Flores do Oriente / Jin líng shí san chai

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Nota: ★★★½

Flores do Oriente não tem vergonha alguma em apelar para as emoções do espectador. De ser chamado de sentimental, melodramático, até mesmo piegas. É isso tudo, sim – e é um belo filme. Zhang Yimou conta uma história incrível e trágica, inspirada em fatos reais, com aquele talento mastodôntico que já demonstrou tantas vezes.

A ação se passa em Nanquim (ou, como se escreve atualmente, Nanjing), em dezembro de 1937, quando o Japão invadiu a China. Um letreiro sintetiza a conjuntura para o espectador: “No outono de 1937, tendo conquistado Xangai, o Japão virou seus olhos para a capital chinesa, Nanquim. Marcando um capítulo especialmente negro da história da humanidade, mais de 200 mil pessoas perderam suas vidas nas batalhas incessantes pelo controle da cidade. Sob condições impossíveis, as pessoas comuns lutavam para sobreviver. Esta história é inspirada em eventos reais.”

As primeiras imagens que vemos são de uma bela garotinha, uma adolescente aí de uns 13 anos, correndo no meio de uma névoa espessa. Ela é Shu (Zhang Xinyi), que vai nos narrar a história. Suas primeiras palavras são estas:

– “Após 20 dias de bombardeios incessantes, os japoneses tomaram Nanquim. Era 13 de dezembro de 1937. Minhas colegas e eu não conseguimos chegar até o barco, e então voltamos para a igreja. No caminho, nos separamos no meio da névoa.”

zzflores0A sequência em que Shu e as colegas correm em direção à igreja, no meio de um fogo cerrado entre os japoneses e o pequeno grupo de soldados chineses liderados pelo major Li (Dawei Tong) é estonteantemente bem realizada. Trágica, tristíssima, é filmada com um absurdo brilho – algo somente comparável aos melhores momentos de Steven Spielberg, como na primeira meia hora de Saving Private Ryan (1998), ou ao magistral plano-seqüência passada em Dunquerque em Desejo e Reparação/Atonement, de Joe Wright (2007).

Shu pertence a um grupo de estudantes de um convento católico em Nanquim. O convento e a igreja, liderados por um religioso ocidental, o padre Ingleman, era protegido pela Cruz Vermelha Internacional, e considerado neutro, não passível de invasão. Mas o padre Ingleman havia sido morto durante os bombardeios; algumas estudantes conseguiram fugir da cidade, levadas por seus pais. Restaram 12 garotas, Shu e mais 11, e um garoto também de uns 13, 14 anos, George (Huang Tianyuan), um órfão que havia sido criado pelo padre e era uma espécie de faz-tudo ali.

Um malandro e um grupo de prostitutas procuram a segurança do convento

Na sequência de abertura, quando as meninas estão tentando chegar até a igreja, Shu e duas amigas topam com um sujeito ocidental – John Miller, um americano que está radicado na China faz algum tempo, e até sabe falar algumas frases em mandarim. John (o papel de Christian Bale) é um agente funerário, e havia sido chamado para enterrar o corpo do padre Ingleman.

zzflores2Acaba entrando na área da igreja e do convento junto com Shu e suas colegas. Seu diálogo com George (o garoto, assim como as estudantes, Shu em especial, havia aprendido inglês) é insano – e chega a ser quase engraçado, no meio daquela tragédia toda. George diz que não há corpo: uma bomba japonesa havia caído no meio do quintal do convento, criado uma gigantesca cratera, e feito voar e desaparecer o corpo do padre Ingleman. John diz que precisa receber o salário assim mesmo, já que enfrentou muita dificuldade para chegar até ali. George diz que não há dinheiro, John diz que igreja católica sempre tem dinheiro.

Ao conhecer os aposentos que pertenciam ao padre, John – que a esta altura o espectador já identificou como um malandro, quase um vigarista, um aventureiro bêbado, irresponsável – resolve ficar ali. Afinal, é solo sagrado, de missão estrangeira, e os japoneses não ousariam invadir.

Essa mesma idéia ocorre a um grupo de prostitutas, uma dúzia delas, de um bordel das proximidades. Elas batem no gigantesco portão da entrada do convento; George diz que elas não podem entrar de jeito nenhum, elas que procurem o abrigo. Lideradas por Mo (Ni Ni, moça lindíssima, em seu primeiro papel no cinema), elas entram apesar dos protestos do rapaz.

Ocuparão um porão no subsolo do convento, para a alegria de John, que se engraça imediatamente pela bela Mo.

Mo é safa, esperta, firme. Oferece ao americano um trato: se ele conseguir fazê-las sair de Nanquim, terá em troca tudo o que quiser de todas as mulheres do grupo.

A situação de perigo faz aflorar o que de melhor há no malandro americano

zzflores2aA certeza tanto de John quanto das prostitutas, de que os soldados japoneses respeitariam a inviolabilidade do convento e da igreja, não tinha razão de ser. Um bando de soldados invadirá a área, e o estupro das estudantes parecerá inevitável.

Nas horas mais difíceis, nas horas de extremo perigo, as pessoas se revelam. O americano malandro, bêbado, irresponsável toma uma atitude surpreendente: veste-se com o hábito do padre morto, desenrola uma gigantesca bandeira da Cruz Vermelha e, aos berros, interrompe a corrida dos soldados atrás das adolescentes.

A aparição do padre vai paralisar a soldadesca apenas por alguns instantes – mas, a partir daí, as estudantes e George, e depois também as prostitutas, passarão a respeitar o aventureiro. E ele próprio vai, a partir daí, se empenhar mais e mais em defesa daquelas pessoas que não têm ninguém mais para defendê-las.

Haverá uma longa sequência, já passada a metade das 2 horas e 26 minutos do filme, em que Zhang Yimou e seu diretor de fotografia, Zhao Xiaoding, repetirão o tour-de-force do início da narrativa. É quando John e o garoto George saem da área fechada da igreja e do convento e vão andar pelas ruas destruídas de Nanquim à procura de duas prostitutas que haviam saído para achar a corda para um instrumento musical.

zzflores7Vemos longos planos-sequências magistralmente concebidos e executados, a câmara correndo a altíssima velocidade em travellings geniais, de uma beleza apavorante, chocante. Um homem e um garoto correndo, tentando escapar dos tiros dos soldados japoneses, numa cidade inteiramente em ruínas.

A partir daí, desenha-se para as adolescentes chinesas sitiadas no convento uma situação angustiante, de uma dor dificílima de se imaginar. E haverá uma sequência de atos do mais puro heroísmo. Não cabe, é claro, narrar os fatos aqui – mas, ao relatá-los, de fato Zhang Youmou não se envergonha de apelar para os sentimentos do espectador. É sentimental, é melodramático, é piegas – mas é tudo genial.

“Para os chineses, este é o momento mais triste e humilhante do século XX”

O IMDb traz o comentário de um leitor que escreve de Pequim, Shang Libin. Segundo ele, é o melhor filme de Zhang Yimou desde Herói, de 2002 – e isso não chega a ser uma surpresa, já que na opinião dele todos os filmes feitos pelo realizador depois de Herói tiveram roteiros péssimos, enquanto este filme aqui se baseia em uma “novela bem composta”. Esse leitor chinês do IMDb diz que, no período de duas semanas após a tomada de Nanquim, a partir de 13 de dezembro de 1937, 300 mil pessoas foram assassinadas e 80 mil estupradas. “Para os chineses, este é o momento mais triste e humilhante do século XX. O roteiro não se baseia em histórias reais; infelizmente, aas histórias reais são muito piores, porque não houve um salvador, apenas o desespero constante.”

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E ele acrescenta: “As duas atrizes principais são novas faces. Ficarão famosas na China depois deste filme, mas não acho que suas atuações são tão impressionantes quanto as de Gong Li, que colaborou com Zhang Yimou em muitos de seus trabalhos iniciais.”

Bem… Gong Li é uma força da natureza, uma coisa extraordinária, uma gema rara. Não é toda hora que se encontra uma Gong Li. (A atriz estrelou todos os sete primeiros filmes do realizador, desde Sorgo Vermelho, de 1987 até Operação Xangai, de 1995.)

Mas estão muito bem as duas jovens atrizes, Ni Ni, que faz Mo, a líder das prostitutas, e Zhang Xinyi, que interpreta Shu, a estudante narradora da história. Ni Ni, nascida em 1988, já fez cinco filmes depois de sua estréia neste Flores do Oriente. Já Zhang Xinyi não voltou a filmar, pelo menos até agora.

Por sugestão de Spielberg, Christian Bale foi escolhido para o papel central

Segundo o IMDb, foi Steven Spielberg que sugeriu aos produtores o nome do galês Christian Bale para interpretar o papel principal, o do aventureiro que no começo da história é um bêbado irresponsável e no final é um grande herói.

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A escolha de Christian Bale é fascinante: quando tinha 13 anos de idade, ele interpretou o papel principal em um filme de Spielberg, Império do Sol – e o personagem que ele fazia, o garoto filho de diplomatas britânicos em Xangai, se perde dos pais exatamente no mesmo período em que se passa a história de Flores do Oriente, 1937, a época da invasão da China pelo Japão.

Flores do Oriente foi a segunda produção chinesa a ter um astro do cinema americano como protagonista – antes dele, Kevin Spacey havia estrelado Heróis Fora de Controle, de 2011.

Segundo o IMDb, Flores do Oriente tornou-se o filme de maior bilheteria em toda a história do cinema chinês.

É um belo filme, que sem dúvida nenhuma merece ser visto. Ele me fez querer ver e/ou rever outros filmes de Zhang Yimou. O cara esbanja talento.

Anotação em dezembro de 2014

Flores do Oriente/Jin líng shí san chai

De Zhang Yimou, China-Hong Kong, 2011

Com Christian Bale (John Miller), Ni Ni (Mo Yu), Zhang Xinyi (Shu), Huang Tianyuan (George Chen), Han Xiting (Yi), Zhang Doudou (Ling),  Dawei Tong (Major Li), Atsurô Watabe (coronel Hasegawa), Cao Kefan (Mr. Meng), Yuan Yangchunzi Yuan (Mosquito), Sun Jia (Hua), Li Yuemin (Dou), Bai Xue (Lan)

Roteiro Liu Heng

Baseado em novela de Yan Geling

Fotografia Zhao Xiaoding

Música Chen Qigang

Montagem Meng Peicong

Produção Beijing New Picture Film Co., EDKO Film, New Picture Company.

Cor, 146 min.

***1/2

Título em inglês: The Flowers of War. Em Portugal: Flores da Guerra.

2 Trackbacks

  1. […] O magnífico realizador que transformou Li Gong/Gong Li em estrela mundial – será ele Yimou Zhang ou Zhang Yimou? […]

  2. […] Zhang Yimou é cineasta de afrescos, de sinfonias, de épicos – planos gerais, multidões em movimento. Tudo em seu estilo é grandioso. Tornou-se extremamente conhecido no Ocidente em boa parte por suas fábulas de uma China do passado remoto – ou de um passado que a rigor jamais existiu –, povoado por adagas e heróis voadores, por guerreiros que mais parecem bailarinos. […]

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