Começou em Nápoles / It Started on Naples

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Nota: ★★★☆

Entre 1957 e 1961, dos 23 aos 27 aninhos de idade, Sophia Loren fez 11 filmes americanos e 2 ingleses, contracenando com muitos dos maiores astros da época e sob a batuta de diretores importantes. Voltaria depois a trabalhar em produções americanas, é claro, mas nesse período dedicou-se apenas a Hollywood, com contrato de quatro anos com a Paramount – e foi então que, de fenômeno italiano, se tornou uma estrela internacional, aclamada no mundo inteiro.Não vi todos os filmes desse período, mas vários são extremamente ruins – ou, no mínimo, bobos. Bem ao contrário, Começou em Nápoles/It Started on Naples, de 1960, é um bom filme.

É uma comedinha romântica sobre um americano rico de meia idade e uma jovem italiana deslumbrante, com cenários maravilhosos de Nápoles e da Ilha de Capri – mas é bem mais que isso. Explora, com graça e inteligência, a complexa, conflituosa relação entre EUA e Europa. E aborda de forma sensata, sensível, uma questão séria, importante, sobre guarda de criança.

zznapoli1aHollywood fez um milhão, trocentos e trinta e oito filmes passados na Europa, com americanos na Europa. Na imensa maioria deles, misturava-se um profundo amor com um profundo desprezo, quase ódio pelo que então se chamava de Velho Continente. Este Começou em Nápoles é exatamente assim, essa mistura de amor e ódio do Grande Império pelo continente de onde saíram seus fundadores.

No entanto, de todos esses zilhões de filmes, só me lembro de dois em que o protagonista, um americano muito americano, muito rico, muito orgulhoso de seu americanismo e de sua riqueza e de seus valores americaníssimos, ao fim e ao cabo abandona tudo aquilo em que acreditava, em nome de uma vida melhor, mais feliz, no Velho Continente. Um deles é Fogo de Outono/Dodsworth, que o grande William Wyler lançou em 1936, com uma interpretação magnífica de Walter Huston, o pai de John, avô de Anjelica. O outro é exatamente este It Started in Naples.

Não é pouca coisa.

Nosso herói acha que os italianos são artistas da malandragem

Nesse seu período hollywoodiano, Sophia enfeitiçou multidões e multidões nos cinemas e, nas telas, nada menos que John Wayne, Alan Ladd, Cary Grant (duas vezes), William Holden, Frank Sinatra, Anthony Perkins, Anthony Quinn (duas vezes), Maurice Chevalier, Burl Ives, John Gavin, Peter Sellers, Charlton Heston.

Em Começou em Nápoles, ela conquista Clark Gable, o galã que conseguira o amor de Scarlett O’Hara em … E o Vento Levou. Mas a parada é dura, mesmo para Sophia Loren: Mike Hamilton, o personagem dele, resiste bastante àquele monumento de beleza e sensualidade. Um personagem bem secundário da história, o garçom de um clube noturno de Nápoles, chega até mesmo a achar que aquele americano de cara amarrada, de maus bofes, não gosta de mulher.

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Mike Hamilton já havia estado em Nápoles antes, durante a Segunda Guerra Mundial, e portanto, quando chega à cidade no início da narrativa, de trem, vindo diretamente da sua Filadélfia natal para o aeroporto de Roma, está com os dois pés firmemente para trás. Sabe que os italianos são artistas da malandragem, e, entre os italianos, mais que todos os outros, os napolitanos. É o que ele narra para nós, com seu vozeirão grave e muito rápido em off, logo na primeira sequência do filme, após créditos iniciais mostrando deliciosos desenhos de fachadas de casas napolitanas:

– “Esta é a bella Napoli. Já estive aqui uma vez, durante a guerra, com o 5º Exército. Os napolitanos nos deram as boas-vindas já na praia. Meia hora depois estavam vendendo nossa gasolina no mercado negro. E todas aquelas crianças nas ruas, filando cigarros, roubando rações dos soldados… Durante um tempo, nesta cidade, a carne enlatada desbancou o spaghetti. Eu só voltei para acertar as propriedades do meu irmão. Se tiver sorte, vou embora sem nem sequer beber da água daqui.”

Mike Hamilton-Clarke Gable está de pé, junto a uma janela do trem que vem chegando à estação central de Nápoles, apinhada de gente. Encostadas a uma pilastra estão duas jovens de aparência um tanto suspeita.

O americano se dirige um pouco a elas, em sua narrativa para o espectador:

– “Olá, meninas. Acho que conhecia suas irmãs mais velhas. Uma delas ficou com minha medalha de boa conduta. (Ele faz uma pausa. O trem pára. A estação é aquela zorra latina, mil vozes falando alto.) Bem, tenho certeza de que nada mudou.”

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Vittorio De Sica, o homem que transformou Sophia em estrela, estrela o filme

E logo Mike está sendo recebido, na plataforma da estação ferroviária, pelo advogado Mario Vitale, que ele havia contratado para cuidar do inventário de seu irmão. O advogado Mario veste um terno claro, impecável – é homem elegante, de finíssima estampa.

Mike vai logo dizendo que gostaria de resolver tudo rapidamente, para voltar para Roma a tempo de pegar o primeiro avião para casa: precisa estar na Filadélfia o quanto antes. Veremos depois que ele tem compromisso sério: vai se casar muito em breve.

Pergunta para o advogado italiano o que aconteceu com seu irmão. Mario Vitale não explica em detalhes – só informa que o irmão de Mike teve um acidente e voou para os céus com sua mulher.

O americano fica surpreso: o irmão tem uma mulher, sim, muito viva, lá na Filadélfia. Dez anos atrás, havia sido abandonada pelo marido, que havia dito que iria tomar uma cerveja – e jamais voltara.

– “Eu pensei que a sra. Concenttina Curcio tivesse se casado com seu irmão, o sr. Joseph Hamilton, dez anos atrás. Um homem de grande importância, seu irmão, o sr. Joseph Hamilton. Um cavalheiro, no sentido real da palavra. No sentido antigo da palavra.”

E o americano, ele também um advogado: – “Meu irmão era um preguiçoso, um irresponsável, um imprestável, em qualquer sentido das palavras. A não ser que tenha mudado muito nestes últimos dez anos.”

zznapoli garotoO italiano cerra o cenho e é obrigado a admitir que o sr. Joseph Hamilton não mudou nada, nestes últimos dez anos.

Mike pergunta se há alguma prova irrefutável de que seu irmão tenha de fato vivido com essa mulher de que o advogado Vitale fala. E este responde que há, sim: um garoto de oito anos de idade, Fernando, ou Nando, como todos o chamam. Nando (interpretado por um ótimo garotinho chamado Marietto) vive agora com a tia, a irmã da falecida Concenttina.

E leva o americano para o meio de uma tremenda festa, a festa da Madonna dela Catena. A rainha da festa, que personifica a Rainha de Aragão, é Lucia Cursio, a irmã da falecida – e, portanto, cunhada do senhor Hamilton.

Lucia Cursio, claro, vem na pele de Sophia.

E é fantástico que os produtores americanos tenham tido a sabedoria, a inteligência, a sensibilidade de chamar para fazer o papel do advogado Mario Vitale, essa figura elegante, bem falante, ninguém menos que Vittorio De Sica, o homem que havia transformado Sophia em grande estrela do cinema italiano.

O americano: “Como é que se espera que as pessoas durmam aqui?” O  italiano: “Juntas!”

O título do filme está certíssimo: a história começou em Nápoles. Começou ali, no meio da festa popular – mais praticamente toda a ação se passa fora de Nápoles.

Naquele primeiro encontro entre Mike Hamilton e Lucia Cursio, os dois conversam rapidamente, Lucia desaparece no meio da festa e do povo, e em seguida pega um barco para a ilha de Capri, onde mora. Mike então pegará outro barco, para ir atrás da moça, ainda achando que poderá resolver tudo rapidamente a tempo de voltar para o casamento marcado na Filadélfia.

É claro que não consegue voltar logo. Fica conhecendo o garoto Nando – e pela cara dele já vê que não tem erro: é mesmo filho de seu falecido irmão.

A situação é complexa, multifacetada. Nada preto x branco, maniqueísta. zznapoli2
Para sobreviver, Lucia tem várias atividades. Uma delas é que ela se apresenta como cantora e bailarina de um night club para turistas, expondo, é claro, boa parte do majestoso corpo – e bota majestoso nisso.

A sequência em que Harry vai ao night club e vê Lucia-Sophia cantando “Tu vuò fà l’Americano”, de Renato Carosone e Nicola Salerno, e dançando com as esplendorosas coxas à mostra, é de babar. Literalmente

Ao chegar à boate, Harry é abordado por uma profissional, moça bem bonita: – “Gostaria de me pagar uma bebida?”

Harry é sujeito sério, sisudo: – “Sinto desapontá-la, mas estou aqui a negócios!”

E a garota: – “Eu também!”

Delícia!

Depois de observar a dança de Lucia ao som de “Tu vuò fà l’Americano”, Harry pega algumas notas grandes de liras, corta-as ao meio, e pede a um garçom que entregue à moça, dizendo que ela poderá pegar as outras metades no hotel tal, quarto tal. O garçom pergunta se é o endereço dele, ele diz que não, que é de outra pessoa – e é então que o garçom diz algo como: – “Ah, o senhor não gosta de mulheres!”

Mais tarde, naquela mesma noite, a primeira de Harry na Ilha de Capri, ele, irritado com a música incessante que vem das ruas, pergunta a outro garçom: – “Como é que se espera que as pessoas durmam nesta ilha?” Ao que o italiano responde: – “Juntas!”

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O filme tem um lado sério – e importante – ao discutir a questão da guarda de criança

A situação, insisto, é complexa. Não é o fato de a tia do garoto Nando trabalhar num night club que incomoda Harry. Harry não parece, hora nenhuma, um caretão empedernido, um moralista hipócrita. A questão, ou as questões, são outras. É que Nando, aos 8 anos de idade, não vai à escola. Fuma cigarros que fila pelas ruas. Vive nas ruas, ora vendendo badulaques para turistas, ora distribuindo folhetos anunciando a dança da tia no night club dela.

Ou seja: o garoto, ao que tudo indica, é o projeto de um adulto perdido na vida, perigosamente tendendo para algum tipo de marginalidade.

Harry desenvolve um sincero afeto pelo garoto – seja porque tem sangue no meio, seja porque o menino é mesmo simpático, esperto.

It Started in Naples tem seu lado comedinha romântica envolvendo americano no meio de paisagem estupidamente bela de país europeu – como A Princesa e o Plebeu (1953), A Fonte dos Desejos (1954), Quando Setembro Vier (1961), O Candelabro Italiano (1962), e tantos, tantos, tantos outros. Mas ele extrapola, e muito, as limitações da simples comedinha romântica americana passada na Europa quando passa a mostrar os dois lados da questão da guarda do garoto Nando.

Harry quer que o menino vá com ele para a América, o país da oportunidade. Ou, no mínimo, no mínimo, que estude num severo e sério colégio bilíngue em Roma. Lucia quer ficar com o garoto que sempre esteve presente em sua vida, que já vinha mesmo criando.

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Na vida real, quando não se chega a acordo, as pessoas levam seu problema familiar para a Justiça resolver – e é o que acontece no filme. E aí o personagem do advogado elegante interpretado por Vittorio De Sica cresce, porque tem a sensibilidade de defender – mesmo sendo um advogado – a tese de que questão de família quem tem que resolver é a família, e não o Estado, a Justiça.

É uma maravilha ver que, em 1960, essa produção hollywoodiana já fazia a defesa desse princípio – e também do outro principio correlato, o de que age corretamente, nessas questões de guarda, quem pensa não em si mesmo, mas no que seria melhor para a criança.

Entre os três que assinam o roteiro está a prodigiosa Suso Cecchi D’Amico

A história original é assinada por Michael Pertwee e Jack Davies. O roteiro é de Melville Shavelson, Jack Rose e Suso Cecchi D’Amico. O primeiro é o diretor do filme, que dirigiu Sophia também no bem mais fraco Tentação Morena/Houseboat, de 1958. O segundo é o produtor. E a romana Suso Cecchi D’Amico (1914-2010) é simplesmente uma das maiores roteiristas da história do cinema.

Suso Cecchi D’Amico está entre as pessoas que assinaram os roteiros de Ladrões de Bicicleta (1948) e Milagre em Milão (1951), dois absolutos marcos do neo-realismo italiano, seguramente o movimento mais importante, mais influente que já houve no cinema, ambos dirigidos por Vittorio De Sica. Foi um dos roteiristas de As Amigas (1955), de Michelangelo Antonioni. E trabalhou com Luchino Visconti em várias de suas principais obras, desde Belissima (1952) até O Inocente (1976), passando por Rocco e Seus Irmãos (1960), O Leopardo (1963), Vagas Estrelas da Ursa (1965) e Violência e Paixão (1974).

E ainda trabalhou com Mario Monicelli, Mauro Bolognini, Franco Zeffirelli, Francesco Rosi…

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Para Monicelli, participou da criação do roteiro de Mortadella (1971), uma comédia escancarada com Sophia Loren como uma italiana retida na alfândega do aeroporto de Nova York por carregar aquilo que dá nome ao filme.

Sofia Villani Scicolone (assim, com f, e não ph) cresceu criança pobre nas ruas de Nápoles. A mãe percebeu logo que a beleza da menina poderia tirar a família da miséria, e a colocou para participar de concursos de beleza. Entre 1950 e 1954, ou seja, dos 16 aos 20 anos, a garota participou de 12 filmes, começando como extra até chegar a protagonista. Teve duas sortes grandes na vida, fora a de ter sido aquinhoada com a beleza extraordinária: foi descoberta, bem nesse começo de carreira, pelo produtor Carlo Ponti, sujeito 22 anos mais velho que ela e que se tornaria seu agente, seu protetor, seu produtor, seu marido e pai de seus dois filhos. E, em 1954, teve a felicidade de encontrar Vittorio De Sica, que a transformou em estrela a partir de O Ouro de Nápoles (1954).

Depois desse, fariam outros seis filmes juntos – comédias escancaradas como Ontem, Hoje e Amanhã (1963) e Matrimônio à Italiana (1964), ambas ao lado de Marcello Mastroianni, até drama pesado como Duas Mulheres/La Ciociara (1960).

Hollywood a transformaria de grande estrela do cinema italiano em uma das maiores estrelas do cinema mundial. Resolvi fazer uma tabela com os filmes da sua fase americana (com duas incursões pela Inglaterra):

 

Filme Diretor, ano No elenco
A Lenda da Estátua Nua/Boy on a Dolphin Jean Negulesco, EUA, 1957 Alan Ladd, Clifton Webb
A Lenda dos Desaparecidos/Legend of the Lost Henry Hathaway, EUA, 1957 John Wayne, Rossano Brazzi
Orgulho e Paixão/The Pride and the Passion Stanley Kramer, EUA, 1957 Cary Grant, Frank Sinatra
Desejo/Desire Under the Elms Delbert Mann, EUA, 1958 Burl Ives, Anthony Perkins
Tentação Morena/Houseboat Melville Shavelson, EUA, 1958 Cary Grant, Martha Hyer
A Chave/The Key Carol Reed, Inglaterra, 1958 William Holden, Trevor Howard
A Orquídea Negra/The Black Orchid Martin Ritt, EUA, 1959 Anthony Quinn
Mulher Daquela Espécie/That Kind of Woman Sidney Lumet, EUA, 1959 Tab Hunter, Jack Warden, George Sanders
O Escândalo da Princesa/A Breath of Scandal Michael Curtiz, EUA, 1960 Maurice Chevalier, John Gavin, Angela Lansbury
O Pistoleiro e a Bela Aventureira/Heller in Pink Tights George Cukor, EUA, 1960 Anthony Quinn
Começou em Nápoles/It Started in Naples Melville Shavelson, EUA, 1960 Clark Gable, Vittorio De Sica
Com Milhões e Sem Carinho/The Millionairess Anthony Asquith, Inglaterra, 1960 Peter Sellers, Vittorio De Sica
El Cid Anthony Mann, Itália-EUA, 1961 Charlton Heston, Raf Vallone, Geneviève Page

A verdade é que dá vontade de ver todos os que ainda não vi.

Que mulher absolutamente fascinante, Sophia. É como diziam outros dois Sergios, o Endrigo e o Bardotti:

Chi non ha mai amato un po’ Sophia

Chi non è stato al cinema con lei

A vivere una storia d’amore e di follia

Così come la vita di Sophia

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Anotação em novembro de 2015

Começou em Nápoles/It Started on Naples

De Melville Shavelson, EUA, 1960

Com Clark Gable (Mike Hamilton), Sophia Loren (Lucia Curcio),

e Marietto (Nando), Vittorio De Sica (Mario Vitale), Paolo Carlini (Renzo), Claudio Ermelli (Luigi), Giovanni Filidoro (Gennariello)

Roteiro Melville Shavelson, Jack Rose e Suso Cecchi D’Amico

Baseado em história de Michael Pertwee e Jack Davies

Fotografia Robert Surtees

Música Alessandro Cicognini e Carlo Savina

Montagem Frank Bracht

Direção de arte Hal Pereira e Roland Anderson

Produção Jack Rose, Paramount Pictures. DVD Paramount.

Cor, 100 min

***

Um Comentário

  1. Senhorita
    Postado em 21 março 2016 às 7:28 pm | Permalink

    Adoro o trabalho do Melville, que sempre traz historinhas divertidas e alegres em ambientes coloridos com atores de arrasar.

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