Ver-te-ei Outra Vez / I’ll Be Seeing You

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Nota: ★★½☆

Um drama intimista, em tom menor, bastante triste, dirigido pelo veterano William Dieterle em 1944, quando o mundo ainda estava mergulhado na Segunda Guerra.

Se fosse uma obras musical, seria uma peça de câmara, para poucos instrumentos – o oposto de uma sinfonia. Se fosse uma pintura, seria um pequeno retrato – nunca um grande afresco.

zzverte2Às vésperas do Natal, sargento conhece mulher numa viagem de trem. Ele, Zachary, é interpretado por Joseph Cotten, ela, Mary, por Ginger Rogers. (A foto ao lado é um publicity still, foto posada para divulgação – não uma cena do filme.)

Mary diz que vai descer em Pinehill, e então Zachary conta uma pequena mentira para ela – diz que também está indo para lá, visitar sua irmã. E omite dela que está em licença do hospital psiquiátrico, com diagnóstico de trauma de guerra.

Mary também omite de Zachary um fato grave: o de que está presa, e, por bom comportamento, foi premiada com um indulto natalino de oito dias.

Um triste encontro. Como diziam os cartazes do filme na época: “Ambos vivendo um segredo, cada um com medo de contar”.

Pessoas simples, comuns, só que em situação delicada, difícil

Os créditos iniciais dizem que o filme se baseia em uma peça escrita para o rádio, uma radionovela, de autoria de Charles Martin. O IMDb diz que o “Lux Radio Theater” apresentou uma adaptação da história do filme para o rádio na noite de Natal de 1945, com Joseph Cotten dizendo as falas do seu personagem.

É uma produção de 1944, mas, segundo o IMDb, o catálogo do American Film Institute diz que o filme estreou em 5 de janeiro de 1944. Até o AFI Institute erra: na verdade, o filme foi feito em 1944 e lançado em 5 de janeiro de 1945.

Os créditos mostram que é uma produção da Selzinick International – a empresa criada por David O. Selznick –, que foi distribuída pela United Artists. O livro The United Artists Story diz o seguinte:

zzverte3“O fascinante título da canção de Irving Kahal e Sammy Fain, ‘I’ll Be Seeing You’, marcava o tom sentimental do romance da época da guerra produzido por David O. Selznick. Esse filme feito para ganhar dinheiro foi salvo pela imensa sensibilidade da primeira produção de Dore Schary, e pelas atuações contidas de Ginger Rogers e Joseph Cotten nos papéis principais. Ela interpretava uma presa em liberdade condicional pelo Natal, e ele, um ex-soldado se recuperando de trauma de guerra.”

Mais adiante, o livro diz: “A história, de Charles Martin, e o roteiro, de Marion Personnet, continham incongruências, mas, de maneira geral, o diretor William Dieterle a manejou de uma maneira simples, direta.”

Ahn… Não vi propriamente incongruências.

Vi um grande esforço da roteirista Marion Parsonnel e do diretor Dieterle para mostrar como poderia se desenvolver uma relação entre duas pessoas absolutamente comuns, numa pequenina cidade absolutamente comum. Duas pessoas que não são em nada, em absolutamente nada especiais – ordinary people, simple people. Pessoas como eu ou você – só que em condições bem difíceis, ele um paciente de psiquiatria, ela uma presidiária

O esforço incrível para mostrar que tanto Mary quanto Zachary são pessoas absolutamente normais até que resulta – me pareceu – numa coisa que roça a chatice, a falta de assunto.

E na verdade isso é uma maravilha.

De alguma forma, a roteirista Marion Parsonnel e o talentoso, experiente Dieterle conseguiram nos colocar diante de um homem e uma mulher que não têm nada de especial ––, mas que são, apesar disso, ou talvez até por isso mesmo, pessoas simpáticas, agradáveis.

Fico sempre imaginando se, numa tarde especialmente gostosa, eu convidaria tal ou tal personagem de filme para tomar um chopinho, conversar, trocar idéias.

Jamais pensaria em tomar um chopinho com qualquer pessoa que se aproxime da figura de um super-homem. Nem com um bandido.

Tomaria um choppinho tanto com Zachary quanto com Mary. São gente boa. Gente simples, gente boa.

Creio que forçaram a barra para dar importância à personagem de Shirley Temple

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Os pais de Mary, o espectador verá, estão mortos. Ela foi criada pelos tios, exatamente os que ela vai visitar naquela cidadezinha de Pinehill – interpretados pela maravilhosa Spring Byington e Tom Tully. Não me lembro se vi outros filmes com Tom Tully, mas Spring Byington está em diversos filmes dos anos 30 e 40, sempre fazendo papel de uma senhora simpática, agradável, perfeita mãe de família. Elá é, por exemplo, a dona da casa de loucos felizes de Do Mundo Nada Se Leva/You Can’t Take it With You, a pérola que Frank Capra fez em 1938.

O filme não fala o prenome deles. São o sr. e a sra. Marshall, apenas. Têm uma filha, uma garota de 17 anos, Barbara. Barbara é interpretada por Shirley Temple, que havia sido a garotinha mais adorada da América e de boa parte do mundo – mas Shirley Temple, na minha opinião, mais prejudica que ajuda o filme.

A trama força a barra para que a personagem interpretada por ela seja importante.

O espectador fica sabendo que Mary é presidiária quando o filme está com 11 minutos – porque Barbara fala isso. Só quando o filme está com 33 minutos ficamos sabendo por que razão Mary está presa. Ela conta sua história para a prima Barbara.

Bem mais tarde, quando surge o Grande Problema, que só será resolvido na sequência final, a responsável por isso será exatamente  Barbara.

A personagem Barbara e a insistência em torná-la importante na história, por causa da importância da atriz que a interpreta, na minha opinião faz com que o filme seja um pouco pior do que poderia ser.

Shirley Temple estava com 16 anos, quando o filme foi feito, em 1944. Lindérrima, charmosa, endcantadora quando criança, tinha virado uma adolescente sem absolutamente nada de incrível, marcante.

A garotinha mais amada da América não deu muito certo depois que cresceu. Foi um fabuloso sucesso quando criança – mas logo desbotou, perdeu o brilho. Depois deste aqui, faria mais nove filmes – e deixaria de vez o cinema em 1949, aos 21 anos de idade.

Ginger Roger comprova mais uma vez que é uma grande atriz          

zzverte6Quando a produção começou, o diretor escolhido era George Cukor. Não achei informação que explique os motivos, mas o fato é que Cukor foi substituído por Dieterle.

O principal papel feminino seria de Joan Fontaine. Ela não pôde fazer o filme por estar envolvida em outros projetos. Sobrou então para Ginger Rogers – e é fantástico, porque Ginger Rogers é muito mais do que a perfeita dançarina para dançar com Fred Astaire: é uma grande atriz, seja em comédia, como em O Inventor da Mocidade/Monkey Business (1952), seja em drama, como mostra aqui.

Como a informação aparece quando o filme está com 33 minutos, não chegará a ser propriamente um spoiler explicar por que motivos a mocinha da história está em um presídio estadual, cumprindo pena de seis anos.

O IMDb traz a fala de Mary, em diálogo com a prima Barbara. Vale a pena ter aqui. É um documento importante de sua época.

Barbara diz o seguinte, referindo-se à mãe de Mary: – “Oh, eu me lembro dela. Lá atrás, quando eu era jovem. Ela costumava costurar roupinhas para minha boneca favorita”.

E então Mary-Ginger Rogers conta como cometeu o crime que a levou para a penitenciária. Enquanto ela fala, vamos vendo as ações que ela descreve, em cuidadoso flashback:

zzverte5– “Sim, ela era maravilhosa com as mãos. E algum tempo depois, meu pai foi para o Norte, a negócio. E então, quando ele morreu, fiquei sozinha. Arranjei um bom emprego como secretária, e meu trabalho me levou a conhecer vários homens legais, um dos quais poderia se tornar, eu pensava, um que poderia me dar todas as coisas sobre as quais você sonha quando está com uns 20 e tantos e sozinha. Um dia, quando eu fui chamada ao escritório do meu chefe, ele me convidou para uma festa em seu apartamento. Ele era solteiro, e eu comecei a sonhar. Os patrões se casam com as secretárias. Eu peguei o dinheiro que tinha economizado e comprei um vestido de noite. Achava que era uma maravilha. Queria parecer muito bem diante de seus amigos de alta classe. Ele tinha me mandado uma orquídea, uma orquídea branca, a primeira que eu tinha tido. Estava usando ela. Quando a porta abriu, entrei no maior apartamento em que tinha estado. Achei que era rico e elegante. Eu queria impressioná-lo, então cheguei um pouco atrasada. Eu queria fazer uma entrada só eu, mas não tinha mais ninguém lá. Eu deveria ter percebido que o melhor era sair, mas não fiz isso. Ele tinha estado bebendo por um longo tempo antes que eu chegasse lá, acho, e continou. Me disse que não tinha convidado mais ninguém, e que a orquídea branca tinha sido só um jeito de me fazer chegar lá. Tentei sair, mas não adiantou, e então tentei sair de qualquer jeito. Não gritei. Estava muito apavorada. Ele parecia estar em todos os lugares. Estava tudo misturado num tipo horrível de sonho. Uma hora, quase consegui ir embora, quando ele caiu numa cadeira. Mas ele me pegou de novo, e me puxou para trás. Então eu o empurrei com toda a força, e ele caiu da janela. O apartamento dele ficava no 14º andar.”

A canção que dá título ao filme virou uma espécie de hino para os soldados

zzverte7“I’ll Be Seeing You”, a canção de Sammy Fain e Irving Kahal que deu o título do filme, havia sido lançada em 1938, um ano antes, portanto, do início da Segunda Guerra Mundial. Foi colocada num musical da Broadway, Right This Way, e virou rapidamente um grande sucesso, gravada por diversos cantores, inclusive, para citar apenas alguns, Bing Crosby, Frank Sinatra, Françoise Hardy, Carmen McRae, Judy Collins, Linda Ronstadt, Liza Minelli, Tony Bennett, Willie Nelson.

Segundo a Wikipedia, a canção acabaria virando, durante os anos da guerra, uma espécie de hino aos homens que lutavam contra o Eixo.

Serve, portanto, com uma luva para o filme.

Anotação em agosto de 2015

Ver-te-ei Outra Vez/I’ll Be Seeing You

De William Dieterle, EUA, 1944.

Com Ginger Rogers (Mary Marshall), Joseph Cotton (Zachary Morgan), Shirley Temple (Barbara Marshall), Spring Byington (Mrs. Marshall), Tom Tully (Mr. Marshall)

Roteiro Marion Parsonnet

Baseado na peça radiofônica de Charles Martin

Fotografia Tony Gaudio

Música Daniele Amfitheatrof

Montagem William H. Ziegler e Holbrook N. Todd

P&B, 85 min

Produção Selznick International, United Artists. DVD ClassicLine

**1/2

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