Joe Kidd

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Nota: ★★☆☆

Lá pelo meio de Joe Kidd, pensei que poderia estar diante de um western interessante, de qualidade. Não apenas porque o diretor, John Sturges, é competente, não apenas porque o astro é Clint Eastwood e o elenco tem ainda Robert Duvall, não apenas porque a trilha sonora é de um craque que admiro muito, Lalo Schifrin, não apenas porque o roteiro original é do escritor Elmore Leonard.

Mas, principalmente, porque parecia um western um tanto diferenciado, um tanto longe dos padrões, ao exibir personagens que não são exatamente mocinhos de um lado e bandidos de outro.

Por preguiça, comodismo, me aproprio de uma sinopse publicada no IMDb, escrita por um leitor, Tad Dibbern:

“Joe Kidd é um ex-caçador de recompensa, um sujeito durão, no Sudoeste americano. (Acrescento que a ação se passa no início do século XX, aí por 1905, pouco antes, portanto, da Revolução Mexicana.) Quando um bando de mexicanos descobre que seus títulos de propriedade de terras não são reconhecidos (por um juiz da cidade de Sinola, no Novo México) e todos os registros relevantes foram destruídos num incêndio em um tribunal, eles entram em pé de guerra. Luis Chama (interpretado por John Saxon) é seu carismático líder, usando retórica revolucionária e exigindo reforma agrária. Um rico proprietário de terras com interesse na área em disputa, Frank Harlan (Robert Duvall), decide resolver as coisas do seu jeito. Ele agrupa um bando de assassinos e quer que Joe Kidd o ajude a localizar onde Chama se escondeu. Inicialmente, Kidd pretende evitar qualquer envolvimento, até que Chama comete o erro de roubar cavalos do rancho de Kidd e atacar seus empregados.”

zzjoe2Então: Joe Kidd, o herói da história, o personagem interpretado por Clint Eastwood, não é um mocinho imaculado. Quando a narrativa começa, ele está preso na delegacia da cidadezinha por ter caçado um veado em área indígena, onde a caça é proibida. Agride violentamente um mexicano que está preso na mesma cela. Não é um bandido, de forma alguma – mas também não é bonzinho. E isso me pareceu interessante.

Luis Chama, o mexicano que lidera seus compatriotas ao ver que a Justiça americana está roubando seus direitos às terras, também não é o protótipo do herói, do mocinho puro. Permite que seu pessoal assalte o rancho de Kidd e torture um dos empregados. Mais adiante na narrativa, mostrará que tem ambição desmedida – não lidera o movimento apenas em favor dos direitos de seu povo, mas para ganhar poder.

Personagens complexos, longe do preto x branco, mais próximos das zonas cinzentas em que ficam em geral todas as pessoas. Isso me atraiu, me fascinou. Também o tema básico, a Justiça que tira terras dos mexicanos para entregá-las aos americanos, a justificada revolta dos mexicanos, tudo isso é fascinante de se ver num western.

Pois é. Mas, em especial após a metade da narrativa, a trama e todo o filme se perdem em clichês, bobagens, e aquele erro chato de colocar o protagonista como um ser acima de qualquer falha, um super-herói que consegue matar cinco bandidos com um tiro só.

Clint está igual ao personagem dos spaghetti-westerns de Leone

Leonard Maltin deu 2 estrelas em 4 ao filme, e elogiou uma sequência que achei grotesca por ser exagerada, implausível, fantástica demais: “Eastwood é contratado para caçar alguns mexicano-americanos pelo barão de terras Duvall em western ordinário; boa fotografia e uma cena inflamada em que Eastwood dirige um trem através de um bar. Escrito por Elmore Leonard.”

zzjoe3Essa sequência em que o trem destrói meia cidade de Sinola e acaba irrompendo num bar pode ser engraçadinha para alguns espectadores. Me pareceu grotesca. Como me pareceu besteira o fato de herói no fim ganhar uma das duas únicas mulheres que aparecem em cena, Stella (Helen Sanchez), uma mexicana do grupo de Luis Chama, muito provavelmente namorada dele. (A única outra mulher que aparece é um puta levada a Sinola pelo milionário Frank Harlan, interpretada por uma tal Lynne Marta. Como Joe Kidd é um limpa-trilhps, que não perde uma parada, ele se atraca com a moça, e promete voltar para completar o serviço.)

O AllMovie comete alguns erros crassos na sinopse do filme, como dizer que Clint Eastwood é um enigmático estranho que chega à cidade de Sinola. Joe Kidd mora num rancho perto da cidade, é bastante conhecido pelos moradores, pelo xerife e seus auxiliares, pelo dono do bar. No entanto, o belo site acerta na mosca ao dizer que o ator faz uma versão americanizada do Homem-Sem-Nome dos filmes de Sergio Leone. É bem isso. Joe Kidd é igualzinho ao personagem interpretado por Clint Eastwood em Por um Punhado de Dólares (1964), Por uns Dólares a mais (1965) e Il Buono, il Brutto, il Cativo/The Good, the Bad and the Ugly, no Brasil Três Homens em Conflito (1966).

Até mesmo o fato de a trilha ser escrita pelo excelente pianista, arranjador e compositor Lalo Schifrin faz lembrar os western-spaghetti de Sergio Leone. O maestro compôs uma trilha excelente, para nem mesmo Ennio Morricone botar defeito.

Um diretor muito bom, um roteirista que é autor de vários bons livros

É interessante notar que, quando este Joe Kidd foi lançado, em 1972, Clint Eastwood já havia dirigido seu primeiro filme, Play Misty for Me, no Brasil Perversa Paixão, que é de 1971. No ano seguinte, 1973, dirigiria seu segundo filme, O Estranho Sem Nome/High Plains Drifter, em que interpreta um personagem bastante parecido com o dos filmes de Sergio Leone e com este Joe Kidd.

Joe Kidd foi um dos últimos filmes de John Sturges (1910-1992), um sujeito que realizou vários belos filmes. Fez westerns clássicos – A Fera do Forte Bravo/Escape from Fort Bravo (1953), Sem Lei e Sem Alma/Gunfight at the O.K. Corral (1957), Duelo de Titãs/Last Train from Gun Hill (1959 e Sete Homens e um Destino/The Magnificent Seven (1960).

Dirigiu bons filmes de guerra e ação, como Fugindo do Inferno/The Great Escape (1963) e Quando Explodem as Paixões/Never So Few (1959). E fez ainda um grande filme, um marco, sobre preconceito racial, Conspiração do Silêncio/Bad Day at Black Rock (1955), com uma das grandes interpretações de Spencer Tracy. O grande Tracy fez com ele também uma ousada filmagem de O Velho e o Mar, de Ernest Hemingway, em 1958.

zzjoe4Eu não sabia que Elmore Leonard havia começado como autor de novelas passadas no Velho Oeste. Vivendo e aprendendo. Elmore John Leonard, Jr. (1925-2013) publicou vários livros de histórias de western, nos anos 50, antes de se especializar em romances policiais.

Foi um escritor caudaloso, prolífico; publicou dezenas de romances, e ainda encontrou tempo para escrever os roteiros de oito filmes e uma série de TV. Joe Kidd é um roteiro original, escrito diretamente para o cinema, e não uma adaptação de um de seus vários livros.

Diversos de seus livros foram transformados em filmes, com roteiro de outros autores, como, só para citar alguns, Hombre (1967), de Martin Ritt, O Embaixador/The Ambassador (1984), de J. Lee Thompson, O Nome do Jogo/Get Shorty (1995), de Barry Sonnenfeld, e Jackie Brown (1997), de Quentin Tarantino.

Tinha vontade de transcrever aqui a opinião de Ted Sennett sobre o filme; Sennett é autor de um livro excelente, Great Hollywood Westerns. Vejo, no entanto, que o autor não fala uma linha sobre Joe Kidd na sua obra. É: Maltin usou o adjetivo adequado – este aqui é um “ordinary Western”. Ordinário, comum, banal.

Anotação em julho de 2015

Joe Kidd

De John Sturges, EUA, 1972

Com Clint Eastwood (Joe Kidd)

e Robert Duvall (Frank Harlan), John Saxon (Luis Chama), Don Stroud (Lamarr), Stella Garcia (Helen Sanchez), James Wainwright (Mingo), Paul Koslo (Roy), Gregory Walcott (Mitchell), Dick Van Patten (o gerente do hotel), Lynne Marta (Elma), John Carter (o juiz), Pepe Hern (o padre), Joaquín Martínez (Manolo), Ron Soble (Ramon), Pepe Callahan (Naco)

Argumento e roteiro Elmore Leonard

Fotografia Bruce Surtees

Música Lalo Schifrin

Montagem Ferris Webster

Produção Malpaso, Universal. DVD Universal.

Cor, 84 min

**

3 Comentários

  1. mario silva
    Postado em 21 outubro 2015 às 10:14 am | Permalink

    Não é um dos maiores westerns estrelados por
    Clint, sem dúvida. Ao contrário de O Estranho Sem Nome, não encontro em Joe Kidd semelhança com personagens da trilogia de Sergio Leone.
    Porém, desculpe, western com John Wayne, Gary Cooper ou Clint Eastwood pode ser menor, mas
    não comum (ordinary).

  2. Sérgio Vaz
    Postado em 21 outubro 2015 às 1:34 pm | Permalink

    Obrigado pelo comentário, Mario! É sempre bom ter aqui gente que discorda da
    minha opinião! Por favor, escreva sempre.
    Um abraço.
    Sérgio

  3. Daniel
    Postado em 14 novembro 2016 às 8:06 pm | Permalink

    Realmente o filme não tem atrativo algum e não chega nem de perto a ser interessante, como são os filmes de Leone.
    Não vi outros filmes desse diretor, mas com certeza a direção não é boa, assim como o roteiro.

Um Trackback

  1. Por 50 Anos de Filmes » Cavalos Selvagens / Wild Horses em 28 janeiro 2017 às 1:55 pm

    […] Cavalos Selvagens/Wild Horses, de 2015, seu quinto filme como diretor, o grande Robert Duvall criou para ele mesmo interpretar um tipo nada simpático, um homem vaidoso, dominador, brutal, […]

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