Um Álibi Perfeito / Reasonable Doubt

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Nota: ★★★☆

A trama deste Reasonable Doubt, no Brasil Um Álibi Perfeito, é brilhante, fascinante. De tirar o chapéu para o autor da história original e também do roteiro, Peter A. Dowling.

É um thriller envolvente, que prende a atenção e sabe fazer com que simpatizemos com o protagonista, e portanto que soframos junto com ele com a peça cruel que o destino lhe reserva.

Há momentos de drama de tribunal, e são muito bons.

Infelizmente, na última meia hora dos 91 minutos de duração, em especial nos últimos 20 minutos, o filme cai na esparrela de tentar satisfazer o gosto das audiências por ação e violência, que parece ser hoje em dia garantia de algum sucesso na bilheteria. É uma pena. Mas não chega a estragar tudo: é de fato um bom thriller.

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O filme tem um intróito, em que uma linda garotinha vê um homem assustador

Há uma espécie de intróito, antes de conhecermos Mitch Brockden (o papel de Dominic Cooper, na foto acima), o protagonista do drama. O filme abre com planos gerais de uma metrópole, e não é nada difícil para o espectador atento sacar que é Chicago. Vemos uma tomada do imenso parque à beira do Lago Michigan, e depois a câmara mostra mais de perto um grupo de crianças brincando numa clareira do parque. Uma garotinha aí de uns cinco, seis anos dá um pontapé mais forte que o intencionado na sua grande bola de plástico azul, e a bola vai para longe, para dentro de uma área de grandes árvores.

Demora um minutinho para a babá (Jacqueline Loewen), que conversava com uma colega num banco, perceber que a garota, Emma (Lane Styles), sumiu de vista. A babá se levanta, sai correndo e gritando por Emma. Vai na direção certa, para o local onde a menina está. Emma está de pé, de costas para a área das brincadeiras de onde veio, de onde agora chega a babá, assustada, apavorada.

A babá abraça Emma por trás, aliviada – Emma está sã e salva.

Mas Emma tem uma expressão de quem viu algo anormal, inesperado, e murmura para a babá: – “Eu vi um homem assustador”.

“I see dead people”, dizia o garotinho de O Sexto Sentido, interpretado – com brilho – por Haley Joel Osment.

“I saw a scary man”, diz Emma (s tyerceira personagem na carreira da garotinha Lane Styles).

Enquanto ela diz isso, e a babá já a encaminha de volta para a clareira onde estão os demais garotos brincando, sem se preocupar em pegar a grande bola azul de Emma, que fica para trás, esquecida, a câmara mostra a bola, no chão – com um rastro de sangue recém derramado sobre ela.

Corta, e estamos em um tribunal.

O protagonista é um jovem promotor de talento e autoconfiança

Mitch Brockden, rapaz jovem, aí de uns 35 anos, está fazendo sua fala final no julgamento de um sujeito que assaltou a casa de uma mulher, a ameaçou com uma arma enfiada em sua boca e a manteve imobilizada enquanto roubava.

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Mitch é, evidentemente, o promotor do caso, o assistente da promotoria, o assistant D.A. E, embora muito jovem, é bom. Sua linha é de que o acusado é que o responsável pela ação brutal – e não a sociedade, o fato de que ele teve pouco estudo, de que vem de Riverdale (um subúrbio pobre ao Sul de Chicago). Ele mesmo, Mitch – explica ao júri –, vem de Riverdale, e o lugar é mesmo um horror. Ele não precisa dizer, mas fica implícito que vir de Riverdale não significa necessariamente que a pessoa tenha que virar bandida.

Considerações finais da promotoria concluídas, o juiz pede ao júri que se retire para a sala para as deliberações. Mitch arruma os papéis e os coloca na pasta. Seu assistente, Stuart Wilson (Dylan Taylor), diz que o júri acabou de se reunir – não seria melhor Mitch esperar? E o rapaz responde, com aquela autoconfiança excessiva dos jovens que são muito bem sucedidos na carreira desde cedo: o acusado será condenado a cinco anos, sairá em liberdade condicional em dois. Ele sabe disso porque, por um lado, o juiz é inclinado a dar sentença pequena para pessoas de origem humilde, e, por outro, porque ele jamais perde.

Na sequência seguinte, Mitch está em casa – uma casa confortável, em bom bairro residencial sem prédios, ou seja, um luxo. A mulher dele, Rachel (Erin Karpluk), é jovem, bela, simpática, e acaba de ter uma filha por quem estão os dois pais frescos absolutamente apaixonados.

Um pequeno detalhe, e Mitch comete o primeiro de muitos erros

Naquela mesma noite, Mitch volta até o centro da cidade para comemorar seu aniversário com o assistente Stuart e outros amigos. Enchem a cara de tequila e cerveja. À saída do bar, estão todos entre meio e muito bêbados. Todos falam que Mitch deve pegar um táxi, e, ao ficar sozinho, ele pega o celular e disca para uma cooperativa de táxi – mas percebe que um grupo de dois ou três jovens está rondando seu carro, que ele havia estacionado perto do bar, na rua coberta por neve. Grita para eles, liga o carro de longe com a chave para afastar o grupo que poderia estar pensando em roubar o veículo.

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E aí toma a decisão errada – a primeira de várias decisões erradas que tomará, e que transformarão sua vida num inferno: resolve ir com seu carro de volta para casa. Desliga o celular – alguém da cooperativa de táxi estava lá dizendo alô, alô, alô, enquanto Mitch expulsava o grupo de talvez ladrões de carro –, e entra o carro, um SVU grandão, caro.

Um pequeno acaso – um grupo junto de seu carro quando ele saiu do bar. Se ele não tivesse visto aquilo, poderia perfeitamente ter chamado um táxi, ido para casa numa boa.

Um pequeno acaso pode mudar inteiramente a vida de uma pessoa.

Mitch vai dirigindo – e não de forma imprudente. Não está tão bêbado assim, não sai correndo feito louco.

Mas um carro de polícia entra na avenida atrás dele. Vem seguindo atrás dele.

Se os policiais o parassem, multa na certa, talvez apreensão da carteira – e talvez até perda do emprego na Promotoria.

Mitch vira à direita, numa via secundária – pode ser que o carro da polícia não o estivesse seguindo, estivesse apenas fazendo ronda por aquela avenida.

Vira-se para trás, para confirmar que o carro de polícia não virou a esquina para segui-lo, continuou em frente na avenida.

Quando volta a olhar para cima, vê um vulto à sua frente, sente o baque dos pneus passando por cima de um corpo.

Desce do carro – o homem está caído no chão, sobre a neve, o rosto coberto de sangue.

Mitch joga seu casaco para esquentar o homem, pega o telefone para chamar uma ambulância, pensa, olha em torno, vê um telefone público. Corre até lá, faz a chamada, dá o endereço. Fala para o homem que acabara de atropelar que já chamou a ambulância, que o socorro já vem.

Ao pegar de volta o casaco, sua carteira cai no chão, diversos cartões de visita se espalham pela rua. Ele os recolhe o mais rapidamente que pode, entra no seu carro e ruma para casa. No caminho, passa num lava-jato. Em casa, joga o casaco e o paletó no lixo, leva o lixo para a lata que fica na rua, diante de sua casa.

Não vai conseguir dormir quase nada. Está apavorado, arrependido, cheio de culpa – se não for descoberto, preso e condenado, ainda assim sua vida daí para a frente será uma merda.

Estamos aí com não mais que 15 minutos de filme, e a trama que se desencadeará a partir daí é extraordinariamente bem urdida, bem costurada. E, sim, com inesperados e reviravoltas.

Vai surgir na história um homem, Clinton Davis, que surge como um anjo – a pessoa que tentou salvar a vida do atropelado – e depois passa a ser visto pela polícia como um possível suspeito. É o segundo personagem mais importante da trama, e é interpretado por Samuel L. Jackson.

O espectador fica se perguntando por que aquela história da garotinha

Embora a ação se passe em Chicago, e muitos dos atores sejam americanos, o filme é uma co-produção Canadá-Alemanha.

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Não lembrava direito desse rapaz Dominic Cooper – um inglês nascido em 1978 e que tem trabalhado em muitas dessas produções do cinemão comercial americano com super-heróis e quetais, tipo Capitão América: O Primeiro Vingador (2011), Abraham Lincoln: Caçador de Vampiros (2012) e Drácula: A História Nunca Contada (2014).

Tem uma boa interpretação neste triste drama. Soube compor muito bem esse jovem talentoso, trabalhador, empenhado no que faz, cheio de si, autoconfiante em excesso, cuja vida de repente desmorona por um acidente do qual ele, a rigor, foi muito pouco culpado.

A direção do filme é creditada a Peter P. Croudins – que, segundo o IMDb, é um pseudônimo do diretor Peter Howitt. Mas, cazzo, por que raios Peter Howitt preferiu usar um pseudônimo? Aliás, quem é Peter Howitt?

Inglês de Manchester, nascido em 1957, ator em 36 títulos, inclusive em Mães em Luta (1996) e De Caso com o Acaso (1998), diretor de 11 títulos, inclusive Leis da Atração (2004), comédia romântica com Pierce Brosnan e Julianne Moore. Vive em Vancouver, costa Oeste do Canadá.

Dirigiu este thriller de forma segura, firme, tranquila, sem invencionices.

Aparentemente, o filme não atraiu muitas atenções. O Box Office Mojo não fala dele; a página de informações sobre a produção no IDMb é mínima; e o AllMovie traz apenas uma sinopse, sem crítica.

Pena – porque é um bom filme, apesar de no final derrapar para a apelação da violência e de cenas de ação.

O autor da trama foi de fato extremamente feliz. Esse Peter A. Dowling é autor ou co-autor dos roteiros de sete títulos, inclusive Plano de Vôo/Flightplan (2005), aquele thriller em que a personagem interpretada por Jodie Foster perde a filhinha no meio de um vôo de Berlim para Nova York.

Criou aqui uma bela história. A sacada de começar o filme com aquele intróito, a garotinha Emma brincando no parque coberto de neve, é muito boa.

O espectador atento ficará com a pulga atrás da orelha ao longo da maior parte do filme, se perguntando: seu, mas e o que tem a ver com a história do promotor Mitch Brockden aquela garotinha Emma do parque?

A resposta a essa pergunta só vem bem próximo do final do filme. O que é outra bela sacada.

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Anotação em maio de 2015

Um Álibi Perfeito/Reasonable Doubt

De Peter Howitt, Canadá-Alemanha, 2014

Com Dominic Cooper (Mitch Brockden), Samuel L. Jackson (Clinton Davis), Gloria Reuben (detetive Blake Kanon), Ryan Robbins (Jimmy Logan), Erin Karpluk (Rachel Brockden), Dylan Taylor (Stuart Wilson), Karl Thordarson (Cecil Akerman), Dean Harder (Terry Roberts), John B. Lowe (juiz  G. Mckenna), Lane Styles (Emma), Jacqueline Loewen (babá)

Argumento e roteiro Peter A. Dowling

Fotografia Brian Pearson

Música James Jandrisch

Montagem Richard Schwadel

Produção Grindstone Entertainment Group, Entertainment One, Paradox Entertainment, Voltage Pictures

Cor, 91 min

***

2 Comentários

  1. Heitor
    Postado em 12 agosto 2015 às 10:22 am | Permalink

    Jovem promotor americano vai descobrir duas coisas: primeira, apesar de jovem, promotor e americano, ele pode se dar mal; segunda, o buraco é mais embaixo (ou a teoria na prática é outra).

  2. Patrícia Pantoni
    Postado em 27 agosto 2015 às 11:13 am | Permalink

    oi, Sérgio! Assisti a esse filme tem um tempinho, é meu tipo preferido de filme… não me lembro de todos os detalhes e, por isso mesmo, leve falta de memória kkkk, gosto de rever alguns filmes favoritos algumas vezes! Mas me lembrei da garota do parque!
    Abraço

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