Vidas em Fuga / The Fugitive Kind

zzkind1

Nota: ½☆☆☆

Em 1960, o então jovem Sidney Lumet lançou The Fugitive Kind, no Brasil Vidas em Fuga, um drama baseado na peça Orpheus Descending, do à época veneradíssimo Tennessee Williams. O elenco tinha nada menos que Marlon Brando e três grandes atrizes: Anna Magnani, Joanne Woodward e Maureen Stapleton.

Foi o segundo filme de Marlon Brando baseado em Tennessee Williams. E também o segundo filme da grande Anna Magnani baseado em peça do autor sulista.

Entre 1950 e 1964, Hollywood filmou nada menos que 11 peças de Tennessee Williams. Vários desses filmes foram dirigidos por grandes realizadores, com atores de primeiríssima. Vale a pena enumerá-los:

Algemas de Cristal/The Glass Menagerie (1950), de Irving Rapper, com Jane Wyman, Kirk Douglas;

Uma Rua Chamada Pecado/A Streetcar Named Desire (1951), de Elia Kazan, com Vivien Leigh, Marlon Brando, Karl Malden;

A Rosa Tatuada/The Rose Tattoo (1955), de Daniel Mann, com Burt Lancaster, Anna Magnani, Marisa Pavan;

Boneca da Carne/Baby Doll (1956), de Elia Kazan, com Karl Malden, Carrol Baker, Elli Wallach;

Gata em Teto de Zinco Quente/Cat on a Hot Tin Roof (1958), de Richard Brooks, com Paul Newman, Elizabeth Taylor, Burl Ives;

De Repente, no Último Verão/Suddenly, Last Summer (1959), de Joseph L. Mankiewicz, com Elizabeth Taylor, Montgomery Clift, Katharine Hepburn;

Vidas em Fuga/The Fugitive Kind (1960);

O Anjo de Pedra/Sumnmer and Smoke (1961), de Peter Glenville, com Geraldine Page, Laurence Harvey, Rita Moreno;

Contramarcha Nupcial/Period of Adjustment (1962), de George Roy Hill, com Anthony Franciosa, Jane Fonda;

Doce Pássaro da Juventude/Sweet Bird of Youth (1962), de Richard Brooks, com Paul Newman, Geraldine Page, Shirley Knight;

A Noite do Iguana/The Night of the Iguana (1964), de John Huston, com Ava Gardner, Richard Burton, Deborah Kerr, Sue Lyon.

Fugitive Kind, The

Apesar de todos os nomes envolvidos, o filme não agradou muito

No guia de filmes mais vendido no mundo, Leonard Maltin sintetiza assim a trama de The Fugitive Kind: “Vagabundo errante (Brando) chega a uma cidade do Sul, acendendo romances com mulher casada de meia-idade (Magnani) e corajosa Woodward”.

“Spunky Woodward.” Spunky – corajosa, espirituosa. Na verdade, a personagem da bela Joanne Woodward, a sra. Paul Newman, é uma rebelde de família rica, louca por álcool e sexo e aventura, não necessariamente nessa ordem, de preferência tudo junto.

O personagem de Marlon Brando tem o apelido de Snakeskin, pele de cobra. Isso porque ele usa boa parte do tempo, mesmo no calor feladamãe do Sul dos Estados Unidos no verão, um colete feito de pele de cobra. Esse detalhe fez com que os distribuidores franceses chamassem o filme de L’homme à la peau de serpent; os portugueses foram na mesma toada, e lá o filme teve o título de O Homem na Pele da Serpente.

Em seu curtíssimo texto sobre o filme, Maltin diz que ele é irregular, com um estranho elenco, e conclui: “O filme não vai a lugar algum”.

zzkind3

O guia de Mick Martin e Marsha Porter faz síntese semelhante: “Marlon Brando é um viajante errante que seduz as belas do Sul enquanto dedilha seu violão. Como uma das seduzidas, Joanne Woodward tem uma excelente atuação.” E a avaliação também é semelhante: “Este filme pega a peça de Tennessee Williams Orpheus Descending, dá uma batida nela, e deixa sair uma nova história”.

Outro guia de que gosto, o de Steven H. Scheuer, é ainda mais definitivo: “Lamentável tiro n’água a partir da peça de Tennessee Williams Orpheus Descending, com um Marlon Brando louro como um vagabundo errante que toca violão. Magnani é excêntrica demais para enfrentar a ironia de Brando. Woodward e Jory se saem melhor, mas tudo é essencialmente sem sentido.”

O livro The United Artists Story diz : “A peça da juventude de Tennessee Williams Battle of Angels (1939) reemergiu na Broadway como Orpheus Descending nos anos 50, e em seguida como filme com o título de The Fugitive Kind. Era estrelado por Marlon Brando, que ganhou um salário acima de US$ 1 milhão, o primeiro astro a receber uma soma dessas. Como Val Xavier, um violonista itinerante, Brando, numa interpretação resmungante, soporífica, parecia fazer o mínimo possível para ganhar seu dinheiro. O diretor Sidney Lumet deixou o ator solto, e parecia passar a maior parte do tempo tentando ajudar as atrizes Anna Magnani e Joanne Woodward em seus inconvincentes papéis. Tudo acontecia numa cidade pequena, ardida, chamada Two Rivers, Mississipi, que poderia perfeitamente se chamar Williams, Tennesseee. Val chega na cidade, se envolve com Lady Torrance (Magnani), casada com o doente e acamado Jabe (Victor Jory) e com Carol Cutrere (Woodward), uma rica, sexualmente voraz dipsomaníaca.”

zzkind6

 

“Com o tempo, as revisões valorizaram as sutilezas das escolhas de encenação”

Como se vê, o filme não foi propriamente muito bem recebido na época de seu lançamento. Mas o tempo passa, a Lusitana roda, alguns filmes que foram massacrados ou ignorados de início passam a ser reavaliados. Parece ser o caso deste The Fugitive Kind. O DVD da Versátil, que foi também lançado na Coleção Folha Grandes Astros do Cinema, traz um curta-metragem feito mais recentemente, com personalidades tecendo loas ao filme.

Confesso que não vi o curta, por absoluta preguiça, porque achei um filme um abacaxi horroroso. Mas, em respeito a Sidney Lumet, Anna Magnani e Joanne Woodward, transcrevo trechos do texto de Cássio Starling Carlos, um dos vários que acompanham o DVD no belo livreto da Coleção Folha:

“A despeito do renome do astro e de a assinatura de Williams estar associada a outros grandes sucessos recentes de bilheteria, como Gata em Teto de Zinco Quente (1958) e De Repente, no Último Verão (1959), a recepção fria do público e crítica da época frustrou a expectativa dos produtores. Com o tempo, as revisões valorizaram as sutilezas das escolhas de encenação feitas pelo diretor Sidney Lumet (1924-2011) e a qualidade coletiva e individual das atuações.

“O texto original de Williams foi escrito em 1940 (1939, segundo o livro The United Artists Story), com o título Battle of Angels, e chegou a ser encenado com sucesso em Boston. Não totalmente satisfeito com o resultado, o autor fez ajustes ao longo dos anos e rebatizou a peça com o nome Orpheus Descending, em referência ao mito grego de Orfeu que desce ao inferno para recuperar a mulher amada. Na peça e no filme, Valentine Xavier é uma espécie de anjo que vai parar numa cidade sulista onde depara com todo tipo de infelicidade.”

The Fugitive Kind (1959) Directed by Sidney Lumet Shown from left: Anna Magnani, Marlon Brando

Personagens asquerosos, situações nauseantes, um filme de dar engulho

Transcrevi diversas opiniões. Agora vou dar as minhas.

Como comecei a ver filmes com atenção na primeira metade dos anos 60, exatamente quando Tennessee Williams estava no auge, sempre tive admiração por vários daqueles filmes citados lá em em cima. Sempre achei que Gata em Teto de Zinco Quente, Doce Pássaro da Juventude e De Repente, no Último Verão são grandes filmes. Revi os três depois de maduro, e minha admiração por eles permaneceu igual.

No entanto, não achei nada especial ao rever A Noite do Iguana, apesar de todos os grandes nomes envolvidos na produção. E confesso, sem vergonha alguma, que, alguns anos atrás, sequer consegui ver inteiro Baby Doll, um filme que era um fetiche na minha adolescência, porque achei nauseante demais.

Nauseante. É o que me pareceu, na maior parte do tempo, este The Fugitive Kind.

Tennessee Williams via o mundo e os seres humanos como coisas sórdidas, pestilentas, fedidas. Talvez por viver no Sul Profundo dos Estados Unidos, lugar em que boa parte da sociedade era extremamente conservadora, carola, tacanha, moralista (além de racista a não mais poder), e por ser homossexual em uma época em que ser gay era alvo de discriminação cruel, odiosa, tudo, para o autor – pessoas, lugares, relações – é horroroso, degradante. De dar engulho.

zzkind7Os personagens de The Fugitive Kind são de dar engulho. Aquele marido doente da personagem de Anna Magnani – sujeito nojento, asqueroso, sempre suado, macilento, gorduroso – e mais o xerife violento, racista, são o suprassumo da visão que Tennessee Williams tem da humanidade.

Ao retratar personagens com tanto ódio e desprezo, ele consegue nos fazer ter ódio e desprezo por eles – e também por sua história, e pelo filme.

E Marlon Brando, de casaquinho de pele de cobra e sempre com o vilão a tiracolo, sem tocar, murmurando frases tipo “Minha temperatura é uns 2 graus acima do normal, como nos cachorros”, ou “Voe, pássaro ferido, voe”, na minha opinião está bastante ridículo.

Para mim, deu pena ver os desempenhos fortes, belos, de Anna Magnani e Joanne Woodward no meio desse lixo todo.

Quer saber? Não volto a ver filme baseado em Tennessee Williams. A vida é curta, e é preciso fazer opções. As minhas opções não são pelo que dá nojo, asco.

zzkind8

Anotação em agosto de 2015

Vidas em Fuga/The Fugitive Kind

De Sidney Lumet, EUA, 1960

Com Marlon Brando (Val Xavier), Anna Magnani (Lady Torrance), Joanne Woodward (Carol Cutrere)

e Maureen Stapleton (Vee Talbott), Victor Jory (Jabe Torrance), R.G. Armstrong (xerife Talbott), Emory Richardson (tio Pleasant), Joe Brown Jr. (Pee Wee Binnings), Virgilia Chew (enfermeira Porter)

Roteiro Meade Roberts

Baseado na peça Orpheus Descending, de Tennessee Williams

Fotografia Boris Kaufman

Música Kenyon Hopkins

Montagem Carl Lerner

Produção Pennebaker Productions, United Artists. DVD Versátil, Coleção Folha.

P&B, 135 min

1/2

Título na França: L’homme à la peau de serpent. Em Portugal: O Homem na Pele da Serpente.

3 Comentários

  1. Senhorita
    Postado em 10 novembro 2015 às 4:34 pm | Permalink

    Acho que você não gostou do filme, rsrsrs…
    Mas não consigo achar defeitos no Sidney Lumet. Sou puxa-saco do Sidney Lumet.

  2. Sérgio Vaz
    Postado em 11 novembro 2015 às 2:04 am | Permalink

    Hêhê… Exagerei no pau, né, Senhorita? Mas você viu que botei diversas outras opiniões, pra não ficar eu falando mal sozinho do filme…
    E é claro que sou fã do Lumet, como se pode ver por vários textos aqui!
    Abração, e obrigado.
    Sérgio

  3. Senhorita
    Postado em 11 novembro 2015 às 3:40 pm | Permalink

    Eu tenho sangue de barata: não ligo muito de assistir abacaxis, se o diretor for desse naipe.
    Ou se tiver a Magnani, assisto QUALQUER COISA com essa mulher!

2 Trackbacks

  1. Por 50 Anos de Filmes » A Aventura / L’Avventura em 13 julho 2016 às 1:08 am

    […] Visconti, Cesare Zavattini, Francesco Rossi, Suso Cecchi D’Amico, Pasquale Festa Campanile, Anna Magnani… Vixe Maria, quanto […]

  2. […] Joanne Woodward faz o papel de Clara Varner e Lee Remick, o de Eula Varner. São cunhadas – Eula é casada com Jody Varner, irmão de Clara. (Ele é interpretado por Tony Franciosa.) […]

Postar um Comentário

O seu email nunca é publicado ou compartilhado. Os campos obrigatórios estão marcados com um *

*
*