Dívida de Honra / The Homesman

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Nota: ★★★☆

Não é um filme fácil de se ver, este The Homesman, no Brasil Dívida de Honra, o quarto dirigido pelo ótimo ator Tommy Lee Jones. Não é agradável de se ver. Bem ao contrário.

Não que seja ruim, de forma alguma. É extremamente bem realizado, em todos os quesitos técnicos, formais; tem grandes atuações de todo o elenco de bons nomes – o próprio Tommy Lee Jones, a duplamente oscarizada Hilary Swank, os excelentes Tim Blake Nelson e John Lithgow, a interessante Miranda Otto e ainda, numa participação especialíssima, Meryl Streep.

Tem uma fotografia excepcional, e tomadas de uma espetacular beleza visual.

Quando vi Três Enterros/The Three Burials of Melquiades Estrada, de 2005, o segundo filme dirigido por Tommy Lee Jones, fiz uma pequeníssima anotação em que dizia: “É um filme duro, cru, cruel”.

Tommy Lee Jones reincide, mantém-se coerente, repete: Dívida de Honra é um filme extremamente duro, cru, cruel.

É extremamente realista ao mostrar toda a dureza da vida no Oeste americano em meados do século XIX. Era uma vida dura, precária, desconfortável, de muitíssimo trabalho e pouquíssima folga, pouquíssimo conforto, pouquíssima tranquilidade, a daquelas pessoas mostradas no início do filme, pioneiros, colonizadores, fazendeiros recém instalados no Território de Nebraska.

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O filme mostra essa dureza sem tentar de forma alguma glamourizar, enfeitar, pintar de rosa. Muito ao contrário: escancara a precariedade, o desconforto, a dureza. Joga toda aquela falta de conforto na nossa cara como se fosse um tapa forte, violento.

Me senti estapeado pelo filme, desde seu início, desde a primeira sequência – Mary Bee Cuddy, a personagem de Hilary Swank, arando um imenso campo, com vestido comprido, até perto do chão, empurrando o arado puxado por duas mulas, e depois entrando em casa, varrendo a casa, arrumando a mesa, saindo para puxar água do poço, preparando o jantar para receber o vizinho Bob Giffen (Evan Jones) – a quem ela, já sem muita paciência para esperar, aos 31 anos de idade, pedirá em casamento, só para ouvir uma humilhante recusa, com dois argumentos violentos: ela é mandona demais e não tem atrativo algum.

Os primeiros 15 minutos de Dívida de Honra parecem ter sido feitos de fato para estapear o espectador. Tipo assim: tá vendo, seu filho da mãe? Você aí, com sua vida absolutamente confortável, com água corrente, chuveiro com água quente, eletricidade, sofá macio, cama macia, TV de tela plana widescreen, geladeira cheia, fogão de gás, computador, internet, wi fi – tá vendo como a vida era foda 150 anos atrás? Como aquele povo sofria?

Se os primeiros 15 minutos são um tapa na cara, um choque para a nossa comodidade toda, o que vem depois é pior. Muito pior – e não pára de piorar nunca.

Um realismo duro, cru, cruel – mas com pitadas do realismo fantástico

Dívida de Honra é um filme perturbador. Estudada, propositadamente perturbador.

Fiquei pensando que, a par de todo o realismo, dessa coisa toda de mostrar a realidade com extrema crueza, crueldade, mesmo, o filme tem um tom de fantástico, de realismo fantástico. Algo como um toque do realismo fantástico da literatura latino-americana da segunda metade do século XX – pitadas de Julio Cortázar, de Manuel Puig, de Gabriel García Márquez, de José J. Veiga.

Três Enterros também era assim – e de fato é impressionante como Tommy Lee Jones foi fiel, neste seu filme de 2014, ao mesmo espírito de seu filme de 2005. Três Enterros tem argumento e roteiro do mexicano Guillermo Arriaga – o autor dos roteiros de 21 Gramas e Babel, dirigidos por Alejandro González Iñarritu –, e Arriaga tem de fato uma pegada próxima ao realismo fantástico latino-americano.

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Em Três Enterros, o fazendeiro texano interpretado por Tommy Lee Jones toma como dívida de honra enterrar seu empregado Melquiades Estrada – assassinado por um guarda de fronteira – no lugarejo mexicano onde ele havia nascido, e que ele descrevia tão bem. Após uma incrível odisséia, no entanto, o fazendeiro constata que o vilarejo que Melquíades descrevia simplesmente não existe.

Aqui, Mary Bee Cuddy, a fazendeira trabalhadora, batalhadora, tenaz, forte, imbatível assume a tarefa ciclópica, hercúlea, de levar três mulheres daquela região perdida no meio de Nebraska que haviam enlouquecido até uma cidade de Iowa, do outro lado do Rio Missouri, onde um pastor e sua mulher teriam melhores condições de cuidar delas.

Uma viagem de algumas semanas, no inverno.

Três mulheres que haviam perdido completamente a razão, e estavam alheias ao mundo. (Elas são interpretadas por Grace Gummer, Miranda Otto e Sonja Richter.) Duas delas extremamente agressivas. Nenhuma delas capaz de controlar o xixi e o cocô.

Uma viagem de algumas semanas, no inverno, levando três seres alheios ao mundo – duas delas tendo que ser amarradas para impedir que ataquem outras pessoas.

Tudo é mostrado com realismo – com crueza, até crueldade.

Mas é tudo tão insano, tão louco, tão absurdo, que parece fantástico.

Aquele hotel elegante que aparece quase ao fim da narrativa, construído no meio do nada, com aquelas pessoas com roupas como se estivessem na corte de Napoleão – aquilo é o mais puro realismo mágico que pode haver.

Não parece que estamos neste mundo que conhecemos.

O clima de Dívida de Honra muitas vezes parece mais Macondo do que qualquer lugar deste mundo de Deus e o diabo.

Uma trama fantástica: dois loucos levando três loucas em longa viagem

Mary Bee Cuddy não carregará essa imensa cruz sozinha.

Por um mero acaso, por uma soma fortuita de acontecimentos (a rigor, a rigor, por algo que o autor da história bolou porque era preciso bolar alguma maneira de botar aquele personagem no pedaço), Mary Bee salvará a vida de um homem que ela encontra sentado na sela de seu cavalo, uma corda amarrada ao pescoço, e a corda presa a um galho de árvore.

Um grupo de pessoas da região havia prendido aquele homem quando ele invadiu a casa vazia de Bob Giffen – aquele vizinho de Mary Beth que recusou a proposta de casamento dela, e em seguida partiu para o Leste à procura de alguma mulher não mandona e com algum atrativo.

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E então esse sujeito – que dirá se chamar George Briggs, embora possa estar mentindo, e é o papel de Tommy Lee Jones – invadiu a casa de Bob Giffen, alegando que ela estava vazia, abandonada.

E um grupo de homens do lugar foi até, prendeu o sujeito e o amarrou a uma árvore para enforcá-lo – no Oeste, enforcavam-se os ladrões de cavalo, os invasores de propriedade. Só que faltou coragem aos fazendeiros transformados em fazedores de justiça com as próprias mãos, e então o grupo amarrou a corda à árvore, deu o nó no pescoço do invasor, e deixou-o lá, para que o cavalo, em algum momento, fosse embora, executando o enforcamento que eles não tinham tido coragem de levar até o fim.

Mary Beth passa pelo lugar, vê o homem ali, prestes a morrer enforcado, no momento em que seu cavalo decidisse dar alguns passos.

Ele pede que ela o salve. Ela diz que o salva caso ele se comprometa a ajudá-la a cumprir a missão que tem que executar.

É claro que o sujeito jura que vai ajudar.

Me pareceu um tanto forçado, um tanto literária demais o jeito com que esse George Briggs é introduzido na história.

Forçado – ou um toque de realismo fantástico?

As duas coisas, talvez.

Ficamos pensando, Mary e eu, enquanto víamos o filme, em como é fantástica a história de dois loucos levando três loucas através de uma odisseia que dura três semanas que parecem que não vão acabar nunca.

Sim, porque tanto Mary Bee Cuddy quanto George Briggs muitas vezes parecem mais loucos, mais insanos, mais alienados, mais lelé da cuca que as doidas de pedra que conduzem através do nada até algo parecido com alguma civilização.

Todos fizeram tudo para realçar a falta de beleza de Hilary Swank

Não dá para não ficar pensando também em como é uma atriz extraordinária essa Hilary Swank.

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Hilary Ann Swank – que coincidência! – é ali mesmo do Nebraska, onde nasceu em 1974, um ano antes da minha filha. Começou a carreira em uma série de TV em 1990, aos 16 aninhos, portanto. Agora, com pouco mais de 40 anos, tem uns 40 títulos na filmografia, dois Oscars e nada menos que 51 outros prêmios, fora outras 40 indicações.

O primeiro Oscar foi por Meninos Não Choram, de 1999, e o segundo, por Menina de Ouro. Pelos mesmos filmes, levou também o Globo de Ouro.

Extraordinária atriz, Hilary Swank venceu em uma profissão que exige um dom que ela não tem: a beleza.

Há filmes em que ela não parece muito feia. Em Dália Negra (2006), Brian De Palma a colocou no papel de uma mulher rica, elegante, sensual, atraente.

Tommy Lee Jones, seu diretor de fotografia Rodrigo Prieto, a equipe de maquiagem, todos trabalharam para realçar a falta de beleza de Hilary Swank.

A falta de beleza da personagem que ela interpreta é citada diversas vezes, ao longo da narrativa.

É preciso ser uma profissional de imensa competência, e coragem pessoal, e auto-estima muito bem resolvida para enfrentar esse desafio, não é não?

A filha de Meryl Streep faz uma das loucas. E ela própria aparece em uma seqüência

O roteiro de The Homesman foi escrito a seis mãos, por Tommy Lee Jones, Kieran Fitzgerald & Wesley A. Oliver, com base em uma novela de Glendon Swarthout (1918-1992), lançada em 1988. Swarthout escreveu mais de 15 livros, vários deles passados no Velho Oeste, alguns transformados em filmes. É dele o romance The Shootist, que deu origem ao último filme da carreira de John Wayne, e no Brasil teve o título de O Último Pistoleiro (1976). E também They Came to Cordura, filmado por Robert Rossen em 1959, no Brasil Heróis de Barro.

O IMDb informa que Paul Newman comprou os direitos de filmagem do romance The Homesman, e pretendia dirigir o filme baseado nele. Chegaram a ser escritas algumas versões de roteiro, mas o grande ator acabou desistindo da empreitada.

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Trabalham muito bem as três atrizes que fazem as mulheres que perdem a razão. Elas aparecem muito desgrenhadas, desarrumadas, andrajosas. Uma delas é Miranda Otto, que está na série O Senhor dos Anéis. Outra é a dinamarquesa Sonja Richter, que foi indicada a Tommy Lee Jones pelo diretor dinamarquês Nikolaj Arcel, autor de O Amante da Rainha (2012). A terceira é uma novata, Grace Gummer.

Essa Grace Gummer (a segunda da esquerda para a direita na foto acima), nascida em Nova York em 1986, lembra muito Meryl Streep quando jovem – o mesmo formato de queixo, a mesma boca, o mesmo nariz. Não é à toa: é filha da atriz genial.

Ter Meryl Streep para fazer uma participação especial – ela aparece em apenas uma sequência, longa, importante, bem no final da narrativa – é um absoluto luxo. Tommy Lee Jones e ela trabalharam juntos em A Última Noite/A Prairie Home Companion (2006), o último filme de Robert Altman, e depois em Um Divã para Dois (2012), divertida comédia sobre casal que, após 30 anos juntos, vai fazer uma terapia sexual.

Devem ser amigos, e se entender bem, os dois grandes atores. Segundo o IMDb, a sequência em que Meryl Streep aparece foi filmada em único dia.

Outros atores de fama também fazem pequenos papéis no filme – o que é um indicativo claro do prestígio que Tommy Lee Jones tem entre seus pares. John Lithgow faz o reverendo da região de Nebraska onde vive Mary Bee Cuddy. Tim Blake Nelson aparece em uma única seqüência, como o pistoleiro que rouba para si uma das loucas, a garota interpretada por Grace Gummer. James Spader faz o dono do tal hotel surrealista, perdido no meio do nada. E até o papel bem pequeno da mocinha empregada do hotel em que George Briggs vai se hospedar ao final de sua odisséia foi dado a uma atriz em ascensão, Hailee Steinfeld, indicada ao Oscar de coadjuvante pela refilmagem de Bravura Indômita/True Grit (2010).

Um curiosidade: o produtor do filme é o francês Luc Besson, com sua produtora Europa Corp. Besson às vezes é chamado de o Steven Spielberg francês. Por coincidência, nos créditos finais há uma agradecimento especial a Steven Spielberg.

Então é isto. É um belo filme – mas não é para todas as audiências. É preciso ter estômago forte para enfrentar tanta dureza, tanta crueza, tanta crueldade.

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Anotação em janeiro de 2016

Dívida de Honra/The Homesman

De Tommy Lee Jones, EUA-França, 2014.

Com Tommy Lee Jones (George Briggs), Hilary Swank (Mary Bee Cuddy)

e Grace Gummer (Arabella Sours), Miranda Otto (Theoline Belknap), Sonja Richter (Gro Svendsen), Jo Harvey Allen (Mrs. Polhemus), Barry Corbin (Buster Shaver), David Dencik (Thor Svendsen), William Fichtner (Vester Belknap), Evan Jones (Bob Giffen), Caroline Lagerfelt (Netti Svendsen), Jesse Plemons (Garn Sours)

e, em participações especiais, Meryl Streep (Alta Carter), John Lithgow (Reverendo Alfred Dowd), Tim Blake Nelson (pistoleiro),

James Spader (Aloysius Duffy)

Roteiro Tommy Lee Jones, Kieran Fitzgerald & Wesley A. Oliver

Baseado na novela de Glendon Swarthout

Fotografia Rodrigo Prieto

Música Marco Beltrami

Montagem Roberto Silvi

Casting Jeanne McCarthy

Produção Luc Besson, Europa Corp.

Cor, 122 min

***

Um Comentário

  1. José Luís
    Postado em 10 Maio 2016 às 10:34 pm | Permalink

    Que coincidência! Vi hoje este filme e por acaso e já tarde (são 2.30 aqui em Portugal) vim dar uma espreitadela ao “50 Anos”. Gostei do filme, não me deixou deslumbrado, mas penso que tem qualidades. Já o anterior filme T.L.Jones me tinha agradado. E vou para a caminha que já lá devia estar.

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