Paixão Inocente / Breathe In

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Nota: ★★☆☆

Os Reynolds têm toda a aparência de serem uma família feliz – e o filme do diretor americano Krake Doremus começa mostrando isso. Pai, mãe e filha estão sendo fotografados por um profissional do lado de fora de sua bela casa, localizada ao norte de Nova York, a uma hora e meia de carro da Big Apple.

Estão sorridentes, alegres, brincalhões. Parecem ser carinhosos uns com os outros. Keith (o papel do australiano Guy Pearce) dá aula de música na high school em que estuda a filha única, Lauren (Mackenzie Davis); é também um violencelista substituto da Orquestra Sinfônica de Nova York, e está para ter uma audição que poderá transformá-lo em músico efetivo da orquestra.

Lauren é uma moça alta, bonita, de 17 anos, campeã de natação.

A mãe, Megan (Amy Ryan), não trabalha – apenas cuida da casa, e tem como hobbie colecionar potes de cerâmica. Essa coisa de Megan não trabalhar nos pareceu bem estranha: não combina com o jeito dela, com o nível da família. Nos pareceu que esse é um dos vários probleminhas do roteiro.

Sim, o roteiro tem vários probleminhas, buracos, coisas soltas, que não se ajustam, fatos que não se justificam. Ao fim e ao cabo, este Breathe In, no Brasil Paixão Inocente, é apenas mediano.

Por trás da fachada de alegria e harmonia, a família tem problemas

zzrespire0O espectador verá que, sob essa aparência de felicidade, de tranquilidade, há ali problemas. Keith não está contente com sua vida. Não gosta de dar aula – dá aula porque é um emprego seguro, relativamente bem pago, e é o que ele pode fazer para sustentar a família. Mas ele gostaria mesmo é de ser admitido como efetivo na Sinfônica, para poder deixar o emprego de professor.

Keith também pensa em voltar a morar na cidade. O casal morava em Nova York, mas, com o nascimento de Lauren, tinha decidido se mudar para o Norte, para um lugar mais calmo. Agora Lauren está criada, e Keith gostaria de discutir o assunto, mas Megan nem admite conversa, porque considera que seria inútil: eles não teriam dinheiro para comprar nada razoável em Nova York. A casa em que moram, embora boa, tinha sido comprada num leilão, e seu valor é bem pequeno em comparação com qualquer apartamento em Manhattan.

E até mesmo Lauren, a desportista, tem um pequeno probleminha: gosta de cerveja e birita um pouco mais do que seria o normal.

E ainda vai surgir um problema gigantesco na vida dos Reynolds. Eles vão receber, para uma estadia de um semestre escolar inteiro, uma jovem inglesa que vem em intercâmbio cultural.

Bem, receber uma jovem inglesa por um semestre a rigor não é problema, certo?

A questão é que a moça, Sophie, 18 anos recém-completadas, é linda, e ainda por cima toca piano maravilhosamente bem. Keith ficará absolutamente fascinado por ela.

A beleza de Felicity Jones é a melhor coisa deste drama familiar

zzrespire4Sophie é interpretada por Felicity Jones. Enquanto via o filme, tentei me lembrar de onde conhecia Felicity Jones. Foi só depois, ao consultar o 50 Anos de Filmes, que caiu a ficha.

Essa jovem atriz inglesa de beleza fantástica já havia me impressionado em dois filmes. Em Reflexos da Inocência/Flashbacks of a Fool (2008), ela dá um show como uma garotinha apaixonada por David Bowie e Roxy Music, que se maquila e se veste imitando seus ídolos do glam rock. Em Caindo no Mundo/Cemetery Junction, ela fez uma garota rica, filha dos personagens interpretados por Ralph Fiennes e Emily Watson, que simpatiza com um garoto da working class. Ela está também em Chéri (2009), e foi indicada agora ao Oscar de melhor atriz de 2015 por A Teoria de Tudo.

A beleza de Felicity Jones é a melhor coisa deste Breathe In – embora, a rigor, a rigor, a escolha dela não pareça muito adequada: Sophie, a personagem, acaba de fazer 18 anos; quando fez o filme, Felicity Jones – que nasceu em 1983 – estava com 27, quase 28. E, como observou a Mary, ela não tem baby face, aquele tipo de rosto que continua parecendo muito jovem sempre.

É verdade que, pelo que o filme mostra, ou indica, a garota Sophie é mais madura do que seria o normal de seus 18 anos. É sensível, lê muito, tem o dom para a música. OK, parece ser mais madura. Mas também é verdade que tudo, em Felicity Jones, demonstra que ela é uma mulher, não uma adolescente.

zzrespire5Não creio que o roteiro (do diretor Drake Doremus e de Ben York Jones) consiga criar personagens nítidos, consistentes. O filme deixa mais dúvidas que certezas. Por exemplo: por que Sophie não treina piano nunca, se uma das consultas feitas por sua família era se a casa americana teria um piano? Por que ela primeiro se recusa a participar das aulas de Keith? Por que ela tem aquele ar sempre um tanto misterioso? O que pretende dizer, afinal, a sequência que dá o título original do filme, em que, no dia da audição de Keith, ela ensina a ele como inalar o ar pelo nariz e soltar pela boca, como forma de se acalmar, relaxar?

A propósito, uma palavrinha sobre o título. Tudo bem que a tradução literal de Breath In – inale, inspire, o verbo no imperativo – seria ruim mesmo. Mas Paixão Inocente? Como assim, inocente? Tudo bem, Sophie era maior de 18 anos, isso é dito de cara, antes mesmo de ela aparecer em cena. Mas Keith e Megan eram os responsáveis legais pela garota; a família dela havia confiado em Keith e Megan para tomar conta dela durante a estadia nos Estados Unidos. Portanto, comer a moça, ou mesmo pensar na possibilidade de comer a moça seria impensável, absurdo, imperdoável – e nada inocente.

Mas o erro não pode ser atribuído apenas aos exibidores brasileiros. Vejo no IMDb que em diversos países da América Latina o título foi Pasión Inocente.

Os exibidores portugueses encontraram uma saída que se aproxima da idéia original e faz sentido: Um Novo Fôlego.

O filme parece dizer que só é feliz quem é diferente, divergente

zzrespire3Mary notou, corretissimamente, que o filme acaba sendo uma afirmação de que só é possível ser feliz quem foge aos modelos pré-estabelecidos, quem é diferente, divergente, desafiante. Dentro do sistema ninguém é feliz. Ora – disse a Mary, com carradas de razão –, esse tipo de postura já era velho 50 anos atrás. Já era tempo de estarmos discutindo coisas mais sérias.

Bem, é antigo para nós. Vejo que Drake Doremus é de 1983, o mesmo ano de Felicity Jones. Trinta aninhos em 2013, ano de lançamento do filme. Talvez faça sentido para a idade dele acreditar que dentro do sistema não há espaço para a felicidade.

É. Então talvez também seja o caso de esperar que ele cresça um pouco antes de voltar a ver filme dele.

Anotação em novembro de 2014    

Paixão Inocente/Breathe In

De Drake Doremus, EUA, 2013

Com Guy Pearce (Keith Reynolds), Felicity Jones (Sophie), Amy Ryan (Megan Reynolds), Mackenzie Davis (Lauren Reynolds), Matthew Daddario (Aaron), Ben Shenkman (Sheldon), Alexandra Wentworth (Wendy Sebeck)

Argumento e roteiro Drake Doremus & Ben York Jones

Fotografia John Guleserian

Música Dustin O’Halloran

Montagem Jonathan Alberts

Produção Indian Paintbrush, Super Crispy Entertainment. DVD Paris Filmes.

Cor, 98 min

**

Título em Portugal: Um Novo Fôlego

Um Comentário

  1. Maria Teresa
    Postado em 20 Janeiro 2015 às 4:06 pm | Permalink

    Assisti ao filme só por causa do Guy Pearce, ator de quem gosto muito. Achei o filme entediante, o lance do amor na maturidade x juventude, o conflito da filha (acho com namorado) não me convenceu… E a atriz Amy Ryan muito apática. Enfim, um filme para ser “esquecível”. Abraços, Sérgio.

2 Trackbacks

  1. […] que, no filme, aparece desde garotinha de 18 anos até senhora de 40 e tantos –, foi escolhida Felicity Jones, e, diacho, é impossível resistir ao trocadalho do carilho: a escolha não poderia ser uma […]

  2. […] Guy Pearce faz Ed Exley, o tira honesto, incorruptível, que quer fazer tudo direitinho, tudo seguindo o melhor manual. É filho de um policial que fez história, que é respeitado por todos, e morreu em serviço. É inteligente, estudou, entende que há lugar no mundo para uma polícia justa e ao mesmo tempo competente, que investiga e prende sem torturar, sem virar, ela mesma, igual aos bandidos. […]

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