Sherlock Holmes e a Arma Secreta (e mais três filmes)

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Nota: ★★½☆

Sherlock Holmes, todo mundo que já leu alguma coisa sobre ele sabe muito bem, é um homem da era vitoriana. Os grandes casos que ele resolveu (e os pequenos também) aconteceram nas últimas décadas do século XIX e bem no início do século XX. O mais famoso detetive do mundo nasceu, segundo seus biógrafos, em 1854, e foi visto pela última vez em 1914.

(Há uma nota de pé de página.)

Mas o cinema e depois a televisão sempre tomaram muitas liberdades com Holmes. Roteiristas inventaram muitas histórias que não estão no Cânone Sherlockiano, ou seja, as 60 histórias relatadas pelo amigo e colaborador do detetive, o doutor John Watson, e entregues por este a Arthur Conan Doyle, que se encarregou de publicá-las, entre 1887 e 1927.

Essas liberdades com a figura de Sherlock Holmes começaram cedo, quando os envolvidos – o próprio detetive, o doutor Watson, Conan Doyle – ainda estavam vivos, no início do século passado. E virtualmente a cada ano surgem novos exemplos.

(Insisto: ao final desta anotação, há uma nota de esclarecimento.)

Em 2009 e 2011, o diretor Guy ex-Madonna Ritchie criou novas aventuras de Holmes, em filmes de produção suntuosa, mas que deixaram sherlockianos do mundo inteiro indignados com o retrato de um detetive que usava quase tanto a força bruta quanto o intelecto, a capacidade dedutiva. Aqui mesmo neste 50 Anos de Filmes publiquei um texto com elogios ao primeiro dos dois filmes e, excepcionalmente, um outro, escrito não por mim, mas por meu amigo Valdir Sanches, metendo o pau no que ele entendeu ser a descaracterização do personagem mostrado nos escritos de John Watson.

Mas as heresias não param jamais. Uma recente série de TV, Elementary, que estreou na rede americana CBS em 2012, mostra Sherlock Holmes trabalhando em pleno século XXI em Nova York, e ainda comete a desfaçatez de apresentar Watson como uma mulher, interpretada por Lucy Liu!

Um conjunto de 14 filmes que tem inegável importância

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Entre 1939 e 1946, foi produzida nos Estados uma série de 14 filmes com aventuras de Sherlock Holmes e o doutor Watson. A maior parte deles deslocou os dois amigos da era vitoriana para a época em que os filmes foram feitos – exatamente o período da Segunda Guerra Mundial. E os roteiristas inventaram então histórias que colocam o detetive a serviço do esforço de guerra, lutando contra o nazismo.

Apesar dessa falta de apreço à verdade dos fatos, às histórias reais vividas por Sherlock Holmes, no entanto, essa série de 14 filmes tem importância inegável. Para várias gerações, o rosto de Sherlock Holmes é o rosto narigudo de Basil Rathbone, e a figura de John Watson é a silhueta rotunda de Nigel Bruce.

Eu já tinha visto pelo menos um desses 14 filmes, Melodia Fatal/Dressed to Kill, de 1946, exatamente o último da série, e tinha escrito sobre ele, em 2009, quando estava relendo alguns dos 56 contos e 4 romances que formam o Cânone, na versão lançada no Brasil em seis volumes sensacionais pela Jorge Zahar Editor, a partir de 2005, com o título de Sherlock Holmes – Edição Definitiva – Comentada e Ilustrada – edição, prefácio e notas assinados por Leslie S. Klinger

Agora, meio por acaso, Mary e eu vimos mais quatro dos 14 filmes da série. Não são ótimos, não são sensacionais – mas a verdade é que dá vontade de ver todos.

Hoje em dia está tudo, absolutamente tudo disponível de graça na internet. Mas sou um sujeito incrivelmente velho – mesmo quando era bem jovem já me considerava pré-antigo –, e então só sei falar do que não é pirataria.

Toda a série foi relançada já nos anos 2000 em DVD nos Estados Unidos; as capinhas que podem ser vistas no IMDb (ou em sites tipo Amazon) mostram que os DVDs se orgulham em dizer que os filmes foram restaurados e colorizados! Colorizados, aquela mania que o milionário Ted Turner espalhou por centenas de filmes dos anos 30 e 40, um crime, um absurdo.

Por volta de 2005, vários filmes da série foram lançados no Brasil em DVD – no preto-e-branco original, graças ao bom Deus – por uma empresa fajuta, que usava o endereço mmidiagroup.com.br e o nome fantasia de Multi Midia Group. Na época, comprei dois DVDs – cada um deles traz dois dos filmes da série.

Sete dos 14 títulos (vimos isso agora) estão disponíveis no Now da Net, por módicos R$ 0,99.

Eis a relação completa dos 14 filmes com Basil Rathbone e Nigel Bruce

A rigor, a rigor, os 14 filmes só tem dois elementos comuns a todos: os atores Basil Rathbone como Sherlock e Nigel Bruce como Watson. É só esse o seu mínimo múltiplo comum, ou máximo divisor comum – jamais vou saber o que é um, o que é outro.

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Aqui vai, até para que eu mesmo entenda, a relação dos 14:

1 – O Cão de Baskervilles/The Hound of Baskervilles (1939)

2 – Sherlock Holmes/The Adventures of Sherlock Holmes (1939)

3 – Sherlock Holmes e a Voz do Terror/Sherlock Holmes and the Voice of Terror (1942)

4 – Sherlock Holmes e a Arma Secreta/Sherlock Holmes and the Secret Weapon (1942)

5 – Sherlock Holmes em Washington/Sherlock Holmes in Washington (1943)

6 – Sherlock Holmes Enfrenta a Morte/Sherlock Holmes Faces Death (1943)

7 – A Garra Escarlate/The Scarlett Claw (1943)

8 – Pérola Negra ou Pérola da Morte/The Pearl of Death (1944)

9 – Sherlock Holmes e a Mulher Aranha/Sherlock Holmes and the Spider Woman (1944)

10 – Casa do Medo/The House of Fear (1945)

11 – A Mulher de Verde/The Woman in Green (1945)

12 – Desforra em Argel/Pursuit to Algiers (1945)

13 – Noite Tenebrosa/Terror by Night (1946)

14 – Melodia Fatal/Dressed to Kill (1946).

Os dois primeiros foram fiéis aos fatos – e fizeram um sucesso incrível

O primeiro deles, O Cão de Baskervilles, de 1939, foi um tremendo, estrondoso sucesso de público. O sucesso foi tão sensacional que, no mesmo ano, foi lançado o segundo. Não tive a alegria de ver esses filmes jamais, mas eles parecem importantíssimos. Foi, pelo que dizem os estudiosos, os primeiros filmes que colocaram Sherlock Holmes e John Watson na época em que eles de fato viveram, a era vitoriana, ali por 1880 e daí para a frente.

Desde 1903 houve filmes sobre Sherlock Holmes – feitos nos Estados Unidos, e também na Dinamarca. Uma série de 13 filmes com o detetive foi feita na Dinamarca entre 1908 e 1911, e deve ter sido uma maravilha, já que o cinema feito nos países nórdicos era um dos mais avançados do mundo. Infelizmente, todos eles se perderam, assim como os primeiros filmes americanos. Hoje há apenas registros sobre a existência desses filmes, mas não sobreviveram cópias deles.

Depois desses dinamarqueses, houve dezenas e dezenas de filmes com Sherlock Holmes como protagonista, produzidos nos mais diversos países europeus e nos Estados Unidos. Mas foram os dois primeiros estrelados por Basil Rathbone er Nigel Bruce que fizeram imenso sucesso. E tiveram os aplausos dos sherlockianos do mundo todo, exatamente por serem os primeiros a serem fiéis aos fatos, a mostrarem Sherlock e Watson vivendo na época em que de fato viveram.

Os dois foram produzidos pela 20th Century Fox – exatamente, repito, em 1939, o ano em que começou a Segunda Guerra Mundial. Com a guerra – embora os Estados Unidos só fossem entrar nela em dezembro de 1941, depois do ataque japonês a Pearl Harbour, o porto militar perto de Honolulu, no Havaí –, quase tudo mudou. A Fox perdeu o interesse em continuar fazendo filmes sobre um detetive inglês que trabalhava no final do século anterior.

Aí então a Universal se apossou da coisa. Levou para si os dois atores que faziam com maestria Holmes e Watson, alterou drasticamente a época em que os dois personagens viveram, e começou a lançar, um após outro, filmes com os personagens originais, mas com histórias novas, inventadas em Hollywood, e não passadas em Londres décadas antes, como as que constam do Cânone.

Quatro filmes do mesmo diretor, com os mesmos atores – mas diferentes um do outro

zzholmes4Todos os quatro filmes da série que Mary e eu vimos agora foram dirigidos por Roy William Neill – e estão entre as últimas obras desse diretor nascido em 1887, bem na época de maior atuação de Sherlock Holmes, e morto em 1946, exatamente o ano em que a série de filmes com dupla Basil Rathbone-Nigel Bruce teve seu último filme.

E é impressionante como os quatro filmes – embora feitos pelo mesmo diretor, com os mesmos atores centrais – são diferentes entre si. Como são irregulares.

São, todos eles, filmes B – de segunda categoria, segundo o próprio estúdio que os produziu. Filmes baratos, de orçamento bem apertado,  seguramente feitos em poucos dias. “Como sempre, com qualquer filmes B deste tipo, eventualmente a inspiração, o interesse (e o dinheiro alocado) eram drasticamente reduzidos”, diz sobre a série o livro The Detective in Film, de William K. Everson.

Sherlock Holmes e a Arma Secreta se baseia – segundo se diz nos créditos iniciais – no conto “The Dancing Men”. E A Pérola Negra (como se chamou no lançamento do Brasil) ou Pérola da Morte (como se chama agora no Now) se baseia no conto “The Six Napoleons” – ambos assinados por Arthur Conan Doyle, ou seja, pertencentes ao Cânone Sherlockiano, narrativas oficiais. As tramas foram seguramente bastante alteradas pelos roteiristas da Universal – mas pelo menos tinham alguma inspiração em obras oficiais.

Os dois outros, A Garra Escarlate e A Mulher de Verde, nem isso têm a ver com o Sherlock Holmes original. São criações dos roteiristas do estúdio; são histórias inventadas, que na verdade Sherlock Holmes jamais viveu.

A Arma Secreta põe Holmes e Watson na luta contra o nazismo

A Arma Secreta é puro esforço de guerra – a Universal pôs Sherlock Holmes e John Watson a trabalho do governo britânico na luta contra o nazismo. Disfarçado, Holmes vai à Suíça tirar de lá e levar para Londres um cientista, Franz Tobel (William Post Jr.), que inventou uma mira infalível para equipar os aviões bombardeiros. Mas eis que surge o inefável, pérfido, cruel Professor Moriarty (Lionel Atwill), o maior criminoso do mundo, que consegue capturar o dr. Tobel e ameaça entregá-lo (e a seu invento) aos nazistas.

Leonard Maltin deu 3 estrelas em 4 para o filme. Acho exagerado. Dos quatro que vimos agora achei este A Arma Secreta o mais fraco – talvez por ser essa coisa de esforço de guerra. Na época, claro que fazia sentido botar Holmes contra os nazistas, mas hoje parece forçado, artificial.

zzholmes5A Pérola Negra ou Pérola da Morte me pareceu bem melhor. A pérola do título é só é negra no sentido figurado – por causa dela, para roubá-la, para possui-la, dezenas de homens perderam a vida, ao longo dos séculos, como diz e repete o próprio Sherlock. A imensa Pérola Bórgia, que, claro, pertenceu a essa família italiana na Idade Média, agora pertence ao Império Britânico, e é uma das principais atrações de um grande museu de Londres, o Regent Museum. Está retornando à capital em um transantlântico, guardada por um funcionário. Ele é chamado à cabine do comandante para receber uma mensagem de rádio – e, enquanto isso, uma bela mulher, Naomi Drake (Evelyn Ankers), esgueira-se até a cabine do funcionário, abre a porta com uma chave (sabe-se lá onde ela a conseguiu), e furta rapidamente o preciosíssimo brilhante. Roubo feito, ela volta a conversar com um idoso padre ao lado de quem estivera sentada, num dos corredores laterais do navio.

O padre não era padre coisa alguma – era Sherlock Holmes, que supervisionava o funcionário do governo e percebeu que a bela mulher iria tentar roubar a pérola. Sherlock recupera a preciosidade e a devolve para o museu.

E aí Sherlock Holmes comete uma gigantesca asneira, uma imbecilidade, que permite que a pérola seja novamente roubada!

O curador do museu está demonstrando para Holmes, Watson e o Inspetor Lestrade, da Scotland Yard, as maravilhas da moderna tecnologia. Se alguém conseguisse quebrar a redoma de vidro que protege a Pérola Bórgia – ou, de resto, se pegasse qualquer dos objetos valiosos exibidos ali –, um alarme geral começaria a soar, e as portas do museu seriam fechadas automaticamente, não permitindo assim que o gatuno escapasse.

Esse Sherlock Holmes criado pelo roteirista Bertram Millhauser não é muito chegado a essas novas tecnologias. Não confia muito em geringonças que funcionam à base da eletricidade. E, para demonstrar que aquele esquema de segurança era falível, corta os fios do alarme. O ladrão de jóias que trabalha em associação com a bela Naomi Drake – e que havia se empregado como guarda do museu – aproveita-se do momento, quebra o vidro de proteção, rouba a pérola e foge com ela.

O filme, de breves 69 minutos, está apenas começando. Haverá depois assassinatos em vários locais de Londres – e, junto dos cadáveres, o assassino deixará toda a louça da casa em pedacinhos.

Leonard Maltin deu 3 estrelas em 4 para o filme.

Eu daria 2.5. É uma trama bem interessante – embora o roteirista Bertram Millhauser tenha tomado muitas liberdades com a narrativa original do conto “The Six Napoleons”.

Um pântano coberto por nevoeiro: uma atmosfera das histórias reais de Holmes

zzholmes7É uma trama bastante interessante também a de Garra Escarlate, daquele mesmo ano de 1944 – embora seja criação de Paul Gangelin e Brenda Weisberg. Com base na história inventada por esses dois, o próprio diretor Roy William Neill e Edmund Hartmann escreveram o roteiro.

Embora não tenha sido narrada pelo doutor Watson, embora não tenha sido editada por Sir Arthur Conan Doyle, a trama, de fato interessante, tem bastante do clima das histórias originais. A gente sentiu isso: há diversas sequências à noite, em um pântano coberto por nevoeiro denso, que fazem lembrar a atmosfera de O Cão de Baskervilles.

O livro The Detective in Film diz que este The Scarlett Claw é um dos melhores filmes desta série, “um sinistro criador de calafrios com alguns ecos de The Hound of the Baskervilles”.

Estranhamente, no entanto, os marshes, como se diz várias vezes no filme, os terrenos pantanosos, enevoados, lúgubres, assustadores em que Holmes e Watson vão se aventurar não ficam no interior daquela bela ilha situada um pouquinho à esquerda do continente europeu, e sim – vejam só os caríssimos sherlockianos – no Canadá!

Mas o que raios nossos heróis foram fazer no Canadá, onde – pelo que mostra o Cânone Sherlockiano – eles jamais, na realidade, puseram os pés?

Sei lá. Mary, sempre mais esperta, já imaginou logo um motivo: era 1944, o ano do desembarque aliado na Normandia; a Guerra estava no auge, centenas de milhares de pessoas morriam na Europa. Seria esquisito botar Holmes para cuidar de um caso de assassinatos no interior da Inglaterra, enquanto Londres era bombardeada pela aviação nazista. Levar Holmes e Watson para bem longe, para o Canadá, onde não havia batalhas, poderia ser uma boa saída.

Deve muito provavelmente ter razão a Mary. A escolha do Canadá deve seguramente ter a ver com a Guerra. Tanto que, ao final do filme, mistério resolvido, Holmes se põe a declamar as palavras de um discurso de Winston Churchill de elogio ao Canadá, pelo fato de o país ter enviado tropas para combater o nazismo.

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A trama é assim: em uma aldeiazinha perdida no interior do Canadá, a população está apavorada. Um ser não humano – um fantasma, um lobisomem, um coisa-ruim – anda matando animais, estraçalhando seus pescoços. O não-gente tem uma garra de besta, e com essa garra corta as veias dos animais.

Numa noite, tocam os sinos da igreja. O padre vai até lá e se depara com o cadáver de Lady Penrose, a mulher do nobre mais rico do lugar. (Que eu saiba, em 1944 não havia nobres no Canadá como havia na Inglaterra, mas tudo bem, vamos em frente.) Ela havia saído de casa, fora atacada pela besta não-gente, se arrastara até a igreja e tocara os sinos para pedir socorro – mas não resistiu ao corte nas veias, e passou desta para melhor.

O marido dela, Lord William Penrose (Paul Cavanagh), estava naquele momento participando de uma reunião em uma sociedade de estudiosos do ocultismo, em um hotel de Quebec, a cidade grande mais próxima da sua aldeiazinha. Sherlock Holmes e John Watson participavam da mesma conferência – não me perguntem por quê.

Lord Penrose está discursando, relatando que um ser não humano tem agido em sua região. Ele acredita no oculto. (E isso é algo que tem proximidade com o universo real de Sherlock Holmes: Arthur Conan Doyle tinha profundo interesse por assuntos ligados ao ocultismo, ao sobrenatural.)

Um mensageiro leva a Lord Penrose a informação de que há um interurbano para ele. É da aldeiazinha – avisam-no de que sua mulher foi assassinada.

Holmes e Watson acreditam que está na hora de voltar para a Inglaterra – mas o detetive recebe uma carta. É exatamente de Lady Penrose, escrita pouco antes de ela ser assassinada: ela se diz apavorada, acha que sua vida está sendo ameaçada, e pede a ajuda do detetive mais famoso do mundo. Holmes diz uma boa frase para Watson: “Veja só a ironia, Watson, a trágica ironia: recebemos autorização da vítima para encontrar seu assassino. Pela primeira vez, fomos contratados por um cadáver”.

Este início de Garra Escarlate é mais fascinante que seu final. Mas é um filme interessante. Leonard Maltin gostou bastante, deu 3.5 estrelas em 4.

Um erro gravíssimo: os filmes mostram o doutor Watson como um perfeito idiota

zzholmes8A Mulher de Verde – 3 estrelas em 4 segundo Maltin – tem um elemento que o diferencia dos outros três filmes da série que vimos agora. O filme é narrado pelo Inspetor Gregson, da Scotland Yard. Três mulheres haviam sido assassinadas em poucos dias em diferentes regiões de Londres. A pressão para que a polícia descobrisse o assassino era imensa – mas os inspetores da Scotland Yard não tinham pista alguma. Falava-se que era um criminoso tão absurdamente perigoso quanto Jack, o Estripador, mas a situação era ainda pior do que naquela época, porque os crimes de Jack, the Ripper, aconteceram na mesma região da cidade, e as vítimas tinham um elemento em comum – eram prostitutas. Agora, não – as vítimas eram de locais diferentes, e de profissões diferentes.

E então o Inspetor Gregson deixa o orgulho de lado e vai até a Baker Street, número 221 B, pedir a ajuda de Sherlock Holmes.

Holmes ouve o inspetor, diz que vai ajudá-lo, e o convida para tomar umas. Me pareceu muito estranho, pouco parecido com o que diz o Cânone, Holmes convidar alguém para tomar umas num bar, mas tudo bem, vamos em frente.

Holmes e Gregson vão a um bar chique, em que há um palco, com músicos se apresentando. Numa das mesas próximas ao bar propriamente dito, em que estão os dois, há um casal – um homem muito conhecido, uma figura proeminente, Sir George Fenwick (Paul Cavanagh), e uma mulher muito mais jovem que ele, e muito bela – veremos depois que se chama Lydia (Hillary Brooke).

É meio grotesco que, numa metrópole como Londres, o mais arguto detetive particular do mundo e seu amigo inspetor da Scotland Yard venham a se encontrar assim, por mero acaso, logo no começo do filme, com a mulher de verde do título, que tem a ver com os recentes assassinatos e com os que virão a seguir, e que, por sua vez, trabalha junto com o Professor Moriarty! Ele mesmo, o maior criminoso do universo!

Mary notou, muito bem notado, que o Professor Moriarty foi copiado nas histórias do Batman. Assim como Sherlock Holmes tem um gênio do crime que volta e meia reaparece, Batman tem o Coringa. Os dois se odeiam – mas ao mesmo têm profunda admiração um pelo outro. O Coringa é a versão bat-caverna de Gotham City do londrino Moriarty – neste A Mulher de Verde interpretado por Henry Daniell.

Confesso que o Professor Moriarty, cada vez que aparece numa história de Holmes, seja ela verdadeira, autêntica, pertencente ao Cânone, ou invenção de roteirista de Hollywood ou de qualquer outro lugar, me dá uma canseira… Fica tudo tão bobo, tão pequeno, tão pouco Sherlock Holmes, tão Super-heróis…

De qualquer forma, a trama de A Mulher de Verde inclui hipnotismo – um tema que ainda era polêmico na época em que o filme foi lançado.

A questão do hipnotismo serve para o filme expor o doutor Watson como um perfeito imbecil.

Em todos estes quatro filmes (e imagino que deva ser assim também nos outros oito da série feitos pela Universal), há um defeito gravíssimo, que incomodou bastante a mim e à Mary: os roteiristas construíram para o ator Nigel Bruce um John Watson bobo, pateta, beirando a idiotice pura e simples.

É um dos grandes erros destes filmes.

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Digo de novo: qualquer pessoa que tenha lido um pouco dos livros originais sabe que John Watson não era esse pateta que os filmes da Universal mostram. O doutor Watson foi um bom médico, fez o curso exigido para cirurgiões militares e serviu com honra o exército de Sua Majestade. Era um homem afável, bem humorado – mas inteligente, bom observador. Se Sherlock Holmes ficou conhecido, foi graças a Watson, que fez cuidadosas anotações e descreveu nelas os casos que seu amigo solucionou.

Transformar Watson em um bobalhão, um trapalhão à la Jerry Lewis, Didi Santana, pode ter provocado risadas entre o público americano – mas é um absurdo, um equívoco gigantesco.

Da mesma maneira, o Inspetor Lestrade, da Scotland Yard, aparece nestes filmes como um idiota. Ora, não é assim nos relatos de Watson. Lestrade não é nenhum absoluto gênio – mas ele ajuda Holmes em diversas oportunidades. Não é o pateta absoluto que os filmes mostram.

Ah, sim, a nota de rodapé, de esclarecimento

Nota de rodapé: para os sherlockianos do mundo inteiro, Sherlock Holmes existiu de fato, John Watson existiu de fato. Watson relatou as 60 histórias do Cânone em 4 romances e 54 contos. Entregou-os a seu amigo Arthur Conan Doyle, que então se encarregou de fazer publicar os relatos, em livros e também em revistas, em especial a Strand da Inglaterra.

Este texto foi escrito de acordo com as regras dos sherlockianos. Bem, no mínimo, foi como eu tentei fazer…

 Anotação em abril de 2015

Sherlock Holmes e a Arma Secreta/Sherlock Holmes and the Secret Weapon

De Roy William Neill, EUA, 1942

Com Basil Rathbone (Sherlock Holmes), Nigel Bruce (dr. John Watson)

e Kaaren Verne (Charlotte Eberli), Lionel Atwill (Prof. Moriarty), William Post Jr. (Dr. Franz Tobel), Dennis Hoey (Inspetor Lestrade)

Roteiro Edward T. Lowe, W. Scott Darling e Edmund Hartmann

Baseadp na história The Dancing Men, de Sir Arthur Conan Doyle

Fotografia Lester White

Música Frank Skinner

Montagem Otto Ludwig

Produção Universal. DVD MultiMidia Group.

P&B, 68 min

*1/2

Pérola Negra ou A Pérola da Morte/The Pearl of Death

De Roy William Neill, EUA, 1944

Com Basil Rathbone (Sherlock Holmes), Nigel Bruce (dr. John Watson)

e Evelyn Ankers (Naomi Drake), Dennis Hoey (Inspetor Lestrade), Miles Mander (Giles Conover), Ian Wolfe (Amos Hodder, dono da loja de antiguidades), Charles Francis (Digby, o curador do Regent Museum), Mary Gordon (Mrs. Hudson, a criada de Sherlock Holmes), Rondo Hatton (o Creeper)

Roteiro Bertram Millhauser

Baseado na história “The Six Napoleons”, de Sir Arthur Conan Doyle

Fotografia Virgil Miller

Montagem Ray Snyder

Produção Universal.

P&B, 69 min

**1/2

Garra Escarlate/The Scarlett Claw

De Roy William Neill, EUA, 1944

Com Basil Rathbone (Sherlock Holmes), Nigel Bruce (dr. John Watson)

e Gerald Hamer (Potts), Paul Cavanagh (Lord William Penrose), Arthur Hohl (Emile Journet), Kay Harding (Marie Journet), Miles Mander (juiz Brisson), David Clyde (sargento Thompson), Ian Wolfe (Drake), Victoria Horne (Nora), George Kirby (padre Pierre)

Roteiro Roy William Neill e Edmund Hartmann

Baseado em história de Paul Gangelin e Brenda Weisberg

Fotografia George Robinson

Montagem Paul Landres

Produção Universal.

P&B, 74 min

**1/2

A Mulher de Verde/The Woman in Green

De Roy William Neill, EUA, 1945

Com Basil Rathbone (Sherlock Holmes), Nigel Bruce (dr. John Watson)

e Hillary Brooke (Lydia Marlow), Henry Daniell (Prof. Moriarty), Paul Cavanagh (Sir George Fenwick), Matthew Boulton (Inspetor Gregson),

Eve Amber (Maude Fenwick)

História e roteiro Bertram Millhauser

Fotografia Virgil Miller

Montagem Edward Curtiss

Produção Universal. DVD MultiMidia Group

P&B, 68 min

**1/2

4 Comentários para “Sherlock Holmes e a Arma Secreta (e mais três filmes)”

  1. Sherlock Holmes história de amor,quer se trate de detectives este é o meu favorito.Atualmente eu ver True Detective 2 e estou muito satisfeito, é um excelente projeto que é muito vale a pena ver , enredo e personagens descelnace são excelentes. Eu não me arrependo Veral , espero continuar assim nas suas próximas campanhas .

  2. Sherlock Holmes é Amor. Um daqueles raros que surgem nas nossas vidas de leitoras e duram a vida inteira.
    Vi alguns dos filmes analisados – como Melodia Fatal (que tenho em DVD), A Mulher de Verde e A Garra Escarlate. Você está coberto de razão: a idiotice que atribuem ao Dr. Watson é, no mínimo, um insulto.

  3. Que legal que você concorda comigo nesse ponto, Carla! Sem dúvida: o dr. Watson não é um idiota!
    Um abraço.
    Sérgio

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