Josey Wales – O Fora da Lei / The Outlaw Josey Wales

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Nota: ★★★½

Em Josey Wales – O Fora da Lei/The Outlaw Josey Wales, seu quinto filme como diretor, o segundo western, Clint Eastwood vai contra dois mitos importantes, duas características marcantes do gênero em que sempre brilhou.

Em primeiro lugar, o Cavaleiro Solitário que ele interpreta, o Josey Wales do título, ao contrário do que mandam a tradição e o próprio nome, deixa de cavalgar solitariamente e passa a ter companhia.

Em segundo lugar, rompendo outra tradição fundamental do western, tradição esta que o próprio Clint Eastwood ajudou a manter, o Cavaleiro Solitário, que é sempre homem de pouquíssimas palavras, lá pelas tantas, quando o filme já se aproxima do fim de seus longos 135 minutos, dana a falar. Faz um longo, eloquente, belo de um discurso!

Não é para falar mal do filme, de forma alguma, que aponto essas características. É só porque as achei interessantes, fascinantes. É um belo western, um belo filme. Orson Welles o comparou aos grandes westerns de John Ford e Howard Hawks.

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E como é grande e cheia de drama, de pathos, a trajetória desse Josey Wales pela vida. A ação se passa ao longo de muitos anos, bem mais de 12, e, durante todo esse tempo, Josey Wales está indo de um lugar para outro, em seu cavalo; é uma vida em contínuo movimento, com pequenas, rápidas paradas – é uma estrada eterna.

Me peguei pensando que, embora no Velho Oeste não houvesse estradas (a não ser as de ferro, no final), este Josey Wales não deixa de ser um road movie.

De maneira fascinante, essa longa, imensa, eterna jornada acaba levando o personagem de volta ao começo. Josey Wales faz uma viagem até as profundezas do inferno para enfim voltar às suas origens, redimido.

Além dos exércitos regulares, havia bandos lutando na Guerra Civil

Quando a ação começa, Josey Wales é um pacato fazendeiro – como era, no início da narrativa de Os Imperdoáveis/Unforgiven, a obra-prima de 1992, 16 anos mais tarde, o personagem interpretado por Clint, Bill Munny. Só que Bill Munny havia sido, mais jovem, um temível pistoleiro; abandonara as armas pelo amor de Claudia, a mulher de sua vida.

Josey Wales, não: sempre havia sido um pacato pequeno fazendeiro, que tirava da terra o sustento de sua família – ele e a mulher tinham um filho só, um garoto aí de uns sete anos de idade. Na primeira sequência do filme, ele está arando a terra, suando e trabalhando duro.

Enquanto ele trabalha na terra, um bando de homens, vindo do nada, toma a casa da família e põe fogo; quando ele corre para perto da casa, é espancado brutalmente até perder os sentidos. A mulher é estuprada e morta, o filho é assassinado.

zzjosey2aaEram os anos da Guerra Civil Americana (1861-1865), o governo federal e os Estados mais desenvolvidos do Norte contra os Estados do Sul rurais e escravagistas – e o filme mostra uma realidade que, creio, é pouco conhecida fora dos Estados Unidos. Eu, pelo menos, não sabia dessa realidade, nunca tinha ouvido falar – embora haja tantos filmes sobre a Guerra da Secessão.

Além dos exércitos formais, o da União e o dos Confederados, o primeiro comandado pelo general Ulysses Grant, o segundo pelo general Robert E. Lee, havia – é o que mostra o filme – bandos de civis lutando de um lado e de outro.

Os bandos de civis que lutavam pela União eram chamados de pernas-vermelhas, porque usavam sobre as pernas, sobre as botas, uma capa de couro avermelhada.

Foram pernas-vermelhas que, sem que nem por que, destruíram a vida de Josey Wales. E assim ele resolve se unir a um dos bandos que lutavam contra os pernas-vermelhas e os soldados do Exército regular da União.

As lutas do bando são mostradas bem rapidamente, no início da narrativa, em uma série de tomadas em que há fusão de imagens – uma tomada ainda está visível, e a tomada seguinte já é mostrada.

Enquanto vemos essa sequência de imagens em fusão, vão rolando os créditos iniciais. (Mais tarde, creio que a partir do final dos anos 80 iniciozinho dos 90, Clint abandonaria os créditos iniciais.)

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E, quando os créditos terminam, terminou a guerra. O exército da União oferece ao bando em que Josey se alistou uma espécie de anistia: bastaria que cada um dos rebeldes entregasse suas armas e prestasse uma declaração de obediência aos Estados Unidos da América, e tudo bem, eram cidadãos, e não haveria qualquer medida na Justiça contra eles.

Fletcher (John Vernon), o líder do bando, negocia a rendição com oficiais do exército e um senador. Apenas duas pessoas do bando se recusam a aceitar a rendição: Josey, é claro, e um garoto de quem havia se tornado grande amigo, mestre, guia, Jamie (Sam Bottoms).

Era uma cilada. Depois de receber as armas dos rebeldes, os soldados da União, sob o comando de um oficial absolutamente cruel, vindo dos perna-vermelhas, massacram quase todos os membros do bando.

Josey consegue tomar uma metralhadora e trucida de volta mais de uma dezena de soldados.

Passa, a partir de então – estamos aí com uns 15, no máximo 20 minutos de filme –, a ser procurado e perseguido por destacamentos do exército e também por caçadores de recompensa, já que sua cabeça é colocada a prêmio.

É como se os habitantes do Oeste tivessem internet e smartphones!

Aqui vai uma pequena digressão.

Uma das características que acho mais fascinantes no universo do western é como as notícias circulavam rapidamente, naquela imensa vastidão de terra que não acabava nunca.

A fama dos fora-da-lei – e também dos grandes xerifes – era instantânea. Billy the Kid, Doc Holliday, Wyatt Earp, todas essas figuras que existiram de fato, e também tantos outros criados pela imaginação dos roteiristas de Hollywood, eram conhecidos de um extremo a outro do país, de Kansas City a San Francisco, do Texas à gelada Montana.

As façanhas desse pessoal corriam o país inteiro como se todos os habitantes do Velho Oeste fossem dotados de internet e smartphones!

É fantástico!

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Esse mistério me fascina desde que era bem garoto e, com uns 15 anos, cometi uma noveleta passada na Velho Oeste.

Neste filme aqui, esse fenômeno está presente o tempo todo. Onde quer que Josey Wales chegue, sua fama já o precedeu.

Mais ainda: não apenas todo mundo no saloon sabe quem é ele, mas sabe também de onde ele veio e para onde está indo.

Todo mundo sabe – mas nem os caçadores de recompensa nem os destacamentos do exército conseguem alcançá-lo. A não ser, é claro, que ele resolva aparecer exatamente onde está um pelotão ou um grupo de caçadores de recompensa.

Uma seqüência extraordinária mostra a influência do grande Sergio Leone

Não vou relatar, sobre a trama do filme, muito mais do que relatei, aqueles primeiros 15, 20 minutos da narrativa. Mas é necessário registrar que, ao longo de suas andanças após o final da Guerra Civil e após se tornar o inimigo público número 1 de parte do exército da União, Josey vai ganhar a companhia de um índio bem idoso, uma figura fascinante, Lone Watie (interpretado por Chief Dan George), e uma pobre moça índia que ele salva de brancos exploradores e estupradores, Little Moonlight (Geraldine Keams).

Mais tarde, por uma travessura do destino, ele salvará a vida de uma velha senhora, Grandma Sarah (Paula Trueman), e sua neta, uma garotinha aí de uns 20 anos, Laura Lee (o papel de Sondra Locke) – e esse encontro casual com as duas mulheres que estavam indo se instalar numa fazenda do Texas vai ajudar Josey Wales a mudar totalmente a vida que vinha levando ao longo dos últimos 12 anos.

Josey já havia se encontrada com Grandma Sarah e Laura Lee antes, num armazém de uma cidade pela qual passava. Vai reencontrá-las no momento em que a carroça delas acabava de ser atacada por um bando de comancheros – bandidos que vendiam bebidas e outras mercadorias para os comanches. O marido de Grandma Sarah é morto no ataque, e um grupo de uns dez bandidos está cercando a jovem Laura Lee na evidente intenção de estuprá-la.

Nesse momento, a câmara do diretor de fotografia Bruce Surtees, sob a batuta de Clint Eastwood, faz diversos close-ups dos rostos dos bandidos – homens feios, sujos, nojentos.

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É uma sequência apavorante, mas muitíssimo bem realizada: os homens começam a rasgar as roupas de Laura Lee, ela tenta esconder o corpo, uma expressão de absoluto horror no rosto. Naquela hora, naquele exato momento me ocorreu: não foi à toda, de forma alguma, que Clint Eastwood, danado, trabalhou com Sergio Leone. Ele aprendeu muito com o genial realizador italiano. Toda essa sequência do quase estupro, aquela série de close-ups dos homens em fúria e da mulher apavorada, traz o estilo de Leone.

Dezesseis anos mais tarde, em Os Imperdoáveis, ele faria um agradecimento a Sergio e Don – Sergio Leone, com quem trabalhou em westerns memoráveis, e Don Siegel, diretor de policiais não tão memoráveis assim.

Com o passar do tempo, Josey Wales vai ficando mais sensível

O inspetor Harry, o Dirty Harry, mata sem qualquer resquício de dó, piedade. Mata como se fosse a coisa mais natural deste mundo de Deus e do diabo. É provável que tenha até algum prazer em matar. Clint interpretou Dirty Harry em cinco filmes, entre 1971 (o ano de Perseguidor Implacável/Dirty Harry, de Don Siegel, e também da estréia do ator na direção, com Perversa Paixão/Play Misty For Me) e 1988 (o ano de Dirty Harry na Lista Negra/The Dead Pool, e também de Bird, a sensível biografia do grande música Charlie Parker dirigida por Clint).

O ex-pistoleiro Bill Munny, de Os Imperdoáveis, já não pensava mais em voltar a usar revólver, mas as coisas vão mal na sua fazenda e estava difícil criar os dois filhos, agora que Claudia havia morrido, e então ele aceita uma última missão para ganhar o dinheiro oferecido por um grupo de prostitutas depois que uma delas tem o rosto desfigurado por um vaqueiro. Mas tem pena do homem que tem que matar – atira nele, mas pede aos companheiros dele que o acudam, que dêem água para ele beber.

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Aqui, o fazendeiro tornado pistoleiro assassino depois de perder mulher, filho e casa para um bando de arruaceiros vai mudando com o tempo. Ainda bem no início do filme, ele o amigo Jamie matam dois caçadores de recompensa que vieram atrás de Josey. Jamie diz que eles deveriam enterrar os corpos dos mortos, mas Josey é duro, cortante: – “Eles que vão para o inferno. Os abutres precisam comer tanto quanto os vermes”.

Bem mais adiante, quando a longuíssima jornada de Josey já está quase o levando de volta ao começo, um caçador de recompensas entra no bar em que ele está, numa cidadezinha agora arruinada chamada Rio Santo. Josey demonstra ter uma certa pena do homem, e até tenta demovê-lo da idéia de tentar um duelo com alguém muito mais experiente.

– “Você é caçador de recompensa?” – ele pergunta. E o sujeito responde: – “Um homem tem que fazer alguma coisa para ganhar a vida nos dias de hoje.”

E Josey: – “Não se ganha a vida morrendo, garoto. Isso não é necessário. Você pode seguir viagem.”

O filme começou a ser dirigido por Kaufman, mas ele e Clint se desentenderam

Esse diálogo sensacional, e todo o roteiro do filme, são de autoria de Philip Kaufman e Sonia Chernus. Kaufman é um roteirista e diretor de primeiríssima linha; é o autor, junto com George Lucas, dos personagens e da primeira história da série Indiana Jones; dirigiu poucos mas belos, importantes filmes, entre eles Os Eleitos/The Right Stuff (1983), adaptação do livro de novo jornalismo de Tom Wolfe, A Insustentável Leveza do Ser (1988), baseado no livro de Milan Kundera, Henry & June (1990), Sol Nascente (1993), baseado no livro de Michael Crichton, e Contos Proibidos do Marquês de Sade (2000).

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Consta que Philip Kaufman começou a dirigir o filme, tendo sido então substituído por Eastwood. Segundo o IMDb, a DGA, o sindicato dos diretores, criou, por causa dessa história, uma regra proibindo que qualquer membro do elenco substitua um diretor; a norma é conhecida em Hollywood como “a regra Eastwood”.

O IMDb diz ainda que, segundo o biógrafo de Clint, Marc Eliot, entre os motivos das desavenças entre Kaufman e Eastwood estava o fato de que os dois sujeitos – ambos casados, na ocasião – convidaram para jantar, no mesmo dia, a mocinha Sondra Locke.

Sondra Locke! Não chega a ser propriamente bela, pode não ser uma boa atriz (e eu a acho bem fraca), mas é uma pessoa interessante. Um dia ainda farão um filme sobre a vida dela.

Impressionante como parece nova, neste filme. Parece ter uns 18 anos. Uma incrível baby face, porque, no ano de lançamento do filme, 1976, estava com 32 anos. Até então, tinha trabalhado basicamente para a TV. Ela e Clint passaram a viver e a trabalhar juntos: fizeram seis filmes, até Impacto Fulminante/Sudden Impact, de 1983, o penúltimo da série Dirty Harry. E a partir daí a carreira de Sondra como atriz despencou; apareceria ainda em mais alguns poucos filmes até sumir, a partir de 2000. Chegou a dirigir quatro filmes, entre 1986 e 1997, mas depois não voltou a ter oportunidade alguma. O rompimento com Clint, após 13 anos de vida em comum (entre 1975 e 1989), foi duro, difícil, com baixarias dele, escândalo na mídia e disputa nos tribunais – ele simplesmente mandou trocar as fechaduras da mansão do casal em Bel-Air e mandou todas as coisas dela para um guarda-móveis.

Clint Eastwood é homem de muitos filmes, muitas mulheres e muitos filhos. Esposas, assim, no papel, foram só duas. Filhos, teve oito, de seis mulheres diferentes. Um deles, Kyle, nascido em 1968, pode ser visto rapidamente na sequência inicial de Josey Wales: ele faz o papel do filhinho do então fazendeiro, que faz companhia ao pai que está arando a terra, até ser chamado pela mãe para tomar banho.

“Os homens podem viver juntos sem fazer picadinho uns dos outros”

Segundo o IMDb, o filme foi recebido com elogios e críticas na imprensa. Anos mais tarde, durante uma entrevista na televisão, Orson Welles afirmou: “Quando eu vi aquele filme pela quarta vez, compreendi que ele está entre os grandes westerns. Sabe? Os grandes westerns de Ford e Hawks”.

Leonard Maltin deu 2.5 estrelas em 4: “Longo, violento western passado na era pós-Guerra Civil; Eastwood é fazendeiro pacífico que vira rebelde quando soldados da União assassinam sua família. Sua cabeça é posta a prêmio, dando origem a uma odisséia de caça de gato-e-rato. Clint assumiu a direção de Philip Kaufman, que também é co-autor do roteiro.”

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O Guide des Films de Jean Tulard deu 3 estrelas em 4 – e o Guide só dá estrelas para um número bem reduzido dos cerca de 15 mil filmes que aborda. “Com o segundo western de Eastwood realizador, as coisas são mais claras. É um percurso iniciático o percorrido por Wales, e cada uma das provas pelas quais ele passa o deixa mais perto da tranquilidade, da sabedoria. O final está mais próximo de David Thoreau do que Reagen, e leva ao panteísmo. Quanto às cenas de ação – numerosas –, elas são do estilo Eastwood: secas, concisas, brutais. Um dos três ou quatro melhores westerns dos anos 1970. Um grande filme.”

Os franceses não são bons apenas para fazer filmes, mas também (ou será sobretudo?) para escrever sobre eles.

Ah, sim. É preciso registrar: o tal longo discurso que Josey Wales pronuncia, que citei no começo deste texto, é feito quase no finalzinho da narrativa, quando ele propõe um acordo de paz entre ele e seu pessoal e os comanches liderados por Ten Bears (Will Sampson). O discurso é tão longo, e tão eloquente, que Ten Bears aceita os termos do acordo de paz, pega uma faca, faz um corte na mão, espera que Josey faça o mesmo, e dão-se as mãos para sacramentar a paz com a troca de sangue.

A frase final de Josey é maravilhosamente apropriada a um personagem interpretado por Clint Eastwood: “Men can live together without butchering each other”.

Os homens podem viver juntos sem fazer picadinho uns dos outros.

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Anotação em maio de 2015

Josey Wales – O Fora da Lei/The Outlaw Josey Wales

De Clint Eastwood, EUA, 1976.

Com Clint Eastwood (Josey Wales)

e Chief Dan George (Lone Watie), Sondra Locke (Laura Lee), Bill McKinney (Terrill), John Vernon (Fletcher), Paula Trueman (vovó Sarah), Sam Bottoms (Jamie), Geraldine Keams (Little Moonlight), Joyce Jameson (Rose), Sheb Wooley (Travis Cobb), Royal Dano (Ten Spot), Matt Clark (Kelly)

Roteiro Philip Kaufman e Sonia Chernus

Baseado no livro Gone to Texas, de Forrest Carter

Fotografia Bruce Surtees

Música Jerry Fielding

Montagem Ferris Webster

No DVD. Produção Robert Daley, Malpaso, Warner Bros. DVD Warner Bros.

Cor, 135 min

***1/2

2 Comentários

  1. José Luís
    Postado em 6 agosto 2015 às 7:17 pm | Permalink

    Não conhecia nem sequer de nome. Hoje vi-o porque o aluguei. Achei que é um filme interessante, embora não me pareça dos melhores de Clint.

  2. Postado em 4 dezembro 2015 às 1:00 pm | Permalink

    Nesse filme ele encarna o anti herói literalmente e faz uma limpeza dos demônios na terra. Bela matéria sobre o filme. Parabéns!

    http://www.bangbangitaliana.blogspot.com.br

2 Trackbacks

  1. Por 50 Anos de Filmes » Joe Kidd em 17 outubro 2015 às 8:24 pm

    […] qualidade. Não apenas porque o diretor, John Sturges, é competente, não apenas porque o astro é Clint Eastwood e o elenco tem ainda Robert Duvall, não apenas porque a trilha sonora é de um craque que admiro […]

  2. […] porque Clint Eastwood não é de fazer filmes de menos de 100 minutos. Muito ao contrário. Clint Eastwood, um dos […]

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