A Bela e a Fera / La Belle et la Bête

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Nota: ★★½☆

A Bela e a Fera versão 2014 é uma superprodução cara (33 milhões de euros, ou cerca de US$ 35 milhões), caprichadíssima em todos os quesitos técnicos, com efeitos especiais extraordinários, e um visual acachapante, fantástico.

Parece ser bem fiel ao conto de fadas original escrito na França no meio do século XVIII.

Tem grandes nomes no elenco. A Bela é interpretada por Léa Seydoux, esse jovem fenômeno do cinema francês que deixou meio mundo babando por sua interpretação como uma das moças lésbicas de Azul é a Cor Mais Quente, pela qual levou a Palma de Ouro em Cannes, dividida com Adèle Exarchopoulo.

A Fera é Vincent Cassel, um dos mais populares atores franceses em atuação hoje, mais de 70 títulos no currículo.

O pai da Bela é feito por André Dussolier, um monstro, que começou a carreira dirigido por François Truffaut em Uma Jovem Tão Bela Como Eu (1972), trabalhou com Claude Lelouch em Toda uma Vida (1974), com Ettore Scola em A História de um Jovem Homem Pobre (1995), virou um dos prediletos do mestre Alain Resnais.

E ainda tem, no papel de Perducas, um bandido que inferniza a vida da família da Bela, Eduardo Noriega, o ator espanhol de – entre outros 50 títulos – Morte ao Vivo/Tesis (1996), Preso na Escuridão/Abra los Ojos (1997), O Que Você Faria?/El Método (2005).

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Foi escolhido pela Rede Globo para ser exibido num Tela Quente especial no dia 26 de dezembro, com direito a chamadas no caríssimo intervalo do especial de fim de ano de Roberto Carlos.

É um bom filme. Mas…

É uma história que fascina gerações. Mas para quem o filme se dirige?

Quando terminou, Mary e eu tivemos a mesma sensação. Ficamos nos perguntando para que tipo de público, afinal de contas, se dirige este A Bela e a Fera.

Com momentos bastante assustadores, certamente não é para crianças – embora haja tantos momentos assustadores nos filmes dos estúdios Disney, só para dar um exemplo.

Conto de fadas, história da carochinha, fantasia pura, também não é exatamente um filme para platéias adultas, maduras.

Seria então um filme voltado para adolescentes? Para mocinhas, talvez, porque as mocinhas costumam ser românticas. Rapazes – creio eu – não teriam interesse por essa estranha história de amor.

Bem, mas que essa história fascina as pessoas, é preciso admitir que, sim, fascina. Ou não teriam sido feitos nove filmes contando essa trama criada por Gabrielle-Suzanne Barbot, Dama de Villeneuve, em 1740, e que se tornou mais conhecida em sua versão lançada em 1756 por Jeanne-Marie LePrince. Essa escritora – a quem é creditada a história nos créditos finais do filme – modificou e resumiu a história original criada por Madame Villeneuve.

Quem informa que esta aqui foi a nona versão cinematográfica de A Bela e a Fera é o site AlloCiné, que tem tudo sobre os filmes em língua francesa.

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A primeira versão, a mais clássica, foi lançada em 1946, um ano após o fim da Segunda Guerra Mundial, pelo genial Jean Cocteau (1889-1963), poeta, romancista, cineasta, designer, dramaturgo, ator. O papel da Bela foi de Josette Day, atriz já então veterana, com mais de 40 filmes no currículo. E o da Fera foi, naturalmente, de Jean Marais, a musa inspiradora de Cocteau e seu amante. O filme é unanimemente tido como uma obra-prima do cinema, o perfeito e melhor exemplar do ilusionismo poético.

Em 1978 houve uma produção da Checoslováquia, tida como a mais sombria de todas as versões do conto, com um clima gótico, dark, apavorante.

O desenho dos estúdios Disney foi lançado em 1991, e é um tremendo sucesso até hoje.

A TV canadense produziu uma série de 4 temporadas, exibidas entre 2012 e 2016 – uma adaptação bem livre da história básica para os dias de hoje, em que a Bela é uma detetive que se apaixona por um ex-soldado.

O diretor Christophe Gans é um especialista em fantasia, fantástico

Apesar das muitas qualidades, esta co-produção França-Alemanha de 2014 não foi um grande sucesso. Nem também um horrível fracasso – teve 1,6 milhão de espectadores na França e uma renda total de US$ 44 milhões.

O nome do diretor Christophe Gans não me dizia nada. Vejo agora que ele sempre foi chegado à fantasia, ao fantástico, ao que beira o surreal. É dele O Pacto dos Lobos (2001), um filme marcante, que fez muito sucesso, sobre o cavaleiro que, no século XVIII, é enviado pelo rei da França a uma província em que uma misteriosa besta dizimou centenas de vidas.

Em 2006, dirigiu Terror em Silent Hill, uma co-produção Canadá-França-Japão falada em inglês, com elenco internacional. Depois desse filme, teve um longo hiato de oito anos até seu filme seguinte, este A Bela e a Fera.

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Escrevi lá em cima que o filme “parece ser bem fiel ao conto de fadas original”. Usei parece ser porque não sou um entendido em A Bela e a Fera. Na verdade, não tinha visto nenhuma das várias versões até agora – e me animei a ver esta por causa dos bons atores e para enfim conhecer a história. Depois que vimos o filme, lemos a sinopse da história (re)escrita por Jeanne-Marie LePrince, e nos pareceu que de fato o roteiro – assinado pelo diretor Christophe Gans e Sandra Vo-Anh – foi bastante fiel.

O site AlloCiné confirma isso. Em entrevistas, Christophe Gans afirmou que seu desejo era de fato fazer a primeira adaptação cinematográfica realmente fiel ao conto do século XVIII.

Outras informações sobre a produção, a maioria tirada do AlloCiné:

* Boa parte das filmagens foi feita no mítico estúdio Babelsberg, nos arredores de Berlim. Foi nesse estúdio que foram feitas algumas das obras-primas do expressionismo alemão nos anos 20, entre a Primeira e a Segunda Guerra Mundial, entre elas nada mais, nada menos que Nosferatu de F.W. Murnau (1922) e Metropolis de Fritz Lang (1927).

* Ao contrário de seu excelso predecessor francês, A Bela e a Fera de Jean Cocteau, este aqui se concentra mais na Bela que na Fera. E também diferentemente de Jean Marais, que tinha que submeter a um massacrante período de maquilagem de até quatro horas por dia, Vincent Cassel não teve que passar por essa tortura. Pelo que o AlloCiné dá a entender, a cara do monstro foi colocada sobre o rosto do ator na pós-produção, como efeito de computação gráfica. O fascinante é que o rosto do monstro de fato tem os traços básicos do rosto de Vincent Casssel.

* Neste filme, o diretor Christophe Gans reencontrou o ator – Vincent Cassel – e o produtor – Richard Grandpierre – do seu sucesso O Pacto dos Lobos.

* Christophe Gans disse em entrevista que não poderia imaginar outros atores para os papéis principais: Vicent Cassel e Léa Seydoux foram as primeiras e únicas escolhas dele e da equipe de produção: “Parecia evidentemente para nós que Vincent Cassel era o único ator francês capaz de interpretar de uma vez só um príncipe e uma besta. Quanto a Léa Seydoux, ela tem um jeito de ser que tem algo de contemporâneo, mas ao mesmo tempo eterno e clássico, natural e sofisticado.”

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Na minha opinião, o filme aproveitou pouco a beleza de Léa Seydoux

Interessante que o diretor tenha sido tão enfático ao elogiar Léa Seydoux. Um detalhe que não gostei, no filme, é que me pareceu que Gans e seu diretor de fotografia, Christophe Beaucarne, não souberam ou não quiseram aproveitar bem a beleza do rosto da moça. Há pouquíssimos close-ups do seu rosto. O que é uma grande pena.

Mas há belos momentos. A sequência em que a Bela chama a Fera para dançar é de uma beleza visual fantástica. O personagem de Astrid, a cartomante, amante do bandido Perducas, é fascinante, talvez o personagem mais fascinante do filme. E a moça que a interpreta, Myriam Charleins – ulalá! Que estranha, forte beleza!

Incrível é verificar que o cinema não conseguiu passar sequer três anos sem fazer uma nova versão de A Bela e a Fera. A décima ficou pronta neste segundo semestre de 2016 e já tem estréia mundial marcada para março de 2017.

Vem com o selo Walt Disney Pictures, garantia tanto de bons serviços prestados quanto de sucesso. O diretor é Bill Condon, do premiadíssimo Chicago (2002), do bom musical Dreamgirls (2006) e de Sr. Sherlock Holmes, beleza de filme. A Bela é Emma Watson, a Hermione dos filmes Harry Potter; a Fera é feita por Dan Stevens, o Matthew Crawley de Downton Abbey, e o elenco tem duas feras, Emma Thompson e Ewan McGregor.

Essa nova versão dificilmente vou ver. Prefiro ir atrás do clássico de Jean Cocteau.

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Anotação em dezembro de 2016

A Bela e a Fera/La Belle et la Bête

De Christophe Gans, França-Alemanha, 2014

Com Léa Seydoux (Belle), Vincent Cassel (a Fera / o Príncipe), André Dussollier (o comerciante, pai de Belle)

e Eduardo Noriega (Perducas), Myriam Charleins  (Astrid, a cartomante), Audrey Lamy (Anne), Sara Giraudeau (Clotilde), Jonathan Demurger (Jean-Baptiste), Nicolas Gob (Maxime), Louka Meliava (Tristan), Yvonne Catterfeld (a princesa), Dejan Bucin (Louis), Wolfgang Menardi (Thierry), Mickey Hardt (Etienne), Arthur Doppler (Virgil)

Roteiro e diálogos Sandra Vo-Anh & Christophe Gans

Baseado na história de Jeanne-Marie Leprince de Beaumont

Fotografia Christophe Beaucarne

Música Pierre Adenot

Montagem Sébastien Prangère

Produção Richard Grandpierre, Eskwad, Pathé, TF1 Films Production, Studio Babelsberg, 120 Films, Canal+, Ciné+.

Cor, 112 min

**1/2

Um Trackback

  1. […] grande, imensa empresa, e é sexta-feira, no final do expediente. P., um funcionário (o papel de Eduardo Noriega), se aproxima da mesa de uma colega de trabalho, Mamen, o papel de Candela Peña – e o IMDb […]

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