Um Lance no Escuro / Night Moves

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Nota: ★★★½

Um Lance no Escuro, no original Night Moves, foi lançado pelo grande Arthur Penn em 1975, e é escancaradamente, propositadamente, um produto e um espelho de sua época – em 1974, pela primeira vez na História, um presidente dos Estados Unidos havia renunciado ao cargo, para escapar do impeachment que àquela altura parecia certo.

Entre 1972 e 1974, as investigações da imprensa e depois do Congresso haviam exposto ao país um mar de lama, de corrupção e mentiras instalado na Casa Branca.

Night Moves tem o clima de um país enojado com a quantidade de sujeira que seu presidente tentou por todas as maneiras jogar para debaixo do tapete.

A trama não tem nada explicitamente a ver com Richard Nixon, Watergate – mas tem absolutamente tudo a ver com o clima, com o espanto das pessoas de bem com a atmosfera geral de dissolução moral que havia tomado conta de Washington.

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O protagonista pisa sempre em terreno pantanoso, movediço, traiçoeiro

O terreno em que Harry Moseby – o protagonista da história, interpretado com brilho por Gene Hackman – pisa é todo pantanoso, movediço, traiçoeiro. Seja em Los Angeles, onde ele vive, seja no Novo México ou na Flórida, lugares onde ele irá a trabalho. É como se não houvesse terra firme, e a qualquer momento ele pudesse cair numa areia movediça.

Harry havia sido jogador de futebol americano; chegara até a jogar em time importante, algumas pessoas até vão se lembrar dele dos seus tempos de futebol. Agora é um detetive particular. Sua agência não vai lá muito bem, não há fila de clientes à porta, e ele tem tido convites de um amigo, Nick (Kenneth Mars), dono de uma grande agência de detetives, para ir trabalhar lá. Mas Harry recusa a idéia, não quer fazer parte de um esquema grande, prefere trabalhar sozinho.

Ellen (Susan Clark, na foto abaixo), a mulher de Harry, gostaria que ele fechasse a sua própria agência, aceitasse o convite do amigo. Ellen é uma das donas  de uma loja de antiguidades e artigos de decoração.

É Nick que indica Harry para uma cliente, Arlene Iverson (Janet Ward). Arlene quer que o detetive descubra onde está sua filha, Delly, de 16 anos, que sumiu de casa.

É também a grande agência de Nick que fornece para Harry a ficha dessa Arlene. Era uma aspirante a atriz que nunca deu certo. Tinha sido casada com um produtor de cinema, homem muito rico, Grastner. Tiveram uma única filha, essa Delly agora desaparecida. Grastner já havia morrido; deixou um testamento em que destinava uma mesada mensal para a filha, e nada para a ex-mulher; quando Delly completasse a maioridade, aí sim receberia toda a herança. Arlene havia se casado de novo, com um tal Tom Iverson (John Crawford), que durante vários anos foi o padrasto de Delly. Arlene e Tom haviam se separado há algum tempo.

Um detalhe: Arlene dá mais que xuxu na cerca. É uma compulsiva sexual.

zzninght3aHarry ouve as informações sobre sua nova cliente numa fita gravada, no carro, enquanto vai até o cinema em que Ellen, sua mulher, tinha visto um filme de Eric Rohmer, junto com Charles, seu sócio. Ellen o havia convidado para ir junto, mas Harry havia recusado: “Já vi um filme de Rohmer. Foi como ver a tinta de uma parede secando”.

De seu carro, Harry vê Ellen sair do cinema – com Charles e com um outro homem, que Harry nunca tinha visto. Charles se despede, e Ellen entra no carro do homem.

Night Moves não tem ainda sequer dez minutos quando Harry Moseby, o protagonista, flagra a mulher com um amante.

Ao saber que está sendo traído, Harry vai primeiro falar com o amante da mulher

zznight4aA reação de Harry é imprevisível, doida. Não confronta Ellen. Está arrasado quando ela chega de volta em casa, bem tarde naquela noite, mas não fala nada sobre o assunto, não diz que a viu, que seguiu o carro do sujeito. O que ele faz é, no dia seguinte, ir à casa do amante da mulher – Marty Heller (Harris Yulin) é o nome dele – e pedir a ele explicações, informações. Quer saber se o caso é sério, se o amante ama Ellen de fato.

Marty diz que, do lado dele, não é uma coisa séria – quanto a Ellen, que o marido pergunte a ela.

Ellen, evidentemente, fica surpresa, espantada, chocada com o fato de o marido ter procurado primeiro o amante, em vez de falar com ela mesma.

O detetive que vai partir em busca de uma garotinha de 16 anos que fugiu da casa da mãe promíscua é um homem torturado, angustiado.

Tudo, em Night Moves, é torturado, angustiado.

Arlene fornece a Harry o nome de um amigo ou namorado da garota Delly: Quentin, um mecânico de mão cheia, que faz trabalhos para os departamentos de dublês dos estúdios de cinema. (Quentin é interpretado por um James Woods garotinho de tudo; o ator de Era Uma Vez na América na verdade já estava com 27 anos, mas parece não ter mais de 20 no filme.)

zznight3Pressionado, Quentin diz que não sabe onde Delly está, mas fornece outro nome, Marv (Anthony Costello), um dublê de cinema por quem a moça tinha se mostrado interessada.

Harry conseguirá localizar Marv, trabalhando na rodagem de um filme no Novo México, sob a chefia de Joey Ziegler (Edward Binns), um veterano que por sua vez conhece bem Arlene, seu ex-marido Tom e também a garota Delly. Através de Marv e Zoey, Harry fica sabendo que a) apesar de tão jovem, Delly seguiu os passos da mãe e dá para todo homem que passa por ela; b) Marv também havia comido Arlene; c) Delly parece querer competir com a mãe no quesito promiscuidade; d) Tom, o padrasto da garota, está agora vivendo na Flórida, junto das ilhas Keys, onde leva turistas para passeios em um pequeno avião.

Harry acha que Delly, ao fugir da casa da mãe, pode ter ido atrás do padrasto. E então viaja até a Flórida.

Harry diz que não resolveu o caso – ele tropeçou no caso

O palpite de Harry é certeiro: Delly está lá, de fato, na casa do padrasto. Insinua-se para ele – conforme o próprio Tom conta para Harry.

Tom, o padrasto, está vivendo com uma amante, Paula (Jennifer Warren, na foto abaixo), uma mulher misteriosa, não belíssima, mas atraente, envolvente. Conta para Harry que já fez de tudo um pouco: foi garçonete, stripper, puta.

A relação entre Paula e Tom é estranha, as atividades do casal são estranhas.

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Tudo ali é estranho, misterioso. A partir da chegada de Harry à Flórida, a trama, que já não era nada simples, ficará mais e mais confusa, turva.

Há um diálogo fantástico, bem perto do fim. Paula diz que Harry deveria ficar contente, porque afinal ele resolveu o caso; Harry, irritado, responde que ele não resolveu o caso – ele tropeçou no caso.

Harry tem consciência de que compreendeu parte da história, mas não sua totalidade. O esquema é muito maior do que ele descobriu.

O final de Night Moves é surpreendente – porque parece que não houve final, que o roteirista Alan Sharp não soube criar um final. É absolutamente proposital: a história em que Harry Moseby se envolve é turva, suja, pecaminosa, criminosa, corrupta, fétida – exatamente como a atmosfera deixada no país pelos anos Richard Nixon.

Foi na prática a estréia de Melanie Griffith; aos 16 anos, aparece nua em duas cenas

A interpretação de Gene Hackman é absolutamente extraordinária. É um ator excepcional, dos maiores que há, que houve.

Ele já havia trabalhado com Arthur Penn em Bonnie and Clyde (1967), e voltaria a trabalhar com o diretor em O Alvo da Morte/Target (1985).

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Apenas um ano antes, em 1974, havia sido o protagonista de A Conversação, de Francis Ford Coppola, outro dos filmes mais emblemáticos do período pós-Watergate; nele, Hackman interpreta um expert em escuta clandestina, um sujeito absolutamente solitário e paranóico. O nome do personagem, por coincidência, ou não, é Harry, como o protagonista de Night Moves.

Não mencionei ainda o nome da atriz que interpreta a ninfeta Delly. Uma tentativa boba de fazer suspense.

Delly é interpretada por uma menina linda, que tinha de fato 16 anos quando o filme foi rodado, em 1973. Foi praticamente sua estréia no cinema – antes, havia aparecido como figurante em dois filmes, e seu nome nem chegou a constar dos créditos. Era filha de uma ex-modelo que tinha tido uma carreira meteórica no cinema, estrelando dois filmes com ninguém menos que Alfred Hitchcock, Os Pássaros (1963) e Marnie – Confissões de uma Ladra (1964). Tippi Hedren é o nome da mãe, Melanie Griffith (na foto acima e nas duas abaixo) é o nome da garotinha que Arthur Penn revelou ao mundo.

Menina corajosa: menor de idade, topou aparecer nua em duas cenas do filme.

Um dos filmes dos anos 1970 que trouxeram de volta o noir e os detetives hard-boiled

zznight8aArthur Penn e o roteirista Alan Sharp espalharam pelo filme diversas referências ao cinema. Grastner, o pai de Delly, era produtor de cinema, e Arlene, a mãe, foi atriz. Joey é supervisor de dublês, Marv, o garotão que teve um caso com Arlene e com Delly, é dublê, Quentin trabalha como mecânico para as equipes de dublês.

Quando a narrativa se aproxima do fim, Joey levará Harry para ver algumas seqüências numa cabine de projeção de um estúdio.

Joey diz para Harry: “Arlene não é uma Lilian Gish”.

Há a crítica violenta e direta ao incensado diretor francês Eric Rohmer na fala de Harry: “Já vi um filme de Rohmer antes. Foi como ver a tinta de uma parede secando”. Achei muito estranho isso, ao rever o filme agora, porque é desnecessário, é solto – por que Penn, um realizador que era adorado pelos críticos franceses, resolveu fazer esse ataque tão violento ao autor de O Joelho de Claire?

Aliás, outro detalhezinho em que reparei bastante: a atriz Jennifer Warren está bastante parecida com Alexandra Stewart, a canadense de Québec que trabalhou com François Truffaut (A Noiva Estava de Preto, A Noite Americana), Louis Malle (Trinta Anos Esta Noite), François Ozon (Sob a Areia) – e foi a estrela de Mickey One (1965), do próprio Arthur Penn. Os longos cabelos louros de Jennifer Warren são idênticos ao da maravilhosa Alexandra Stewart.

Em um filme cheio de citações (“Onde você estava quando Kennedy foi morto?”, pergunta Paula a Harry), uma das mais fantásticas, filme dentro de filmes e de romances policiais, noir dentro do noir, é dita por Marty, para Harry, quando o detetive vai à casa do amante da mulher pela primeira vez. Num determinado momento, Harry se enfurece, parece que vai partir para a agressão física, e então Marty diz: “Bata em mim como Sam Spade faria”.

Não tem jeito: qualquer detetive particular nos Estados Unidos, mas ainda mais especificamente na Califórnia, gostaria de ser chamado de Sam Spade, o detetive hard-boiled criado por Dashiell Hammett e que esteve presente em vários filmes, o mais lendário deles Relíquia Macabra/The Maltese Falcon (1941), de John Huston.

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Há uma observação interessante na página de Trivia do IMDb sobre Night Moves: “Parte do ciclo de filmes dos anos 1970 que trouxe de volta o filme noir e os detetives hard-boiled” Entre os outros filmes do neo-noir citados pelo IMDb está, é óbvio, Chinatown (1974). Mas a revitalização do noir não ficou restrita, na minha opinião, aos anos 1970: Corpos Ardentes/Body Heat é de 1981, Los Angeles – Cidade Proibida/L.A. Confidential é de 1997, e são duas autênticas pérolas do neo-noir.

Maltin define o filme como um suspense psicológicos complicado mas subestimado

Leonard Maltin deu 3.5 estrelas em 4 para o filme: “Detetive Hackman, de Los Angeles, deixa de lado seus problemas conjugais para seguir os passos da ninfeta Griffith até as Keys da Flórida. Um suspense psicológico complicado mas subestimado, escrito por Alan Sharp, que leva a um clímax atordoante.”

zznight8aO próprio Jean Tulard escreveu o verbete sobre este filme – que na França teve o título de La Fugue – em seu fenomenal Guide. Diz o mestre (vai sem aspas, para me desobrigar de ser literal):

Curioso filme, dividido em duas partes. A primeira é como os clássicos filmes noir, a segunda, uma aventura policial. Como tem um final ambíguo, parece um tanto desviado de sua rota. O próprio personagem do detetive parece mais assombrado pela descoberta de verdades sobre si mesmo do que sobre sua cliente. Esse tom inesperado pode surpreender.

No Estadão, Antonio Gonçalves Filho citou a frase de Harry Moseby sobre Eric Rohmer, no final de seu belo texto sobre o filme, publicado em setembro de 2014, na ocasião do lançamento do DVD, Ele diz:

“O roteirista Alan Sharp faz até uma brincadeira com a nouvelle vague, quando Harry recusa um convite da mulher para ver Ma Nuit chez Maud. ‘Vi um filme de Rohmer certa vez; era como ver uma pintura secar’. É um comentário que tenta afirmar os filmes de Penn como um produto americano.”

E o crítico encerra seu texto assim: “Com efeito, seria difícil para um europeu traduzir o sentimento de desencanto da era pós-Watergate recorrendo a um filme amargo de detetive – Godard associou a investigação do detetive particular a um processo político, mas Penn faz dela uma busca de autoconhecimento. Um detetive não vence o crime por seu sentimento de honra. Harry, desiludido, já nem sabe mais o que isso significa. Ele tem obsessão por resolver problemas, mas não consegue sequer saber em que ponto seu casamento falhou. Ele e a garota ninfomaníaca não têm lugar na sociedade – daí sua identificação com Delly, surgindo a dúvida se deve ou não levá-la de volta à casa da mãe. Às vezes não se tem mesmo um lar para voltar. Penn fala de uma América derrotada no Vietnã, envolvida num escândalo presidencial (Watergate) e de uma contracultura em fiapos. Tudo isso num ‘simples’ filme de detetive.”

Não há comentários sobre Night Moves de Pauline Kael nem de Roger Ebert. Uma pena.

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Na minha opinião, a melhor definição do filme foi dada no trailer, que foi incluído no DVD lançado no Brasíl pela ótima Versátil:

“É um jogo em que todo jogador é um peão. Toda jogada é errada – e o vencedor perde tudo.”

No país do the winner takes all – em que isso vale até mesmo nas eleições presidenciais –, uma história em que o vencedor perde tudo é de um atrevimento a toda prova.

Night Moves é um filmaço.

Anotação em novembro de 2014

Um Lance no Escuro/Night Moves

De Arthur Penn, EUA, 1975.

Com Gene Hackman (Harry Moseby)

e Jennifer Warren (Paula), Susan Clark (Ellen Moseby), Edward Binns (Joey Ziegler), Harris Yulin (Marty Heller), Kenneth Mars (Nick), Janet Ward     (Arlene Iverson), James Woods (Quentin), Melanie Griffith (Delly Grastner), Anthony Costello (Marv Ellman), John Crawford (Tom Iverson),

Ben Archibek (Charles)

Argumento e roteiro Alan Sharp

Fotografia Bruce Surtees

Música Michael Small

Montagem Dede Allen e Setphen A. Rotter

Produção Warner Bros. DVD Versátil

Cor, 100 min

R, ***1/2

Título na França: La Fugue. Em Portugal: Um Lance no Escuro.

 

Um Trackback

  1. […] Pequeno Grande Homem (1970), um western épico, espetacular. E, no ano anterior, 1975, lançara Um Lance no Escuro/Night Moves, um policial pesado, denso, que espelhava com perfeição o estado de estupefação, desencanto e […]

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