Um Pouco de Caos / A Little Chaos

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Nota: ★★½☆

Alan Rickman, ótimo ator de tantos bons filmes – Simplesmente Amor (2003), Um Certo Olhar (2006), O Julgamento de Paris (2008), Uma Promessa (2012), para citar só uns poucos – é um diretor bissexto. E bota bissexto nisso.

Dirigiu pela primeira vez em 1997. The Winter Guest, no Brasil Um Momento de Afeto, é um filme feito com muito talento e imensa sensibilidade; mostra quatro pares de pessoas ao longo de um dia em uma pequena cidade escocesa à beira mar. O principal par é formado por mãe e filha, interpretadas por duas magníficas atrizes que são mãe e filha na vida real, Phyllida Law e Emma Thompson.

Passaram-se 17 anos até que Rickman decidisse dirigir de novo.

Em seu primeiro filme, assinou o roteiro, ao lado de Sharman MacDonald – mas não era um roteiro original, e sim baseado na peça teatral de autoria de MacDonald.

Neste seu segundo filme, Um Pouco de Caos/A Little Chaos, assina o roteiro original, ao lado de mais dois autores, Jeremy Brock e Alison Deegan.

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Confesso que não entendi por que esse ator consagrado resolveu criar e filmar exatamente essa história.

É uma ficção histórica. Muito do que acontece no filme aconteceu de fato na vida real: conta-se um episódio relacionado à criação dos jardins do Palácio de Versalhes, em 1682, no reinado de Luís XIV. A personagem principal da história criada por Rickman e amigos, a paisagista Sabine de Barra, é inteiramente fictícia. Até porque, em 1682, não havia mulheres exercendo profissões de relevo na França (nem no resto da Europa). É algo fora de propósito, fora de jeito, inteiramente fora do contexto – como uma calça jeans na corte da mulher de outro Luís, o XVI, em Maria Antonieta, de Sofia Coppola.

Nos dois casos, o anacronismo foi absolutamente proposital, é claro.

Alan Rickman disse, em entrevista, que adorou a idéia de “pôr um personagem completamente fictício no meio de um fato histórico bastante conhecido”.

Sabine, a protagonista, enfrentará todo tipo de problemas para executar sua tarefa

O próprio Rickman interpreta o Rei Sol, o monarca que disse a famosérria frase “O Estado sou eu”. (Há quem diga, é bom lembrar, que a rigor não há registro comprovando que Luís XIV tenha dito isso. Seria uma frase falsa como outra não menos famosa, a atribuída a Maria Antonieta, aquela em que ela diz ora, mas se o povo não tem pão, por que não come brioches?)

O diretor compõe um Luís XIV de bom caráter, boas intenções – nada de um absolutista tirano, mau, vil.

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Mas a ação não se concentra no rei – Luís XIV é o terceiro personagem em importância na trama. O segundo é André Le Nôtre (o papel do belga Matthias Schoenaerts), paisagista preferido do rei. André Le Nôtre (1613-1700) foi de fato quem projetou os jardins de Versalhes, e é dele também a concepção do Jardin des Tuileries.

Depois de abrir com uma sequência mostrando Luís XIV anunciando à corte sua intenção de construir o Palácio de Versalhes, o filme mostra Le Nôtre convocando os maiores paisagistas e jardineiros do país, entre os quais selecionaria alguns para auxiliá-lo na imensa tarefa de projetar e executar os gigantescos, infindáveis jardins do novo palácio.

Uma das pessoas que ele recebe é Sabine de Barra – e Sabine de Barra vem na pele majestosa de Kate Maravilha Winslet.

Sabine de Barra vai enfrentar todo tipo de problemas para executar seu trabalho. Haverá oposição a ela por questão de classe social – ela não é nobre, e sim trabalhadora – e por questão de gênero – que audácia, uma mulher trabalhando!

Mas o mais grave perigo para o sucesso de Sabine virá da mulher de André Le Nôtre. Madame Le Nôtre (interpretada por Helen McCrory, que parece perfeita para o papel), o retrato do mal em si, percebe antes mesmo do marido e da própria Sabine que vai rolar algo entre eles – e, embora ela mesma seja uma traidora profissional, afia suas garras contra a bela rival.

Não é um grande filme. Mas é muitíssimo bem realizado – e tem Kate Winslet

Tudo, neste Um Pouco de Caos, é muitíssimo bem feito. A trilha sonora é extraordinária, suntuosa; achei que levava jeito de ser de Alexandre Desplat, mas é de alguém que eu não conhecia, Peter Gregson, um compositor e violoncelista escocês extremamente jovem, nascido em 1987.

A direção de arte e a fotografia são absolutamente deslumbrantes. Todo o elenco está muito bem.

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Só continuo me perguntando qual o sentido de se contar essa história de uma personagem que não existiu, neste belo porém a rigor desnecessário filme em que todos os franceses falam inglês.

Mas a verdade é que, com Kate Winslet na tela, nem é preciso que a história tenha importância, que o filme acrescente alguma coisa.

Kate Winslet faz bem aos olhos, faz bem à alma.

Ela interpreta essa personagem impossível, irreal, implausível com absoluto brilho. O espectador esquece que naquela época não existia mulheres trabalhando, e fica encantado com aquela mulher forte, firme, determinada, talentosa, que mete a mão na massa, que trabalha com as mãos no meio de dezenas e dezenas de homens – e carrega uma tristeza infinda pela perda do marido e da filhinha.

Acho Kate Winslet uma das melhores atrizes de todos os tempos. Ela vem – sempre penso nisso – de uma linhagem nobre, depois de Katharine Hepburn, Jane Fonda e Meryl Streep. Tem a mesma estatura dessas três fábulas.

Kate estava grávida de três meses quando as filmagens – que duraram apenas 40 dias – acabaram. Era seu terceiro filho, do terceiro marido – teve um filho com cada um deles. Não se nota nada da gravidez, nem mesmo na bela sequência de sexo.

É isso. Não é um grande filme – mas é muitíssimo bem realizado, tem um visual extasiante, e tem Kate Winslet. Tá bom demais.

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Anotação em setembro de 2015

Um Pouco de Caos/A Little Chaos

De Alan Rickman, Inglaterra, 2014

Com Kate Winslet (Sabine de Barra), Matthias Schoenaerts (André Le Nôtre)

e Alan Rickman (Louis XIV), Stanley Tucci (Philippe), Helen McCrory (Madame Le Nôtre), Jennifer Ehle (Madame De Montespan), Thomas Allam (Louis Alexander), Hope Hancock (Françoise Marie), Isabella Steinbarth (Louise Franoise), Hal Hewetson (Philippe), Carolina Valdes (rainha Marie Therese),

Roteiro Jeremy Brock, Alison Deegan e Alan Rickman

Fotografia Ellen Kuras

Música Peter Gregson

Montagem Nixcolas Gaster

Produção BBC Films, The Bureau, K. JAM Media, Lionsgate. DVD Imagem Filmes.

Cor, 117 min

**1/2

Título na França: Les Jardins du Roi. Em Portugal: Nos Jardins do Rei.

2 Trackbacks

  1. Por 50 Anos de Filmes » Carol em 6 agosto 2016 às 4:41 pm

    […] livro do que o filme de 1945 havia sido. Conta a história de uma mulher – agora interpretada por Kate Winslet – de classe média na Los Angeles (a cidade natal do diretor) ao longo da década de 30 que, […]

  2. […] Kate Winslet não é apenas uma das melhores, mais talentosas atrizes da História do cinema – é também uma atriz de grande sensibilidade e bom gosto na escolha dos papéis que aceita interpretar. […]

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