Ladra de Banco / Banklady

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Nota: ★★½☆

Este Banklady, produção alemã de 2013, conta a história real da primeira mulher assaltante de bancos da Alemanha – com mil invençõezinhas formais, maneirismos, movimentos espetaculares de câmara. Tudo a que um jovem diretor tem direito para mostrar que é bom no seu ofício.

Christian Alvart, o diretor, nasceu em 1974 e, segundo o IMDb, seus pais, cristãos rígidos, não permitiam que ele visse filmes na televisão durante a infância e início da adolescência. Quando enfim pôde passar a ver filmes, vingou-se do tempo em que era proibido e viu filmes em quantidades industriais. Aos 19 anos, tornou-se editor e designer da X-TRO Filmmagazin; rapidamente tornou-se editor chefe e depois dono da revista. Em 1997, aos 23 anos, portato, resolveu fazer seus próprios filmes, e criou a produtora Syrreal Entertainment.

Seu segundo filme, Antibodies (2005), foi exibido no Tribeca Film Festival – aquele criado por Robert De Niro em Nova York – e deu a ele o título de um dos “Cinco Diretores a Observar”. O filme foi também apresentado num festival do American Film Institute, onde entrou na lista das “Novas Faces do Cinema Alemão”.

Este Banklady – exibido na TV a cabo brasileira como Ladra de Banco – foi o seu sétimo filme. Embora já quase um veterano, o diretor mantém seu gosto pelo que eu costumo de chamar de fogos de artifício, ou doses exageradas de criativol.

Mas ele tem talento, sabe usar suas invencionices, e então elas não atrapalham a narrativa. E a história que narra é fascinante.

" Banklady ", SYRREAL ENTERTAINMENT GmbH, 2012 11.07.2012 DT18 Bild 014 Uwe stellt Gisela Peter vor. Rolle Herrmann/Peter (Charly Hübner) Rolle Gisela (Nadeshda Brennicke) Rolle Uwe (Andreas Schmidt) Foto: Stefan Erhard

Uma operária qualificada, solitária, sonhadora, que cuidava dos pais idosos

Um letreiro informa, bem no início da narrativa, que, em 1966, nunca uma mulher havia roubado um banco na Alemanha.

O filme, feito hoje, quando só existe uma Alemanha, não tem a preocupação de explicar de qual Alemanha se está falando, mas é óbvio que é da então Alemanha Ocidental, a República Federal da Alemanha. Veremos que a ação se passa toda em Hamburgo e cercanias.

Nunca uma mulher havia roubado um banco na Alemanha – até surgir Gisela Werler.

Gisela era uma operária um tanto qualificada em uma fábrica que produzia, entre outras coisas, papel de parede. Ela era encarregada de pilotar, sozinha, uma gigantesca máquina que imprimia desenhos nem grossas tiras de papel de parede – algo entre uma fábrica e uma grande gráfica.

A atriz que faz o papel dela, Nadeshda Brennicke, parece ter sido muitíssimo bem escolhida. Não tanto pela semelhança física com a verdadeira Gisela Werler, pelo que dá para ver nas fotos na internet, mas porque é uma mulher que parece ter várias caras. Há tomadas em que Nadeshda Brennicke parece um tipo comum, sem qualquer atrativo maior; em outras, ela está feia – e em outras ainda, ao contrário, surge bastante bela.

zzbank3Quem se der ao trabalho de olhar as fotos da verdadeira assaltante de bancos na internet verá que ela também era do tipo que tem várias caras.

Quando a narrativa começa, Gisela está com cerca de 30 anos; ainda mora com os pais idosos, e é quem cuida deles e também da casa. É uma mulher que trabalha demais e tem prazeres de menos; é solitária, sem amigas. E é daquele tipo de pessoa de classe média baixa que sonha com uma vida de glamour: admira as fotos de estrelas, modelos, gente famosa nas revistas.

Namora um colega de fábrica, Uwe (Andreas Schmidt), um sujeito tímido, acanhado, sem brilho. Gisela não parece ter real interesse por Uwe, e, quando ele diz que está juntando dinheiro, fazendo bico como motorista de táxi à noite, ela ironiza, questionando se as economias dele serão suficientes para levá-la para férias na Ilha de Capri.

Um detalhe que me pareceu bastante estranho, quase inacreditável: segundo o filme mostra, Gisela, aos 30 anos de idade, era virgem.

O primeiro assalto dá certo. Logo vem outro, e  outro, e mais outro

Um belo dia, Uwe está pegando em Gisela no quarto dela, quando a mãe dela entra sem bater. O rapaz fica atônito, diz que precisa ir embora, despede-se rapidamente – e vai embora às pressas, esquecendo no quarto uma grande pasta de couro.

Dias depois, Uwe aparece de novo na casa da moça com um outro sujeito, que se apresenta como Peter (Charly Hübner).

Gisela é esperta, percebe que ali há algo ilícito, ilegal. Rapidamente saca que Peter – dono de uma empresa de táxis, aquela para a qual Uwe vem fazendo uns bicos – tem se iniciado na arte de assaltar bancos, e recrutara Uwe para ajudá-lo.

zzbank4A moça decide se oferecer para ajudar, para participar dos assaltos. Peter não tem mesmo muita confiança em Uwe, e então, depois de algum tempo, admite dar uma chance a ela.

Gisela sai-se muito bem no primeiro assalto – e vira atração nacional nos jornais, é claro.

Fischer (Ken Duken), um jovem comissário de polícia que havia feito cursos na Scotland Yard – e, por isso, por ter estudado, e adotar métodos mais modernos de investigação, provoca o desprezo do superior hierárquico, o chefe da polícia de Hamburgo – passa a se dedicar ao caso da Gatuna, a Ladra, a Ladybank.

Peter e Gisela não assaltam grandes agências dos maiores bancos: escolhem agências menores, de bairro, onde não há policiamento, não há alarme. Roubam não quantidades imensas de dinheiro, mas butins consideráveis, em torno de 30 mil, 40 mil marcos.

Não passam a gastar dinheiro a rodo, a exibir sinais exteriores de riqueza que poderiam chamar a atenção da polícia. Ao contrário: ela continua trabalhando na fábrica, como se nada estivesse acontecendo fora do horário de trabalho. E, em casa, continua com todas as tarefas que a mãe deixa para ela.

Tudo ia muito bem para os dois ladrões, mas surge um problema: ela se apaixona

Na forma, nos movimentos de câmara, o diretor Christian Alvart inventa, solta fogos de artifício. Mas, ao relatar a história, não transforma Gisela Werler em heroína, nem o tal Peter – uma figura gorducha, rechonchuda, feiosa – em herói. Não são Bonnie e Clycde – embora num determinado momento a polícia vá agir como a polícia age no finalzinho de Bonnie and Clyde de Arthur Penn (1967).

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Eles não são apresentados como heróis, nem como bandidos sanguinários, sanguinolentos – até porque não são mesmo sanguinários, não cometem violência física contra ninguém, até um único momento no final da narrativa.

Nem heróis, nem bandidos. O filme os mostra como pessoas comuns, que, um tanto por acaso, tiveram a oportunidade de obter dinheiro de forma ilegal, embora sem violência, e gostaram disso, e continuaram a fazer, cada vez mais à vontade, cada vez com mais experiência.

A questão maior, que os levará a enfrentar mais e mais o perigo de serem descobertos e pegos, é a mais prosaica do mundo: Gisela se apaixona por Peter.

Desde o início ele diz que não poderiam, de forma alguma, misturar estações, se envolver afetivamente – eram colegas de trabalho, e só isso.

Mas a moça se apaixona.

Pelo que dizem os letreiros ao final da narrativa – aqueles letreiros que costumam aparecer nos filmes baseados em histórias reais, contando o que aconteceu com os personagens após os fatos mostrados na tela –, foi uma história de amor e tanto, uma fantástica história de um grande amor.

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O cinema alemão tem dado boas obras, nos últimos anos

Tenho tido a oportunidade de ver, nos últimos anos, alguns filmes alemães recentes. Vários deles muito bons, em especial os políticos, os que tratam das chagas deixadas pelo nazismo e pelo comunismo. Parece que a produção alemã recente é bastante diversificada, porque há comedinhas românticas, dramas sérios, de tudo. Não reconheci, ao ver o filme, um único dos atores – outra indicação de que o país tem hoje de fato uma cinematografia bem diversificada, um número grande de atores em atividade.

Nadeshda Brennicke está chegando perto do centésimo título em uma filmografia iniciada em 1991. Charly Hübner, que faz Peter, o ladrão, tem 86 filmes no currículo, inclusive a obra-prima A Vida dos Outros (2006). E Ken Duken, que faz o comissário de polícia, tem 79 títulos, inclusive uma participação em Bastardos Inglórios (2009), de Quentin Tarantino.

Anotação em agosto de 2015

Ladra de Banco/Banklady

De Christian Alvart, Alemanha, 2013

Com Nadeshda Brennicke (Gisela Werler), Charly Hübner (Peter, ou Hermann Wittorff), Ken Duken (comissário Fischer),

e Niels-Bruno Schmidt (assistente Kruse), Andreas Schmidt (Uwe), Heinz Hoenig (Kaminsky), Henny Reents (Fanny), Jürgen Schornagel (Hans Werler)

Roteiro Christoph Silber e Kai Hafemeister

Baseado em livro de Kai Hafemeister

Fotografia The Chau Ngo

Música Christoph Blasser, Michl Britsch e Steffen Kahles

Montagem Christian Alvart e Sebastian Bonde

Cor, 118 min

**1/2

Um Comentário

  1. Thiago Campos
    Postado em 2 fevereiro 2016 às 12:54 pm | Permalink

    Esse filme é ótimo. Bom enredo, boa trama!

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