Festa Selvagem / The Wild Party

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Nota: ★★★☆

Um sujeito que já esteve no topo, no auge, e hoje não está mais – já vimos essa história antes, e ainda vamos ver muitas outras vezes, certo?

Luzes da Ribalta/Limelight (1952), Nasce uma Estrela/A Star is Borb (1937, depois 1954, depois 1976). Crepúsculo dos Deuses/Sunset Boulevard (1950). O Palhaço Que Não Ri/The Buster Keaton Story (1957). A Malvada/All About Eve (1950), para citar só alguns que vêm rapidamente à memória.

Ah, os bastidores da indústria de sonhos, a muitas vezes decrépita, imoral, sórdida Hollywood. Sim, já vimos essa história antes, e certamente ainda vamos ver muitas outras vezes.

Crepúsculo dos Deuses/Sunset Boulevard, de novo. Assim Estava Escrito/The Bad and the Beautiful (1952). A Cidade dos Desiludidos/Two Weeks in Another Town (1962). O Miado do Gato/The Cat’s Meow (2001).

zzwild4Festa Selvagem/The Wild Party, de 1975, é mais um filme sobre um sujeito que já esteve no topo, no auge, e hoje não está mais. Mais um filme mostrando os bastidores da indústria de sonhos, a muitas vezes decrépita, imoral, sórdida Hollywood. Não é um filme ruim, de forma alguma – até porque é dirigida por um realizador de inegável, comprovadíssimo talento, James Ivory.

Não é um filme ruim. O problema dele é que já foram feitos tantos outros sobre o mesmo tema, inclusive obras-primas que estão entre os melhores filmes de todos os tempos.

Festa Selvagem é um bom filme – mas o espectador não consegue deixar de sentir um gostinho de déjà-vu.

O protagonista alterna euforia e depressão, irritação e calma

A ação se passa em 1929. O protagonista se chama Jolly Grimm (o papel de James Coco, na foto acima), e é um diretor, roteirista e ator, um comediante, um concorrente de Charles Chaplin, Buster Keaton, Harold Lloyd – todos citados no filme. Foi grande como eles, fez 27 filmes, ficou riquíssimo, mora numa villa gigantesca, suntuosa – mas há cinco anos não lança um novo filme.

Não lançava. No dia em que se passa a ação, um sábado, Jolly Grimm vai promover uma festa fantástica em sua villa, durante a qual apresentará o filme em que vinha trabalhando nos últimos meses.

Produziu o filme com seu próprio dinheiro. Espera vendê-lo para um estúdio. Chefões de estúdios foram convidados para a festa.

zzwild2Jolly não está nada bem. Parece ter aquela doença que era chamada de psicose maníaca-depressiva, hoje suavizada para transtorno bipolar: alterna momentos de euforia com outros de depressão. Ora tem certeza de que seu filme mais recente é uma obra-prima, ora tem profundas dúvidas sobre ele.

Também alterna momentos de profunda irritação com momentos em que está calmo, dócil, quase doce. Em tudo – e em especial no contato com sua mulher, Queenie (o papel de Raquel Welch).

Queenie é um mulherão, atraente, bela, gostosíssima. No passado, tinha sido dançarina de vaudeville. Tentara a carreira no cinema, mas não tivera sorte. Num período em que literalmente passava fome, encontrou Jolly Grimm. Ele a acolheu, cuidou dela. Tornaram-se amantes fixos, ela mora na mansão dele faz anos – e, naquele mesmo sábado da festa, num passeio de carro com seu motorista, faz-tudo, guarda-costas e amigo do peito Tex (Royal Dano), Jolly dirá que tem pensado em propor casamento a Queenie, para que ela se sinta mais confiante, segura, protegida.

Maníaco-depressivo, bipolar: ora confessa para o amigo que não saberia viver sem Queenie, que vai pedi-la em casamento, ora a maltrata, empurra, esbofeteia.

A festa vira um grande bacanal – e as cenas de sexo são bastante ousadas

Era 1929, repito, e em 1929 vigorava nos Estados Unidos a Lei Seca: bebida alcoólica era proibida em qualquer lugar, em qualquer ocasião, como hoje são proibidos maconha, haxixe, cocaína, heroína, etc, etc, etc. Mas, quando algo é proibido, há sempre gente que vende o proibido por baixo do pano, e Tex providencia com o contrabandista de sempre uma quantidade absurda de bebidas para os convidados consumirem na festa.

Alguns convidados levarão cocaína, etc, etc.

zzwild7Uma grande amiga de Queenie, Kate (Tiffani Bolling) chega à festa acompanhada por Dale Sword (Perry King, na foto), um jovem ator de fina estampa que acaba de fazer um filme de imenso sucesso. É tratado como um novo Rodolfo Valentino.

Dale Sword bate o olho em Queenie e o espectador percebe que haverá um tremor de terra.

Jolly Grimm não soube escolher bem o dia para dar sua festa. Naquele mesmo sábado, Mary Pickford e Douglas Fairbanks – nada menos que o rei e a rainha de Hollywood naquela época – estavam dando uma festa de arromba em sua mansão.

Muitos dos convidados chegam à villa de Jolly pretendendo ficar só um pouco e depois rumar para a festa do casal real do cinema americano. O convidado mais importante de todos, Murchison (Regis Cordic), o chefão de um grande estúdio, chega dizendo que ficará pouco tempo na festa.

Assim, Jolly rapidamente anuncia a exibição de seu filme.

Enquanto o filme está rolando, Jolly se consome em ansiedade, insegurança – e vai enchendo a cara. Nos últimos tempos, Jolly vinha bebendo muito mais do que se deve.

Depois da exibição do filme, alguns convidados vão embora. O bonitão Dale Sword, no entanto, resolve ficar um pouco mais. Quer dançar com Queenie. Está vidrado em Queenie.

Na madrugada, a festa vira um bacanal. Os diversos quartos se enchem ou de casais ou de grupos. Não tinha rock’n’roll, mas sobravam sexo e drogas. As sequências da trepação na madrugada são bastante ousadas, explícitas – o que é estranho se lembrarmos do estilo elegante e sutil de James Ivory na maioria de seus filmes.

O desfecho será absolutamente trágico.

O filme se inspira num personagem real, o ator e diretor Roscoe Arbuckle

O roteiro do filme, de autoria de Walter Marks  (que também compôs canções apresentadas durante a narrativa) se baseia num poema narrativo escrito por Joseph Moncure March.

zzwild6O roteirista criou, então, um personagem chamado James Morrison (David Dukes). Toda a história será narrada por esse rapaz. Na primeira seqüência do filme, nós o vemos numa cama de hospital, escrevendo, em versos, um relato sobre a festa que havia acabado de acontecer.

Morrison era poeta, tinha se tornado amigo de Jolly e ajudou-o um pouco no roteiro de seu filme – e apaixonou-se perdidamente por Queenie. Uma paixão de poeta: nunca tentou nada com ela, jamais avançou sinal – apenas gostava de vê-la, de sorver sua beleza, seu charme. Tentava ajudá-la em tudo que fosse possível.

Eis o início de sua narrativa em versos, antes dos créditos iniciais – e do flashback para a manhã do sábado da festa:

– “O elenco tinha se reunido, todos os atores: mendigos e belas e benfeitores. Milionários e joão-ninguéns; amantes, palhaços e heróis. Reunidos no estúdio. Tomaram seus lugares no grande salão, a cortina estava subindo, o espetáculo estava acontecendo. Solitários observadores e proprietários da Babilônia, tolos e amigos. Todo o grande panteão. A roda estava girando, o curso estava marcado. A comédia estava começando, a tragédia tinha começado.”

É óbvio que fica melhor com as rimas:

– “The cast was assembled, all the actors: beggars and beauties and benefactors. Millionaires and zeroes; lovers, clowns, and heroes. Met on set. They rushed to their places in the grand salon, the curtain was rising, the show was on. Starring loners and owners of Babylon; phonies and cronies and hangers-on. The whole freeloading pantheon. The wheel was spinning, the course was charted. Comedy was beginning, and tradgedy had started.”

zzwild8O IMDb informa – assim como a sucinta sinopse de Leonard Maltin – que o personagem central da história, Jolly Grimm, faz lembrar Roscoe Arbuckle, que tinha o apelido de Fatty, gordinho, e foi um astro do cinema mudo. Roscoe Arbuckle (1887-1933) tem mais de 160 títulos em sua filmografia como ator, e mais de 130 como diretor. Trabalhou várias vezes ao lado de Buster Keaton. Foi acusado de estuprar e acidentalmente matar uma jovem atriz, Virgina Rappe, durante uma festa que deu em sua casa em 1921.

Leonard Maltin deu 2 estrelas em 4 para o filme: “Irregular evocação da Hollywood dos anos 1920 com Coco como um comediante do tipo de Fatty Arbuckle que dá uma festa suntuosa na tentativa de salvar sua carreira descendente. O filme tem qualidades (notavelmente as interpretações), mas simplesmente não decola. Baseado no poema narrativa de Joseph Moncure March; foi cortado pelo distribuidor, mas mais tarde restaurado por Ivory para 107 minutos.”

Segundo o IMDb, durante as filmagens houve um desentendimento entre o diretor James Ivory e Raquel Welch. Ivory ficou descontente com uma cena com a atriz, disse que ela estava “um pouco chata”, e pediu para filmar de novo. A moça teve um chilique, ameaçou ir embora e não voltar a não ser que o diretor pedisse desculpas a ela publicamente, diante dos atores e dos técnicos. Fazer o que quando a estrela de seu filme tem faniquito? Ivory pediu desculpas – e refez a cena.

Os indícios são de que Raquel Welch não é flor que se cheire. Conta-se uma história escabrosa: em 100 Rifles (1969), a personagem dela tem um caso com o interpretado por Jim Brown, sujeito bonitão – de pele negra. Raquel Welch exigiu que houvesse uma toalha entre ela e ele, numa cena em que os dois se abraçam e ele está sem camisa.

Assim, jamais tive qualquer simpatia por essa atriz. Mas tive que reconhecer: sua atuação como essa pobre Queenie é muito, muito boa. Todos os atores estão muito bem – James Ivory é um grande diretor de atores. Mas Raquel Welch se sobressai.

Não diria, como Leonard Maltin, que o filme não decola. É um bom filme. Mas sem dúvida alguma tem um gostinho de déjà-vu.

Anotação em novembro de 2015

Festa Selvagem/The Wild Party

De James Ivory, EUA, 1975

Com James Coco (Jolly Grimm), Raquel Welch (Queenie), David Dukes (James Morrison), Royal Dano (Tex), Perry King (Dale Sword),  Tiffany Bolling (Kate), Chris Gilmore, creditada como Annette Ferra (Nadine), Eddie Lawrence (Kreutzer), Bobo Lewis (Wilma), Don De Natale (Jackie), Dena Dietrich (Mrs. Murchison), Regis Cordic (Mr. Murchison), Jennifer Lee (Madeline True)

Roteiro Walter Marks

Fotografia Walter Lassally

Música Walter Marks

Montagem Kent McKinney

Produção American International Pictures, Merchant Ivory Productions , The Wild Party Production Company.

Cor, 107 min (há uma versão cortada, de 95 min).

***

Um Trackback

  1. Por 50 Anos de Filmes » À Francesa / Le Divorce em 27 julho 2015 às 3:42 pm

    […] filme é americano, obra da trinca internacional James Ivory-Ruth Prawer Jhabvala-Ismail Merchant, mas 99% da ação se passam em Paris. Metade do imenso elenco cheio de bons, respeitáveis nomes, […]

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