Palavras e Imagens / Words and Pictures

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Nota: ★★½☆

O diretor, Fred Schepisi, é australiano de Melbourne. O ator, Clive Owen, é inglês de Coventry, e a atriz, Juliette Binoche, é francesa de Paris. O filme foi rodado na província canadense de British Columbia – mas é americano da gema.

É um filminho típico do cinemão comercial de Hollywood, cheio de boas intenções e todo politicamente correto. Palavras e Imagens/Words and Pictures é uma mistura de comedinha romântica com aquele tipo de filme sobre escola, educação, professores dedicados, à la Sociedade dos Poetas Mortos (1989) e O Sorriso de Mona Lisa (2003).

Ou, como Mary definiu sucintamente, enquanto o filme ainda rolava, um filminho sessão da tarde.

E não vai em nada disso aí crítica, reclamação, lamento. Gosto muito de filminhos sessão da tarde, e este aqui é dos bonzinhos.

Ahnn… Tem um elemento que não é típico de filminho sessão da tarde: fala de vício, adição, no caso à droga álcool. Gosto de filmes que falem de vício e drogas. É um tema importante, que não deve ser escondido embaixo do tapete.

Tudo é politicamente correto – mas o filme não está para discutir nada a sério

zzwords2aA época é a atual, e a cidade não se diz qual é – o melhor jeito de dizer que poderia ser qualquer cidade de média para pequena dos US of A. O colégio é muito, mas muito bom, as instalações são maravilhosas, os professores ganham bem – é tudo como o mundo deveria ser, como é o Brasil da fantasia vendido pelo marqueteiro João Santana. A mensalidade deve ser danada de cara, mas não há menção a esse assunto, e nem só de Wasps – brancos, anglo-saxões e protestantes – é formada a classe que será focalizada na história. Nada disso.

Como tudo é politicamente correto, e como não se está aqui para discutir a sério problemas sociais, politicos, ou mesmo educacionais – ao contrário de filmes como os americanos Sementes da Violência (1955),  Escritores da Liberdade (2007), os franceses Nosso Professor é um Herói (1996), Entre os Muros da Escola (2008), Stella (2008), os alemães Meninas Não Choram (2002), A Onda (2008) –, há aqui um jovem que é negro, perdão, afrodescendente, e uma filha ou neta de orientais, perdão novamente, uma Asian-American.

E, como este é um filme especialmente politicamente correto, o garoto negro (afrodescendente é o cacete!), Cole (Josh Ssettuba) e a garota asiática, Emily (Valerie Tian, maior gracinha), são dos mais inteligentes e talentosos da classe.

Jack Marcus, o personagem interpretado por Clive Owen, é o professor de Língua e Literatura Inglesa. Veremos que, muitos anos antes, ainda bem jovem, Jack publicou um livro, que foi muito bem recebido pela crítica. Assim, o valor de seu passe, quando ele foi contratado pela escola, lá atrás, era alto. Mas não voltou a publicar mais nada, ao longo dos anos mais recentes. Seu casamento foi pro brejo, e sua relação com o filho único, Tony (Christian Scheider), no momento não é nada boa. No passado, ele teve um caso um tanto furtivo com a bela Elspsth (a órima Amy Brenneman), que é membro do conselho diretor da escola, mas ela não parece disposta a defender o ex-amante perante os demais conselheiros. Rashid (Navid Negahban), o diretor da escola, diz a Jack que o conselho quer, por medida de economia, fechar a revista literária que ele, como professor de Inglês, edita.

No momento em que a ação do filme começa, Jack Marcus não vai nada, nada bem. Não se entusiasma como antes nas aulas, não consegue criar, escrever, a revista que edita está ameaçada, seu próprio emprego está em risco. E, at last bur not at least, Jack vem bebendo muito. Toma uma golada de vodca antes de sair de casa em direção à escola. Leva vodca na garrafa térmica e bebe no carro, na hora do almoço.

É como diz Danièle Thompson: a vida bem que podia ser como um filme americano

zzwords6Está chegando à escola uma nova professora de artes. É uma grande conquista da escola, uma sorte grande: a famosa pintora Dina Delsanto (o papel, é claro de Juliette Binoche). Dina Delsanto havia se mudado de Nova York, a capital do mundo, para aquela pequena cidade – e, para sorte do diretor Rashid, havia aceitado o convite para dar aula de arte.

Veremos que Dina também tem problemas. Está com um tipo de artrite reumática, ou coisa parecida, que torna muito dolorosos os movimentos de todas as juntas. Os médicos ainda não haviam encontrado o melhor remédio para aliviar as dores; vinham fazendo tentativas, mas até então infrutíferas.

Assim, Dina havia decidido se mudar para aquela cidade para ficar perto de sua irmã, Sabine (Janet Kidder), que dá a ela toda ajuda, todo suporte. Mas as dores, a tensão com as dores, vinham impedindo Dina de pintar algo que satisfizesse seu padrão de exigência.

Um escritor que não tem conseguido escrever, uma pintora que não tem conseguido pintar. Words and PicturesPalavras e Imagens. Eis aí a base da trama.

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Evidentemente, o Sr. Palavras e a Srta. Imagens vão se estranhar demais, logo à primeira vista, no primeiro encontro na sala dos professores.

Axioma básico das comedinhas românticas: quanto mais o mocinho e a mocinha se desentenderem no início da narrativa, maior a garantia de que estarão juntos no final.

Os caminhos que o destino – ou, mais precisamente, o autor e roteirista Gerald DiPego – vai traçar para o Sr. Palavras e a Srta. Imagens serão bastante acidentados, tortuosos. Exatamente como manda o figurino das comédias românticas.

A pintora dirá a seus alunos que as palavras mentem, são falsas. O escritor em hibernação reagirá propondo aos alunos uma guerra para provar que as palavras valem mais que mil imagens. O Sr. Palavras e a Srta. Imagens apresentarão bons argumentos, os alunos vão se animar, vão aprender, vão ficar melhores – e a vida é bela, nóis é que estraguela.

Numa saborosa comédia romântica, Fuso Horário do Amor/Décalage Horaire (2002), a diretora Danièle Thompson pôs na boca da personagem interpretada pela mesma Juliette Binoche uma definição deliciosa, ao mesmo tempo irônica e apaixonada, dos filmes americanos:

“Eu não podia ver filmes americanos. Meu pai dizia que eram estúpidos, e minha mãe dizia que eles davam uma idéia errada da vida. Tudo bem: os pobres ficam ricos, os ricos têm uma vida dura, os sem-documento encontram os documentos, as guerras terminam, os mortos voltam a viver e as putas se casam com milionários. Tudo bem. Andy Warhol disse… Puxa, outro americano. Mas ele disse que todos deveriam ter direito a 15 minutos de fama na vida. Eu sempre achei que merecia um dia em que minha vida fosse igual a um filme americano.”

Em Words and Pictures, um bem típico filminho do cinemão comercial americano, os pobres parecem ricos, não há fosso entre as classes sociais, os imbecis que provocam bullying são desmascarados e punidos, as pessoas erram mas se redimem de seus erros.

É como diz a realizadora Danièle Thompson: a vida bem que poderia ser igual a um filme americano.

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Fred Schepisi realizou diversos bons filmes

Para lembrar: Fred Schepisi é o autor de belos filmes. É dele Um Grito no Escuro/A Cry in the Dark (1988), feito na sua Austrália natal, sobre um caso real apavorante, em que Meryl Streep brilha maravilhosamente. É dele A Casa da Rússia/The Russia House (1990), belíssima adapação do livro de John Le Carré passado nos estertores da Guerra Fria e do império soviético, com Sean Connery, Michelle Pfeiffer e Klaus Maria Brandauer.

Fez muitas comedinhas românticas. Roxanne (1987) é uma adaptação do Cirano de Bérgerac, com Steve Martin e Daryl Hannah. A Teoria do Amor/I.Q. (1994) mostra a gracinha da Meg Ryan como a sobrinha de um Albert Einstein interpretado por Walter Matthau.

Um detalhinho fascinante revelado nos créditos finais: todas as pinturas criadas pela artista Dina Delsanto foram na verdade feitas pela própria Juliette Binoche.

O que, na minha opinião, comprova a tese de que não há terreno mais minado, mais propício ao embuste, à enganação, do que a arte abstrata. Aquelas garatujas são criação da Binochinha; poderiam ser da Marina minha neta, ou de qualquer um dos coleguinhas dela que expuseram suas obras na feira de arte do Grão de Chão. Na feira de arte de 2014, Mary, ao examinar um abstrato de autoria de Marina Vaz Bucci , sentenciou: “Melhor que um Fokuda”!

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A crítica do AllMovie é farta em elogios ao filme

Agora falando sério: Perry Seibert, no AllMovie, me desmente: Palavras e Imagens não é um filme do cinemão comercial de Hollywood, e sim um filme independente. De fato, o filme é uma produção de duas pequenas empresas, Latitude Productions e Lascaux Films. A presença de dois atores de primeiríssima linha e de um diretor de prestígio, mais o fato de que o DVD é da gigante Sony Pictures, me induziram ao erro.

O crítico do belíssimo site gostou muito do filme, que recebeu 3.5 estrelas em 5. Ele abre sua crítica assim: “Uma comédia-drama romântica inteligente, engraçada, bem escrita e belamente interpretada parece ser algo muito difícil hoje em dia em Hollywoo, mas é isso que é a charmosa indie (produção independente) de Fred Schepisi.”

E Perry Seibert finaliza assim: “A história não traz supresas, mas funciona por causa de como os personagens são bem observados. Suas interações são familiares não porque já vimos aquilo antes, mas porque eles se comportam como as pessoais reais se comportam, em toda sua complexa glória. O debate que se trava na história é leve, mas o filme eventualmente prova, tanto através de sua própria qualidades e pela história de amor em seu cerne, que misturar palavras e imagens é muito mais gratificante do que jogar umas contra as outras.”

Está bem correto o crítico do AllMovie. Jack e Dina, na pele desses simpáticos, belos e talentosos Clive Owen e Juliette Binoche – mesmo fazendo um pouco mais de caretas do que eu gostaria – se comportam como gente de verdade, gente como a gente, em toda sua complexa glória.

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Anotação em janeiro de 2015

Palavras e Imagens/Words and Pictures

De Fred Schepisi, EUA, 2013

Com Clive Owen (Jack Marcus), Juliette Binoche (Dina Delsanto),

e Bruce Davison (Walt), Navid Negahban (Rashid, o diretor da escola), Amy Brenneman (Elspeth), Valerie Tian (Emily), Adam DiMarco (Swint), Josh Ssettuba (Cole Patterson), Janet Kidder (Sabine), Christian Scheider (Tony, o filho de Jack), Keegan Connor Tracy (Ellen)

Argumento e roteiro Gerald DiPego

Fotografia Ian Baker

Música Paul Grabowsky

Montagem Peter Hones

Direção de arte Patrizia von Brandenstein

Produção Latitude Productions, Lascaux Films. DVD Sony Pictures.

Cor, 111 min

**1/2

5 Comentários

  1. Lucsa
    Postado em 10 outubro 2015 às 10:29 pm | Permalink

    Belíssimo filme, ensina bons conceitos de atitude e relacionamento, com o enredo inteligente.

  2. Luiz Carlos
    Postado em 22 abril 2016 às 4:45 pm | Permalink

    Com 72 Anos , aposentado, foi uma obra inspiradora e motivadora para estudar e viver uma vida de “AMOR” sem preconceito,
    pois a beleza esta no interior das pessoas.
    “AMEI E VOU CONTINUANDO O AMOR”

  3. Luiz Carlos
    Postado em 22 abril 2016 às 4:47 pm | Permalink

    MINHA OPINIÃO É QUE AMEI O FILME E PRONTO!

  4. Maria Helena Macedo
    Postado em 26 agosto 2017 às 11:00 am | Permalink

    O filme é politicamente correto? Ótimo. Por que só a vilanagem tem de resultar em bons filmes? Estou farta da vilania da vida real. E do preconceito de que tudo que é feito nos EUA tem de ser necessariamente ruim. Amei o filme e a atuação de Owen e Binoche.A presença da francesa já é um convite ao filme.

  5. Sérgio Vaz
    Postado em 28 agosto 2017 às 2:54 pm | Permalink

    Cara Maria Helena,

    Agradeço muito pelo seu comentário. Os comentários engrandecem este site, dão vida a ele.
    Só espero que você não tenha achado que eu estou aqui defendendo vilanias. E tampouco disse que tudo que é feito nos EUA é necessariamente ruim. Bem ao contrário, são absolutamente apaixonado pelo cinema americano.

    Mais uma vez, muito obrigado.
    Sérgio

Um Trackback

  1. […] primeira vez em que o diretor André Téchiné e Juliette Binoche trabalharam juntos, em 1985, em Rendez-Vous, ela estava com 21 aninhos e  bem em começo de […]

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