Weeds – As quatro primeiras temporadas

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Nota: ★★★☆

Weeds tem todos os elementos para suscitar polêmica, criar bate-boca, atrair a ira dos conservadores de todos os matizes. É uma série de TV que mostra uma mãe de família de belo bairro traficando maconha. Tem tanto palavrão quanto um filme de Martin Scorsese sobre mafiosos – e fala de sexo da maneira mais aberta, franca, possível.

De quebra, se mete em todos os grandes temas que dividem as opiniões da população americana e do resto do mundo. Ridiculariza George W. Bush e seu governo, os militares e os fundamentalistas cristãos. Defende a eutanásia, a abertura das fronteiras aos imigrantes – e, naturalmente, a descriminalização do uso da maconha.

zzweeds2Apesar de abordar tantos temas polêmicos, foi um tremendo sucesso de público e crítica. Teve 102 episódios em oito temporadas, de 2005 a 2012, e colecionou 14 prêmios e mais 74 indicações.

Merece todo o sucesso que teve. É uma delícia. É danado de engraçado, é absolutamente hilariante.

Mary-Louise Parker, aquela gracinha, está muito à vontade e absolutamente competente como essa Nancy Botwin, uma jovem sem profissão, apenas esposa, do lar, que perdeu de repente o marido, morto por ataque cardíaco muito jovem, e se vê sozinha para criar os dois filhos, um de uns 15 anos, outro de 10.

Todo o elenco é ótimo, mas é claro que a melhor coisa, no meio de tantos bons atores bem dirigidos, é essa maravilha de Mary-Louise Parker. A série não existiria sem ela.

Desde que a vi em Tomates Verdes Fritos (1991), acho Mary-Louise Parker perfeita para papéis de mulher meio louquinha, meio piradinha, meio desajustada, mas ao mesmo tempo bela, atraente, charmosa, faceira e fascinantemente sensual. O papel de Nancy Botwin parece ter sido pensado para ela. Cabe nela como uma luva.

Weeds foge do realismo, do naturalismo, como o diabo da cruz. Essa é uma característica importante – quem gosta de realismo nu e cru precisa estar preparado para isso. Os criadores da série optaram por um tom que beira a farsa escancarada quase todo o tempo.

zzweeds3É tudo de uma ironia ferina, feroz. Weeds pega alguns dos mais caros ícones do American Way of Life e goza deles. Ri deles de forma delirante, acachapante, furiosa.

Weeds jamais, jamais, em tempo algum, iria ao ar na televisão de um país de regime totalitário, desses que não admitem crítica. Os Chávez, os Castro, os Mussolini, os Hitler, os Evo, os Jong-Un, os Amin-Dada nenhum deles permitiria uma série que gozasse de maneira tão escrachada os valores da sua sociedade.

Weeds é um fenômeno que só poderia crescer e frutificar na democracia.

Defende, de forma absolutamente explícita, que maconha, sexo e palavrão fazem um imenso bem aos seres humanos.

A série ridiculariza, de maneira violenta, a classe média ascendente

A série assesta suas flechas na classe média, a classe média ascendente, a classe média alta.

Quer ridicularizar – e ridiculariza – a classe média alta dos subúrbios.

E aí acho que é necessário lembrar alguns fatos básicos. Os dois ou três eventuais leitores que, desavisados, caírem aqui poderão talvez estranhar essa coisa de classe média alta dos subúrbios.

Nos Estados Unidos, subúrbio é o contrário do que é no Brasil. Lá, subúrbio é chique, é afluente, é novo rico.

zzweeds4A caixa de DVDs com a primeira temporada de Weeds tem até um filmete sobre o fenômeno do subúrbio. Mostra como, a partir da segunda metade dos anos 1940, pós Segunda Guerra, hordas e hordas de americanos da classe média das grandes metrópoles começaram a deixar seus apartamentos e se mudar para casas em bairros na periferia, distantes dos centros urbanos congestionados, barulhentos, infernais.

Muita da classe média de Nova York, por exemplo, fugiu para lugares ao Norte, no próprio Estado ou no vizinho Connecticut, aproveitando-se da existência de sólida, confortável rede de trens.

A grande metrópole do outro lado do país, Los Angeles, não tem essa rede fantástica de trens e metrô, mas lá também se deu o fenômeno, a partir do final dos anos 40 e ao longo dos 50 e dos 60: foram sendo criados condomínios fechados para a classe média.

Ao redor das grandes cidades americanas, foram surgindo dezenas e dezenas de Alphavilles.

O cinema e as séries de TV sempre mostraram essa vida no subúrbio. A trilogia De Volta para o Futuro mostra um loteamento novo um tanto distante da cidade. Toda a trama de Poltergeist se assenta no fato de que a família da história mora num condomínio de subúrbio. E.T. se passa num subúrbio desses. Steven Spielberg foi chamado de o cineasta dos subúrbios americanos. Don Draper, de Mad Men, mora no início da série num subúrbio ao Norte de Nova York. Em diversos filmes, boa parte dos personagens muito ricos que trabalham em Manhattan mora em casas nos subúrbios ao Norte, em Connecticut ou no próprio Estado de Nova York.

A canção tema tem ódio, desprezo pela classe média

Os créditos iniciais das três primeiras temporadas de Weeds  mostram um condomínio fechado num subúrbio fictício, o Agrestic, a alguns quilômetros de Los Angeles, ao som da canção “Little Boxes”.

Ai, ai, ai, ai, ai… “Little Boxes”.

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Ouvi “Little Boxes” antes mesmo de saber o que era essa coisa de folk songs. Acho que Nara Leão cantou “Little Boxes” no show Liberdade, Liberdade, lá por 1965. Pete Seeger gravou, foi um danado de um sucesso, e a gente ouvia muito Pete Seeger a partir de meados dos aos 60. Bem mais tarde, quando, em 1981, fui aos Estados Unidos pela primeira vez, e era a trabalho, um jornalista americano que fazia parte do grupo me mostrou um conjunto de casinhas todas iguais, num bairro de San Francisco, e disse que Malvina Reynolds havia se inspirado nelas para compor sua canção.

A idéia da canção de Malvina Reynolds, composta em 1962, é dizer que a classe média faz tudo sempre igual: usa o mesmo tipo de roupa, bebe o mesmo tipo de bebida, mora em casas iguais às outras, estuda, vai pra universidade, casa-se e tem filhos que farão tudo exatamente como os pais – todos conformistas, todos querendo manter tudo como sempre foi.

“Little Boxes” é uma canção que segue a mesma lógica de dezenas e dezenas de filmes italianos e franceses do pós-guerra, uma lógica toda inspirada numas doses mal aplicadas de marxismo no curso primário ou ginasial, que resulta na seguinte conclusão: trabalhador manual, trabalhador assalariado mal pago, trabalhador fodido, isso é o que existe de bom na humanidade. Se neguinho tiver mais do que o suficiente para não passar por necessidades básicas, fundamentais, se neguinho tiver apartamento com algum conforto, não passar fome, frio, então ele não é povo. E se ele tiver uns dois tostões de poupança, aí então é filho da puta. Agora, se for patrão – mesmo que dono de um pequeno restaurantezinho com três trabalhadores –, ah, aí então é filho da puta criminoso, doente da cabeça, do pé, burguesão, mau caráter, o horror dos horrores.

Quando eu tinha 14 anos e simpatizava com o comunismo, achava “Little Boxes” uma maravilha.

Agora velhinho, acho “Little Boxes” a expressão perfeita da pequenez das pessoas que se acham donatárias dos desejos, dos sonhos, de tudo que diz respeito ao “povo” – e, nessa missão a que se dedicam, têm profundo ódio pelas classes médias.

Pete Seeger cantava “Little Boxes” com imensa alegria. Pete Seeger era comunista e não tinha vergonha alguma dos crimes do camarada Josef Stálin.

Há no YouTube um vídeo de Marilena Chauí, a filósofa oficial do PT, vomitando asneiras contra a classe média.

Que Weeds pegue como tema de seus créditos iniciais essa canção tão, no mínimo, no mínimo, datada – para não dizer simplista, maniqueísta ou simplesmente idiota – , é ao mesmo tempo inquietante e fascinante.

zzweeds03Todos os créditos iniciais da primeira temporada são ao som de Malvina Reynolds, a autora da canção. Já na segunda e na terceira temporadas, “Little Boxes” é cantada, a cada episódio, por um grupo ou cantor diferente.

Tanta gente gravou essa canção pasquala… É impressionante: cantam “Little Boxes” nos créditos da segunda e da terceira temporadas, entre muitos outros, Donovan, Randy Newman, Billy Bob Thornton, Kinky, The Submarines, Aidan Hawken, Ozomatli, Tim De Laughter, Regina Spektor, Jenny Lewis e Jonathan Rice, Persephone’s Bees… No final do episódio 15, o último da terceira temporada, encerra-se o ciclo com a gravação histórica de Pete Seeger, a que divulgou a música para o mundo.

E, enquanto rola “Little Boxes”, vemos rápidas tomadas de um subúrbio, um condomínio fechado, com as confortáveis casas de dois andares cercadas por jardins – e das casas saem carros idênticos, da lanchonete saem pessoas vestidas exatamente do mesmo jeito, homens fazem suas corridas no parque vestindo as mesmas roupas de exercício, crianças vão para a aula como se fossem cópia xerox um do outro, crianças brincam em balanços como se fossem uma única pessoa. Todos sempre iguais, tudo sempre igual.

O filho mais velho não se dá muito bem nos estudos. O caçula é um geninho

Quando a primeira temporada começa, Judah (Jeffrey Dean Morgan), o marido de Nancy, já está morto, e ela já vende maconha para seus vizinhos de Agrestic. Mas a morte do marido é bem recente; Nancy ainda sente terrivelmente a falta dele – há rápidos flashbacks mostrando que os dois se amavam muito, eram extremamente carinhosos um com o outro. Os dois meninos também estão muito abalados com a ausência do pai.

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Silas (Hunter Parrish, na foto acima), o mais velho, que na primeira temporada está aí com uns 15 anos, vai ficar sabendo logo a atividade ilegal da mãe, e, na segunda temporada, pedirá para ela para participar do negócio – algo que, naturalmente, deixa Nancy assustada, temerosa. Quer para o filho o que toda mãe quer: que ele estude, faça uma faculdade, tenha uma profissão. Silas não vai bem na escola, não gosta de estudar, tem consciência de que não conseguirá ser admitido numa boa universidade. (Na foto, acima, Silas aparece ao lado de Tara – o personagem de Mary-Kate Olsen -, uma cristã fanática que, no sexo, não aceita o rompimento do hímen, mas faz todo o resto com muito prazer, e vende maconha adoidado.)

Shane (Alexander Gould, na foto abaixo), o mais novo, de 10 anos quando a série começa, é uma figuraça. É incrivelmente inteligente, tem sacadas maravilhosas, mas, como todo geninho, é um tanto, ou talvez bastante, despirocado, e tem atitudes inesperadas, imprevistas. Volta e meia é levado pelos professores à presença do diretor da escola, para levar advertências e às vezes suspensão por problemas de comportamento sérios.

Sente tremendamente a falta do pai. Nancy morre de medo de que o garoto descubra que ela trafica maconha – mas o segredo só vai durar até a segunda temporada.

Como eu já disse, todo o elenco está muito bem. Mas esse garotinho Alexander Gould, que interpreta Shane, se destaca. Ele é ótimo.

WeedsAté a empregada da casa é uma figuraça. Lupita (Renee Victor) está junto da família faz muito tempo, conhece todos muito bem, e é absolutamente folgada. Quando, por exemplo, a máquina de lavar louça quebra, Nancy manda que ela lave a louça na pia, e Lupita se recusa terminantemente, e chama alguém para consertar a máquina.

Depois que fica sabendo que a patroa trafica maconha, fica ainda mais folgada – e a primeira coisa que faz é pedir um aumento.

A série fala de sexo com absoluta naturalidade – e trepa-se loucamente

Mais folgado que a empregada Lupita, só Andy (Justin Kirk), o cunhado de Nancy, irmão do marido morto. Andy é daquele tipo de sujeito sem qualificação profissional qualquer, e sem qualquer vontade de trabalhar para garantir o pão nosso de cada dia. Tinha estado meses fora de contato, no Alasca, vivendo de uma outra atividade marginal ou ilegal, e de repente reaparece na casa de Nancy, pede para ficar ali por um tempinho – e acaba ficando indefinidamente.

Além de folgado e absolutamente preguiçoso, Andy é mulherengo: a única mulher que passa na frente dele e ele não canta é a própria cunhada. Vai ensinar todo tipo de sacanagem aos sobrinhos. Ao caçula Shane, dará uma lição completa sobre como se masturbar e o que fazer com o sêmen.

Como foi dito lá em cima, a série fala sobre sexo com a mais absoluta tranquilidade.

Os personagens trepam loucamente. Praticamente todos os casados traem seus cônjuges.

Na primeira temporada, Dean (Andy Milder), por exemplo, trai a mulher com uma jovem asiática professora de tênis. Dean é advogado, e um dos mais fiéis consumidores do fumo que Nancy vende.

A mulher dele, Celia (o papel da ótima Elizabeth Perkins, na foto abaixo, e o segundo personagem mais importante das primeiras temporadas da série), fica absolutamente furiosa ao saber da traição do marido. É bem verdade que ela mesma já não dava para ele fazia muito tempo – e é bem verdade também que Celia é daquele tipo de mulher que está sempre absolutamente furiosa com tudo o que acontece à sua volta.

No início da primeira temporada, Celia está absolutamente furiosa porque sua filha mais velha, Quinn (Haley Hudson), está namorando, e Celia morre de medo de a moça perder a virgindade. O namorado de Quinn é exatamente Silas, o primogênito de Nancy. Ao saber que os dois namorados treparam, Celia manda Quinn para um internato no México!

Celia também fica absolutamente furiosa com sua filha mais jovem, Isabelle (Allie Grant). Isabelle é uma gracinha de menina, mas Celia implica com ela permanentemente porque ela é gordinha e adora comer.

Atriz experiente, talentosa, Elizabeth Perkins compôs essa Celia, um transtorno ambulante, uma chata de galocha, de maneira absolutamente exagerada, over do over do over. E a criadora da série, Jenji Kohan, e seus roteiristas soltaram as frangas para criar para Celia as situações mais esdrúxulas. É com Celia – e também com os personagens Heylia e Doug, sobre quem falo em seguida – que a série mais assume seu tom bem distante de qualquer coisa parecida com realismo. Com Celia, Heylia e Doug, de fato, Weeds parte para a sátira escancarada, escrachada a não mais poder.

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Os personagens negros falam o tempo todo sobre a cor da pele

Doug Wilson (Kevin Nealon) é contador e vereador de Agrestic, mas é sobretudo um sujeito folgadão, completamente sem juízo e sem limites, que só pensa na vida em puxar fumo e comer bem – nunca em restaurantes que pertençam a cadeias. Principalmente em puxar fumo. É outro dos clientes mais fiéis de Nancy – e, ainda na primeira temporada, vai aconselhá-la a abrir uma padaria como fachada para seu negócio ilegal.

É amicíssimo de Dean – mas detesta Celia, a mulher dele. Que também o detesta, mas isso não é estranho, porque Celia detesta todas as pessoas do mundo, a não ser ela mesma.

E então temos o núcleo formado por Heylia (Tonye Patano) e Conrad (Romany Malco, os dois na foto abaixo), mais a bela Vaneeta (Indigo). Heylia é a matriarca mandona, autoritária, manda-chuva, Vaneeta é filha dela, Conrad é sobrinho mas foi criado por ela. São negros, moram num bairro de negros em Los Angeles, e são os fornecedores de maconha para a branquela Nancy.

A questão cor de pele é faladíssima sempre que Heylia está em cena. Em geral, Heylia aparece na cozinha grande de sua casa, preparando comida ou separando maconha em pacotinhos, enquanto a filha Vaneeta costura ou faz alguma coisa sentada por ali. Heylia sempre fala da bunda branca de Nancy – e dá broncas seguidas em Conrad porque percebe que o rapaz está absolutamente enfeitiçado pela branquela.

E, sim, a série mostra casal de cores de pele diferentes trepando. Aleluia, que maravilha!

zzweeds06Jenji Kohan, a criadora da série – produtora executiva, autora dos roteiros e diretora de alguns episódios – é uma profissional de sucesso. Vem de uma família do show business (a mãe é escritora, o pai é escritor, compositor e produtor), e foi criada em Beverly Hills, o bairro das estrelas e astros de Hollywood. É judia, praticante, frequentadora de sinagogas – o que dá a ela o direito de fazer diversas gozações com judeus e o judaísmo.

Assim, Judah, o falecido marido de Nancy, é judeu, assim como, claro, seu irmão Andy. No passado, para impressionar uma garota, Andy havia se alistado como reservista do Exército – e, de repente, o país com milhares de soldados no Iraque, ele recebe uma convocação para se apresentar. Faz uma pesquisa e descobre que, se estiver devidamente inscrito em um curso para se tornar ministro religioso, pode se livrar da convocação. Procura, então, uma escola de formação de rabinos. A diretora, Yael (Meital Dohan, uma atriz que consegue passar uma imagem sensualíssima), acaba aceitando Andy como aluno – mas a princípio repele as tentativas dele de convidá-la para um drink ou um jantar. Diz que ele não faz o tipo dela, que ela – oficial do Exército israelense agora na reserva – gosta de homens muito fortes, que a dominem com violência. De tanto que Andy insiste, Yael admite fazer sexo com ele – mas como se ele fosse uma mulher. E, na hora do pega pra capar, ela veste um cinturão com um falo do tamanho de uma jaca.

Weeds não liga nada, absolutamente nada, para o politicamente correto.

Na quarta temporada, fala-se muito na coisa do judaísmo. É quando surge Lenny Botwin (interpretado pelo ótimo ator e também diretor Albert Brooks), o pai de Judah e Andy. Há um diálogo entre Lenny e seu brilhante neto Shane que é uma crítica ferocíssima aos judeus que só se importam consigo mesmos, o resto do mundo que se dane.

Avô e neto estão procurando pela casa algum dinheiro que a mãe de Lenny teria escondido para o caso de acontecer um novo holocausto.

Lenny: – “Pode haver outros genocídios se a gente não ficar atento. Temos que impedir que aconteça de novo.”

Shane: – “Já aconteceu de novo. No Camboja, em Ruanda, na Bósnia…”

Lenny: – “Não, não, estou falando de genocídio de judeus. Não pode acontecer de novo com os judeus. O que me importam os outros lugares?”

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Atenção, cuidado: revela-se aqui o final da primeira temporada

Jenji Kohan e os demais responsáveis pela série não têm a menor intenção de encerrar um ciclo de acontecimentos a cada temporada, de tal maneira que as temporadas tenham alguma independência uma da outra. Dexter, por exemplo, fazia isso: cada temporada tinha um grande acontecimento, uma grande trama que se encarrava no último episódio. Weeds, não; Weeds é exatamente o contrário disso. O último episódio da primeira temporada termina anunciando um clímax, abrindo um suspense, fisgando o espectador para aguardar com ansiedade a segunda temporada – e o mesmo esquema se repete ao final da segunda temporada.

Vou revelar aqui o final da primeira temporada, para explicitar essa característica da série. Não chega propriamente a ser um grande spoiler, justamente porque o final não conclui um ciclo, mas, de qualquer forma, se o eventual leitor ainda não viu a primeira temporada, deveria pular para o intertítulo seguinte.

Nancy se envolve com um sujeito boa pinta, simpaticão, Peter (Martin Donovan). Os dois ficam se conhecendo numa situação hilária. Nancy está assistindo a um torneio de caratê de que participa Shane, seu caçula. Numa atitude completamente inesperada, Shane, em vez de lutar contra seu oponente, segura a canela dele e morde forte. O juiz e os pais separam os dois meninos, Nancy rapidamente pede desculpas para o pai do garoto, se oferece para pagar a despesa caso seja necessário fazer algum curativo. O pai do garoto é esse Peter. Saem os quatro para jantar, os dois garotos e seus pais. Nancy não esconde que achou Peter legal.

Isso acontece no oitavo dos dez episódios da primeira temporada. Peter dá uns telefonemas para Nancy tentando marcar um encontro, ela se esquiva. Finalmente, no décimo episódio, saem juntos, vão para a casa dele, trepam. Ele está dormindo, ela se levanta para ir ao banheiro, pega um roupão dele. Quando chega ao banheiro, diante do espelho, lê as três letras escritas na frente do roupão, enquanto o espectador vê as mesmas três letras escritas em corpo gigantesco nas costas: DEA. Drugs Enforcement Agency, o organismo federal de combate às drogas.

A traficante está namorado um agente do DEA!

Fim de temporada.

Como não ver a segunda?

Só o final da terceira temporada encerra um ciclo, uma etapa. Mostra o momento em que está para acontecer uma mudança radical, absolutamente radical, na vida dos personagens centrais – mas o final foi pensado para deixar o espectador doidinho de curiosidade sobre o que acontecerá em seguida.

Uma delícia: toda hora tem uma citação de um filme ou personagem

Outra característica gostosa de Weeds é que volta e meia há citação de filmes, séries de TV, situações, personagens de cinema.

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O décimo episódio da primeira temporada se chama “The Godmother”, uma óbvia referência a The Godfather, a espetacular trilogia de Francis Ford Coppola. Há uma sequência que imita tintim por tintim uma do primeiro filme da série: Nancy está em casa conversando com amigos, fechando uma nova organização dos negócios. Estão ali o cunhado chato Andy, o doidaço Doug, o atormentado Dean, o garotão Conrad, um descendende de indianos, Sanjay (Maulik Pancholy), que Nancy havia adotado como ajudante. O filho Shane fica olhando com bastante curiosidade para o grupo, com uma expressão óbvia de “o que está rolando ali?” Aí, nesse momento, Lupita fecha a porta.

É exatamente a reprodução de uma porta se fechando para que familiares não vejam Don Corleone conversando sobre negócios.

O terceiro episódio da segunda temporada tem o título de “Last Tango in Agrestic” – mais uma referência a filme com Marlon Brando.

Uma horal lá Peter diz “never say never” – por sua vez, o título Never Say Never Again, no Brasil 007 – Nunca Mais Outra Vez, de 1983, fazia uma brincadeira com o fato de Sean Connery ter afirmado que não voltaria a interpretar James Bond.

Conrad diz para Nancy: – “Isto aqui não é Conduzindo Miss Daisy”.

A pequena Isabelle diz para o pai, citando os filmes da série Harry Potter: – “Mamãe é como Valdemort: ela sempre volta”.

A série esculhamba com George W. Bush e com os cristãos fundamentalistas

Uma outra característica deliciosa é que volta e meia os criadores da série arranjam um pretexto para esculhambar com o governo de George W. Bush.

É sabido que as pessoas da indústria cinematográfica americana são, em sua esmagadora maioria, democratas, anti-republicanas. Mas Weeds leva isso até as últimas consequências.

Há uma discussão entre Doug – um sujeito mal informado, alheio aos acontecimentos políticos – e Andy, o cunhado. Doug fala que a invasão do Iraque foi correta, porque os Estados Unidos tinham que reagir aos ataques do 11 de setembro. Andy, enfurecido, diz que nenhum país teve qualquer coisa a ver com os ataques terroristas de 11 de setembro. Doug menciona as armas de destruição em massa, Andy berra que não havia arma de destruição em massa porra nenhuma – e faz um discurso irado contra Bush.

zzweeds08Na segunda temporada, Shane resolve entrar para o grupo de debates da sua escola. O motivo é puramente sentimental: ele tem atração por Gretchen (Eden Sher), uma garota inteligente que faz parte do grupo.

Os dois vão se enfrentar em um debate. Shane defende o voto popular, e Gretchen, o voto do colégio eleitoral – o complexo sistema americano que resulta na possibilidade de o eleito ter um menor número de eleitores, desde que tenha mais votos no colégio eleitoral.

O mediador dá início ao debate. O primeiro a falar é Shane. O mediador diz que ele apresentará seus argumentos a favor do voto popular.

Shane se levanta e diz: – “George W. Bush.” E pronto, está dado seu recado – o princípio do voto no colégio eleitoral fez o país ter Bush como presidente. Ele se senta.

Gretchen se enfurece: – “Isso é contra as regras. Como vou contra-argumentar se ele invoca o nome do pior presidente que já tivemos em toda a história e depois se senta?”

Uma hora qualquer, alguém se refere às nações do Terceiro Mundo. Conrad fica fulo da vida: – “Há 1.570 bilionários neste país. E 40 milhões de pessoas abaixo da linha da pobreza. Acorde, cara. Isto aqui é a porra do Terceiro Mundo.”

Fucking Third World.

As palavras fuck, fucking, mother-fucker são pronunciadas várias dezenas de vezes em cada um dos episódios. Nem nos filmes de Scorsese há tanto palavrão.

A gozação aos cristãos fundamentalistas fica bastante pesada na terceira temporada. Eles são mostrados como totais imbecis.

Nancy põe o caçula Shane para fazer um curso de verão com um professor que é cristão fundamentalista. O garoto não aguenta aquilo, e pede ao tio, o doidão Andy: “Você pode dizer à mamãe que para mim é melhor passar o verão em que casa do que ficar preso em uma sala cheia de zelotes religiosos pregando um fundamentalismo que está a dois passos da jihad?”

E os militares são mostrados como brutais, imbecis – e assassinos.

Atores bem conhecidos do cinema fazem participações especiais

Weeds não tem regras rígidas. A primeira temporada tem 10 episódios, a segunda tem 12, a terceira tem 15. Com o sucesso, cada nova temporada passou a ser maior que a anterior. Mas os episódios são curtos, de pouco menos de meia hora cada um.

Tem uma outra característica interessante: participações especiais de bons atores do cinemão americano.

No episódio 10 da segunda temporada, surge na casa de Nancy uma tal de Kat – uma moça doidérrima, louca de pedra, que tinha namorado Andy durante a temporada dele no Alasca. Lá, tinham perpetrado alguns assaltos – e, numa briga, Kat tinha dado um tiro em Andy, que em seguida fugiu de lá correndo e veio arranjar teto, comida e roupa lavada na casa da cunhada viúva.

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Pois Kat resolveu rever o antigo namorado: pegou seu furgãozinho velho, surrado, e viajou do Alasca até a pacífica, tranquilíssima Agrestic.

Assim como irrompe na história de repente, Kat sairá dela também de repente, para nunca mais voltar. Aparece em apenas 4 episódios.

É interpretada, em uma participação especialíssima, por Zooey Deschanel (na foto acima), a linda atriz de (500) Dias Com Ela (2009), Fim dos Tempos (2008) Armações do Amor (2006), O Guia do Mochileiro das Galáxias (2005).

Também têm participações especiais na série Matthew Modine, Richard Dreyfus, Aidan Quinn, Jennifer Jason Leight, Albert Brooks e até a cantora Alanis Morissette.

Prova de que a série teve o respeito, a admiração de bons atores, que aceitaram participar fazendo pequenos papéis.

Filmes americanos mais ou menos recentes têm mostrado em diversas situações que maconha é uma coisa gostosa, saborosa, prazerosa, como uma boa garrafa de vinho, por exemplo. Lembro aqui, sem fazer grande esforço de memória ou pesquisa, Detalhes (2011), Paul, o Alien Fugitivo (2011), Paz, Amor e Muito Mais (2011), Simplesmente Complicado (2009), Bernard e Doris (2006) Tempo de Recomeçar (2001), Garotos Incríveis (2000), Poltergeist (1982).

Weeds divertiu o público americano ao longo de oito anos – ao mesmo tempo em que elogiava a maconha.

Na terceira e na quarta temporadas, a barra vai ficando cada vez mais pesada

Mary e eu devoramos as quatro primeiras temporadas de Weeds de maneira sôfrega, doida, em pouquíssimo tempo, porque de fato ela é muito gostosa, divertida, agradável. Mas na quarta temporada ficamos os dois um tanto cansados – e não acredito que a gente vá atrás das outras quatro.

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À medida em que o tempo vai passando, Nancy Botwin vai deixando de ser aquela dona de casa que ficou perplexa com a morte prematura do marido e, para manter o status, e continuar criando os filhos, passou a vender maconha no seu tranquilo, pacífico subúrbio de classe média bem de vida. Nancy vai gostando daquilo, e ficando ambiciosa, e vai passando para o lado de lá da lei de uma forma mais ostensiva. E o que é muito pior: vai revelando que gosta do lado de lá da lei, e que acha que viver do lado certo é uma chatice.

Acho isso um horror.

E a barra toda vai ficando muito pesada.

Claro, a barra fica mesmo pesada quando se trafica droga. Isso é óbvio. Um monte de belos filmes já demonstrou isso à exaustão. Basta lembrar de Traffic (2000), o filmaço de Steven Soderbergh. Traffic, a meu ver, mostra o que cada vez mais pessoas conscientes, inteligentes – como os ex-presidentes Fernando Henrique Cardoso, César Gaviria (Colômbia) e Ernesto Zedillo (México) – passam a defender: é impossível vencer a guerra contra as drogas. Simplesmente é impossível, por mais milhões de dólares que se gaste com isso. A única forma de combater a criminalidade e a corrupção que acompanha as drogas é tratar o tema como questão de saúde pública e liberá-las.

Traffic faz essa defesa da forma mais dura, densa, séria possível. Weeds faz a mesma defesa – usando o humor.

Mas a verdade é que, a partir da terceira temporada, e em especial na quarta, o humor fica cada vez mais negro.

Aí eu paro. De ver a série e – ufa! – de escrever sobre ela!

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Anotação em setembro de 2015

Weeds – As quatro primeiras temporadas

De Jenji Kohan, criadora, produtora executiva, EUA, 2005 a 2008.

Diretores: Craig Zisk, Julie Anne Robinson, Paul Feig, Lev L. Spiro, Tucker Gates, Brian Dannelly, Perry Lang, Ernest R. Dickerson, Robert Berlinger, Lee Rose e outros

Com Mary-Louise Parker (Nancy Botwin),

e Hunter Parrish (Silas Botwin), Alexander Gould (Shane Botwin), Justin Kirk (Andy Botwin), Kevin Nealon (Doug Wilson), Elizabeth Perkins (Celia Hodes), Allie Grant (Isabelle Hodes), Andy Milder (Dean Hodes), Maulik Pancholy (Sanjay), Tonye Patano (Heylia James), Romany Malco (Conrad Shepard), Indigo (Vaneeta), Renee Victor (Lupita), Demian Bichir (Esteban Reyes), Martin Donovan (Peter Scottson), Brooke Smith (Valerie Scottson), Jack Stehlin (Capitão Roy Till), Shoshannah Stern (Megan), Meital Dohan (Yael Hoffman), Mary-Kate Olsen (Tara Lindman), Judah Botwin (Jeffrey Dean Morgan), Eden Sher (Gretchen), Haley Hudson (Quinn Hodes)

e, em participações especiais, Zooey Deschanel (Kat), Matthew Modine (Sullivan Groff), Albert Brooks (Lenny Botwin)

Roteiro Jenji Kohan, Victoria Morrow, Ron Fitzgerald, Roberto Benabib, Matthew Salsberg, Barry Safchik, Devon Shepard, Michael Platt, Shawn Schepps e outros.

Produção Lions Gate Television, Tilted Productions, Weeds Productions. DVD Sony.

Cor. 283 min (a Primeira), 332 min (a Segunda), 391 min (a Terceira).

***

3 Comentários

  1. Postado em 14 setembro 2015 às 2:33 pm | Permalink

    Vi a oitava temporada de Weeds no começo deste ano.
    As primeiras 3 temporadas são ótimas, boas demais de se assistir. Na quarta começou a cair um pouco e foi caindo bastante até o final. Vi até a última pela Mary Louise-Parker, que é uma grande constante de qualidade nas 8 temporadas, mas a história vai ficando muito estranha. Pior: nas últimas 2 temporadas acho é meio chatas mesmo.

    Mas vale pelas 3 primeiras, que são boas demais!

  2. Sérgio Vaz
    Postado em 14 setembro 2015 às 3:51 pm | Permalink

    Olá, Alex!
    Gostei muito de saber que na sua opinião a série de fato começa a piorar a
    partir da quarta temporada.
    Foi exatamente a sensação que Mary e eu tivemos. E ela foi confirmada quando
    começamos a ver a quinta. Já decidimos parar de ver.
    Um abraço.
    Sérgio

  3. Heitor
    Postado em 21 setembro 2015 às 4:49 pm | Permalink

    Ainda acho q/ vc gasta neurônio e dedo demais com isso tudo p/ não faturar nem um centavo. As lojas não dão um previewzinho das faixas e vendem? Quem sabe vc faz igual? Cada texto um pdf. Estão todos já escritos. É pdfar tudo, dar uma guaribada no visual do site, contrato com as intermediadoras de venda online. É pirateável? É. E as gravadoras acabaram completamente por acaso? Tô te propondo de novo, correndo o risco de passar do limite, me meter onde não fui chamado etc.

Um Trackback

  1. […] idéia, em parte porque não quer deixar a mãe sozinha com seu novo marido, um psiquiatra, Larry (Martin Donovan), de quem a moça não gosta de jeito […]

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