Amor para a Eternidade / Gui lai

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Nota: ★★★★

Zhang Yimou é cineasta de afrescos, de sinfonias, de épicos – planos gerais, multidões em movimento. Tudo em seu estilo é grandioso. Tornou-se extremamente conhecido no Ocidente em boa parte por suas fábulas de uma China do passado remoto – ou de um passado que a rigor jamais existiu –, povoado por adagas e heróis voadores, por guerreiros que mais parecem bailarinos.

Seu filme de 2014, no Brasil Amor para a Eternidade, nos Estados Unidos Coming Home, no entanto, é um pequeno retrato, uma peça de câmara para pouquíssimos instrumentos, um filme quase intimista. E o passado que ele mostra não é nada remoto – foi outro dia mesmo, durante os anos conturbadérrimos da Revolução Cultural de Mao Tsé-Tung.

Há a China em movimento, neste Amor para a Eternidade – o planeta de 1,4 bilhão de pessoas, um sexto da humanidade inteira, na passagem da agitação radicalíssima da perseguição incessante aos traidores do povo, os burgueses, os direitistas, para um período bem menos turbulento, em meados dos anos 1970. Mas o planeta China é pano de fundo na história. O que importa no filme, mais uma obra-prima desse cineasta de talento gigantesco como seu país, são as relações entre pai, mãe e filha.

O filme tem, sim, algumas sequências daquelas típicas de várias das obras anteriores de Zhang Yimou – planos gerais, com multidões em movimento numa estação ferroviária apinhada. E são sequências de uma beleza plástica acachapante. Mas boa parte dos 109 minutos de duração do filme se passa entre quatro paredes, em ambiente fechado, que é onde a dor da angústia é mais visível, palpável.

E haja dor da angústia. Lá pelo meio da narrativa, Mary não se conteve e comentou: “Nossa, que filme angustiante”.

Vejo que a tradução literal do título original é O Retorno. Os exibidores portugueses chegaram bem perto, com Regresso a Casa. Os americanos também, com Coming Home – título idêntico ao do também belo e igualmente angustiante filme de Hal Ashby de 1978, que deu os Oscars de melhor atriz e melhor ator a Jane Fonda e Jon Voight, e no Brasil chamou Amargo Regresso.

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O pai da jovem Dan Dan estava preso, acusado de ser “direitista”

O filme abre com imagens rápidas, bem rápidas, pouco nítidas, enquanto ouvimos o barulho de um trem em alta velocidade. São imagens cinzentas, quase em preto-e-branco – mas não duram nem meio minuto, e então vemos um grande grupo de moças ensaiando uma coreografia. Algumas usam blusas vermelhas, outras blusas azuis, e as cores fortes fazem um contraste imenso com aquelas primeiras imagens enfumaçadas.

A coreografia inclui fuzis – as moças carregam fuzis enquanto fazem a evolução. É aquela coisa marcial, de elogio ao povo em armas, tão típico de tantos espetáculos de dança dos países comunistas, como já mostraram dezenas e dezenas de filmes.

O espetáculo que está sendo ensaiado naquela academia de dança em alguma cidade da China dos anos da Revolução Cultural, entre 1966 a 1976, se chama “Destacamento Vermelho de Mulheres”, e só pôde ser reproduzido pelas jovens dançarinas contratadas pela produção do filme mediante permissão oficial do Balé Nacional da China, conforme veremos nos créditos finais.

A instrutora elogia as bailarinas, anuncia que a escolha dos papéis de cada uma será anunciada dentro de um mês, e dispensa o grupo. Uma funcionária se dirige a uma das moças, Dan Dan (Zhang Huiwen), e diz que vai levá-la até o Escritório de Propaganda.

Ao entrar na sala devida, Dan Dan se assusta ao ver que ali já está sentada sua mãe, a professora Yu – interpretada pela extraordinária, magnífica, maravilhosa Gong Li.

O oficial se dirige à aluna da academia: – “Dan Dan, eu chamei sua mãe hoje porque tenho algo a contar para as duas. Aconteceu algo com Lu.”

Yu pergunta, com o rosto fechado, preocupado: – “Ele aprontou alguma encrenca?”

E o oficial: – “Ele fugiu. (Faz uma careta meio de espanto, meio para espantar as duas mulheres.) Aquele direitista é muito teimoso. Fugiu durante a transferência de prisão, em uma estação de trem perto daqui. (Pausa.) Vocês têm algum contato com ele?”

Yu: – “Não. Não tenho notícias dele há dez anos.”

O oficial: – “Devo informá-las que, primeiro, se souberem do paradeiro dele, informem imediatamente e ajudem as autoridades a capturá-lo. Em segundo lugar, é proibido encontrar com ele. Ele é o inimigo. Não façam besteira. Fui claro?”

Dan Dan, moça aí de uns 16 anos, muito bela, rosto expressivo, balança a cabeça afirmativamente com muito vigor.

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Dan Dan é a melhor bailarina – mas perde o papel principal por causa do pai

Durante todo esse diálogo, a câmara de Zhang Yimou, tão acostumada aos planos gerais, mostra sucessivamente os rostos do oficial, da mulher do prisioneiro fugitivo e de sua filha.

O oficial di: – “Agora declarem sua posição.”

Dan Dan se apressa: – “Ficarei longe dele. Obedecerei ao partido.”

A mulher do preso político não responde. O oficial a adverte: – “Professora Yu. Sua filha está indo bem. E quanto a você? (Yu, o rosto grave, sério, preocupado, não diz uma palavra.) Professora Yu. Serei extremamente claro. Omitir informações é um crime muito sério. Estou falando isso para o seu bem. Pense no futuro da sua filha.”

Nas ditaduras, o futuro dos filhos pode depender, em grande parte, da atitude de seus pais diante do regime.

E, se o pai, o marido, for contra o regime, ele é o inimigo. Os filhos devem renegar o pai, a mulher deve renegar o marido.

O filme ainda não tem sequer dez minutos quando vemos a professora daquele grupo de estudantes de balé observando as garotas e conversando com um outro oficial do Partido. A professora diz: – “É tão óbvio. Dan Dan é a melhor bailarina.”

Ao que o oficial responde, de modo bastante didático: – “A questão não é essa. O pai dela cometeu um crime e fugiu. Converse com ela depois do ensaio.”

A professora: – “Ela só tinha 3 anos quando o pai foi preso. Ela mal o conhece”.

O oficial encerra o assunto: – “Isso é irrelevante. Mei pegará o papel principal, e ponto final.”

Nas ditaduras, ser o melhor, ou o fato óbvio de que aquela jovem não tem culpa de o pai ser contra o regime, e não teve tempo de convivência com ele para pegar o vírus da rebeldia, da não resignação aos desígnios dos ditadores, são minudências que não importam, não interessam, são irrelevantes.

É como na fábula do lobo e do cordeiro. Não adianta argumentar que o cordeiro está bebendo a água do riacho abaixo do ponto em que está o lobo – e portanto não está sujando a água que o lobo bebe. “Se não foi você, foi seu pai, foi seu avó”, diz o lobo – e vápt, come o cordeiro.

Assim que o oficial do Partido determina que é o ponto final, corta, e vemos a garota Dan Dan sob uma chuva fortíssima, chorando desbragadamente.

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Quando termina a Revolução Cultural, o pai de Dan Dan é enfim solto

Pouco depois, o espectador verá uma esplendorosa sequência na estação ferroviária da cidade, apinhada, repleta de gente. A câmara de Zhang Yimou, a cargo do diretor de fotografia Zhao Xiaoding, faz aqui aqueles planos gerais que são típicos da maioria dos filmes do cineasta. Milhares, milhares, milhares de pessoas indo e vindo nas plataformas, na ponte sobre a linha férrea, e, no meio dessa multidão, Lu Yanshi (Chen Daoming), fugitivo de campo de trabalhos forçados para prisioneiros políticos, procura pela mulher que não vê há mais de dez anos, e ela procura por ele – assim como estão à procura dele os agentes da lei da ditadura.

Há um close-up do rosto esplêndido da professora Yu-Gong Li. Vemos sangue saindo de um ferimento no alto da cabeça dela, caindo junto do cabelo negro que já começa a exibir os primeiros fios brancos – no meio da perseguição, do tumulto, Yu havia caído no chão.

Estamos, neste momento, com exatos 28 minutos do filme que dura 109. Há um corte, e vemos um letreiro, em chinês e em inglês: “Three years later, the Cultural Revolution ends”.

Apenas três depois daquela sequência na estação ferroviária, a Revolução Cultural terminou.

Após a morte de Mao-tsé Tung, vieram os reformistas liderados por Deng Xiaoping, e com eles tempos menos efervescentes, buliçosos, belicosos.

Lu Yanshi é libertado do campo de trabalhos forçados, como dezenas e dezenas de milhares de outros chineses que em algum momento expressaram algo que foi entendido pelos membros do Partido como conduta não revolucionária.

Mas o que vem pela frente, para Lu, assim como para sua filha Dan Dan e sua mulher Yu, não é, absolutamente, a paz, a tranquilidade, após tanto sofrimento. A tragédia que havia se abatido sobre a família tinha deixado marcas profundas que não sairiam mais.

Antecipar o que se segue à libertação de Lu da prisão seria, creio, um spoiler – mesmo que as sinopses do filme em geral avancem e adiantem os fatos que só virão depois de meia hora de filme.

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Zhang Yimou consegue a proeza de fazer uma obra que é universal

Costumo dizer, sempre que vejo um filme chinês, que tudo aquilo ali é tão distante, tão impenetrável, tão incompreensível quanto se fosse uma civilização de um planeta distante. A China é, de fato, um planeta muito distante. Como escrevi na anotação sobre Um Toque de Pecado (2013), de Jia Zhangke: Não dá para compreender os valores dos seres que habitam aquele lugar. Estranhissimamente, no entanto, lá eles sabem fazer filmes de altíssima qualidade. Não consigo entender patavina dos valores deles, da forma com que os personagens se comportam – mas sei perfeitamente identificar que eles fazem cinema magnificamente.

Estranhissimamente, no entanto, neste seu filme de 2014, Zhang Yimou conseguiu o prodígio de fazer uma obra que não é difícil de um ocidental compreender, captar, assimilar. A trágica história dessa família separada por questões políticas é absolutamente universal. Não é preciso entender coisa alguma de China para que o espectador se identifique com esses personagens, torça por eles, fique do lado deles.

Já havia sido assim com o filme imediatamente anterior do cineasta, Flores do Oriente, de 2013, em que, além de tudo, o personagem central é um ocidental, um americano que estava havia algum tempo radicado na China quando o país foi invadido pelo exército japonês, em 1937.

Mesmo em seus épicos fantasiosos sobre adagas e heróis bailarinos, como Herói (2002), O Clã das Adagas Voadoras (2004) e A Maldição da Flor Dourada (2006), o cineasta conseguiu conquistar o público dos países ocidentais.

O sucesso não sai barato. Quando um cineasta não americano e não europeu ocidental faz sucesso nos países mais ricos do mundo, muitos críticos costumam torcer o narizinho empinado. Acusam o dito cineasta de ter abdicado da sua fonte original de inspiração, de ter deixado de lado os valores básicos da sua cultura, de ter passado a trabalhar de olho no sucesso internacional.

Para dar apenas um exemplo: quando o grego Mihalis Kakogiannis passou a ter seus filmes muito aplaudidos mundo afora, com seu nome transmutado para Michael Cacoyannis, virou febre mundial entre os críticos dizer que ele havia passado a fazer filmes para turistas estrangeiros.

O sucesso realmente não sai barato. O Brasil – só para dar um outro exemplo – falou muito mal de Carmen Miranda quando ela estourou nos Estados Unidos. Bruno Barreto também levou muita porrada na época em que fez bons filmes em Hollywood.

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“Mistura curiosa de suspense e melodrama que vai ficar ressoando em sua cabeça”

Esse fenômeno talvez explique a existência de textos como o que transcrevo aí em seguida, assinado por um Jorge Mourinha, no site português Público, em julho de 2015:

“Zhang Yimou filma que se desunha, sim, mas nem a regressada Gong Li salva Regresso a Casa de ser um melodrama manipulador e calculado.

“Por breves instantes, parece que o chinês Zhang Yimou voltou aos seus grandes momentos – pouco depois do início de Regresso a Casa há uma sequência extraordinária, virtuosa de construção e execução, onde, sem diálogos de espécie nenhuma e usando apenas câmara e montagem, o cineasta faz passar de modo sublime tudo o que é preciso saber sobre pai, mãe e filha de uma família desfeita na China dos anos 1970, apanhada na vertigem das purgas da Revolução Cultural.

“Zhang Yimou, de há uns tempos para cá erguido a ‘cineasta oficial’ do regime chinês, sabe. Mas não precisava deste filme para o provar.”

Como é que é? Cineasta oficial do regime chinês?

Denunciar, com a força absoluta deste filme brilhante aqui, o horror da ditadura comunista na China deu a ele o cargo de “cineasta oficial do regime”?

Todo mundo tem direito a suas opiniões. Aqui vão trechos do que escreveu Adam Sidsworth em outubro de 2015 no site Toronto Film Scene:

“O diretor Zhang Yimou é mais conhecido pelas audiências ocidentais por Herói e Lanternas Vermelhas. Seu filme mais recente, Coming Home, não tem todas as cores vivas de seus trabalhos anteriores, mas trai seu detalhe e sua composição cinematográficas.”

Aí o autor faz uma sinopse da história, para depois continuar:

“Os primeiros 40 minutos são um exercício de estranha montagem que deixaria Spielberg com inveja. (…) Os últimos dois terços do filme mudam o tom para o melodrama.” E ele prossegue relatando a história, para, ao fim, fazer um paralelo com Um Corpo Que Cai, de Hitchcock – que não me ocorreria de forma alguma – e sintetizar que “é um melodrama na veia de Douglas Sirk”.

O texto conclu dizendo que as pessoas deveriam ver o filme: “Se você for um fã de Zhang Yimou, esta é um interessante distanciamento de seus mais famosos filmes de ação. É uma mistura curiosa de suspense e melodrama que vai ficar ressoando em sua cabeça.”

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Cada filme de Zhang Yimou me deixa mais impressionado com o talento dele

Antes de encerrar, é necessário fazer o registro: havia oito anos que Gong Li e Zhang Yimou não trabalhavam juntos.

Gong Li e Zhang Yimou são assim como Diane Keaton e Woody Allen, como Liv Ullmann e Ingmar Bergman, como Giulietta Massina e Federico Fellini, como Anna Karina e Jean-Luc Godard.

Diretor e atriz começaram sua maravilhosa colaboração em 1987, em Sorgo Vermelho – aos 22 aninhos, ela ainda era uma estudante, quando ele, 14 anos mais velho, estreava na direção. Viveram juntos até 1995, mas mantiveram a cumplicidade cinematográfica depois de separados. Em 2006, fizeram A Maldição da Flor Dourada. E voltaram a se reunir aqui.

Voltando um tiquetinho atrás.

Todo mundo tem direito a suas opiniões. Eu, de minha parte, achei este filme uma obra-prima. Cada vez que vejo um filme de Zhang Yimou fico mais impressionado com o talento dele. É um dos grandes cineastas da História.

Anotação em março de 2016

Amor para a Eternidade/Gui lai

De Zhang Yimou, China, 2014.

Com Gong Li (Wanyu Feng, Yu), Chen Daoming (Lu Yanshi), Zhang Huiwen (Dan Dan, a filha)

e Guo Tao (agente Liu), Yan Ni (agente Li), Li Chun Li (Cui Meifang), Zhang Jia-yi (doutor Dai), Ding Jiali Ding (a mulher de Fang), Bai Qing Xin (agente na escola de balé)

Roteiro Zou Jingzhi

Baseado no romance de Yan Geling

Fotografia Zhao Xiaoding

Música Chen Qigang

Solos de piano Lang Lang

Produção Le Vision Pictures, Wanda Midia Co, Eko Beijing Films.

Cor, 109 min

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Título em inglês: Coming Home. Em Portugal: Regresso a Casa.

Um Comentário

  1. Valdecir Tozzi
    Postado em 13 dezembro 2016 às 6:48 am | Permalink

    Sérgio, assisti ao filme, depois vim ler seu comentário e, como esperava, sua nota foi 4 estrelas.
    Talvez tantos se incomodem com o filme porque ele é um filme para plateias adultas que fala de problemas (no caso da China, principalmente) reais e como loucuras políticas interferem no dia a dia de gente como a gente (para usar suas próprias palavras).

Um Trackback

  1. […] “A China é, de fato, um planeta muito distante. (…) Não dá para compreender os valores dos seres que habitam aquele lugar. (…) Não consigo entender patavina dos valores deles, da forma com que os personagens se comportam – mas sei perfeitamente identificar que eles fazem cinema magnificamente.” (50 Anos De Filmes) […]

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