Caminhos da Floresta / Into the Woods

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Nota: ★★½☆

Into the Woods, no Brasil Caminhos da Floresta, caprichada co-produção EUA-Inglaterra-Canadá de 2014, é uma danada de uma mistureba, uma mixórdia, uma barafunda – de histórias, de gêneros e de talentos.

Mistura Chapeuzinho Vermelho com Cinderela com João e o Pé de Feijão com Rapunzel. Bate no liquidificador as quatro histórias para o público infanto-juvenil e mistura com musical da Broadway para audiências adultas com pitadas fortes de filme de ação para adolescentes dos 13 aos 79 anos.

Reúne os gigantes Stephen Sondheim e Meryl Streep com o jovem e talentoso Rob Marshall com as ótimas Emily Blunt e Tracey Ullman e mais Johnny Depp (este, em uma participação especial) com mais a jovem Anna Kendrick e a goodwifiana Christine Baranski com outros nomes que eu desconhecia, tipo James Corden e Daniel Huttlestone.

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Antes de mais nada, falo, ainda que só um pouquinho, de Stephen Sondhein, para o caso de algum eventual leitor que cair aqui não estiver se lembrando bem quem é.

Stephen Sondheim é gênio.

Creio que não há erro algum em dizer que Stephen Sondheim, nascido em 1930, seja o último dos autores da Grande Música Americana a estar entre nós, agora que George e Ira Gershwyn, Cole Porter, Irving Berling, Rodgers & Hammerstein e seus colegas se foram desta para melhor.

O cara escreveu as letras das canções compostas por Leonard Bernstein para West Side Story, caramba – e, depois disso, não é preciso dizer mais coisa alguma sobre ele.

São de Stephen Sondheim todas as letras e as músicas deste Into the Woods – e o filme é um musical, tem canções a cada momento, ao longo de todos os 125 minutos de duração.

Algum eventual leitor assim talvez menos atento a essa coisa de nomes talvez não se lembre muito bem de Rob Marshall, o diretor do filme. É natural. Rob Marshall, antes do cinema, dedicou-se aos musicais da Broadway, como coreógrafo. Seu primeiro filme para o cinema (antes, havia feito dois para a TV) foi Chicago (2002), a versão para o cinema do musical da Broadway feito por ninguém menos que o grande, o genial, o insuperável Bob Fosse. Um monte de gente falou mal de Chicago, mas o filme teve incríveis 13 indicações ao Oscar, e faturou nada menos que 6.

Levou 3 anos para dirigir novo filme – e foi Memórias de uma Gueixa (2005), uma história que Steven Spielberg queria muito dirigir ele mesmo, mas, ocupado com seus múltiplos outros projetos, acabou não conseguindo.

E aí em 2006 Rob Marshall dirigiu Nine. Milhares de críticos de cinema fizeram a festa falando mal de Nine – uma espécie de adaptação para o teatro musical de nada mais nada menos que o Oito e Meio de Federico Fellini. Agora, vem cá: de que valem os queixumes de 5 mil críticos de cinema, se o filme tem no elenco Daniel Day-Lewis, Nicole Kidman, Marion Cotillard, Penélope Cruz, Judi Dench, Sophia Loren e Kate Hudson?

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A bruxa feita por Meryl Streep faz exigências que misturam os contos de fada

O musical Into the Woods estreou em 1986, num teatro de San Diego, Califórnia. É tradição tradicionalíssima que peças de produção cara comecem bem longe da Broadway, o coração do Grande Teatro Americano, para que o diretor e os produtores possam ir polindo, arrumando, consertando eventuais probleminhas.

Quando finalmente chegou ao coração de Manhattan, em novembro de 1987, a peça já devia estar bem polidinha, arrumadinha, porque ganhou vários Tonys, o Oscar do teatro americano.

O libreto, a trama, a história do musical é da autoria de James Lapine. Nunca tinha ouvido falar desse senhor, mas vejo que ele – dramaturgo, roteirista, diretor de teatro, diretor de cinema – ganhou o Tony de libreto para um musical três vezes, a primeira delas exatamente por Into the Woods.

James Lapine nasceu em 1949, o que significa que era jovem na época do flower power, da contracultura, do hipismo. Deve, seguramente, ter puxado muito fumo, experimentado muito ácido – o que pode explicar o fato de que resolveu jogar dentro de um liquidificador pelo menos quatro contos de fada contados por Charles Perrault e pelos irmãos Grimm e depois pelos Estúdios Walt Disney, e a partir dessa gororoba criar uma nova história.

A história é mais ou menos a seguinte:

Ufa… Que preguiça imensa de tentar fazer uma sinopse…

Um padeiro e sua mulher (James Corden e Emily Blunt) são avisados por sua vizinha, a bruxa (Meryl Streep) de que ela lançou um encanto neles, impedindo que eles tenham filhos. Mas ela pode retirar a maldição se eles conseguirem obter para ela, a) uma vaca branca como a neve; b) um xale vermelho cor de sangue; c) um cacho de cabelo amarelo como o milho, e d) um sapatinho dourado.

A vaca branca é a última posse da mãe de João, o do pé de feijão. A mãe é interpretada ela pela fantástica comediante Tracey Ullman; o filho, por Daniel Huttlestone).

O xale, obviamente, é o de Chapeuzinho Vermelho, que aqui adquire tons de uma ladrazinha bem safada e comilona, e é interpretada por Lilla Crawford. No caminho rumo à casa da vovozinha, Chapeuzinho se encontra com um Lobo que me pareceu bem taradinho, bem pedófilo, interpretado por Johnny Depp.

O cacho de cabelo é de Rapunzel (Mackenzie Mauzy), que é ao mesmo tempo irmã do padeiro e foi criada como filha pela Bruxa, uma mixórdia do cão.

E nem é necessário dizer que o sapatinho tem a ver com Cinderela, que vem na pele de Anna Kendrick (na foto abaixo), essa moça que está em Amor Sem Escalas/Up in the Air (2009), Sem Proteção/The Company You Keep (2012) e Cake (2014).

INTO THE WOODS

Um filme para nos divertir durante duas horas – e depois esquecer dele

É necessário registrar que o filme teve três indicações ao Oscar – atriz coadjuvante para Meryl Streep, figurinos para Collen Atwood e direção de arte para Dennis Gassner e Anna Pinnock. Ao todo, foram 10 prêmios, fora outras 65 indicações.

Mas então, assim, em suma, em resumo, para concluir, o que dizer sobre Into the Woods?

Há melodias belíssimas e letras de incrível, absurda finesse, elegância, erudição – mestre Stephen Sondheim parecia, ao compor as melodias e escrever as letras, dizer ao mundo, definitivamente, que ele não devia nada aos Gershwyns e a Cole Porter.

Muito bem. Tudo muito legal.

Produção caprichadíssima.

E aí, quando o filme terminou, me peguei pensando em como Stephen Sondheim é grande.

Mas… Para que mesmo serve este filme?

Ah, para a gente se divertir durante duas horas, e depois esquecer rapidinho dele?

É. Deve ser para isso.

Anotação em fevereiro de 2016      

Caminhos da Floresta/Into the Woods

De Rob Marshall, EUA-Inglaterra-Canadá, 2014

Com Anna Kendrick (Cinderella), Daniel Huttlestone (Jack), James Corden (o padeiro), Emily Blunt (a mulher do padeiro), Christine Baranski (a madrasta), Tammy Blanchard (Florinda), Lucy Punch (Lucinda), Tracey Ullman (a mãe de Jack), Lilla Crawford (Chapeuzinho Vermelho), Meryl Streep (a bruxa), Simon Russell Beale (o pai do padeiro), Joanna Riding (a mãe de Cinderella), Johnny Depp (o lobo), Billy Magnussen (o príncipe de Rapunzel), Mackenzie Mauzy (Rapunzel)

Roteiro James Lapine

Baseado no musical de James Lapine e Stephen Sondheim

Por sua vez baseado em The Uses of Enchantment, de Bruno Bettelheim

Fotografia Dion Beebe

Música e letras Stephen Sondheim

Montagem Wyatt Smith

Casting Tiffany Little Canfield, Francine Maisler e Bernard Telsey

Cor, 125 min

Produção Lucamar Productions, Moving Picture Company, Soho VFX, Walt Disney Pictures.

**1/2

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