O Melhor Lance / La Migliore Offerta

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Nota: ★★½☆

Virgil Oldman, o protagonista de A Melhor Oferta/ La Migliore Offerta, que Giuseppe Tornatore escreveu e dirigiu, é um homem riquíssimo, rígido, solitário, e, por ser muito seguro de si e de seus talentos, não esconde a arrogância, a empáfia, a soberba.

“Mais alto o coqueiro, maior é o tombo do coco afinal”, sintetizou com briilho Billy Blanco na canção “A banca do distinto”.

Tornatore criou uma trama complexa, complicadíssima, para, ao fim de 131 minutos de narrativa, levar Virgil Oldman à ruína. É um tombo espetacular.

zzmelhor0Oldman é interpretado pelo grande Geoffrey Rush, e o talentoso ator de tantos bons filmes – Shine – Brilhante (1996), A Vida e Morte de Peter Sellers (2005), O Discurso do Rei (2010) – tem aqui uma das melhores interpretações de sua carreira. A posição de destaque na sociedade e o temperamento do personagem – a arrogância, a extrema segurança – ajudam, é claro, ao permitir (e até exigir) gestos largos, maneirismos, caras e bocas, muitas caras e muitas bocas.

Virgil Oldman é um grande expert em artes plásticas e antiguidades em geral, e tem sua própria empresa de avaliação de acervos e de leilões. Seus leilões são concorridíssimos, e as peças vendidas alcançam valores estratosféricos.

Onde se mexe com obras de arte e valores estratosféricos costuma haver fraude, cópia forjada, golpe. Oldman, a par das atividades legais que já lhe dão fortunas, tem também as ilegais. Ele dá golpes para vender quadros falsificados e para ficar para si com originais valiosíssimos, e para isso conta com a ajuda de um amigo de longa data, Billy Whistler (o papel de um Donald Sutherland de cabelos compridíssimos). Billy comparece sempre aos leilões realizados por Oldman, e, conforme combinação prévia, arremata – ou não – quadros à venda.

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Em sua casa gigantesca – que ele mesmo compara a um hotel –, Oldman tem coleções imensas de ternos, camisas, coletes, gravatas, sapatos, meias. Imelda Marcos, perto dele, pareceria uma iniciante na arte de colecionar sapatos e/ou peças de roupa.

Mas a coleção que ele mais adora fica fechada, escondida em um cômodo lacrado, inacessível, secreto. São dezenas e dezenas e dezenas de retratos de mulheres, de diversas procedências, das mais diferentes escolas, de vários séculos.

É isso que dá a Virgil Oldman o maior prazer da vida.

São também as únicas mulheres de sua vida. Com mulheres de carne e osso, nunca quis contato.

Quanto mais misteriosa se mostra a jovem, mais o milionário se apaixona

Entrará na vida desse milionário que nunca conheceu muito de perto alguém do sexo feminino uma jovem mulher, Claire Ibbetson. Ela quer que Oldman faça uma avaliação das peças, mobílias e obras de arte da villa que herdou de seus pais, para depois, eventualmente, leiloá-las. Os pais estão mortos, ela não tem mais como manter a gigantesca villa.

Marcam um encontro, ela não aparece. Telefona dizendo que teve um acidente, foi atropelada. Ele fica furioso. Ficará furioso com a jovem diversas vezes – e, ao mesmo tempo, vai se encantando com ela, vai ficando fascinado com ela.

A aproximação entre os dois demora muito tempo, a maior parte da narrativa. Para simplificar, encurtar, digo que ela se apresentará como uma pessoa que tem absoluto pavor a sair de dentro de seus aposentos, em um local específico da villa imensa. Não vê ninguém há anos. Fred (Philip Jackson), o caseiro, é quem compra os mantimentos, o necessário para que ela sobreviva.

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Ela não usa a palavra que define esse tipo de doença, a agorafobia – mas Oldman, sim, fala dela, e procura se informar sobre o mal. Quanto mais misteriosa se mostra aquela jovem que ele jamais vê – falam-se em cômodos diferentes, ela trancada, podendo vê-lo através de uma pequena fresta –, mais fascinado, mais apaixonado Oldman vai ficando.

Oldman – assim como o espectador – só verá Claire Ibbetson na segunda metade da narrativa. Ela é interpretada por Sylvia Hoeks, uma moça de quem eu jamais tinha ouvido falar.

Sylvia Hoeks nasceu no interior da Holanda, em 1983 – estava, portanto, com 30 anos quando este O Melhor Lance foi lançado. É tão bela que, aos 14 anos, foi contratada pela Elite Models. Estudou arte dramática e estreou em filme para a TV em 2005. De lá para cá, tem 27 títulos em series para a TV e filmes.

“Tudo pode ser falsificado. Alegria, dor, ódio, doença, cura… Até o amor.”

Virgil Oldman já está absolutamente fascinado, apaixonado por Claire quando, lá pelo meio da narrativa, vira-se de repente para seu principal secretário, Lambert (Dermot Crowley), e pergunta se ele é casado.

É evidente que Lambert fica absolutamente surpreso com a pergunta. É nítido, é claríssimo que, apesar de trabalharem juntos faz muitos, muitos anos, Oldman jamais havia tido uma conversa pessoal com seu principal colaborador.

Achei este diálogo uma das melhores coisas do filme de Tornatore – se não a melhor. Depois de, muito britanicamente, engolir sua surpresa, seu espanto, Lambert responde: – “Sim, há quase 30 anos.”

E Oldman: – “Como é viver com uma mulher?”

Lambert: – “É como participar de um leilão. Nunca se sabe se a sua será a melhor oferta.”

Que maravilha! Que extraordinária maravilha!

zzmelhor6Haverá outro diálogo brilhante, quando a narrativa já se aproxima do fim. É entre Billy, o personagem interpretado por Donald Sutherland, e Oldman.

Billy diz (e o espectador mais tarde verá que ele estava antecipando o que viria a seguir, estava como que alertando Oldman sobre o que viria): – “Os sentimentos humanos são como obras de arte. Eles podem ser forjados. Podem parecer originais, mas serem forjados.”

E Oldman: – “Forjados?”

Billy: – “Tudo pode ser falsificado, Virgil. Alegria, dor, ódio, doença, cura… Até mesmo o amor.”

O que Billy diz é uma verdade clara como água da fonte. Oldman vai experimentar na própria pele, dolorosissimamente, como isso é verdade.

A ação se passa na Inglaterra. Ou talvez não, talvez seja na Itália. Não importa

Usei a expressão “muito britanicamente” para descrever a forma com que o secretário de Oldman reage à pergunta dele sobre casamento.

De fato, o personagem do secretário Lambert parece ser extremamente inglês. Mas a verdade é que o filme de Tornatore transmite sensações dúbias a respeito de onde, afinal, se passa a ação.

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Os três atores principais – Geoffrey Rush, Donald Sutherland e o jovem Jim Sturgess, que faz Robert, um genial mecânico que sabe consertar absolutamente tudo, e conquista a confiança total de Virgil Oldman – são de língua inglesa. Rush é australiano, Sutherland é canadense e Sturgess é inglês.

Todos os personagens falam inglês, e então supõe-se que a ação se passe na Inglaterra. Até imaginei, enquanto via o filme, que O Melhor Lance fosse uma co-produção Itália-Inglaterra, mas não é, é apenas italiano. O filme foi quase todo rodado na Itália – algumas poucas cenas foram filmadas em Viena e outras em Praga.

Às vezes os leilões promovidos pelo protagonista são em libras, como se a ação se passasse na Inglaterra. Às vezes, no entanto, a moeda usada é o euro, como se estivéssemos na Itália.

Há uma ambiguidade aí. Provavelmente intencional – tudo em Tornatore é estudado, intencional.

No site rogerebert.com, que continua ativo após a morte do grande crítico, Sheila O’Malley escreveu um longo texto sobre The Best Offer. Dele retiro alguns trechos:

“O filme tem um visual deslumbrante graças à exuberante e detalhada fotografia de Fabio Zamarion. A mansão de Claire é uma obra-prima de desenho de produção e direção de arte (de Maurizio Sabatini e Andrea Di Palma, respectivamente). A casa parece ao mesmo tempo terrena e mágica, um lugar onde uma pessoa poderia perfeitamente se esconder para sempre.”

Mas…  À parte esse elogio ao visual do filme, sem dúvida alguma suntuoso, Sheila O’Malley questiona vários pontos da trama criada por Giuseppe Tornatore. Questiona, por exemplo, como é possível que o jovem Robert mantenha uma oficina num lugar tão central, e nobre. E, mais adiante, ela afirma, com toda razão, na minha opinião: “Não há razão para que Virgil e Robert sejam amigos, e para que Virgil comece a confidenciar a ele sua obsessão por Claire.”

Ela conclui sua crítica no site de Roger Ebert assim:

“Mais para o início do filme, Virgil diz a seu parceiro, Billy, que é também um aspirante a artista: ‘O amor à arte e o conhecimento de como se segura um pincel não faz um artista’. O que cria arte, segundo Virgil, é um ‘mistério interior’. Com boas interpretações e o visual e a aparência deslumbrantes, The Best Offer, no entanto, não possui aquele ‘mistério interior’.

Minha opinião sobre A Melhor Oferta é próxima dessa. Vi o filme encantado com o cuidado com o aspecto visual, com a trama misteriosa; a partir aí da metade, o espectador sabe que virá uma reviravolta, uma virada, um golpe, uma grande surpresa, e a narrativa prende a atenção.

Quando finalmente vem a grande surpresa, a virada, o golpe… É tudo tão cerebral. Tão… artificial. Tão distante do real. Tão ficção, tão história criada por um escritor…

Mas esta é apenas minha opinião, e é como eu sempre digo: minha opinião vale no máximo uns três guaranis furados.

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Anotação em fevereiro de 2015

O Melhor Lance/La Migliore Offerta

De Giuseppe Tornatore, Itália, 2013.

Com Geoffrey Rush (Virgil Oldman), Jim Sturgess (Robert), Sylvia Hoeks (Claire Ibbetson), Donald Sutherland (Billy Whistler), Philip Jackson (Fred), Dermot Crowley (Lambert), Kiruna Stamell (mulher no bar), Liya Kebede (Sarah)

Argumento e roteiro Giuseppe Tornatore

Fotografia Fabio Zamarion

Música Ennio Morricone

Montagem Massimo Quaglia

Produção Paco Cinematografica, Warner Bros. Italia. DVD Paris Filmes.

Cor, 131 min

**1/2

2 Comentários para “O Melhor Lance / La Migliore Offerta”

  1. O filme tem uma boa trama. Apesar da antipatia da personagem principal, a gente acaba torcendo por ele.
    Valeu a pena assistir

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