A Incrível História de Adaline / The Age of Adaline

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Nota: ★★½☆

Adaline Bowman, a protagonista do filme que leva seu prenome no título, recebeu do destino um dom que é o sonho de quase todas as pessoas: ela é imune à passagem do tempo. A partir de um determinado evento ocorrido quando tinha 29 anos, em 1937, Adaline parou de envelhecer.

Quando a ação começa, estamos em 31 de dezembro de 2014. Adaline nasceu em 1º de janeiro de 1908, e portanto está para completar 107 anos de vida – mas aparenta 29.

A fonte da eterna juventude. O Santo Graal. O sonho dourado de praticamente todo mundo.

Mas, para Adaline Bowman – assim como para muitos vampiros de tantos filmes, para o Nosferatu de F.W. Murnau e depois de Werner Herzog, para o Conde Drácula interpretado por Gary Oldman no filme de Francis Ford Coppola – a bênção é, na verdade, uma maldição.

Adaline – interpretada por Blake Lively, que em 2015, o ano de lançamento do filme, fez 28 – é uma mulher extremamente solitária. Seu mais fiel amigo é um cachorro, mas ele já está idoso, e, quando morrer, será mais um de uma longa fileira de outros fiéis cães a que ela se afeiçoou para depois perder.

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Não se permite ter relações afetivas. Um eventual namoro poderia se transformar em uma ligação séria, e isso está absolutamente fora de cogitação para Adaline: como se comprometer com um homem, se não pode contar a ninguém que, como os vampiros, ela é imortal?

No passado, bem no passado, um policial havia apreendido sua carteira de motorista, achando que era falsa, por causa da data de nascimento que não correspondia de forma alguma à sua aparência. E até o FBI tinha ido atrás dela para tentar entender que tipo de fraude aquela mulher praticava. Então ela havia decidido passar a vida trocando de identidade e de cidade. A cada dez anos, assumia novo nome, com novos documentos – e se mudava para outra cidade, outro Estado.

Naquele dia 31 de dezembro de 2014, ela vai pegar com um jovem falsário, Tony (Richard Harmon), seus novos documentos. Daí a alguns meses, lá por março do ano seguinte, segundo seus planos, abandonaria a identidade que vinha usando nos últimos dez anos, de Jenny Larson, deixaria San Francisco, a cidade em que nasceu, e se mudaria para o interior de Oregon.

É uma história original, criada diretamente para o filme. Uma bela história

Nessa sua existência como Jenny Larson, Adaline trabalha num órgão municipal, o arquivo público da cidade de San Francisco. No último dia de 2014, recebe a incumbência de organizar uma série de documentos e objetos que acabava de chegar ao órgão – inclusive alguns filmes, pequenos documentários, aqueles cinejornais de antigamente. Ela escolhe um rolo de filme referente a 1906, o ano do grande terremoto que atingiu a cidade belíssima cheia de colinas debruçada na baía de águas cristalinas.

É uma bela sacada do roteiro: o narrador da história se aproveita daquele momento em que Adaline está vendo um filme sobre a San Francisco do começo do século passado para contar para o espectador a história dela.

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A voz do narrador está presente desde a primeira sequência. É um narrador em terceira pessoa, que não é personagem da história. A voz sempre em off (de Hugh Ross, que já foi narrador em outros filmes), grave, séria, pausada, explica para o espectador, logo que a ação começa:

– “Em 31 de dezembro de 2014, um táxi rodou através de San Francisco, da Chinatown até Marin. O carro levava uma única passageira: uma mulher, de nome de batismo Adaline Bowman, então usando o nome de Jennifer Larson. Este é o primeiro e último capítulo de sua história”.

A história de Adaline Bowman foi criada diretamente para o filme por J. Mills Goodloe & Salvador Paskowitz. O roteiro é assinado da seguinte maneira: “J. Mills Goodloe & Salvador Paskowitz e J. Mills Goodloe”. Se eu entendo corretamente as convenções do Writers Guild of America, o sindicato dos roteiristas, isso significa que Goodloe & Paskowitz são os autores da história e escreveram uma primeira versão do roteiro, e depois Goodloe reescreveu e deu a forma final.

Mas isso é detalhinho mínimo. O que importa é dizer que a história foi criada por esses dois senhores, Goodloe e Pazkowitz. É uma história fascinante, como o eventual leitor já terá percebido – quer coisa mais fascinante que uma mulher que, não sendo vampira, sendo uma pessoa normal, comum, torna-se, por algum motivo, imune à passagem do tempo, como se tivesse descoberto o elixir da eterna juventude – e, em vez de se esbaldar com esse dom, tem uma existência miseravelmente solitária, amarga?

O filme fica tentando dar uma explicação científica para o não envelhecimento

Os autores da história e do roteiro quiseram inventar uma explicação científica para Adaline ser aquinhoada com esse dom de não envelhecer.

Poderiam não ter tentado isso. Poderiam simplesmente ter deixado barato. Que eu me lembre, F. Scott Fitzgerald não ficou tentando achar uma explicação lógica para o fato de Benjamin Button ter nascido bem velhinho e ter se rejuvenescido à medida em que os anos passavam, até virar um bebezinho, em seu conto publicado em 1921 no livro 6 Tales of the Jazz Age, que daria origem ao filme O Curioso Caso de Benjamin Button, de 2008.

Também não me lembro se há alguma tentativa de explicar cientificamente por que a personagem interpretada por Daryl Hannah, que salva um garoto do afogamento, é uma sereia, em Splash, de 1984.

Nem ficou procurando desculpas lógicas o autor da história do dramaturgo – interpretado por Christopher Reeve – que volta ao passado, através da hipnose, para encontrar a atriz cujo retrato o fascina, em Em Algum Lugar do Passado, de 1980.

O que quero dizer é que tentar explicar cientificamente as coisas é desnecessário. Cinema é também fantasia, ilusão, fábula, delírio, devaneio, faz de conta, mentirinha.

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Na minha opinião, a pior coisa deste The Age of Adaline é exatamente a tentativa de racionalizar a ilusão, a fantasia.

O narrador usa uma linguagem que os roteiristas devem ter considerado próximas do que falam os cientistas, os físicos, os astrônomos, para explicar por que razão um raio que atingiu o carro em que estava Adaline, mergulhado nas águas geladas de um rio, durante uma inesperadíssima nevasca em plena Califórnia terra do sol, foi capaz de mexer com nêutrons e prótons ou sei lá o que e – tchám: tornou a moça imune à passagem do tempo.

Comentei com Mary e Andrea, que estava conosco quando vimos o filme, que aquele palavreado era o maior papo-furado. Depois que o filme terminou, dei uma espiada no IMDb e caí na crítica do New York Times, assinada por Manohla Dargis. Sobre esse momento do filme, a crítica escreve que é “um estranho acidente de carro – raio, um banho gelado, algum mumbo-jumbo narrado”. Adorei. É exatamente isso: mumbo-jumbo, a deliciosa expressão que significa um papo ou uma atividade cercada de mistério, que parece sem sentido, absolutamente confuso. Papo furado, em suma.

Uma bela sequência: a mãe almoça com a filha que parece ser sua avó

Quando o acidente de carro acontece, em 1937, Adaline com 29 anos de idade, já era viúva: o marido havia morrido durante a construção da Golden Gate, um dos cartões-postais mais belos do mundo. Adaline estava dirigindo, naquela noite em que começou a nevar, até a casa de seus pais, onde estava sua única filha, Flemming.

Flemming vai crescendo como todas as pessoas do mundo, é claro, e é interpretada por diferentes atrizes em flashbacks – Izabel Pearce (quando está com 5 anos), Julia Torrance (13 anos), Cate Richardson (20 anos). Na época atual, na época da ação, a filha de Adaline é uma simpática velhinha que parece avó da própria mãe, e vem na pele de Ellen Burstyn, essa atriz maravilhosa (na foto acima).

As duas almoçam juntas no dia 1º de janeiro de 2015, bem no início do filme. É o dia, repito, do aniversário dela – 107 anos, corpitcho eternamente de 29. É uma bela sequência.

Na sua crítica no New York Times, Manohla Dargis define essa sequência do almoço das duas mulheres como o momento mais mágico do filme, graças ao talento de Ellen Burstyn. A moça jovem diz para a velhinha que ela não tem tido cuidado com o sal: – “Vejo que você se esqueceu de nossa conversa sobre o sódio”.

É a mãe dando bronca na filha, embora a filha aparente ser avó da mãe. Nesse momento, a filha velhinha, Flemming-Ellen Burstyn, tem uma atitude de criança mimada. Ela responde: – “Não, eu estou simplesmente escolhendo ignorar a conversa” – e joga um monte de sal em cima da salada.

A crítica do New York Times está certa: é de fato um momento mágico. O bom cinema é feito de pequenos detalhes, agudas observações sobre pequenos detalhes do comportamento humano.

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Na festa do réveillon, Adaline conhece o Príncipe Encantado

Algumas horas antes de sair para almoçar com a mãe no dia de seu aniversário, o primeiro dia do ano de 2015, Adaline havia conhecido o Príncipe Encantado. Tinha sido na festa de réveillon em um dos mais finos hotéis de Nob Hill (onde por absoluto acaso do destino fiquei hospedado uns dois dias, quando estive pela primeira de duas vezes nessa cidade que é a mais bela do mundo depois do Rio de Janeiro).

O Príncipe Encantado é um jovem de barba, de fina estampa. Chama-se Ellis, e, depois que os dois se olham de longe no amplo salão, ele vai correr atrás dela e alcançá-la quando ela entra no elevador. A primeira conversa de Adaline Bowman e Ellis se dá ao longo de 27 andares e depois na calçada, enquanto ela espera um táxi que chega bem rapidamente.

Ele diz seu prenome, e ela pergunta se é como a ilha – a Ellis Island, que fica na entrada de Nova York, para onde eram levados os imigrantes europeus que chegavam de navio, em hordas, nas décadas finais do século XIX e iniciais do XX.

O Principe Encantado Ellis, de nome igual ao da ilha absolutamente emblemática, é, como manda o figurino de Príncipe Encantado, um milionário. Não de herança, mas graças à sua própria inteligência: tinha inventado com um colega algo como um programa de informática aplicável no mercado financeiro, e vendido a empresa criada a partir daí por alguns milhões de dólares. Nas histórias modernas, o Príncipe Encantado vem como uma espécie de Mark Zuckerberg – só que muitíssimo mais doce, suave, belo e charmoso.

E está dado o grande impasse da história: envolvimento afetivo era proibido na vida de Adaline Bowman. E agora?

Mais tarde surgirá ainda um impasse gigantesco, mas adiantar qualquer coisa sobre ele seria spoiler inadmissível. Só dá para dizer – sem estragar o prazer de se ver o filme – que o impasse gigantesco virá quando surge em cena Harrison Ford.

Hans Solo-Indiana Jones envelheceu. Continua com fina estampa, mas, claro, hoje é um senhor idoso. Todo mundo envelhece, menos Benjamin Button, que só fica mais jovem, e Adaline Bowman, que fica com 29 anos para todo o sempre, ou quase.

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Na minha opinião, faltam à atriz central carisma, presença forte na tela

O ator que faz Ellis é Michiel Huisman, jovem holandês nascido em 1981. Fez um papel pequeno em Livre/Wild (2014), e havia trabalhado também em A Espiã (2006), de Paul Verhoeven, um belo filme, mas parece que ficou conhecido por Game of Thrones; nessa série que eu jamais vou ver, interpreta Daario Naharis. Seu primeiro papel como protagonista no cinema americano foi neste filme aqui.

A garota Blake Lively tornou-se famosa em outra série de TV, Gossip Girl. Vejo que ela trabalhou em três filmes que já estão aqui neste site – Vidas Cruzadas – A Vida Íntima de Pippa Lee (2009), Nova York, Eu Te Amo (2009) e Atração Perigosa/The Town (2010). Nunca havia reparado nela.

Não tem uma beleza estonteante, nem (na minha opinião, é claro, que é só uma opinião) demonstra carisma, presença forte. E essas qualidades, me parece, seriam necessárias para a atriz que interpreta essa personagem que atravessa duas guerras mundiais e algumas revoluções comportamentais ao longo da vida.

Segundo o IMDb, Blake Lively não foi a primeira escolha dos produtores. A maravilhosa Natalie Portman recusou o papel; a belíssima Katherine Heigl também foi convidada, chegou a aceitar, mas antes de as filmagens começarem pediu para sair do projeto.

Em suma, é assim: não chega a ser um belo filme, infelizmente. Mas parte de uma premissa interessante, mexe com essa coisa fundamental que é o passar do tempo, o envelhecer, traz uma revelação surpreendente lá pelo meio da história. É agradável de se ver, em suma.

Poderia perfeitamente é ter dispensado o mumbo-jumbo de tentar explicações científicas para a fantasia de o tempo parar de correr para a personagem-título.

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Anotação em outubro de 2016

A Incrível História de Adaline/The Age of Adaline

De Lee Toland Grieger, EUA-Canadá, 2015

Com Blake Lively (Adaline Bowman)

e Michael Huisman (Ellis Jones), Harrison Ford (William Jones), Ellen Burstyn (Flemming), Kathy Baker (Kathy Jones), Amanda Crew (Kikki Jones), Lynda Boyd (Regan), Hugh Ross (o narrador), Richard Harmon (Tony, o falsário), Izabel Pearce (Flemming aos 5 anos), Julia Torrance (Flemming aos 13 anos), Cate Richardson (Flemming aos 20 anos)

Roteiro J. Mills Goodloe & Salvador Paskowitz e J. Mills Goodloe

Baseado em história de J. Mills Goodloe & Salvador Paskowitz

Fotografia David Lanzenberg

Música Rob Simonsen

Montagem Melissa Kent

Produção Lakeshore Entertainment, Sidney Kimmel Entertainment, Sierra / Affinity.

Cor, 112 min

**1/2

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