Dois Lados do Amor / The Disappearence of Eleonor Rigby (Them)

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Nota: ½☆☆☆

Ned Benson, um rapaz bem jovem, nascido em 1977, conseguiu juntar um elenco absolutamente impressionante para seu primeiro longa-metragem. Que não era seu primeiro, e sim seus dois primeiros, ao mesmo tempo: ele teve a idéia – não inédita, mas ousada, há que se admitir, bem ousada – de fazer dois filmes contando a mesma história, cada uma mostrando o ponto de vista de um dos lados de um jovem casal em crise profunda.

O rapaz era também o autor da história original e do roteiro.

Embarcaram na aventura nada mais, nada menos, que James McAvoy e Jessica Chastain (Conor e Eleonor Rigby, o jovem casal), William Hurt e Isabelle Huppert (como os pais de Eleonor), e ainda Ciarán Hinds (como o pai de Conor) e Viola Davis (como uma professora, amiga do pai de Eleonor).

Seis atores de fama, de respeito, de passe caro. Se toparam participar dessa aventura, de fazer um-filme-em-dois, escrito e dirigido por um jovem estreante, é porque acreditaram muito no talento do tal Ned Benson.

Todo cinéfilo sabe muito bem quão estrela é Isabelle Huppert. Para topar fazer um filme americano, ela seguramente achava que esse garoto seria no mínimo um Hal Hartley. (Eu, pessoalmente, acho Hal Hartley um chato de galocha, mas também acho Isabelle Huppert uma chata de galocha, então os dois se merecem.)

O grande William Hurt poderia não estar com tudo, em 2012, 2013, mas James McAvoy, Viola Davis e Jessica Chastain estavam, todos, em grande ascensão. Diz o IMDb que Jessica Chastain abriu mão do papel de Maya Hansen em O Homem de Ferro 3, super hiper big produção bilionária, para participar destes um-filme-em-dois de garoto estreante.

Os dois filmes se chamaram The Disappearence of Eleonor Rigby (Her) e The Disappearence of Eleonor Rigby (Him). A versão dela, a versão dele.

Vejo no IMDb que os dois filmes estrearam em 2013 no Toronto Film Festival, e receberam rave reviews. Credo: rave reviews! Críticas delirantes.

Aí então o garoto Ned Benson resolveu fazer uma terceira via, uma terceira versão. Parece que pegou o material que havia filmado, que estava nos dois primeiros, enfiou-se no laboratório de montagem, juntou pedaços daqui e dali, e saiu com The Disappearence of Eleonor Rigby (Them). Depois de Her e Him, Them – eles. A visão deles, juntada num filme só.

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Ned Benson deve se achar o novo Tarantino. O novo Welles

Eu não sabia de absolutamente nada disso quando vi que havia um filme chamado Dois Lados do Amor, com esse elenco maravilhoso, disponível no Now, e aí propus a Mary que víssemos – pô, um filme de diretor desconhecido mas com esse elenco de babar não pode ser ruim.

Quando o filme terminou, fiz um lead sumário e até anotei de imediato num papel para não esquecer: Um grande elenco – James McAvoy, Jessica Chastain, William Hurt, Isabelle Huppert, Ciarán Hinds e Viola Davis. O filme, no entanto, é chato, bobo e metido a besta.

Quando fui dar uma olhada no IMDb para fazer a ficha técnica foi que fiquei sabendo que o filme que a gente tinha visto é o terceiro desta estranha trilogia de uma história só com três visões diferentes – a dela, a dele e a deles juntos.

E então percebi que esse Ned Benson não é apenas metido a besta. Ele é muito metido a besta.

Deve achar que é o novo Quentin Tarantino, já que os jovens acham que Quentin Tarantino reinventou o cinema. Mas, como estudou bastante, fez Columbia University, talvez tenha ouvido falar em Orson Welles, o cara que, para muita gente de gerações antes da dele, teria reinventado o cinema.

Ned Benson deve se achar o novo Quentin Tarantino, o novo Orson Welles. Se tiver estudado muito, e visto também filmes com legendas, talvez se ache o novo Ingmar Bergman.

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A mesma história sob duas visões é coisa que já havia sido feita várias vezes

Em 1964, 13 anos antes de Ned Benson nascer, o realizador André Cayatte lançou Confissões de uma Mulher Casada e Confissões de um Homem Casado. No original, eram Françoise ou La Vie Conjugale e Jean-Marc ou La Vie Conjugale. Françoise e Jean-Marc eram interpretados por Jacques Charrier e Marie-José Nat, um casal de atores belo como James McAvoy e Jessica Chastain.

Era uma maravilha de filme duplo, de um-filme-em-dois.

Bem antes do filme duplo de André Cayatte, é claro que o cinema já havia mostrado a mesma história sob diferentes ângulos, perspectivas. O grande mestre Akira Kurosawa fez em 1950 a obra-prima Rashomon, em que a mesma história é mostrada sob cinco diferentes ângulos, perspectivas. Os americanos acham que os filmes feitos em língua estrangeira não existem, e então refilmaram, 14 anos depois, em 1964, a história original de Rashomon como Quatro Confissões/The Outrage. Há algumas refilmagens que são grandes filmes, e The Outrage é uma delas.

Entre Rashomon e The Outrage, de 1957 a 1960, o inglês Lawrence Durrell lançou os quatro volumes (Justine, Balthazar, Mountlive e Clea) do Quarteto de Alexandria – um fenomenal trabalho literário em que se mostram basicamente os mesmos fatos sob quatro perspectivas diferentes.

Lembro de tudo isso apenas para enfatizar que Ned Benson não estava inovando, de forma alguma, ao fazer dois filmes contando a mesma história sob olhares diferentes.

El, a protagonista, pula da ponte. Mas não consegue morrer

Mas um autor não precisa inovar para fazer uma boa obra. De maneira alguma.

Não se exige originalidade.

É preciso que seja uma história interessante, com personagens interessantes.

Infelizmente, a história criada por Ned Benson não é nada interessante. E um dos personagens centrais, Eleonor, El, é absolutamente desinteressante. Na verdade, é uma chata de galocha, tanto quanto acho que é a atriz que faz a mãe da personagem dela.

Na primeira sequência do filme 3, o que tem Them entre aspas, El e Conor estão jantando num belo restaurante. Resolvem sair sem pagar. Saem correndo, vão correndo até uma praça, Conor cai, El cai sobre ele, beijam-se felizes.

Na segunda sequência do filme, El anda de bicicleta sobre uma ponte, abandona a bicicleta e pula.

Não morre, no entanto: é socorrida, tirada d’água, e levada para um hospital.

Terceira sequência: Conor chega para vê-la no hospital. A terceira sequência só dura esta cena, rapidíssima.

Quarta sequência: Katie (Jess Weixler), a irmã mais nova de El, chega ao hospital para levá-la para a casa dos pais, que moram num subúrbio de Nova York, uptown, uma bela casa num belo subúrbio.

Conor tentará entrar em contato com El, e nos primeiros 30 minutos do filme não conseguirá.

Quando o filme está aí com uns 30 minutos, talvez um pouco mais, Julian Rigby, o pai de Eleonor (o papel, repito, do excelente William Hurt), diz que ele também perdeu um neto. É a primeira pista para o pobre coitado do espectador perceber que a moça havia perdido um filho.

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Gente beirando os 30 anos que age feito adolescente. Argh!

Não consigo gostar de filme que não tenha personagens interessantes. Tá, o personagem de Conor é bem mais interessante que o de El, mas mesmo ele é um sujeito de 33 anos que ainda age, em muitas maneiras, como um adolescente.

El, que ficou casada com Conor por 7 anos, teve um filho, perdeu um filho, é uma perfeita adolescente. Com cerca de 30 anos de idade, parece uma garotinha de 16. Não sabe o que quer na vida. Não sabe de nada, nada, nada, nada.

Pode ser um belo retrato de como vão as coisas hoje. Há muita gente na faixa dos 30 anos hoje que parece adolescente. O fenômeno de pessoas de 30 e mais anos que continuam na casa dos pais é algo absolutamente espalhado pelo mundo. Já foram feitos filmes sobre isso – desde uma comédia romântica meio bobinha, como Armações do Amor/Failure to Launch (2006), até retratos bastante cruéis, como Jovens Adultos, com a belíssima Charlize Theron fazendo um papel semelhante ao feito aqui por Jessica Chastain – uma mulher de mais de 30 que reage ao mundo como se tivesse 16.

Jovens Adultos é produto de um realizador bastante jovem, Jason Reitman. Mas Jason Reitman parece ter uns 30 anos a mais que este Ned Benson.

Jovens Adultos parece ter sido feito para mostrar que é um absurdo que hoje em dia as pessoas passem dos 30 e ainda ajam como adolescentes.

Este filme aqui mostra gente com mais de 30 que parece estar em plena crise de adolescência – de uma tal maneira que é para a gente achar que isso é absolutamente normal.

O universo não teria perdido nada se a protagonista tivesse se matado

Mary fez um comentário cruel, crudelíssimo, lá pelas tantas: disse que a humanidade não teria perdido absolutamente nada se a Eleonor Rigby do filme tivesse conseguido seu intento, tivesse passado desta para melhor, ao pular do alto daquela ponte, sei lá se no Hudson ou o East River. É cruel, mas é a mais pura verdade.

Anotei o que El – filha de gente rica, estudada, intelectuais do país mais rico do mundo – fez na vida. Ela estudou – no Departamento de Antropologia da New York University – a etnografia do mundo social dos artistas de Paris.

Ora bolas, quem – sendo uma pessoa chata, sem qualquer qualidade em qualquer item dos vários que pode haver – põe como objetivo de vida fazer um estudo sobre a etnografia do mundo social dos artistas de Paris é um idiota, um imbecil – ou, na melhor das hipóteses, um pusteminha. Não faz falta alguma à humanidade, ao planeta, ao sistema solar.

A verdade dos fatos é que o destino errou: El deveria ter morrido ao pular da ponte. Assim não haveria esse filme chato e metido a besta.

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“The English band the Beatles”. Ainda bem que explicou!

Há, no entanto, algo ainda pior que o filme. É um item na página de Trivia. Botei no Facebook:

O filme se chama, no original, “The Disappearence of Eleonor Rigby”.

Na página de Trivia (informações, histórias, casos, depoimentos) do IMDb está lá:

The movie’s name is based on “Eleanor Rigby”, a song by the English band The Beatles.

The English band, claro. Porque o leitor poderia confundir com alguma outra coisa.

A idiotice, de fato, não tem limites.

Anotação em fevereiro de 2016

Dois Lados do Amor/The Disappearence of Eleonor Rigby (Them)

De Ned Benson, EUA, 2014

James McAvoy (Conor Ludlow), Jessica Chastain (Eleanor Rigby),

e Isabelle Huppert (Mary Rigby), William Hurt (Julian Rigby), Jess Weixler (Katy Rigby), Viola Davis(professora Friedman), Ciarán Hinds (Spencer Ludlow), Bill Hader (Stuart), Nina Arianda (Alexis)

Argumento e roteiro Ned Benson

Fotografia Christopher Blauvelt

Música Son Lux

Cor, 123 min.

Produção Unison Films, Kim and Jim Productions, Division Films, Dreambridge Films, Myriad Pictures.

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Um Trackback

  1. […] apresentar o prêmio especial do ano de 2017 para Meryl Streep, pôs-se no palco Viola Davis – e Viola Davis estava absurdamente bela, nesta noite. Viola é uma daquelas atrizes que são […]

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