Sideways – Entre Umas e Outras / Sideways

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Nota: ★★★½

No início, o espectador poderá não gostar de Miles Raymond, o protagonista de Sideways, o filme de Alexander Payne que foi bastante aclamado na época do lançamento, 2004. Na verdade, é mesmo difícil gostar de Miles, pelo menos de início.

Miles – numa interpretação extraordinária, fascinante de Paul Giamatti – é um estrupício, um desajeitado, um desnorteado, uma enciclopédia de erros. Um sujeito que mereceria com louvor os versos irônicos de Chico Buarque em “Deixe a menina”: “Não é por estar na sua presença, meu prezado rapaz, mas você vai mal, mas vai mal demais”.

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Faz já dois anos que o casamento com Victoria acabou, mas ele ainda não admitiu a realidade; continua, dois anos depois, ainda tendo esperança de que tudo pudesse se ajeitar (para citar Chico Buarque novamente). Continua, dois anos depois, ainda telefonando às vezes para ela, puxando conversa.

Quando a ação começa, num sábado pela manhã, ele ainda não sabe que Victoria acaba de se casar com o homem que ela vinha namorando há vários meses. E mais ainda: que está gravida, pela primeira vez na vida.

(Victoria, inerpretada por Jessica Hecht, é muito falada, ao longo de toda a narrativa, mas só vai aparecer em uma única seqüência, perto do final.)

Depois da separação, Miles teve um período de depressão – e, a rigor, a rigor, ainda não saiu dele, dois anos depois.

Não é um sujeito de fina estampa, ao contrário do maior amigo, Jack (Thomas Haden Church, também excelente no papel). Bem ao contrário – e aqui a escolha de Paul Giamatti para o papel se mostra perfeita: está ficando careca, é um tanto barrigudo. Não é um homem atraente.

Não namorou ninguém, não teve um casinho sequer, desde a separação.

É professor de Inglês e Literatura num colégio de San Diego, mas isso não o deixa feliz. Tem mais que simples veleidades literárias: acredita-se um escritor, e vem trabalhando há anos em um romance – um cartapácio infindável, de trocentas páginas, com muita coisa autobiográfica mas que ele chega a comparar, num momento de puro esnobismo diante de uma linda mulher, a Robbe-Grillet – Alain Robbe-Grillet, 1922-2008, expoente do nouveau roman, o movimento literário francês dos anos 50 e 60 que fascinou a intelectualidade da época e influenciou o cineasta Alain Resnais. (São de Robbe-Grillet o roteiro e os diálogos de O Ano Passado em Marienbad, de 1961.)

Para coroar toda essa montanha de desacertos, há ainda a bebida.

A comédia de Alexander Payne é bastante triste – e séria

Miles é um apreciador de vinho.

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Vive na Califónia, o Estado que produz os melhores vinhos da América do Norte – há quem ache até que alguns vinhos californianos rivalizam com os franceses, italianos, espanhóis, portugueses, como mostrou, por exemplo, o filme O Julgamento de Paris/Bottle Shock (2008). Deve ter lido bastante sobre vinhos – tem aquele palavreado que só quem se mete a entender de vinhos domina. Faz visitas constantes às regiões produtoras, é conhecido lá por várias pessoas, em vinícolas, em restaurantes, como um expert, um connoisseur.

E é para uma dessas regiões que Miles vai, a partir daquele sábado em que a narrativa começa, juntamente com seu grande amigo Jack.

Jack vai se casar no sábado seguinte, com Christine (Alysia Reiner), uma descendente de armênios muito ricos. Jack é ator, não de grande fama; já trabalhou em algumas séries, em uma ou outra novela, mas ultimamente tem feito mais comerciais.

Naquele sábado em que começa a narrativa, Miles sai – com bastante atraso – de seu apartamento bagunçado, caótico, em San Diego, e dirige até Los Angeles, até a casa da família de Christine, onde Jack o espera. Dali sairão os dois rumo aos vinhedos e vinícolas da região de Santa Barbara. A idéia é ter assim uma espécie de despedida de soltiro, uma semana de relaxamento e diversão, com partidas de golfe de manhã e desgustação de vinho a partir da tarde.

Sideways é, desde o início, um road movie. Miles e Jack pegam estrada ao longo de boa parte dos 126 minutos do filme.

Além de road movie, Sideways é uma comédia. Venceu os Globos de Ouro de melhor filme e melhor roteiro – os dois na categoria comédia ou musical. Ganhou também o Oscar de melhor roteiro adaptado – o Oscar, como se sabe, não tem, ao contrário do Globo de Ouro, a separação drama de um lado e comédia ou musical de outro.

Comédia!

Ao rever o filme agora, não dei uma risada sequer. Acho que nem mesmo um sorriso. A comédia de Alexander Payne é bastante triste – e séria.

Miles se diz connoisseur, mas bebe não pelo prazer, e sim para ficar bêbado

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O espectador vai percebendo, à medida que vai acompanhando a viagem de Miles e Jack pela região vinícola de Santa Barbara, que os dois grandes amigos são bem diferentes um do outro. Na verdade, são quase opostos, antípodas. Enquanto Miles é chegado a uma depressão, a ver o mundo através de lentes negras, Jack é absolutamente cuca fresca, despreocupado, desgrilado.

Mais: enquanto Miles é todo fechado à aproximação de mulheres, como um tatu-bola, talvez para evitar novos sofrimentos, Jack é um mulherengo compulsivo, do tipo que não consegue manter a braguilha fechada.

Mais: enquanto Jack admite que não entende coisa alguma de vinho, e bebe com tranquilidade, sem abuso, Miles, o connoisseur, bebe bem mais do que o razoável.

Essa característica do personagem central da história – maravilhosamente trabalhada no roteiro, e realçada pela interpretação marailhosa de Paul Giamatti – é, para mim, um dos aspectos mais fascinantes deste ótimo filme.

Miles esconde atrás da verborragia de expert sobre vinhos, os tipos daas uvas, o processo de fabricação, uma sede quase de alcoólatra.

Enquanto os demais personagens de fato se deliciam com os vinhos, Miles, o connoisseur, o expert, bebe para ficar bêbado. Ele não percebe isso, não tem consciência disso – mas o fato é que ele acha que está bebendo pelo raro, sutil, educado prazer, mas na verdade bebe para ficar bêbado.

Como uma mulher tão estupidamente bela pode se interessar por aquele traste?

Essas características todas dos dois amigos vão ficar ainda mais evidentes a partir do encontro deles com Maya (Virginia Madsen) e Stephanie (Sandra Oh, na foto abaixo).

zzsideways7Maya e Stephanie são muito amigas; ambas trabalham em atividades relacionadas a vinho, a primeira em um restaurante, a segunda em uma vinícola. Maya e Miles já se conheciam – ele, afinal, era frequentador do restaurante em que ela trabalha. Ao bater o olho nela, Jack não tem dúvida: aquele mulherão todo está a fim de Miles, o feio, o desengonçado.

Um mulherão. Meu Deus do céu e também da terra, como é bela essa moça Virginia Madsen! Deveria fazer mais filmes. Eu deveria ver mais filmes com ela. (Antes deste Sideways, o 50 Anos de Filmes tinha só quarto títulos em que ela trabalha: Fantasmas do Passado/Ghosts of Mississippi (1996), A Última Noite/A Prairie Home Companion (2006), A Garota da Capa Vermelha/Red Riding Hood (2001) e O Reencontro/The Magic of Belle Isle (2012).

Como uma mulher de beleza tão resplandescente quanto Maya pode se interessar por um sujeito feioso, desengonçado, troncho, tão afundado em mil problemas como Miles?

Ah, essas coisas acontecem na vida. Mulheres fantásticas já se interessaram por mim, e eu sou tão feio, desengonçado e troncho quanto Miles.

Brincadeira à parte, o interesse da estonteante Maya por Miles tem, sim, explicação, cabimento, verossimilhança, em suma. Maya é uma pessoa séria, inteligente, sensível. Esteve casada com um homem mais para bruto do que para terno – e quer distância desse tipo de gente. Miles se vende como um escritor, um intelectual – e fala sobre vinho com tanta ternura, sentimento, expressividade, que o coração da moça se derrete.

zzsideways8A sequência em que os dois amigos e as duas amigas jantam e se servem fartamente de vinho, ao longo de horas e horas, é belíssima.  A câmara do diretor de fotografia Phedon Papamichael faz big close ups dos rostos dos quarto atores – e a beleza do rosto de Virginia Madsen resplandece.

Ao final do jantar, Stephanie sugere uma esticada na casa dela – e, pouco depois que chegam lá, ela já está trepando, feliz da vida, com Jack. “Nossos amigos se deram muito bem”, comenta Maya com Miles.

Maya, ao contrário da amiga Stephanie, ao contrário de Jack, mais parecida, nesse ponto, com Miles, segura-se. Toca suavemente a mão sobre a mão dele – e ele retira a sua. Depois, tenta beijá-la – mas é a vez de Maya recuar.

É também especialmente bela essa seqüência da conversa dos dois na casa de Stephanie, após o longo jantar, Miles já meio bêbado, confuso, na defensiva mesmo diante daquela mulher monumental, porque é depressivo, é solitário, e ainda não conseguiu se livrar da saudade da mulher que não é mais a dele faz muito tempo.

Um personagem extremamente, fascinantemente bem construído

E aí é que está. Aí volto ao início desta anotação.

O espectador pode até não gostar de Miles no início da narrativa. Ele não é uma pessoa extremamente simpática. É muito problemático demais. Mas não é um mau sujeito, não é, absolutamente, um mau caráter. Não faz mal aos outros – só faz mal a si mesmo, coitado.

Miles vai conquistando o espectador. A gente fica com pena dele, com dó. A gente simpatiza com ele, passa a torcer por ele – mas que diabo, tudo tem que dar errada na vida desse pobre sujeito?

zzsideways9Fiquei pensando sobre isso depois de rever agora esta bela comédia que não faz rir, mas mexe com nossas emoções: esse Miles a que Paul Giamatti deu vida é um dos personagens mais bem construídos do cinema americano nos últimos muitos anos.

Com tanto filme sobre super-herói, homem de ferro, homem verde, policial de aço, ver na tela um ser humano tão parecido com a gente, cheio de dúvidas, temores, exatamente como a gente, é uma maravilha.

Esse Miles de Paul Giamatti é uma pessoa tão rica, tão interessante, tão real como o Albert de James Gandolfini de À Procura do Amor/Enough Said, de Nicole Holofcener (2013).

 O roteiro ganhou todos os prêmios que há para um filme americano ganhar

Alexander Payne é um realizador bem jovem. Tinha 43 anos quando Sideways, seu quarto longa-metragem, foi lançado. Detestei o primeiro longa dele, Ruth em Questão/Citizen Ruth, de 1996 – achei que foi uma imensa bobagem brincar com um tema tão sério e importante quanto o direito ao aborto. Mas As Confissões de Schmidt/About Schmidt, de 2002, é um bom filme, e Os Descendentes, de 2011, é excelente.

O protagonista de Os Descendentes é George Clooney; segundo o IMDb, Clooney demonstrou vontade de interpretar Jack em Sideways, mas Payne preferia que o papel ficasse com um ator menos famoso, menos grande astro, e por isso escolheu Thomas Haden Church.,

Falei de prêmios mais acima, para realçar que o filme é unanimemente tido como comédia, mas é necessário voltar ao tema. O filme teve nada menos que 131 prêmios, fora outras 49 indicações.

Foram cinco indicações ao Oscar, nas categorias de melhor filme, direção, ator coadjuvante para Thomas Haden Church, atriz coadjuvante para Virginia Madsen e roteiro adaptado. Levou este último, como já foi ditto.

Foi o primeiro filme, em toda a História, segundo o IMDb, a receber os prêmios de melhor roteiro de todos os cinco grandes grupos de críticos (National Board Of Review, New York, Los Angeles, Brodcast e National Society Critics), mais o Globo de Ouro, mais o prêmio do Sindicato dos Escritores e o Oscar.

Leonard Maltin deu 3.5 estrelas em 4 e escreveu uma crítica que me parece corretíssima. Diz ele que Paul Giamatti tem uma grande interpretação, absolutamente natural e totalmente crível, como um candidato a escritor apaixonado por vinhos e socialmente desejaustado, que leva um grande amigo para uma viagem de uma semana por uma região vinícola da Califórnia antes de seu casamento. “Narrado com inteligência, verdade, compaixão e um olho para os detalhes que marca todos os trabalhos de Payne”.

E Maltin acrescenta uma informação saborosíssima, tão saborosa quanto deve ser o vinho predileto de Miles, o Cheval Blanc de 1961: a novela de Rex Pickett que deu origem ao filme ainda não havia sido publicada quando o filme foi feito! Sensacional: era um livro inédito, assim como o catatau que Miles escreve – e que, além dele, apenas a linda Maya lê.

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Rex Pickett – informa o IMDb – mais tarde escreveu outro livro, uma sequência da história de Sideways. Nessa continuação, Miles consegue publicar um livro, que vira best-seller.

E, para encerrar, um detalhinho pequeno, porém importante. Eu achava, erradamente, que sideways significa atalho. Não. De fato, sideway, no singular, é, sim, atalho, vereda. Sideways, diferentemente, significa de lado. Como, por exemplo, na expressão andar de lado.

Fiquei pensando que Alexander Payne poderia ter usado a maravilhosa canção “Slip slidin away”, de Paul Simon, nos créditos finais. O compositor genial diz: “We work our jobs / Collect our pay / Believe we’re gliding down the highway / When in fact we’re slip slidin’ away”.

Achamos que estamos brilhando na estrada, mas na verdade estamos apenas escorregando para longe, andando de lado, sem direção.

Anotação em janeiro de 2015

Sideways – Entre Umas e Outras/Sideways

De Alexander Payne, EUA, 2004

Com Paul Giamatti (Miles Raymond), Thomas Haden Church (Jack), Virginia Madsen (Maya), Sandra Oh (Stephanie)

e Marylouise Burke (a mãe de Miles), Jessica Hecht (Victoria), Missy Doty (Cammi), M.C. Gainey (o marido de Cammi), Alysia Reiner (Christine Erganian), Shake Tukhmanyan (Mrs. Erganian), Shaun Duke (Mike Erganian)

Roteiro Alexander Payne e Jim Taylor

Baseado no livro de Rex Pickett

Fotografia Phedon Papamichael

Música Rolfe Kent

Montagem Kevin Tent

Produção Fox Searchlight Pictures, Michael London Productions. DVD Fox.

Cor, 126 min

R, ***1/2

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