Comando Negro / Dark Command

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Nota: ★★☆☆

Comando Negro, do respeitável Raoul Walsh, de 1940, é um western elogiado pela crítica, bem cotado nos guias de filmes.

Achei o princípio do filme bobo, estupidamente bobo, e, ao final, considero o filme bem fraco – excessivamente ambicioso, mas com roteiro inconsistente, alguns personagens e passagens bem grotescos, risíveis. Mesmo assim, é forçoso admitir que é um filme que tem sua importância, suas qualidades. E merece respeito.

É um western em que se fala muito de política e políticos – algo raro. E aborda um aspecto pouco falado da História americana: a existência, na época da Guerra da Secessão (1861-1865), de bandos de renegados, bandidos, chamados de guerrilheiros, que se aproveitavam da situação tumultuada para saquear, pilhar propriedades, fazendas, às vezes cidades inteiras.

O filme abre com um letreiro, junto dos créditos iniciais, para dar ao espectador uma noção do contexto em que se passa a história. É um texto com uma linguagem um tanto empolada, rebuscada, antiga:

“Alguns trechos deste filme se baseiam em incidentes reais das vidas de seus personagens principais. Todos os demais eventos e personagens são fictícios, e qualquer similaridade com eventos ou pessoas reais é coincidência.”

E em seguida vem outro:

“Naqueles anos, 1859 e adiante, às vésperas de a nação cair na noite vermelha da guerra civil, as planícies do Kansas já eram um campo de batalha. Do norte, para o Kansas, do sul, para o Kansas vinham hordas – cada uma delas querendo anexar o território ao seu lado do país. O grito de guerra daqueles dias era Vamos para o Kansas.”

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Pela terceira vez em um período de dois anos, Claire Trevor contracena com John Wayne

O primeiro personagem que ficamos conhecendo – seguramente um daqueles fictícios citados no letreiro – é um dentista sem formação, na realidade um arrancador de dentes, Doc Grunch (George Hayes, mais conhecido pelo apelido de Gabby Hayes). Doc – forma curta de doctor, é claro – está tendo um paciente atrás do outro. Isso porque, ali perto de onde ele montou sua barraca de atendimento, está um sujeito grandalhão, fortão, que desfecha socos certeiros na mandíbula de qualquer um que fale mal de um determinado político.

O sujeito grandalhão se chama Bob Seton, e é interpretado por John Wayne. É um caubói do Texas que está – como tantos outros vindos do Sul e do Norte – a caminho do Kansas, onde pretende se instalar. Ele e Doc viajam juntos, um ajuda o outro: Bob esmurra, o esmurrado fica com o dente mole, procura o dentista.

Daí a pouco chegam a Lawrence, pequena cidade do Kansas que não pára de receber forasteiros. Decidem se instalar ali. Param sua carroça no meio da rua principal porque Bob Seton se derrete com o canto de um coral de crianças numa casa transformada em escola primária.

Uma jovem mulher loura, bem vestida, a cavalo, pede para que o grandalhão mova sua carroça para ela passar. Bob Seton olha para ela e naquele momento exato se apaixona para todo o sempre.

A mulher é interpretada por Claire Trevor, que já era estrela importante um ano antes, 1939, quando fez o principal papel em No Tempo das Diligências/Stagecoach, o grande clássico de John Ford que foi o primeiro filme importante da carreira de John Wayne. Trabalharam juntos de novo, Claire Trevor e o então jovem Duke, no mesmo ano de Stagecoach, em O Primeiro Rebelde/Allegheny Uprising.

Assim como em Stagecoach, também nos créditos iniciais deste Dark Command o nome de Claire Trevor aparece acima do de John Wayne. Ele estava em ascensão meteórica, mas ela já era uma absoluta estrela.

A mulher que Claire Trevor interpretada chama-se Mary McCloud; é filha de Angus McCloud (Porter Hall), o empertigado sulista que é dono do banco da cidade, e irmã do jovem e impetuoso Fletch McCloud – este aqui interpretado por um ator que, para os garotos nascidos entre 1940 e 1955, como eu, era simplesmente sinônimo de Mocinho dos Faroestes, Roy Rogers.

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Western meio cômico, depois romance, depois drama político, depois…

No momento em que pela primeira o caubói texano Bob Seton e a sulista filha de banqueiro Mary McCloud se encontram, no meio da rua principal de Lawrence, Kansas, ao som do coral de garotos, está ali também, dirigindo o coral, o professor da escolinha primária da cidade, Will Cantrell – o papel de Walter Pidgeon, aquele ator de belo porte que, no ano seguinte, faria o papel do pastor da cidadezinha do País de Gales de Como Era Verde o Meu Vale, mais uma obra-prima do mestre John Ford.

O caubói, a loura rica e o professor formarão o triângulo amoroso da história.

O caubói texano não sabe ler. Vai tomar lições com o professor que depois será seu rival na eleição, no amor e na guerra.

Haverá eleição em Lawrence para o cargo de primeiro xerife da cidade. O caubói vence – e o professor, enfurecido com a derrota, vai virar bandido. Quando a Guerra Civil começa, Will Cantrell passa a chefiar um bando de saqueadores, assaltantes. Para agir com maior liberdade, Cantrell e seu bando passam a usar uniforme dos confederados, os soldados do Sul.

A transformação do honesto, digno professor primário e maestro do coral infantil em bandido sanguinário se dá num piscar de olhos, quando o filme está aí com uns 40 minutos, mais ou menos.

Quando está com cerca de 40, talvez 50 minutos, Comando Negro pula de um western com toques cômicos – toda a figura de Doc, o arrancador de dentes, é de fazer rir, assim como a desajeitadíssima corte do caubói para cima da loura sulista filha de banqueiro – para um novelão romântico com um triângulo amoroso, para um drama com discursos políticos sobre as posições do novo presidente Abraham Lincoln e sobre a contraposição entre a economia escravocrata do Sul e o capitalismo dos assalariados do Norte, e depois para um drama sobre os bandos de marginais que se aproveitaram do caos gerado pela guerra para saquear e pilhar propriedades e cidades inteiras.

No meio do caminho entre esses diferentes tons, o filme ainda inclui um assassinato, um julgamento por júri submetido a constrangimento por meio de violência, e uma complexa relação de amor e ódio entre mãe e filho – a figura da mãe de Will Cantrell, uma bela interpretação de Marjorie Main, sempre vestida de negro, que ameaça tirar do filho a vida que lhe deu, tem vestígios de tragédia grega.

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Mais tarde, haveria dois outros filmes sobre esse mesmo bandido

E no meio de toda essa zoeira, esse exagero de tons, essa mistura louca de elementos, ainda temos aquele aviso do letreiro inicial: “Alguns trechos deste filme se baseiam em incidentes reais das vidas de seus personagens principais. Todos os demais eventos e personagens são fictícios”.

O IMDb esclarece que o personagem de Will Cantrell é vagamente baseado no “líder de guerrilha confederado William Quantrill”. Não é preciso chamar a atenção para a proximidade dos nomes, certo? Diz o IMDb que, como o personagem interpretado por Walter Pidgeon, Quantrill nasceu no Ohio, foi professor em Lawrence, no Kansas, transformou-se em “lutador guerrilheiro” no lado confederado – e queimou a cidade onde lecionou!

Usei as aspas para realçar a forma com que o grande site se refere ao personagem: guerrilla fighter, guerrilla leader.

Leonard Maltin dá 3 estrelas em 4 para o filme. No pequeno verbete, dá informação e faz uma avaliação correta, acho eu: “Pidgeon interpreta um personagem baseado no renegado Quantrill dos anos 1860, déspota de cidade pequena que (nesta história) lança emboscadas de terror depois de se bater contra o novo xerife Wayne. Dramaticamente irregular, mas agradável”.

Acho corretíssimo o “dramaticamente irregular”. Mas penso, é claro, que as 3 estrelas superestimam este filme absolutamente irregular.

O guia de Steven H. Scheuer também dá 3 estrelas em 4, e diz que o filme é um grande western dramático, cheio de ação e com ótimo elenco. E o guia de Mick Martin e Marsha Porter exagera com 4.5 estrelas num total de 5.

O Guide des Filmes de Jean Tulard dá informações em seu verbete sobre L’Escadron Noir que os guias americanos não dão: “Biografia do chefe de quadrilha Quantrill que toma de assalto, cerca de 1860, a cidade de Lawrence. Walsh dá alguma consistência ao personagem, mais que as versões de Gordon Douglas (Les Rebelles du Missouri) ou de Ray Enright (Kansas au Feu).”

Diacho! Então houve três filmes sobre esse bandido! Vivendo e aprendendo…

Ahnnn. Les Rebelles du Missouri no original é The Great Missouri Raid, no Brasil A Vingança de Jesse James, de 1951. Kansas au Feu é Kansas Raiders, no Brasil Cavaleiros da Bandeira Negra, de 1950.

O roteiro de Dark Command é assinado a seis mãos, por Grover Jones & Lionel Houser & F. Hugh Herbert – algo bastante comum no cinema italiano, mas não tanto no de Hollywood. Um quarto nome – Jan Fortune – assina a adaptação do romance de W. R. Burnett (1899-1982). A obra mais conhecida de Burnett é Little Caesar, que deu origem ao filme Little Caesar, no Brasil Alma no Lodo, dirigido em 1931 por Mervyn LeRoy e considerado o primeiro grande filme sobre gângsteres do cinema americano.

Bem, para mim é isto: um filme fraco, em parte por tentar ser cômico com alguns momentos, em parte por ser tão pretensioso, por querer abarcar tantos temas, em parte porque o roteiro é mesmo ruim. Mesmo assim, é um filme que merece respeito.

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Anotação em abril de 2016

Comando Negro/Dark Command

De Raoul Walsh, EUA, 1940

Com Claire Trevor (Mary McCloud), John Wayne (Bob Seton), Walter Pidgeon (Will Cantrell), Roy Rogers (Fletch McCloud), George Hayes (Doc Grunch), Porter Hall (Angus McCloud), Marjorie Main (Mrs. Cantrell), Raymond Walburn (juiz Buckner), Helen MacKellar (Mrs. Hale), J. Farrell MacDonald (Dave), Trevor Bardette (Mr. Hale)

Roteiro Grover Jones & Lionel Houser & F. Hugh Herbert

Baseado no romance de W.R. Burnett

Adaptação Jan Fortune

Fotografia Jack A. Marta

Música Victor Young

Montagem William Morgan

Produção Sol C. Siegel, Republic Pictutres. DVD Versátil.

P&B, 92 min

**

2 Comentários

  1. Senhorita
    Postado em 21 agosto 2016 às 11:16 pm | Permalink

    Nunca houve um elogio tão certeiro a Walter Pidgeon como esse: “ator de belo porte”.
    E que interessante, Wayne e Rogers juntos. Preciso ver!

  2. mario silva
    Postado em 1 setembro 2016 às 2:31 pm | Permalink

    1.Sobre o filme. Um western com John Wayne precisa ser muito ruim para merecer menos do que 3 estrelas e, certamente esse não é o caso. Ainda mais quando, além de Duke, conta com Claire Trevor, Gaby Hayes e…Roy Rogers, e tem Raoul Walsh na direção. 2. Curiosidades: a) Gaby Hayes, que sempre fazia o papel cômico, de amigo do mocinho, era a grande atração de bilheteria dos westerns B” e de seriados – foi parceiro de John Wayne em vários – e, por esse motivo, sempre recebia o maior salário do elenco; b) consta que Jesse e Frank James fizeram parte do bando de Quantrill, o qual teria sido um capitão renegado do Exército Confederado; c) WR Burnett também foi autor de Little Lord Fauntleroy, também levado às telas, que no Brasil chamou-se O Pequeno Lorde.

2 Trackbacks

  1. Por 50 Anos de Filmes » Reinado do Crime / Borderline em 28 agosto 2016 às 2:05 pm

    […] ascensão John Wayne. Faria em seguida mais dois filmes com o Duke, O Primeiro Rebelde (1939) e Comando Negro (1940), e em todos os três o nome dela aparecia antes do […]

  2. […] Brasil O Último Pistoleiro, no mundo todo conhecido pelos fãs de western como O Último Filme de John Wayne – e também como O Último Faroeste de James […]

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