House of Cards – A Segunda Temporada

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Nota: ★★★½

Era muito difícil, praticamente impossível, mas eles conseguiram realizar a proeza: a segunda temporada de House of Cards é tão boa quanto a primeira. É um trabalho esplendoroso, impressionantemente bem concebido e bem realizado, exatamente como a do ano anterior.

Como a temporada de 2013, esta aqui demonstra e trata como irrefutável a tese de que a política é suja, mesmo numa democracia madura, em país civilizado, desenvolvido. Não parece haver possibilidade de se fazer política de maneira pura, vestal. Os politicos fazem sujeira, cometem absurdos, até mesmo os piores crimes – mesmo quando as intenções são boas, são corretas, mesmo quando o politico não está agindo para roubar para seu partido ou para si mesmo.

Os personagens de House of Cards – políticos de primeiríssima linha de Washington, D.C., a capital federal da maior potência mundial – não violam as leis, a razão, a moral para roubar dinheiro. Claro: há sempre a troca de favores, o tráfico de influência – alguns, ou quase todos, defendem os interesses de uma ou grande empresa que, em troca, financia suas campanhas eleitorais.

Mas não há – ao contrário, por exemplo, do que vem acontecendo no Brasil nos últimos 12 anos pouco – o roubo para vantagem do partido ou para o enriquecimento pessoal.

Fazem-se os mais diversos tipos de sacanagem, há traições deslavadas, imorais, apavorantes, mas não exatamente por dinheiro, e sim por poder, por mais poder – para, por exemplo, obter determinado cargo. E muitas das discussões – e sacanagens, e traições – são em torno de princípios, de regras para o funcionamento das instituições.

No terceiro e no quarto episódio da temporada, por exemplo, democratas e republicanos se engalfinham em discussão sobre o aumento da idade para a aposentadoria.

(A série numera os capítulos levando todos em consideração; assim, o primeiro da segunda temporada é o episódio 14, e o último é o 26.)

“A política é um campo perfeito para mostrar todos os permanentes temas humanos”

É uma verdade aceita universalmente que o conjunto de peças de William Shakespeare consegue expressar, exprimir, apresentar, discutir todas, absolutamente todas as emoções humanas. Michael Dobbs, o inglês que é o autor dos livros em que se basearam a série da TV britânica House of Cards e também esta aqui, não cita especificamente seu conterrâneo do século XVI, mas afirma, em entrevista para um filmete que acompanha a segunda temporada em DVD, que a política é um campo perfeito, como nenhum outro, “para mostrar todos os permanentes temas humanos”.

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Michael Dobbs sabe do que fala. É um político experiente, além de bom escritor. Começou bem jovem a trabalhar para o Partido Conservador; a partir de 1977, com apenas 29 anos (é de 1948), foi assessor de Margaret Thatcher, na época líder da oposição ao governo trabalhista. Passou a escrever discursos para Thatcher a partir de 1979, e entre 1981 e 1986 foi assessor especial do governo dela. É considerado um excepcional operador politico, e foi chamado pelo The Guardian, em 1987, de “atirador de Westminster com cara de bebê”. Em 2010, recebeu o título de Barão Dobbs, e ingressou na House of Lords.

Paralelamente à atuação política, tornou-se escritor, a partir da publicação, em 1989, do romance House of Cards, o primeiro de uma trilogia de thrillers políticos com Francis Urquhart como protagonista. To Play the King saiu em 1992 e The Final Cut, em 1994. Cada um dos três livros virou uma minissérie da BBC.

Ao criar a série americana, Beau Willimon – ele também homem de experiência política, tendo trabalhado em diversas campanhas políticas, sempre de candidatos democratas, como a de Hillary Clinton para o Senado em 2000 – manteve até mesmo o prenome do protagonista da história, e só alterou o muito britânico Urquhart para Underwood. Frank Underwood, um dos líderes da maioria democrata na House of Representatives, a Câmara dos Deputados, é interpretado por Kevin Spacey – e o grande ator nada de braçada no papel.

O que Michael Dobbs diz na entrevista é muito interessante – até pelo fato de que muita gente, talvez a maioria das pessoas, ache que política é podre, que todo político é igual, que nenhum presta, e portanto, teoricamente, não se interessaria por um drama em que a política é o cerne, o coração, a base de tudo.

“A boa ficção política deve atrair o público, sem precisar entrar na complexidade das relações de poder. Ela pode até ajudar a explicar a complexidade, e as pessoas podem ficar fascinadas, e admito que adoro usar muitos dos meus livros para explicar um tema. Mas, acima de tudo, é preciso que a ficção política seja uma diversão cativante. E a coisa especial sobre política é que nela você tem uma arena com todas as emoções. Você tem ambição, bons princípios, desespero sombrio e profundo, desonestidade da mais alta categoria. Tem de tudo ali. De uma forma que é muito difícil recriar e parecer verossímil em outras áreas. Minha frustração é que não haja mais obras, mais dramas políticos, porque é o cenário mais formidável para mostrar todos os permanentes temas humanos que é possível tratar.”

De fato, House of Cards tem ambição, desespero sombrio e profundo, desonestidade da mais alta categoria. Traição, infidelidade, mentira, ódio, rancor, inveja. Mas também bons princípios, amor, lealdade, perseverança, solidariedade, a busca sincera por condições de vida melhor para a população de uma maneira geral.

No primeiro episódio desta segunda temporada – o capítulo 14 da série – há um assassinato.

A partir do segundo (capítulo 15), fala-se sobre estupro e, de uma maneira extremamente corajosa, honesta, bem-vinda, sobre aborto.

Fala-se de ciberterrorismo, da questão indígena, da crise de energia. A ascensão da China como segunda maior potência econômica do mundo é tema recorrente.

Uma dezena de personagens secundários interessantes, bem construídos

A mais ampla gama de emoções que possa haver, uma imensa gama de temas. Só não concordo muito com Michael Dobbs quando ele diz que a série é “uma diversão cativante”. Diversão cativante é comedinha romântica. House of Cards é drama sério, que discute questões pesadas, densas.

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E quanto drama. Me peguei sofrendo com os dramas de alguns personagens secundários, como Rachel Posner (Rachel Brosnahan) e Lucas Goodwin (Sebastian Arcelus), e ficando triste, amargurado, com a solidão de Jackie Sharp (Molly Parker, na foto acima), com a baixeza que ela é obrigada a cometer para conseguir seu objetivo.

É impressionante como os autores da série conseguem criar personagens secundários interessantes, bem construídos, com subtramas extremamente envolventes. Enquanto vamos acompanhando a trama principal – as vidas de Frank Underwood e sua mulher Claire (Robin Wright, fascinante) –, acompanhamos também meia dúzia, talvez uma dezena de outros personagens. As subtramas se interligam, se entremeiam de forma maravilhosa.

Não vou, nesta anotação, me alongar sobre a trama básica, a principal – a batalha de Frank Underwood para ter cada vez mais poder.

Ao longo de toda a primeira temporada, Frank ocupa o cargo de whip do Partido Democrata na House of Representatives, a Câmara dos Deputados. As legendas traduzem esse whip por “líder”, ou às vezes por “vice-líder”. Whip é um cargo que existe no Parlamento britânico e que os americanos também adotaram, mas não tem similar no Brasil.

O Dictionary of English Language and Culture da Longman explica direitinho o que é o whip. Vem de chicote mesmo, que é a primeira acepção da palavra: “No sistema de governo britânico, um membro do Parlamento que é responsável por fazer os outros membros de seu partido chegarem a tempo para as votações; no sistema de governo americano, um membro do Congresso que é eleito por seu partido para ajudar o floor leader e que ajuda a persuadir os outros membros do seu partido a apoiar projetos de lei que são importantes para o partido.”

Então Frank Underwood é o whip da Maioria na Câmara (da maioria porque na história fictícia, ao contrário do que acontece hoje na Câmara de verdade, os democratas predominam).

O chicoteador. O bedel. O líder encarregado de chicotear o baixo clero para que os deputados compareçam às votações e votem de acordo com as decisões partidárias.

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O presidente que toma posse em 2013, Garrett Walker (Michael Gill), havia prometido a Frank que, se eleito, o tiraria do cargo de whip da Câmara e o nomearia secretário de Estado, a denominação americana para o ministro de Relações Exteriores, ou chanceler. Eleito, no entanto, Garrett não cumpre o prometido: argumenta que precisará mais de Frank com ele no mesmo cargo que ocupava antes, onde é extremamente competente.

Assim, ao longo da primeira temporada, Frank comete todo tipo de ação – inclusive atos ilegais ou ostensivamente criminosos – para se vingar daquilo que considera traição do presidente da República. Ferra diversas pessoas pelo caminho – mas, ao mesmo tempo, força a barra para se mostrar leal ao presidente Walker. Leal e imprescindível.

Quando esta segunda temporada começa, Frank ainda é o whip da Maioria democrata na House of Representatives, mas está para ser escolhido por Walker para o cargo de vice-presidente, que havia ficado vago quando o então vice, Jim Matthews (Dan Ziskie), foi levado a concorrer ao governo de seu Estado Natal, a Pensilvânia.

Nesta segunda temporada, ao longo dos 13 episódios, vemos Frank Underwood lutar com todas as armas possíveis e imagináveis para – ao mesmo tempo – se tornar cada vez mais imprescindível para o presidente da República e, por baixo dos panos, tramar para enfraquecê-lo, de tal forma que ele, o vice, venha a assumir o cargo do “homem mais poderoso do mundo”, como ele mesmo gosta de repetir.

Não há ninguém bonzinho. Alguns sofrem muito – pagam por seus pecados

Uma personagem que surgiu nesta segunda temporada e me pareceu fascinante é Jackie Sharp (interpretada por Molly Parker, atriz muito interessante). Jackie foi oficial das Forças Armadas, teve larga experiência em combate – não se especifica onde, mas foi certamente no Iraque ou no Afeganistão. Depois de servir, entrou para a política, e está agora no seu terceiro mandado de deputada pela Califórnia.

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Frank escolhe Jackie para ocupar o seu lugar como whip da maioria democrata, com sua saída para ocupar a vice-presidência. Enxerga nela todas as qualidades para desempenhar bem as funções que ele, Frank, desempenhou por tanto tempo. Jackie fica surpresa com a idéia de Frank; é jovem, é praticamente uma recém-chegada a Washington, há deputados veteranos muito mais habilitados. Mas é política, é ambiciosa, o convite vem de uma puta-velha, e então ela aceita.

Frank mexe diversos pauzinhos para sabotar as candidaturas logo postas de dois deputados veteranos. Depois, forçará Jackie a fazer uma imensa sacanagem com um velhinho, um milionário, grande amigo do pai dela, quase um segundo pai. Esse senhor, Ted Haveme (David Clennon) se dispõe a bancar a campanha de Jackie para o cargo de whip – mas, por questões de momento, Frank entende que é necessário que Jackie recuse o suporte de grana de seu benfeitor e torne pública uma intimidade, um segredo da pessoal dele.

Jackie aceita o conselho de Frank – e ferra a vida de um homem de bem que sempre a protegeu.

Nesse momento, morri de pena dessa moça Jackie Sharp – como se eu a conhecesse, como se ela fosse minha amiga. O que, na verdade, é um indicativo de como o personagem é bem construído. Mas o fato é que morri de pena da moça; dizia “Tadinha…” Mary, animal político por excelência, conhecedora dos bastidores do poder, e seguramente mais lógica que eu, me contestava: tadinha nada, ela fez essa imensa sacanagem com o homem que sempre confiou nela porque é ambiciosa, queria o cargo a todo custo; se fosse de fato bom caráter, teria se recusado a ferrar com a vida do velhinho.

Está certa a Mary, é claro. Mas fazer o quê? Simpatizei com a moça, gostei do jeito dela, fiquei com pena.

Me angustiou também o drama eterno em que vive a pobre Rachel Posner (interpretada por sua xará Rachel Brosnahan, boa atriz – na foto abaixo).

Na primeira temporada, Rachel era prostituta; um deputado democrata, Peter Russo (Corey Stoll), foi uma vez parado por policiais – estava dirigindo bêbado, e no carro, a seu lado, estava Rachel. Frank mandou seu secretário pessoal, seu braço direito, faz-tudo, Doug Stamper (Michael Kelly), encobrir a história, o que Doug conseguiu fazer, com brilho e a ajuda do comissário de polícia.

Peter Russo era um desastre ambulante: era alcoólatra, e um mulherengo incorrigível. Frank o usou para fazer trabalhos sujos, horrorosos. Peter entrou para o AA, levado por Doug, limpo há 15 anos; e Frank usou sua influência para lançá-lo ao governo de seu Estado, a Pensilvânia. Mais tarde, as circunstâncias levaram Frank a querer afastar Peter Russo da camanha – e Doug usou Rachel para fazer o pobre coitado voltar a beber e a cheirar.

Rachel é, portanto, a mulher-bomba: se contar essas duas histórias, acaba com a vida de Frank Underwood. Assim, Doug ficou encarregado de mantê-la sempre sob sua vigilância; ele a sustenta, dá casa, comida, roupa lavada; ela abandonou a prostituição, passou a ter emprego – e Doug está sempre indo visitá-la, para ver como ela está.

Na verdade, Doug desenvolveu uma obsessão por Rachel. É absolutamente apaixonado por ela – mas, funcionário exemplar que é, se impede de ter um relacionamento afetivo e/ou sexual com ela, para não misturar as estações. Mas as estações se misturam, e Doug acaba, ao proteger a moça, e ao tentar impedir que os repórteres cheguem perto dela, asfixiando, sufocando a pobre coitada. A vida dela vira um inferno.

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E aí Mary entra de novo com a conclusão fria, racional: não é uma pobre coitada; ela fez coisas horríveis, ela acabou com meses de sobriedade de Peter Russo, ferrou a carreira e a vida dele.

Não há nesta série – Mary disse várias vezes, ao longo dos três dias em que devoramos os 13 episódios da segunda temporada – ninguém bonzinho. Todo mundo tem pecados graves – e então, se sofrem, como Jackie, como Rachel, é por coisas que fizeram, de livre e espontânea vontade.

Verdade, verdade, verdade.

Há talvez uma única exceção: o jornalista Lucas Goodwin é uma boa pessoa

Ninguém é bonzinho? Ninguém mesmo?

Talvez Lucas Goodwin (interpretado por Sebastian Arcelus, na foto abaixo) seja a exceção, seja uma pessoa sem mácula – ou quase. Lucas é jornalista, experiente, é um dos editores do The Washington Herald, o jornal fictício que faz as vezes do real The Washington Post.

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Nos últimos episódios da primeira temporada, Lucas começou um caso com a jornalista Zoe Barnes (Kate Mara) – e se apaixonou profundamente por ela. Zoe não é exatamente flor que se cheire: é terrivelmente ambiciosa, e, para subir na profissão, não tem cuidados com a ética. Ao longo de toda a primeira temporada, Zoe estabeleceu com Frank Underwood uma relação dupla, mista, misturada – ela entrava com sexo em troca de informações, ele entrava com informações que era de seu interesse divulgar, e ainda ganhava sexo com a mocinha bem jovem.

Graças às informações privilegiadíssimas passadas por Frank, a jovem Zoe passou de repórter novata, inexperiente, a autora de furos sensacionais que davam manchete do jornal – para o choque e a surpresa de Janine Skorsky (Constance Zimmer), repórter de política experiente, tarimbada.

Eventualmente, tanto Zoe quanto Janine acabam deixando o Washington Herald e vão trabalhar em um site feito por jovens, com grande agilidade. Aproximam-se, as duas ex-rivais, ficam amigas, e passam então a investigar informações a respeito dos podres todos cometidos por Frank Underwood.

Lucas Goodwin, embora permanecendo no jornal, acaba ajudando as duas moças na investigação.

Atenção, spoiler: quem não viu a série deve pular para o próximo intertítulo

Aqui vai um spoiler – quem não viu ainda nada da segunda temporada deveria parar de ler ou, no mínimo, pular para o próximo intertítulo.

No capítulo 14 da série, o primeiro desta segunda temporada, Zoe Barnes é assassinada. O espectador vê o assassinato – mas a morte passa por acidente. A polícia não terá dúvidas de que a morte foi acidental.

Seus dois amigos reagem de maneira oposta. Janine, com medo de ser a próxima vítima, faz as malas e deixa Washington para viver na casa materna. Lucas, apaixonado, desvairado de dor, resolve ir a fundo nas investigações para denunciar os crimes de Frank Underwood.

Será uma luta duríssima, solitária, desesperada – um micro Davi contra um Golias de dimensões jupeterianas.

O rapaz acabará se envolvendo com um hacker espertíssimo e com o ciberterrorismo.

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Robin Wright parece ter se entregue totalmente a Claire Underwood

Dessa dezena de personagens interessantes, e tão bem construídos que, como já disse, me peguei várias vezes sofrendo por alguns deles, o mais fascinante de todos, claro, é Frank Underwood. Mas a verdade – e esta segunda temporada confirma o que a primeira já havia mostrado – é que sua mulher, Claire, não fica atrás.

Robin Wright parece ter se dado muito bem no papel. Aparenta ter se entregue inteiramente à personalidade de Claire Underwood. Está linda, o rosto já não o da garotinha dos tempos de A Princesa Prometida/The Princess Bride (1987), nem a jovem que foi o amor de Forrest Gump (1994) ao longo de toda a sua vida – o rosto lindo dela é o uma mulher madura chegando aos 50 anos de idade (ela é de 1966).

Na imensa maior parte de seus filmes Robin Wright tinha cabelos longos, o que na minha opinião realça a beleza de seu rosto anguloso. Claire Underwood tem os cabelos louros bem curtinhos – é uma Robin Wright um tanto diferente a que vemos aqui.

Está magra, talvez até mais do que deveria, mas a silhueta fina se dá muito bom com os vestidos elegantes e absolutamente sóbrios que usa.

Tudo em Claire, nas expressões faciais, no tom de voz, na postura corporal, é doce, suave. Ela parece uma fada – mas é tão absolutamente venenosa, ambiciosa, determinada, traiçoeira e abertamente aética quanto o marido.

Mas tem um momento de extrema grandeza no capítulo 17, o quarto, portanto, da segunda temporada.

Já no capítulo 15, o segundo desta temporada, o espectador fica sabendo que Claire havia sido estuprada. Uma das primeiras tarefas de Frank no cargo de vice-presidente será entregar medalhas a oficiais graduados das Forças Armadas. A menção do nome de um general – Dalton McGinnis, interpretado por Peter Bradbury – que deverá ser agraciado abala Claire profundamente. E, no dia da cerimônia, no momento da cerimônia, depois que o agora general vem se dirigir a ela, Claire se esconde no banheiro. Frank vai atrás dela, e ela conta: foi ele.

Fica evidente que o estupro havia sido antes de Frank e Claire se conhecerem; e fica igualmente evidente que Claire jamais havia escondido o estupro de Frank – os dois contam tudo um para o outro, o casamento é absolutamente aberto, um sabe direitinho até das infidelidades do outro.

Frank engole todos os sapos do universo e bota uma medalha no uniforme do homem que estuprou sua mulher.

Ao vivo na CNN, a mulher do vice-presidente admite ter feito aborto

O tema aborto volta no capítulo 17, e a atitude de Claire é um absoluto brilho. É de uma retidão de caráter, de uma coragem extraordinária.

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Claire é entrevistada ao vivo na CNN pela jornalista Ashleigh Banfield (que faz o papel dela mesma). Ashleigh pergunta sobre filhos, por que o casal não teve filhos. Depois fala que houve rumores de que Claire esteve grávida durante uma das campanhas de Frank nas eleições para a Câmara dos Deputados. Boa jornalista, ela aperta, aperta. Claire admite que teve um aborto.

Ashleigh: – “Foi um aborto espontâneo?”

Claire: – “Não.”

Ashleigh: – “Você interrompeu a gravidez?”

Claire: – “Se eu dissesse sim, a carreira política do meu marido  estaria em risco. Minha fé seria questionada. Talvez minha vida passasse a ser ameaçada. Mas não vou sentir vergonha. Sim, eu fiquei grávida. E, sim, fiz um aborto.”

Choque geral, absoluto.

A questão do direito ao aborto é uma das mais polêmicas que há – somente comparável, creio eu, à pena de morte e o casamento homossexual. Em especial nos Estados Unidos, as opiniões sobre esses temas dividem a sociedade ao meio. E muitas pessoas, milhares, talvez milhões, tomam partido de modo radical, virulento.

Por isso é brilhante a atitude de Claire Underwood, de não mentir, de enfrentar a metade do país que não reconhece o direito ao aborto – expondo-se a todo tipo de represália possível dos fanáticos, dos fundamentalistas anti-aborto.

Uma das muitas características maravilhosas desta série fantástica é que não há mocinhos e bandidos. Todos cometem pecados, crimes, maiores ou menores. Não há preto x branco – as pessoas são todas da zona cinzenta.

Ao mesmo tempo em que essa atitude de Claire é corajosa, forte, admirável, ela vem também embrulhada em esperteza.

O espectador sabe – Claire fala disso para seu assessor de imprensa, assim que pede um intervalo na entrevista ao vivo depois de afirmar “E, sim, fiz um aborto” – que não foi um aborto. Foram três.

Mas, na entrevista ao vivo, observada por todo o país, ela admite apenas um aborto – o que de fato fez por ter engravidado após o estupro cometido por seu colega de faculdade.

Um filho resultante de um estupro é uma idéia extremamente chocante. Assim, fazer um aborto nessas condições parece – para os contrários ao aborto – um crime com atenuantes.

A entrevistadora Ashleigh Banfield, pega de surpresa – como de resto todos os que assistiam ao programa – faz perguntas sobre o agressor. E Claire, com firmerza e tranquilidade, dá o nome do agressor, e conta que ele foi há pouco condecorado por seu marido.

Outra moça – uma soldado raso – se apresenta contando que também foi estuprada pelo mesmo general McGinnis.

Nos episódios seguintes, Claire, com o apoio da primeira-dama, Tricia Walker (Joanna Going, bonitinha, que faz lembrar Dona Lu Alckmin), fará uma campanha contra os estupros nas Forças Armadas.

Os dois protagonistas da história fumam. Adorei esse detalhe

Um detalhinho. Tanto Frank quanto Claire fumam. Não, não maconha – cigarro, essa coisa antiga, já superada por 99,8% das pessoas bem pensantes neste admirável ano de 2015.

Não fumam demais, sem parar, um cigarro atrás do outro, como a gente via nos filmes dos anos 20, 30, 40, 50, 60, 70.

Fumam no final da noite, para aliviar a tensão. Fumam os caretas como se fossem baseados – um dá uma tragada, passa para o outro.

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Há pelo menos duas décadas o cinemão americano praticamente baniu o cigarro. Ultimamente, só se fuma em filmes de época, em que a ação se passa antes de a humanidade decretar que o cigarro é o inimigo número 1 – ou então fumam os bandidões muito safados. Para realçar o fato de que eles são bandidões safados.

Tem havido mais filmes americanos mostrando adultos se divertindo numa boa fumando maconha do que fumando o velho e bom tabaco.

Como um fumante que está limpo há pouquíssimo tempo, menos de dez meses, e detesta discurso antitabagista, adorei ver a opção gostosa dos criadores da série de não demonizarem o tabaco – muito antes pelo contrário.

Até porque, mudando um pouco a frase de Nelson Rodrigues, toda unanimidade é chata.

Um detalhe formal que me chamou a atenção. Em diversas situações, os diretores de fotografia optaram por não usar iluminação artificial para clarear o rosto dos atores. Assim, em diversas tomadas – muitas, muitas –,  não vemos com clareza o rosto dos personagens que estão contra a luz que vem da janela.

É óbvio que a luminosidade que vem das janelas poderia ser compensada por iluminação artificial. É o que normalmente se faz. De maneira interessante, fascinante mesmo, os responsáveis pela fotografia de House of Cards optaram por evitar essa artificialidade. Quem está contra a luz não tem seu rosto bem iluminado – como na vida real.

Da mesma forma que na primeira temporada, entre os diretores chamados para realizar os episódios desta segunda estão grandes nomes do cinema – Carl Franklin, James Foley, Jodie Foster. E há uma estréia na direção: Robin Wright assina a realização do capítulo 23. E devo dizer que o capítulo 23 está na mesma altura, no mesmo padrão dos demais – o que quer dizer que a moça estreou com o pé direito. Ela assinaria também mais dois episódios da terceira temporada.

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As indicações eram de que a terceira temporada seria a última

No capítulo 25, o penúltimo, há um diálogo que resume bem o espírito de House of Cards. Ao longo dos capítulos anteriores, a relação entre Frank Underwood e Jackie Sharp – a deputada que ele escolheu para sucedê-lo como whip – teve altos bem altos e baixos profundos. Estiveram em lua-de-mel, afinados – e estiveram em campos opostos.

E então Jackie diz:

– “Senhor vice-presidente, o que o senhor está me pedindo é quase uma traição.”

No original, usa-se uma expressão – shy of – que em meus 50 e tantos anos de convivência com o inglês eu não havia conhecido: – “Mr. Vice-president,  what you’re asking is just shy of treason”.

E Frank responde: – “Shy of. Which is politics”. Quase. (Ou: falta pouco para ser traição.) O que é política.

A primeira temporada é de 2013. Foi lançada não em uma das grandes redes da TV americana, mas via streaming – colocada à disposição dos espectadores na internet, na Netflix. Só mais tarde foi lançada em DVD, pela Sony.

Esta segunda é de 2014; foi igualmente colocada à disposição para download pela internet ou para ser vista na TV via Netflix. A Sony já lançou o boxe com 4 DVDs com os 13 episódios e mais filmetes bônus.

A terceira temporada foi lançada via internet e Netflix em 2015, mas ainda não saiu em DVD. As indicações eram de que seria a última. Acho que dificilmente haveria algo a se dizer numa quarta temporada. Mas parece que haverá, sim, uma quarta.

As duas primeiras são uma absoluta preciosidade. Mais uma prova de que muito do melhor do cinema hoje se faz para as telas pequenas, domésticas, e não para as telas gigantescas das salas de cinema, que foram invadidas, tomadas de assalto por gnomos, elfos, super-heróis, e têm pouco espaço para os seres humanos.

Anotação em abril de 2015

House of Cards – A Segunda Temporada

De Beau Willimon, criador, roteirista e produtor executivo, EUA, 2014

Diretores: Carl Franklin, James Foley, John David Coles, Robin Wright, Jodie Foster

Com Kevin Spacey (Francis Underwood), Robin Wright (Claire Underwood),

e Michael Kelly (Doug Stamper), Molly Parker (Jakie Sharp), Michael Gill (presidente Garrett Walker), Gerald McRaney (Raymond Tusk), Sakina Jaffrey (Linda Vasquez),  Mahershala Ali (Remy Danton), Rachel Brosnahan (Rachel Posner), Sebastian Arcelus (Lucas Goodwin), Constance Zimmer (Janine Skorsky), Nathan Darrow (Edward Meechum), Derek Cecil (Seth Grayson), Jimmi Simpson (Gavin Orsay), Jayne Atkinson (Catherine Durant), Mozhan Marnò (Ayla Sayyad), Ben Daniels (Adam Galloway), Boris McGiver (Tom Hammerschmidt),  Joanna Going (Tricia Walker), Terry Chen (Xander Feng), Kate Mara (Zoe Barnes), Kristen Connolly (Christina Gallagher), Ashleigh Banfield (ela mesma), Peter Bradbury (general Dalton McGinnis), Sam Page (Connor Ellis), David Clennon (Ted Haveme)

Roteiros de Beau Willimon, Bill Cain, Laura Eason, Bill Kennedy, Kenneth Lin, John Mankiewicz, David Manson

Baseado nos livros de Michael Dobbs e na série de TV de Andrew Davies

Música Jeff Beals

Produção Media Rights Capital, Panic Pictures, Trigger Street Productions. DVD Sony Pictures

Cor, 663 min

***1/2

Um Trackback

  1. […] Guerra Fria está de volta na terceira temporada de House of Cards, em que há um presidente russo idêntico, mas idêntico mesmo, a Vladimir Putin. E está de volta […]

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