais personagens aparecem numa sequência que reúne tomadas de diferentes locais, todos cantando, cada um cantando um tema e falando sobre um assunto específico, mas quase como se fosse em uníssono. É uma homenagem aberta à sequência do início da noite em que todos os principais personagens de West Side Story cantam ao mesmo tempo, quando a noite decisiva – “Tonight”! – está chegando.

* Agnès Varda supervisionou pessoalmente a restauração do filme, feita em 1996. É a versão que foi lançada no Brasil em DVD.

* La Varda tem uma participação especialíssima, uma brincadeirinha à la Alfred Hitchcock. A primeira vez em que vemos Simon Dame, em sua loja de instrumentos musicais, ele está recebendo um grupo de freiras, que foi comprar a partitura se não me engano da Ave Maria de Schubert. Agnès Varda faz uma das freirinhas.

* Apenas Danielle Darrieux canta com sua própria voz – todos os demais atores foram dublados. Catherine Deneuve já havia sido dublada em Les Parapluies, e foi de novo aqui – embora saiba cantar, como provou, com louvor, bem mais tarde, em 8 Mulheres (2002), de François Ozon.

* Haviam se passado apenas três meses do lançamento do filme quando Françoise Dorléac morreu, em um acidente em seu carro esporte em Nice, na Côte d’Azur.

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* Em 1992, dois anos após a morte de Jacques Demy, Agnès Varda filmou um documentário chamado Les Demoiselles ont eu 25 ans, as senhoritas fizeram 25 anos, rodado na cidade de Rochefort, que homenageou postumamente o cineasta e a atriz com uma Avenida Jacques Demy e uma Praça Françoise Dorléac.

* Depois de Demy ter conseguido cinco indicações ao Oscar com Les Parapluies e mais outra indicação por Les Demoiselles, um filme com Gene Kelly, George Chakiris e outros atores americanos, não poderia dar outra: Hollywood o chamou para filmar lá. Ele fez nos Estados Unidos Model Shop, uma espécie de continuação de Lola, com Anouk Aimée no mesmo papel. O filme não foi um grande sucesso, e o cineasta voltou para a França. A influência do que ele viu na sua temporada americana, na época em que o flower power estava explodindo, pode ser vista em Pele de Asno, seu filme de 1970, um delicioso conto de fadas mais uma vez com Catherine Deneuve, todo impregnado da contracultura dos hippies.

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“Um esconde-esconde sentimental faz cantar e dançar os intérpretes”

O Guide de Films de Jean Tulard, obra monstruosa, de mais de 3.300 páginas em três grossos volumes, 15 mil filmes comentados, não classifica todas as obras com estrelas. A rigor, só uma minoria merece cotações, e Tulard e seus colaboradores são exigentérrimos. Já passei por poucos filmes que merecem 3 estrelas. Os de 4 são raríssimos. Les Demoiselles de Rochefort está lá com 4 estrelas:

“Para este filme, Jacques Demy repintou Rodchefort de verde, amarelo, rosa, e azul…”

Sim, é verdade. O diretor de arte do filme, Bernard Evein, achou necessário repintar 40 mil metros quadrados das fachadas da cidade, para aparecer bem na foto, digo, no filme.

“Para este filme, Jacques Demy repintou Rochefort de verde, amarelo, rosa, e azul, e seu filme, ele também, ilumina as cores da vida, enquanto um esconde-esconde sentimental faz cantar e dançar seus intérpretes. É uma comédia musical vivamente animada que provoca um prazer e uma euforia constantes. A música é calorosa, os atores são belos e simpáticos. Estamos em pleno conto de fadas – e é maravilhoso.”

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Anotação em outubro de 2015

Duas Garotas Românticas/Les Demoiselles de Rochefort

De Jacques Demy, França, 1967

Com Catherine Deneuve (Delphine Garnier), Françoise Dorléac (Solange Garnier), Jacques Perrin (Maxence), Danielle Darrieux (Yvonne Garnier), Michel Piccoli (Simon Dame), Gene Kelly (Andy Miller), George Chakiris (Etienne), Grover Dale (Bill), Geneviève Thénier (Josette), Henri Crémieux (Subtil Dutrouz), Jacques Riberolles (Guillaume Lancien), Pamela Hart (Judith), Leslie North (Esther), Patrick Jeantet (Boubou Garnier), René Pascal (Pépé)

Argumento e roteiro Jacques Demy

Fotografia Ghislain Cloquet

Música Michel Legrand, letras Jacques Demy

Montagem Jean Hamon

Figurinos Marie-Claude Fouquet e Jacqueline Moreau

Cor, 120 min

Produção Mag Bodard e Gilbert De Goldsmith

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Título nos EUA: The Young Girls of Rochefort.

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