A Enfermeira Assassina / Nurse 3-D

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Nota: ★☆☆☆

Eis aí um filme que me surpreendeu, me intrigou, me assustou um tanto, me deixou um pouco zonzo e incapaz de desligar a TV enquanto ele não terminasse.

A sensação que tive é que o diretor Douglas Aarniokoski a) tem talento, ou, no mínimo, domina com perfeição o artesanato e b) faz um esforço incrível, absurdo, para produzir o filme mais trash, mais lixo, mais porcaria que já houve.

Quer ser pior que Ed Wood, tido como o pior diretor de cinema do mundo.

É um filme de terror, mas de um terror exagerado, tão exagerado que parece uma paródia de si mesmo. Em diversos momentos, é quase um filme abertamento pornográfico. Vai ficando cada vez mais sanguinolento à medida que a trama avança, e no final tem uma longa sequência de assassinatos e sangue espirrando que nem água nos géiseres para deixar o mais violento e abjeto slasher movie no bolso, no chinelo.

Para quem não lembra: slasher, como diz, bem apropriadamente, a Wikipedia, é um subgênero de filmes de terror quase sempre envolvendo assassinos psicopatas que matam aleatoriamente. Envolvem muito sangue e em geral são feitos com baixo orçamento.

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Mas este Nurse 3-D não teve propriamente um orçamento muito baixo; custou US$ 10 milhões, o que é bem pouco em termos de Estados Unidos, mas não chega a ser uma ninharia. Tanto que, conforme o próprio título original indica, foi filmado para ser visto em terceira dimensão. O que explica a quantidade de sangue jorrando na tela.

Terror explícito, muito sexo, quase o tempo todo, muito sangue. Slasher, e trash. E, ao mesmo tempo, mostrando que foi feito por quem tem talento, e usou o talento para propositalmente fazer um esforço imenso para produzir o lixo mais lixo, o sanguinolento mais sanguinolento.

Um esforço brutal para conseguir fazer o maior lixo da História

Sim, mas então como é possível que um senhor sexagenário que já viu muito Bergman, Visconti e Truffaut na vida tenha ficado vendo essa porcaria?

Pois é. Era madrugada profunda, passava da hora razoável de ir para a cama, mas eu continuava sem sono, e resolvi dar uma zapeada. Quando bati os olhos neste filme, que estava começando naquele momento no Telecine Action, parei para ver um pedacinho. Nas zapeadas, gosto muito de ver os inicinhos, os leads dos filmes. E, em cinco minutos, já dava para perceber as duas coisas: que é uma porcaria absoluta, mas que o diretor tem talento. Aí fui me deixando ver – afinal, gosto de filmes, gosto de ver filmes, de todos os gêneros, de todos os tipos. E fui sendo fisgado por essa dualidade esquisita, porcaria x talento, e fui me surpreendendo cada vez mais com o esforço brutal do diretor – e da atriz principal, Paz de la Huerta, que faz a enfermeira do título – para fazer a maior pérola do trash que já se viu na História.

E simplesmente não consegui parar.

Acho de fato que a intenção do diretor e co-roteirista Douglas Aarniokoski foi criar a maior pérola do trash que já se viu na História. E fiquei achando que o filme poderá até, em alguns círculos de adolescentos piradinhos, góticos, dark ou seja que nomes mais tenham essas tribos (que são o público específico dos slasher movies), virar um cult. Quem sabe?

Seria necessário uma sinopse, mas tenho preguiça. Pego a que está no IMDb, e que foi divulgada pela Lionsgate, a empresa que assumiu a produção do filme:

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“Durante o dia, Abby Russell é uma dedicada enfermeira, alguém em quem você não hesitaria em confiar sua vida. Mas à noite seu verdadeiro trabalho começa… Usando sua fumegante sexualidade, ela atrai homens adúlteros para sua morte brutal e os expõe da forma com que eles realmente são. Quando uma enfermeira mais jovem começa a suspeitar das ações de Abby e pode comprometer seu plano principal, ela precisa descobrir uma forma de ser mais esperta do que a outra.”

Hum… É uma sinopse oficial, divulgada pela empresa produtora – mas não é acurada, não reflete bem o que é a trama assinada pelo diretor Douglas Aarniokoski e David Loughery.

Tento fazer uma mais fiel à trama do filme.

Abby Russell (Paz de la Huerta) parece uma enfermeira modelo. Trabalha num gigantesco hospital de Nova York, e é ela que narra a história para o espectador. Deixa bem claro, desde o início, que não tem qualquer simpatia pelos médicos, todos, segundo ela, uns aproveitadores, sempre dispostos a cantar as enfermeiras, a se esfregar nelas. Quando um novo grupo de estagiárias chega para trabalhar no hospital, Abby demonstra grande admiração por uma delas, Danni (Katrina Bowden, à direita na foto abaixo), e resolve torná-la sua protegida, afilhada, aprendiz.

Danni tem um namorado, Steve (Corbin Bleu), que está tentando convencê-la a sair da casa da mãe e ir morar com ele. Mas Danni ainda não aceita a idéia, em parte porque não quer deixar a mãe sozinha com seu novo marido, um psiquiatra, Larry (Martin Donovan), de quem a moça não gosta de jeito algum.

Bem rapidamente se mostra que Abby, a veterana, se apaixona loucamente por Danni, a novata. E em seguida passará a fazer todas as loucuras possíveis e imagináveis para conquistar o amor da mais nova. Mais tarde, fará diversos outros tipos de loucura, enquanto Danni, com facilidade, desvenda o passado – louquíssimo – de Abby.

É. Acho que isso dá uma idéia do que é a trama.

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Paz de la Huerta exagera o exagero do exagero da canastrice

Mais que a trama, porém, importa a maneira como o filme a apresenta.

Essa moça Paz de la Huerta, americana filha de espanhol, que faz a enfermeira Abby, se esforça tremendamente para soar o mais falso que for possível. Não é apenas que ela exagera nas caras e bocas. Ela exagera o exagero do exagero da canastrice – e tudo parece absolutamente proposital, intencional, muito bem pensado e decidido.

A figura da moça é esquisita. Não chega a ser bonita – ou, no filme, trabalharam para enfeiá-la. Tem lábios muito grossos, e passa boa parte das cenas fazendo beicinho, quer dizer, beição. É bem magra, como é hoje o padrão de modelos, e usa roupas justérrimas e microssaias para realçar as carnes que não existem.

O diretor Douglas Aarniokoski usa todos os artifícios possíveis e imagináveis, todo o estoque de criativol que há no mercado. Usa câmara lenta, faz movimentos de câmara inusitados, como se estivesse fazendo um videoclipe. As tomadas são sempre muito curtas, e então tudo fica num ritmo frenético.

Aarniokoski começou a carreira em 1991, como assistente de direção e diretor de segunda unidade – foi assistente de Roberto Rodriguez em Um Drink no Inferno (1996) e Era uma Vez no México (2003). Sua carreira como diretor é quase toda na TV, em séries.

O IMDb informa que este Nurse 3-D foi filmado em 2001, e ficou pegando poeira durante dois anos antes que a produtora Lionsgate decidisse lançá-lo.

Para encerrar, uma nota triste: aparece em uma sequência, fazendo o papel da chefe das enfermeiras, a maravilhosíssima Kathleen Turner. É difícil reconhecê-la. Tadinha, meu Deus do céu e também da terra, ter que se submeter a trabalhar numa porcaria destas, e mesmo assim num papel mínimo…

Nurse 3D

Anotação em dezembro de 2015 

A Enfermeira Assassina/Nurse 3-D

De Douglas Aarniokoski, EUA, 2013

Com Paz de la Huerta (Abby Russell), Katrina Bowden (Danni Rogers) e

Judd Nelson (Dr. Robert Morris), Corbin Bleu (Steve), Boris Kodjoe (detetive Rogan), Melanie Scrofano (Rachel Adams), Niecy Nash (Regina), Martin Donovan (Larry Cook), Brittany Adams (jovem enfermeira), Kathleen Turner (enfermeira-chefe), Adam Herschman (Jared)

Argumento e roteiro Douglas Aarniokoski e David Loughery

Fotografia Boris Mojsovski

Música Anton Sanko

Montagem Andresw Coutts

Produção Lionsgate.

Cor, 84 min

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