Esse Mundo é dos Loucos / Le Roi de Coeur

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Nota: ★★★★

Le Roi de Coeur, no Brasil Esse Mundo é dos Loucos, de 1966, é um dos filmes mais encantadores e mais belos dos agitados, vulcânicos, loucos anos 60. Em termos pessoais, é um dos filmes mais marcantes, mais memoráveis que vi naqueles anos da adolescência, os anos em que estava descobrindo a vida.

É uma violenta sátira anti-guerra, anti-militarismo, que demonstra, como num teorema, que louco é quem faz guerra.

Fiquei pensando, ao revê-lo agora, absolutamente embevecido, que Le Roi de Coeur e o checo Um Dia, Um Gato, lançado em 1963, apenas três anos antes, são seguramente alguns dos filmes mais emblemáticos dos sonhos, das esperanças, das utopias da minha geração, a geração nascida no final dos 40 e início dos 50.

São, os dois, fantasia pura. Fogem do realismo, do naturalismo, como o diabo da cruz, o vampiro do crucifixo. Mais longe do naturalismo, só estão é do cinismo: são filmes believers, que acreditam no ser humano; que mostram as hipocrisias, os pecados, as insanidades das pessoas e das instituições, mas apontam que tudo poderia ser muitíssimo melhor.

Os dois se passam em cidadezinhas do interior – um microcosmo que espelha a sociedade como um todo.

Cada um dos dois tem uma personagem feminina que parece uma fada, um encanto, um anjo – e as personagens são interpretadas por jovens atrizes de beleza incrível, absurda.

Os dois usam e abusam das cores. Têm muitas cores fortes, vibrantes, quentes, em cada uma das tomadas.

zzrei5E, nisso, nesse detalhe das cores, Le Roi de Coeur e Um Dia, um Gato, são primos-irmãos de outros filmes marcantes, impressionantes, emblemáticos, que ao mesmo tempo refletem o espírito dos anos 60 como também ajudaram a moldar esse próprio espírito: Os Guarda-Chuvas do Amor/Les Parapluies de Cherbourg (1964) e Duas Garotas Românticas/Les Demoiselles de Rochefort (1967), ambos de Jacques Demy, As Duas Faces da Felicidade/Le Bonheur (1965), da mulher de Demy, Agnès Varda, Elvira Madigan (1967), do sueco Bo Widerberg.

Essa coisa das cores fortíssimas não é um detalhinho pequeno – é algo bem importante. Foi nos anos 60 que praticamente todos os grandes cineastas que já estavam em atuação nos anos 50 passaram do preto-e-branco para as cores. Pense em qualquer um, e você verá que a afirmação é correta: Antonioni, Visconti, de Sica, Bergman, Truffaut, Godard, Malle, Penn, Buñuel…

E alguns exageraram na coisa de expor, na década em que o grande cinema se coloria, uma absurda quantidade de cores fortes. Demy, Varda, Widerberg levaram isso muitíssimo a sério nos filmes que citei. (Alguns meses depois de escrever esta anotação aqui, fiz um texto especificamente sobre essa passagem do preto-e-branco para a cor.)

Philippe de Broca fez isso em Le Roi de Coeur.

de Broca é um realizador maravilhoso, menos reconhecido do que devia

Philippe de Broca (1933-2004) não virou assim uma grife, um nomaço, como esses citados três parágrafos acima, mas é um grande realizador. Tenho absoluta adoração por alguns de seus filmes: este aqui, mais os também mágicos, encantadores O Irresistível Gozador/Un Monsieur de Campagne (1964) e O Magnífico/Le Magnifique (1973).

Tinha esse bom gosto fantástico de trabalhar com atrizes de beleza estupenda: Anouk Aimée em O Gozador/Le Farceur, Catherine Deneuve em Un Monsieur de Campagne (lançado no mesmo ano de Les Parapluies de Cherbourg, quando a moça estava com ridículos 21 aninhos), Jacqueline Bisset em Le Magnifique, e, neste Le Roi de Coeur, Geneviève Bujold, Micheline Presle e Françoise Christophe.

Filho da mãe.

O IMDb informa que cinco atores obtiveram indicações ao César, o Oscar francês, por atuações em filmes dirigidos por de Broca: Nicole Garcia, Stéphane Freiss, Daniel Auteuil, Marie Gillain e Vincent Perez – sendo que Nicole Garcia e Stéphane Freiss ganharam os prêmios.

Mestre Jean Tulard faz dele um julgamento severo demais – e ele próprio reconhece isso. Eis o pequenino texto dedicado a esse realizador de mais de 40 títulos no Dicionário de Cinema – Os Diretores:

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“Ex-assistente de Decoin, de Chabrol e de Truffaut, aproveitou-se do fenômeno nouvelle vague nos seus primeiros filmes, comédias crepitantes e cheias de humor. O sucesso de Cartouche, popular referência ao célebre bandido, interpretado por Belmondo, fez com que sua carreira tomasse novo rumo, o da comédia de grande orçamento: O Homem do Rio, As Fabulosas Aventuras de um Playboy, voltadas para o grande público. Quando tentou, com Este Mundo é dos Loucos, reintroduzir um pouco de sua liberdade pessoal em uma superprodução, os espectadores fizeram cara feia. Voltou, então, para os filmes que agradavam: O Diabo pela Cauda, Por um Capricho de Mulher. Excetuemos, contudo, desse julgamento por demais severo O Magnífico, impagável.”

Mestre Tulard realmente foi por demais severo. O Magnífico não é apenas impagável, é um grande filme. Le Magnifique, assim como Un Monsieur de Campagnie, é uma elegia à simplicidade, à vida simples das pessoas simples – as ordinary people que outro grande artista, do outro lado do Canal da Mancha, Paul McCartney, sempre cantou.

E Le Roi de Coeur é um filmaço.

Um lamentável erro de Português no título escolhido pelos exibidores

A única coisa ruim que o filme tem é o título escolhido pelos exibidores brasileiros.

Não no conteúdo – na forma.

Se o título fosse Este Mundo é dos Loucos, como foi grafado na edição brasileira de 1996, da gaúcha L&PM Editores, do Dicionário de Tulard, teria sentido. O que o filme basicamente quer dizer é que insanas mesmo são as pessoas, as instituições tidas como sãs, racionais, saudáveis, e que cometem atrocidades como as guerras.

Perto da insanidade absurda, louca varrida, de uma guerra, os doidos confinados aos asilos são seres absolutamente lúcidos, sérios, competentes, coerentes, belos – o mundo é deles.

A questão do título é o mau Português. Esse Mundo é dos Loucos não tem sentido: o certo é Este Mundo.

Renato Russo, sujeito bem informado, letrado, também cometeu o mesmo erro, ao dar à canção o título de “Que país é esse”. O certo seria este: este país, este mundo em que estamos. Este é para as coisas que estão próximas, ou que virão abaixo: leiam este texto abaixo.

Perdão por me desviar do tema central, mas me irritam demais os erros crassos, as agressões à última flor do Lácio inculta e bela.

Volto ao filme.

 Em retirada, os alemães decidem explodir toda a cidadezinha francesa

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Um letreiro no início da narrativa avisa: “Outubro de 1918. A grande guerra vai chegando ao fim. Os alemães recuam, os aliados avançam. Uma pequena cidade do Norte da França espera sua libertação.”

Vemos então os alemães se preparando para deixar a cidadezinha onde se passa toda a ação do filme. Como Hitler mandaria, décadas depois, na Segunda Guerra Mundial, os seus generais fazerem com Paris, o comandante dos alemães no local decide explodir a cidadezinha, depois da retirada. São deixados explosivos nos principais pontos da cidade, em especial na casamata construída em plena praça central. Um complexo mecanismo acionaria os explosivos exatamente à meia-noite do dia seguinte à saída dos alemães. O detonador é colocado junto do cavaleiro medieval que, à meia-noite, sai de dentro da torre da igreja matriz da cidadezinha e bate uma bola de ferro em uma placa.

No momento em que o comandante tedesco decide isso, ele está sendo barbeado pelo dono da barbearia da cidade, um francês que, naturalmente, tem ligações com a resistência ao invasor alemão. Assim que pode, o barbeiro fala com um amigo para que espalhe a notícia da explosão iminente, para que a população abandone a cidade. E faz uma ligação pelo rádio para informar às tropas aliadas sobre o plano alemão. Diz a senha – “A cavalinha gosta de fritura” – e dá o recado como pode: “Alemães explodirão depósito de munições antes da meia-noite. O cavaleiro bate à meia-noite. Pelo amor de Deus, não entrem na cidade”.

E, assim que acaba de falar a frase, é morto por soldados alemães que passavam diante da barbearia e o vêem falando no rádio.

Todos haviam fugido da pequena cidade – só deixaram lá os loucos do hospício

A mensagem vai parar na mesa do comandante do regimento aliado mais próximo, o coronel escocês Alexander MacBibenbrook. O coronel é interpretado por Adolfo Celi (1922-1986), o ator e diretor italiano boa figura que passou longa temporada no Brasil, nas décadas de 1950 e 1960 – foi o primeiro diretor artístico do Teatro Brasileiro de Comédia, fundou a companhia teatral Tônia-Celi-Autran, com Paulo Autran e a maravilhosa Tônia Carrero, com quem se casou.

zzrei4O coronel manda imediatamente suspender o envio de suas tropas à cidade. O sargento MacFish (Jacques Balutin), que, veremos, é um absoluto trapalhão, apresenta um plano: enviar um único soldado, um perito em explosivos, para desarmar o mecanismo preparado para fazer explodir a casamata e a cidade. E indica para a tarefa o soldado Charles Plumpick (o papel de Alan Bates).

O coronel adora o plano e dá as instruções a Plumpick. A tarefa é fácil, diz ele: entrar na cidade, contactar o barbeiro que pertence à resistência, se informar sobre a localização da casamata, e desfazer o mecanismo preparado para a explosão.

Plumpick, coitado, tenta explicar ao coronel que houve algum engano, ele não entende nada de explosivos. Sim, ele sabe um pouco de Francês, isso é verdade, mas não entende patavina nenhuma de explosivos – é um ornitólogo, é o sujeito encarregado de cuidar dos pombos-correio.

Ele tenta explicar – mas o general simplesmente não o ouve.

E então lá vai ele para a cidade, ainda ocupada pelos alemães – uma figura visualmente ridícula, hilariante, com a saia de escocês e uma grande gaiola com pombos.

Toda a população da cidade – a rigor, quase toda – já havia dado no pé. Só estavam lá os alemães, nos últimos preparativos antes de se retirarem.

Plumpick é avistado pelos alemães – e, procurando um lugar para se esconder, acaba entrando no hospício da cidade. Vemos a identificação numa grande placa acima do portão de entrada: “Asile d’Aliénés”. As freiras que tomavam conta do lugar haviam fugido também, como quase todo o resto da população. Só haviam ficado lá os alienados, os loucos, os doidos.

O soldado escocês bota um avental branco por cima da farda e um boné na cabeça, e se une a um grupo de loucos que joga cartas. Os alemães inspecionam o lugar. Quando chegam à sala em que está o grupo, Plumpick entre eles, um dos homens – interpretado por Jean-Claude Brialy – rapidamente se apresenta como sendo o Duque de Paus. Outro – interpretado por Julien Guiomar – se diz o monsenhor Marguerite. E então Plumpick tem a idéia de se apresentar para os alemãos como o Rei de Copas.

Convencidos de que ali só há loucos mesmo, os alemães dão o fora.

Os loucos, liderados pelo Duque de Paus, ficam eufóricos: finalmente o Rei de Copas chegou e se apresentou a eles.

O Rei de Copas. Le Roi de Coeur, o título original. The King of Hearts, o título nos Estados Unidos. Rey de Corazones, o título na Espanha. Só Portugal e Brasil é que inventaram – em Portugal foi O Rei dos Doidos.

E então, na ausência de habitantes e invasores, os loucos assumem a cidade

Tudo o que relatei aí acima, minuciosamente, longamente, em um monte de parágrafos, é mostrado no filme bem rapidamente, nos primeiros 15 minutos. E tudo isso é apenas a preparação para que possa então começar o que o diretor de Broca quer mesmo contar, com roteiro de Daniel Boulanger, baseado em idéia de Maurice Bessy: a partir daí, assim que os alemães finalmente deixam a cidade, os loucos vão sair do hospício e invadir e tomar as casas e as lojas.

zzrei6A cidadezinha toda pertencerá aos loucos – e todos eles adoram o Rei que finalmente apareceu para fazer companhia a eles.

Assim, o Duque de Paus encontrará um belo terno, à altura de sua condição de duque, e transformará em duquesa uma sua amiga do hospício, interpretada pela bela Françoise Christophe.

O cinema francês adora esposas infiéis, e então a Duquesa se mostrará uma esposa nada fiel ao Duque de Paus. É uma personagem deliciosa.

Monsenhor Marguerite irá até a igreja matriz, e se vestirá com a batina e os paramentos de um bispo.

Madame Eva, que às vezes responde por Madame Eglantine (o papel da belíssima Michele Presle, uma das grandes atrizes do cinema francês ao longo dos anos 40, que permanece em atividade até hoje), vai dirigir um bordel, para o qual convoca diversas de suas companheiras de hospício.

A mais bela de suas meninas – uma jovenzinha absolutamente inexperiente, ainda virgem – é Coquelicot (Papoula, como traduzem as legendas do DVD lançado no Brasil no final de 2014 pela grande, ótima Versátil), a personagem de Geneviève Bujold, essa atriz de beleza angelical.

Marcel (o papel, se eu não estiver enganado, de Michel Serrault) tomará conta da barbearia.

O general Géranium (Pierre Brasseur) andará para cima e baixo sem fazer concretamente nada. Não é isso mesmo que fazem os generais?

Algumas das sequências mais belas que já vi na vida – e já vi muitas…

Nosso herói, o soldado Charles Plumpick, havia saído correndo do hospício assim que os alemães desistiram de procurá-lo no meio daquele bando de loucos varridos. Da janela, o Duque de Paus e outros gritaram por ele, mas ele saiu correndo do hospício – e acabou levando uma pancada na cabeça e desmaiando numa rua.

Foi para tentar encontrar o rei que finalmente havia aparecido para eles que os loucos, liderados sempre pelo Duque de Paus, haviam se aventurado até o portão do asilo, e daí tomado as ruas, enquanto Plumpick, o Rei de Copas, permanecia no chão, sem sentidos.

Quando finalmente acorda, Plumpick vai até o barbearia, crendo que o informante dos exércitos aliados ainda estivesse lá. Tenta estabelecer diálogo com Marcel, o novo barbeiro, mas logo percebe que há alguma coisa estranha ali.

Anda um pouco pela cidade e vê os carros de um circo abandonados. Num dos carros-jaula há um leão – e a porta estava aberta! Algum dos loucos havia passado por ali e aberto a porta, com a certeza de que o leão, acostumado à jaula, não sairia dali, assim como eles mesmos, os loucos, não saíam nunca do hospício – só tinham saído para ir atrás do Rei de Copas.

O elefante do circo caminhava sossegadão pelas ruas.

Coisa de louco.

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Logo o Duque de Paus e seus amigos vão localizar o rei, afagá-lo, enchê-lo de elogios – e preparar sua coroação, na igreja matriz da praça central. Depois vão arranjar para servir de noiva dela a moça mais bela que há entre eles – Coquelicot, naturalmente.

Os loucos andando em bandos pelas ruas, com suas roupas coloridíssimas, de cores fortíssimas, são algumas das sequências mais memoráveis que já vi. E olha que já vi muito filme.

É tudo de uma beleza plástica estonteante – e o recado excelente, maravilhoso, vai sendo dado: os loucos são gente boa, não fazem mal a ninguém. Doido mesmo é aquele pessoal que veste farda e atira nos outros.

Filmaço. Filmaço.

Fracasso absoluto na França, o filme foi adorado nos EUA em guerra com Vietnã

Acho fascinante que Alan Bates (1934-2003), esse grande ator inglês, tenha, no intervalo de apenas dois anos, sido protagonista de dois filmes que definem os anos 1960 – exste aqui e também Zorba, O Grego,  de Michael Cacoyannis.

Segundo o IMDb, Horacio Ferrer afirmou que Le Roi de Coeur foi uma influência direta para ele quando escreveu a letra de “Balada para un loco”, para se cruzar com a melodia de Astor Piazzolla.

“Balada para un loco” tornou-se de fato um clássico. É a mais conhecida das sete canções, todas elas estupendas, feitas pela dupla Astor Piazzolla-Horácio Ferrer no iniciozinho dos anos 70, que Amelita Baltar, então mulher do maestro, gravou num álbum indispensável, fundamental, Amelita Baltar interpreta a Piazzolla y Ferrer – com arranjo, regência e bandoneón de Piazzolla, é claro.

Alguns dos versos: “Ya sé que estoy piantao, piantao, piantao… / No ves que va la luna rodando por Callao / que un corso de astronautas y niños, con un vals, me baila alrededor… ¡Bailá!… ¡Vení!… ¡Volá! / Ya sé que estoy piantao, piantao, piantao… / Yo miro a Buenos Aires del nido de un gorrión; / y a vos te vi tan triste… ¡Vení! ¡Volá! ¡Sentí!… / el loco berretín que tengo para vos”.

zzrei8É fantástico, é incrível saber que o filme foi – como indicou Jean Tulard no verbete sobre o diretor, e como conta o AlloCiné, o site enciclopédico sobre o cinema francês – um tremendo, um fabuloso fracasso de público e crítica ao ser lançado na França, em 1966. Ele vinha de um grande sucesso de público atrás do outro: Cartouche (1962), O Homem do Rio (1964), O Irresistível Gozador (1964), Fabulosas Aventuras de um Playboy (1965). Segundo o AlloCiné, o fracasso deixou de Broca à beira de uma depressão; ele teria pensado seriamente em abandonar de vez o cinema.

Casa de ferreiro, espeto de pau. Fracasso absoluto em seu país, o filme conheceu um imenso sucesso nos Estados Unidos, o maior mercado consumidor de entradas de cinema do mundo. Num país dividido ao meio entre os favoráveis e os opositores à intervenção militar no Vietnã, em meio a protestos constantes contra a guerra, o antimilitarismo, o pacifismo de Le Roi de Coeur caiu como maná abençoado no gosto dos estudantes, do nascente movimento da contracultura, os hippies, os malucos-beleza.

E o tempo, o implacável, o que passou, como diz Pablo Milanés, que destrói muitas obras, só fez bem a Le Roi de Coeur.

Em seu excelente texto no Estadão, em novembro de 2014, quando a Versátil lançou o filme em DVD, o cinéfilo gaúcho Luiz Carlos Merten, há décadas radicado em São Paulo, para felicidade de quem não lê a Zero Hora, escreveu:

“Tem gente que jura que Esse Mundo é dos Loucos, sendo de 1966, antecipou-se e ajudou a criar o slogan ‘Faça amor, não faça guerra’, que virou o emblema da geração paz e amor. Foi em 1965, simultaneamente à escalada da Guerra do Vietnã, que surgiu pela primeira vez o termo hippie no artigo de um jornalista de São Francisco que refletia sobre mudanças comportamentais da juventude da época. Na trilha aberta pela beat generation, esses jovens adotavam um modo de vida comunitário, tendendo a uma espécie de socialismo utópico e libertário. Nesse quadro, Plumpick abdica das armas para viver sua história de amor com Coquelicot, a doce Geneviève Bujold, que de Broca veste com a roupa da trapezista de O Circo, de Charles Chaplin, que também era o (inatingível) objeto de desejo de Carlitos.”

Merten é um crítico que adora ver filmes, assim como Roger Ebert. Muitos críticos demonstram que estão profundamente irritados com a obrigação de ver filmes; Merten é o contrário disso. Ele finaliza seu texto dizendo que Esse Mundo é dos Loucos “espelha um estado de espírito, um comportamento libertário próprio dos anos 1960. Rever o filme é um pouco como viajar no tempo para encontrar a gênese da contracultura. O próprio Milos Forman bebeu nessa fonte para fazer O Estranho no Ninho”.

Um filme que veio no momento exato da explosão da contracultura

Milos Forman – um dos cineastas que mais admiro – seguramente viu Le Roi de Coeur na sua Praga, assim como viu Um Dia, Um Gato, de seu conterrâneo Vojtech Jasný. Era a época da Primavera de Praga, e o cineasta já havia feito seus dois primeiros longas, Pedro, O Negro (1964) e Os Amores de uma Loura (1965). Em 1967, faria O Baile dos Bombeiros, um filme só possível porque o país de fato vivia uma época liberalizante, com o afrouxamento da rigidez da censura e um ensaio de maior liberdade política.

zzrei9Mas esse negócio de afrouxar a censura, liberalizar, era muito subversivo, e então os tanques soviéticos marcharam sobre as ruas da capital checa para dar um chega pra lá na tal da Primavera, e Milos Forman se mudou para os Estados Unidos. Sempre sonhou em filmar Hair, a peça que é a contracultura em suco concentrado. Em 1979, conseguiria transformar seu sonho em realidade – e entregar ao mundo absoluta uma obra-prima.

Forman, assim como Jacques Demy, assim como o sueco Bo Widerberg, foram todos fascinados – e influenciados – pela contracultura, pelo hippismo. Acho que dá para dizer que de Broca também foi.

Merten tem razão quando diz que rever o filme agora é um pouco como viajar no tempo para encontrar a gênese da contracultura. É bem verdade. Mas essa é só uma parte da experiência.

Rever o filme agora é também rever, como já disse, algumas das sequências mais belas que já foram feitas. E é ter aquela sensação fenomenal de perceber que, quando o filme termina, a gente está, sem ter percebido, levitando, a alguns centímetros do chão.

Anotação em julho de 2015

Esse Mundo é dos Loucos/Le Roi de Coeur

De Philippe de Broca, França-Itália, 1966.

Com Alan Bates (o soldado Charles Plumpick),

e Pierre Brasseur (o general Géranium), Jean-Claude Brialy (o duque de Trèfle), Geneviève Bujold (Coquelicot), Adolfo Celi (coronel Alexander MacBibenbrook), Françoise Christophe (a duquesa), Julien Guiomar (monsenhor Marguerite), Micheline Presle (Madame Eva, ou Madame Eglantine), Michel Serrault (Monsieur Marcel), Palau (Alberic), Jacques Balutin (MacFish), Pier Paolo Capponi (um official inglês), Madeleine Clervanne (Brunehaut), Marc Dudicourt (tenente Hamburger)

Roteiro Daniel Boulanger, baseado em idéia de Maurice Bessy

Fotografia Pierre Lhomme

Música Georges Delerue

Montagem Françoise Javet

Produção Fildebroc, Les Productions Artistes Associés, Compagnia Cinematografica Montoro. DVD Versátil.

Cor, 102 min

R, ****

2 Comentários

  1. Postado em 24 janeiro 2016 às 7:08 pm | Permalink

    Esse filme é um, e talvez o maior filme que já ví. Tenho 75 anos e gostaria tê-lo comigo. como posso conseguir isso?

    Aguardo resposta.

  2. LUIZ BOTELHO FILHO
    Postado em 13 maio 2016 às 12:07 pm | Permalink

    Também assisti a este filme acho que nos anos sessenta. Um grupo de teatro de Florianópolis montou uma peça adaptação do filme. A vi em Londrina, em meados dos anos 80. Gostei.

2 Trackbacks

  1. Por 50 Anos de Filmes » Zorba, o Grego / Zorba the Greek em 25 novembro 2015 às 11:43 pm

    […] sou de um, mas de dois dos filmes mais emblemáticos dos anos 60 – além deste aqui, também Este Mundo é dos Loucos/Le Roi de Coeur […]

  2. Por 50 Anos de Filmes » O Assassino / L’Assassino em 29 novembro 2016 às 2:05 am

    […] e confesse logo que assassinou a facadas sua amante, a bela e rica Adalgisa De Matteis (o papel de Micheline Presle, em fotos […]

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