De Repente, num Domingo / Vivement Dimanche!

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Nota: ★★★½

Rever Vivement Dimanche! – o 21º e último longa-metragem de François Truffaut – me deu uma imensidão de prazer, alegria, contentamento. Que absoluta maravilha de filme!

E que absoluta maravilha é ver/rever um grande filme.

Há filmes que parecem um tanto esmaecidos, quando a gente revê, em especial depois de muito tempo. Faço questão de rever agora alguns dos filmes que vi pela primeira vez quando era bem garoto, adolescente – e às vezes acontecem decepções. Não era bem aquilo que a memória tinha guardado, era menor, menos importante, menos impressionante.

Não seria o caso de Vivement Dimanche!, uma produção de 1983, que vi, portanto, já passado dos 30 anos esta noite. Mas juro que, embora o filme seja bem mais recente do que os que vi garoto, não me lembrava tão bem dele. Lembrava das coisas básicas da trama, da beleza da fotografia em preto-e-branco – a direção de fotografia é de Néstor Almendros, um gênio –, da beleza estonteante de Fanny Ardant.

Mas juro que não me lembrava, de jeito nenhum, que o filme é tão espetacular.

Francois Truffaut and Alfred Hitchcock

Entre 21 longa-metragens de Truffaut, 5 são policiais

Vivement Dimanche! foi o quinto policial entre os 21 longa-metragens de Truffaut. Um quarto da obra do grande cineasta, um dos maiores que já houve, é composta por filmes policiais.

Lembrando: Atirem no Pianista (1960), seu segundo longa, no ano seguinte ao do primeiro, o autobiográfico Os Incompreendidos/Les Quatre-Cents Coups (1959), com Charles Aznavour no papel principal, era baseado num livro do autor de histórias policiais David Goodis.

A Noiva Estava de Preto/La Mariée Était en Noir (1968) se baseou no livro de outro americano autor de histórias policiais, Cornell Woolrich, que às vezes usava o pseudônimo de William Irish. Não por coincidência, de forma alguma por coincidência, ele foi o autor da história que Alfred Hitchcock filmou como Janela Indiscreta/Rear Window (1954). Para criar a trilha sonora de seu segundo filme policial, Truffaut chamou Bernard Herrmann, o compositor que musicou diversos dos filmes do mestre que o realizador francês admirava profundamente.

É fundamental lembrar que Truffaut, cineasta que começou na crítica e sempre gostou de letras, livros, textos, realizou, ao longo de anos, uma série de longas entrevistas com o mestre inglês, que resultou na obra magnífica, extraordinária HitchcockTruffaut Entrevistas. Ao longo das entrevistas, que mais parecem diálogos do que propriamente perguntas e respostas, o gênio francês demonstra ter visto cada um dos filmes do colega inglês diversas, diversas, diversas vezes. Sabe de cor cada pequeno detalhe.

Dizer que os filmes policiais de François Truffaut são influenciados pela obra de Alfred Hitchcock é mais ou menos como lembrar que macaco gosta de banana, ou que os governos do PT destruíram a economia do Brasil.

Depois veio A Sereia do Mississipi/La Sirène du Mississipi (1969), de novo baseado em livro do americano Cornel Woolrich/William Irish. Foi o primeiro dos dois filmes em que dirigiu a deusa Catherine Deneuve (o outro seria O Último Metrô, de 1980), e o único com Jean-Paul Belmondo.

O quarto filme policial foi Uma Jovem Tão Bela Quanto Eu/Une Belle Fille Comme Moi (1972) – como todos os anteriores, baseado em novela policial de autor americano, no caso Henry Farrell, o sujeito que escreveu os livros que deram origem a O Que Aconteceu com Baby Jane?/Whatever Happenned to Baby Jane (1962) e Com a Maldade na Alma/Hush… Hush, Sweet Charlotte (1964), dois filmes um tanto aterrorizantes, marcantes, dirigidos por Robert Aldrich e com algumas das últimas grandes interpretações de Bette Davis.

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Um bom policial, que é também uma comédia romântica – e uma ode a uma mulher

Este Vivement Dimanche! segue a tradição dos quatro policiais anteriores feitos por Truffaut: baseia-se numa novela de escritor americano. Várias obras do texano Charles Williams (1909-1975) viraram filmes, como, só para dar um exemplo, Terror a Bordo/Dead Calm (1989), que Phillip Noyce dirigiu, com uma loucamente linda Nicole Kidman e mais Sam Neill, antes que todos os três saíssem de sua Austrália para trabalhar em Hollywood.

É uma maravilha de filme policial, com uma trama interessantíssima, fascinante. É uma danada de uma confessadíssima homenagem ao mestre Hitchcock, no estilo todo, na forma. Até mesmo a trilha sonora de Georges Delerue, um dos mais fiéis compositores para filmes de Truffaut, tem uns momentos de Bernard Herrmann.

Ao mesmo tempo, no entanto, é François Truffaut puríssimo. Tem sua marca – é, como todos os que fez, um filme pessoal. É, como vários de seus filmes, uma ode às mulheres, de uma maneira ampla, geral, irrestrita – e, muito especificamente, uma vibrante, calorosa, apaixonada declaração de amor a uma mulher única, Fanny Ardant, aquela que seria sua última esposa, sua última musa, sua última protagonista.

E é um bom filme policial, em que há assassinatos e mistério – mas, no fundo, é também uma comédia romântica!

Truffaut muitas vezes dizia, em entrevistas, em textos que ele mesmo escrevia, que queria misturar drama e comédia, coisas sérias e coisas alegres.

Em um texto feito para ser distribuído à imprensa sobre Beijos Proibidos/Baisers Volés (1968), afirmou: “Quando eles ficam prontos, me apercebo que meus filmes são sempre mais tristes do que eu gostaria. Faço a cada vez a mesma constatação. Este aqui, Baisers Volés, eu quis que fosse engraçado. Não sei se ele é, mas, em todo caso, nós nos divertimos muito. Quando eu comecei a fazer cinema, já lá se vão dez anos, acreditava que havia coisas engraçadas e coisas tristes, então pus em meus filmes coisas engraçadas e coisas tristes. Depois tentei passar bruscamente de uma coisa triste para uma coisa alegre. Me parece hoje que o mais interessante é de fazer de tal forma que a mesma coisa seja engraçada e triste ao mesmo tempo.”

É fantástico, é absolutamente fascinante: Truffaut conseguiu realizar o que pretendia. Este Vivement Dimanche! é exatamente assim: um filme policial, com mortes, mistério – e, em segundo plano, um bom humor sensacional, delicioso. Uma suave, gostosa comédia romântica.

Um policial hitchcockiano que tem por trás uma suave, gostosa comédia romântica – mas que, sobretudo, sobre todas as outras coisas, é uma declaração de amor total a uma mulher.

Isto é que é Vivement Dimanche! Um filme extraordinário, maravilhoso, que deixa o espectador feliz, levitando, a três centímetros do chão, achando que talvez, afinal de contas, se a gente pensar bem, a humanidade não seja assim propriamente uma invenção que deu errado.

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Uma bela mulher caminha na cidade. Perto de um lago próximo, um crime        

Os primeiros cinco minutos do filme apresentam exatamente essas duas faces – a homenagem à mulher, em um tom bem-humorado, gostoso, e a história policial, o thriller, ou – como eles dizem na língua do filme – polar.

A primeira sequência mostra uma jovem mulher, magra, morena e linda, caminhando pelas ruas de uma pequena cidade. Toca o tema principal composto por Georges Delerue, uma melodia alegre, brincalhona. É um longo travelling, sem corte: a câmara está num carrinho, à frente de Fanny Ardant. Pega o corpo inteiro da atriz, e vai sendo puxada para trás para acompanhar os passos largos, firmes, que Fanny Ardant vai dando, enquanto vão rolando os créditos iniciais. Eles mostram que o roteiro é da autoria de Truffaut e dois de seus mais frequentes colaboradores, Suzanne Schiffman e Jean Aurel.

Terminados os créditos iniciais, corta, e aí vemos um lago, cercado de vegetação. A câmara faz um travelling, da esquerda para a direita, até focalizar um homem com um fuzil. O homem atira. É Jean-Louis Trintignant – seu personagem, veremos logo a seguir, é Julien Vercel, dono de uma agência imobiliária de uma pequena cidade próxima do litoral (mas não no litoral), na Côte d’Azur, perto de Nice. Na agência, trabalham apenas ele e Barbara Becker, sua secretária – o papel de Fanny Ardant, que acabamos de ver caminhando nas ruas da cidade.

Há ruídos de patos, ali, junto do lago.

Julien Vercel aponta novamente seu fuzil e atira.

Corta, e vemos, da cintura para baixo, um homem caminhando entre a vegetação carregando um fuzil.

Corta, e vemos um outro homem, sentado no chão, perto do lago, no meio da vegetação, ele também armado de fuzil. O homem que vinha andando chega perto desse que está caçando. O que está caçando olha para cima e diz: – “Ah, é você?”. E leva um tiro à queima-roupa.

Um acorde só, de cordas, forter, pungente, para pontuar a tragédia.

Corta, e vemos Julien Vercel, carregando seu fuzil, saindo do meio do mato e se dirigindo até seu carro, que havia deixado estacionado ali.

Ele percebe, então, que há um outro carro perto do seu, que está com uma porta aberta e os faróis dianteiros ligados. Vercel vai até o carro, encosta a mão espalmada na porta, para fechá-la, e desliga os faróis. Em seguida, entra em seu próprio carro e vai embora.

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O protagonista não matou a vítima – mas há muitos indícios contra ele

Cá pra nós: eta bom início de filme policial! Né não?

Hitchcock com toda certeza assinaria.

Pode ter sido Julien Vercel que foi até aquele outro caçador e atirou nele à queima-roupa. Sim, pode ter sido. A câmara, propositadamente, não mostrou o rosto do assassino.

Mas também pode não ter sido ele – pode ter sido uma terceira pessoa. Até porque o espectador viu que Julien Vercel demonstrou um certo espanto ao ver aquele outro carro com os faróis ligados e a porta aberta. Se ele tivesse acabado de matar aquele homem – veremos que o morto se chama Massoulier, morava naquela mesma cidade próxima do lago –, não teria desligado os faróis, não teria deixado suas impressões digitais absolutamente nítidas na porta do carro.

E então, com três minutos de filme, míseros três minutos de filme, a situação básica já está dada. O espectador já percebeu que muito provavelmente, ou certamente, Julien Vercel é inocente – mas os indícios de que ele é o assassino são fortes: ele estava presente perto do local onde o corpo ficou; suas impressões digitais ficaram claríssimas na porta do carro da vítima. Ele tinha um fuzil bem semelhante ao que matou Massoulier – e, pior ainda: há rumores na cidade de que sua mulher, Marie- Truffaut subverte o género em vez de realizar um filme de género Christine, era amante de Massoulier.

O comissário de polícia Santelli (Philippe Morier-Genoud) não vai demorar nada a ter certeza de que Vercel é o assassino.

O homem errado! Um dos temas mais recorrentes na obra de Alfred Hitchcock – o tema do que é o mais sério de todos os filmes do mestre, O Homem Errado/The Wrong Man (1956), baseado em uma história apavorantemente real.

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O patrão e a secretária se desentendem, ele a demite

A sequência que vem logo depois daquela em que Vercel fecha a porta do outro carro, desliga os faróis e logo entra em seu próprio carro mostra a bela Barbara continuando sua caminhada pela cidade. Um rapaz louro a vê, caminha por um instante ao lado dela – e aí ela começa a se distanciar. O rapaz brinca com ela: – “Ah, você vai para lá?” Barbara dá um belo sorriso e responde – “Oui. C’est lá vie!” – e continua seu caminho.

E logo a vemos datilogrando alguma coisa na agência imobiliária.

Sim, datilografando. O filme, como já foi dito, é de 1983.

Toca o telefone. É a sra. Vercel, a mulher do patrão (o papel de Caroline Sihol). Barbara explica que o patrão foi caçar e ainda não voltou. A mulher do patrão ordena à secretária que vá até a agência bancária dela, pegue um talão de cheques e envie para Nice – Hotel Garibaldi, quarto 813. Barbara explica que não conseguirá fazer isso, em parte porque não pode sair e deixar a agência vazia, e também porque o banco não entregaria o talão de cheques a ela. “A última vez em que tentei pegar seu extrato, não me deram, e o gerente simplesmente me mandou plantar batatas.”

A mulher do patrão é grosseira, e ou não ouve direito ou ouve o que quer ouvir. Diz que Barbara é atrevida, que vai contar para o marido. – “Pois então aproveite, porque ele acabou de chegar”, diz Barbara, que então passa o telefone para o patrão recém-chegado. – “Espero que dê para ouvir. Há ruídos, parecem cornetas”, ela diz para Vercel.

O ruído de cornetas no lugar de onde Marie-Christine telefona em Nice será um elemento importante na trama.

Marie-Christine está nervosa, irritada. Pede o talão de cheques, diz que vai ficar em Nice mais três dias – e reclama que a secretária a mandou plantar batatas!

Vercel acredita no que a mulher diz, reclama com Barbara, Barbara diz que a mulher mentiu. Os dois se irritam, e o patrão diz que ela está demitida – tem um mês de aviso prévio. E em seguida liga – ostensivamente, para que Barbara ouça tudo – para o jornal da região, Le Provençal, para ditar um anúncio classificado de procura-se secretária.

Logo em seguida chegam à agência o comissário Santelli e um auxiliar, Jambreau (Roland Thénot). O comissário faz ali mesmo um primeiro interrogatório: sabe que Vercel tinha ido caçar na mesma região em que foi encontrado o corpo de Massoulier.

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A câmara se move suavemente para um lado, para outro. É marca registrada

Na sequência seguinte, quando Vercel está fechando as portas da imobiliária para ir para casa, toca o telefone. Uma voz de mulher, nervosa, indignada, brava, começa a ofendê-lo. “Com sua voz envolvente, tem cara de inocente. Mas matou Massoulier e pagará por isso.”

A tomada mostra o talento de Truffaut e de Néstor Almendros. Vemos Vercel desligando o telefone, irritado, possesso. A câmara se move suavemente rumo à direita para acompanhar Vercel, que sai da agência, tranca a porta. A câmara se move suavemente rumo à esquerda; há uma janela que dá para a rua, e lá vai Vercel, passos apressados. Toca o telefone novamente, a câmara se move suavemente de volta para dentro da agência, mostra o telefone – e só aí há o corte. Na tomada seguinte, Vercel está caminhando, nervoso, na sala de sua bela casa.

A câmara que se mexe com muita suavidade é uma marca registrada de François Truffaut.

Toca o telefone na casa, Vercel atende. É a voz da mesma mulher de antes. Ele pede para ela aguardar um minuto – e liga um gravador.

– “Você é um assassino. Matou Massoulier por ciúmes. Todos sabiam que ele era amante da sua esposa. Bem, um deles. (…) Sua mulher dormiu com Pierre, Paul, Jacques e tutti quanti.”

A expressão “tutti quanti” terá importância na trama.

Vercel desliga o telefone, toma mais um gole de um destilado que – o espectador percebe – ele já vinha bebendo antes. E liga o gravador, para ouvir de novo o que a desconhecida havia dito sobre sua mulher. A câmara se aproxima – suavemente – do rosto de Vercel-Trintignant; ele está sentado numa poltrona. À direita do rosto dele, bem visível para o espectador, está um porta-retratos com uma foto da mulher dele, usando um casaco de peles. A mulher que, segundo se comenta na cidade, era amante de Massoulier, e dormiu com Pierre, Paul, Jacques e tutti quanti.

Corta, e vemos um close up do rosto maravilhoso de Barbara-Fanny Ardant, recitando os diálogos de uma peça de teatro, uma peça antiga, clássica. Secretária diligente durante o dia, à noite Barbara é atriz amadora – e competente. No grupo em que ela ensaia trabalha também seu ex-marido, Bertrand Fabre (Xavier Saint-Macary), repórter fotográfico do jornal Le Provençal. Divorciaram-se há uns dois anos, mas ele ainda arrasta as asas para a ex – também, quem não arrastaria as asas por aquele avião? Só mesmo o bobão do patrão, Julien Vercel.

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O marido traído fala em divórcio. A mulher abre as pernas diante dele

Marie-Christine volta de Nice. Vercel a confronta – ela admite que foi, sim, amante de Massoulier. Mas é coisa do passado.

Vê-se que o pobre Vercel ama aquela mulher, e está com o coração rasgado, esfarrapado – déchiré, como se diz naquela língua linda –, ao saber que ela o trai com tutti quanti. E então há uma cena um tanto espantosa para um filme de François Truffaut, o cineasta da ternura, que odiava explicitudes, fossem de violência, fossem de sexo.

Marie Christine se senta diante do marido, fingindo ler um jornal, e, quando ele começa a falar em divórcio, ela vai abrindo as pernas.

A mulher – a quem a atriz Caroline Sihol dá todas as características possíveis de vulgaridade – revela ali toda sua baixaria, sua vileza: tem a certeza de que a exposição de suas coxas, de seu sexo, vai fazer o pobre marido se aquietar, esquecer a infidelidade, ficar manso.

A cena é muito forte – mas a câmara de Truffaut, sempre suave, é cuidadosa, discreta. Está colocada atrás da poltrona em que se senta a mulher-baixaria, e assim ela nos poupa da explicitude de ver as pernas escancaradas. Vemos apenas, por trás, que Marie-Christine vai levantando a perna esquerda, até deixá-la sobre o braço da poltrona, que é alto. Ela remexe o pé esquerdo, enquanto pede que Vercel olhe para ela.

Estamos aí exatamente com 15 minutos de filme que dura 115.

Antes dos 20 minutos, Marie-Christine aparecerá morta com um tiro na testa.

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Uma trama intrincada, cheia de surpresas, contada com bom humor fino

E então Barbara, a secretária que tinha acabado de ser demitida, exatamente após um mal entendido envolvendo a mulher do patrão, fará de tudo para provar a inocência de Vercel.

Barbara estava de novo num ensaio da peça, já vestida com a roupa que seria usada em cena – um saiote que deixava à mostra suas longas, intermináveis, lindérrimas coxas –, quando Vercel vai até lá pedir a ajuda dela, após a morte de Marie-Christine.

Interromper o ensaio é uma boa desculpa criada no roteiro para que Barbara–Fanny Ardant apareça em várias tomadas que virão a seguir com as magníficas pernas à mostra. Truffaut era um absoluto apaixonado por pernas de mulher – pernas de mulher são presença importante e constante em diversos de seus filmes.

Barbara vai provar que, como uma investigadora, uma detetive, uma mulher de ação, é ainda mais competente que como secretária e atriz de teatro amador.

A trama – intrincada, cheia de surpresas – incluirá, a partir daí, uma série de elementos fascinantes, de uma agência de detetives em Nice a um cinema decadante, chamado Eden, que exibe Glória Feita de Sangue/Paths of Glory (1957), o excelente panfleto pacifista de Stanley Kubrick passado na Primeira Guerra Mundial; de apostas em corridas de cavalo a uma rede de prostituição; de um rufião de aspecto sinistro chamado Louison (Jean-Louis Richard) a um suspeito de assassinato que se revela na verdade um padre (Jean-Pierre Kalfon), irmão do assassinado Massoulier.

E haverá ainda mais três mortes a tiros.

Tudo mostrado com um bom humor fino, suave, gentil, enquanto o espectador vai percebendo que aquela mulher lindérrima, e inteligente, esperta, sagaz, cheia de belas sacadas, de raciocínio rápido, decidida, corajosa… está é apaixonada por aquele patrão babaca. Só ele, que é sonso, não percebe.

Uma bela história, uma maravilha de filme.

Fanny Ardant

Truffaut teve que enfrentar os produtores para fazer seu filme em preto-e-branco

Logo antes de Vivement Dimanche!, Truffaut havia feito um filme extremamente pesado, denso, de uma violência atroz, a crônica de um amor louco, feroz, destrutivo, fadado à tragédia – A Mulher do Lado/La Femme d’à Côté (1981). Tinha sido seu primeiro filme com Fanny Ardant.

Quis então fazer um filme mais leve, e sem dúvida alguma Vivement Dimanche!, apesar das cinco mortes violentas, é muitíssimo mais leve que A Mulher do Lado.

Ele achava que havia errado por ter feito A Noiva Estava de Preto em cores – e como tem cores vibrantes, aquele filme. Queria então fazer o novo filme policial em preto-e-branco, como eram os filmes noir americanos dos anos 1940 e 1950 que admirava. O estudioso Serge Toubiana conta, na interessantíssima apresentação para o filme que a mk2 fez para o lançamento em DVD, que, por causa dessa opção, Truffaut teve que brigar muito com os donos das outras produtoras que financiariam a obra. A partir dos anos 80, diz o crítico, não era mais possível fazer filmes na França sem o apoio das cadeias de TV – e elas não admitiam a perspectiva de exibir um filme novo em preto-e-branco.

Truffaut, no entanto, era um dos grandes nomes do cinema francês, e vinha de um extraordinário sucesso de público e crítica, O Último Metrô/Le Dernier Métro (1980), premiado com 10 Césars, belíssima bilheteria. Acabou ganhando a parada.

Desde os anos 60, o cineasta tinha sua própria produtora, Les Films du Carrosse. Mas em geral se associava a outras produtoras para obter financiamento para seus filmes. Vivement Dimanche! foi produzido por – além da Films du Carrosse – Films A2 e Soprofilms.

Serge Toubiana conta que o cineasta pediu a seu diretor de fotografia e amigo Néstor Almendros que as filmagens fossem rápidas, que durassem pouco. Entendiam-se bem – aquele seria o nono filme de Truffaut com fotografia de Almendros. Este então quis saber o motivo da pressa, já que falta de dinheiro não era, depois do grande êxito de O Último Metrô. A resposta de Truffaut foi de que ele queria que seu filme tivesse a aparência de uma produção B do cinema americano dos anos 40 e 50.

Os oito filmes anteriores em que Néstor Almendros foi o responsável pela fotografia são O Garoto Selvagem, Domicílio Conjugal (os dois de 1970), As Duas Inglesas e o Amor (1971), A História de Adèle H. (1975), O Homem Que Amava as Mulheres (1977), O Quarto Verde (1978), O Amor em Fuga (1979) e O Último Metrô (1980).

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Um filme rodado em P&B, quase todo à noite, e sob chuva – como os noir

Num primeiro texto para a imprensa sobre o filme, em março de 1983, o cineasta explicou que tinha escolhido filmar o romance de Charles Williams porque ele descreve “uma investigação levada a cabo por uma mulher, uma mulher comum, uma secretária”. Confessou sua insatisfação com as cores de A Noiva Estava de Preto e concluiu assim:

“Escolhi rodar Vivement Dimanche! quase inteiramente à noite, sob chuva e sobretudo em preto-e-branco. O material é aquele da história policial, o tom é na maior parte do tempo eufórico, a experiência foi interessante e eu saberei no próximo outono se foi um sucesso.”

O fabuloso livro Truffaut par Truffaut, com documentos e textos reunidos por Dominique Rabourdin, traz a íntegra da carta que Truffaut escreveu a Jean-Louis Trintignant, no dia 9 de julho de 1982, convidando o ator para participar do filme. Os dois nunca tinham trabalhado juntos antes. “Mon cher Jean-Louis”, ele começa, “Este filme, Vivement Dimanche!, contará a história de uma secretária que conduz uma investigação-amadora a fim de inocentar seu patrão acusado de várias mortes. Fanny Ardant fará o papel da secretária e eu proponho a você (Truffaut usa o mais formal vous, e não o tu) que faça o papel de seu patrão, Julien Vercel, diretor de uma agência imobiliária como Hyères ou Sète.”

Explica também a Trintignant que o diretor de fotografia será Néstor Almendros, que o filme será rodado em preto-e-branco. E menciona que o roteiro enviado junto com a carta é uma décima-terceira versão – mas ainda deverá haver uma ou duas antes de chegarem à versão definitiva.

Que maravilha de informação!

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“Truffaut subverte o género em vez de realizar um filme de género”

O livro François Truffaut de Robert Ingram e Paul Duncan faz uma beleza de análise do filme – chamado, na edição portuguesa que ganhei da minha filha, de Finalmente!

Finalmente! Funciona a vários níveis. É um genuíno filme policial, cujo suspense sobre quem cometeu os crimes é mantido até à penúltima sentença. É um thriller, embora um exemplo pouco convencional do gênero. Ao mesmo tempo, é uma comédia romântica ao estilo de Hollywood. Num quarto nível, encontram-se as preocupações mais sérias do seu realizador: preocupações agora para nós familiares, embora apresentadas sob uma nova perspectiva. Tal como em Disparem Sobre o Pianista, Truffaut adere intimamente à iconografia do film noir. A maior parte do filme é rodado à noite, e à chuva. A heroína enverga obrigatoriamente uma gabardina.”

Duas coisinhas, aqui. Disparem Sobre o Pianista, claro, é o título português para Tirez Sur le Pianiste, no Brasil Atirem no Pianista (1960). A capa de gabardine serve, sim, para fazer lembrar que elas estavam sempre presentes nos clássicos do cinema noir americano – Humphrey Bogart sempre usava uma capa de gabardine. No caso específico aqui, serve para brincar com as belas pernas de Fanny Ardant: como Barbara sai direto do ensaio de teatro, vestida para a cena, com as longas coxas de fora, para as investigações que fará, começando com uma viagem até Nice, ela pega a capa do patrão – deixado por ela na agência imobiliária apagado pelo cansaço e pela bebida.

Continuam os autores discorrendo sobre o ambiente noir do filme (vai em português de Portugal, tal como no livro):

“Há clubes nocturnos, prostitutas e uma esplêndida mulher-fatal em Marie-Christine. Há armas, crimes e uma parede giratória que fornece uma pista vital. E obviamente, inúmeras pistas falsas para nos confundir. O filme é a preto e branco, uma decisão corajosa tomada em 1982, altura em que a cor era praticamente uma obrigação. Mas é sempre evidente que Truffaut subverte o género em vez de realizar um filme de género. Tal como em Disparem Sobre o Pianista, o filme não se restringe a apenas um género e retira elementos da comédia romântica. Um ponto central de interesse é a relação tempestuosa dos protagonistas principais. Na melhor tradição de Hollywood, eles começam com discussões e desentendimentos, chegando mesmo à violência física, mas…”

Aqui os autores entregam um spoilerzinho – é algo óbvio, mas desnecessário. Pulo o trecho.

Em seguida, eles concluem a bela análise:

“A normalmente tensa intriga de um thriller é interrompida por episódios ‘gratuitos’, tais como sequências que abordam os ensaios da peça em que Barbara é também a actriz principal. Da mesma forma, a ação é desviada em cenas-chave por diversões tais como do albanês à procura de asilo político, ou o negócio que envolve o superintendente de polícia, Santelli. E finalmente, para o caso de termos sido levados pelo aparato do gênero do thriller, a intriga de todo o filme é revelada através das palavras de (o nome do personagem aqui seria spoiler): ‘Tudo o que fiz, fiz pelas mulheres. Eu adoro olhar para elas, tocar-lhes, cheirá-las, desfrutar delas e lhes dar prazer. As mulheres são mágicas, por isso tornei-me um mágico’. O círculo fecha-se. O que parecia ser um thriller, era na realidade uma investigação sobre mais uma das obsessivas pesquisas de Truffaut sobre o absoluto. Um homem cuja vida se baseia inteiramente na premissa falsa e ilusória de que as mulheres são mágicas.”

Bela análise, sem dúvida. Mas acho que falha em um ponto fundamental: François Truffaut, o homem que amava as mulheres, o amor, os filmes e os livros, acreditava, sim, que as mulheres são mágicas. Pelo menos algumas mulheres.

E sabia do que estava falando. Afinal, ele também era mágico.

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Anotação em junho de 2016 

De Repente, num Domingo/Vivement Dimanche!

De François Truffaut, França, 1983

Com Fanny Ardant (Barbara Becker), Jean-Louis Trintignant (Julien Vercel),

e Philippe Laudenbach (Clement, o advogado), Caroline Sihol (Marie-Christine Vercel), Philippe Morier-Genoud (comissário Santelli), Xavier Saint-Macary (Bertrand Fabre, o fotógrafo, ex de Barbara), Jean-Pierre Kalfon (o padre Massoulier), Anik Belaubre (Paule Delbecq, a caixa do Cine Eden), Jean-Louis Richard (Louison), Yann Dedet (Angel Face), Nicole Félix (a prostituta com cicatriz), Georges Koulouris (Lablache, da agência de detetives), Pascale Pellegrin (candidata a secretária), Roland Thénot (policial Jambreau)

Roteiro François Truffaut, Suzanne Schiffman & Jean Aurel

Baseado no livro de Charles Williams

Fotografia Néstor Almendros

Música Georges Delerue

Montagem Martine Barraqué

Produção Les Films du Carrosse, Films A2, Soprofilms. DVD mk2/Versátil.

P&B, 115 min.

R, ***1/2

Título nos EUA: Confidentially Yours. Em Portugal: Finalmente!

2 Comentários

  1. Senhorita
    Postado em 28 setembro 2016 às 10:46 pm | Permalink

    Uma pena que esse rapaz tenha morrido tão jovem. Poderia ser um belo velhinho atualmente, mas faleceu um ano antes de eu nascer. Ainda bem que temos os filmes e esses textos maravilhosos do 50 Anos para relembrá-lo.

  2. Carla
    Postado em 2 outubro 2016 às 7:28 pm | Permalink

    Este é um Truffaut que assisti nos tempos da faculdade, quando o filme saiu, e nunca consegui rever. Agora há os DVDs, mas lembro-me que desejei por muito tempo – nos anos ’80 e começo dos ’90 – revê-lo, de preferência com minha mãe, que gostava de Trintignant e de filmes policiais. Um dos aspectos mais charmosos do filme, para mim, é a parceria de homem e mulher numa situação de crime. Os americanos faziam muito isso em romances policiais e em alguns filmes (Janela Indiscreta, com o casal investigando juntos; A Dama Oculta, idem – ambos de Hitchcock, mas há muitos, muitos assim). Texto delicioso para um filme que recordo delicioso. Feliz. Era isto que Truffaut me transmitia.

Um Trackback

  1. […] primeiros minutos de Atirem no Pianista/Tirez sur le Pianiste (1960), o segundo longa-metragem de François Truffaut, que em sua obra fica ensanduichado entre dois filmes memoráveis, importantes, em todos os […]

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