Caçadores de Obras-Primas / The Monuments Men

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Nota: ★★★☆

Há um esforço grande dos realizadores para que Caçadores de Obras-Primas, no original The Monuments Men, seja um filme com toques de bom humor, de graça. Para que não seja um drama pesado, maçante, desagradável.

Para que seja assim próximo de uma aventura – quase como se fosse o quarto episódio da saga iniciada com a refilmagem de Ocean’s Eleven, no Brasil 11 Homens e um Segredo (2001). Algo tipo Cowboys do Espaço (2000).

O tema é a Segunda Guerra Mundial – algo tão distante de uma aventura quanto, digamos, o Brasil do Japão ou da Austrália, um lado do Grand Canyon ou do Amazonas do outro lado, ou o nosso Sol da estrela z8_GND_5296, descoberta em 2013, cuja luz levou 13,1 bilhões de anos-luz para chegar ao telescópio Hubble. Ou, para simplificar, a distância entre o PT e a honestidade.

Mais especificamente, o tema é o resgate, feito por um grupo de especialistas, de milhares de obras de arte saqueadas pelos nazistas nos países que eles invadiram durante a Segunda Guerra.

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O roteiro – de autoria de George Clooney, que também dirigiu e fez o papel principal, junto com seu habitual colaborador Grant Heslov – se baseia num livro (publicado no Brasil pela Rocco) que procurou reconstituir os fatos históricos, Caçadores de Obras-Primas – Salvando a Arte Ocidental da Pilhagem Nazista, de Robert M. Edsel.

É um episódio bem pouco conhecido da Segunda Guerra. E só por isso, por divulgar, por jogar luzes sobre o trabalho desse grupo de especialistas em artes plásticas – historiadores, curadores, artistas, arquitetos -, e sobre o absurdo dos absurdos que foi a pilhagem das obras de arte pelos nazistas, o filme já seria importante.

Ele é importante, sim – e é um bom filme. Apesar de fazer tanto esforço para parecer uma aventura, e não um drama pesado. Apesar disso, ou talvez até – quem sabe? depende da opinião de cada um – exatamente por causa disso.

Uma sequência tensa, sobre uma situação perigosa – feita com humor

Só para dar um dos muitíssimos exemplos desse esforço para fazer um filme de aventura, e não um pesado drama de guerra:

Preston Savitz (o papel de Bob Balaban) sai à noite para caminhar um pouco. Está em território conflagrado, perto do front – e surge diante dele um jovem soldado alemão, arma apontada para o peito do especialista em arte vestido com a farda do exército americano. Aí lá vem Richard Campbell (o papel de Bill Murray). Richad e Preston brincam de pegar um no pé do outro o tempo todo, um provoca o outro sem parar. E lá vem Richard; tem, ele mesmo, uma arma carregada na mão, mas ainda não viu o soldado inimigo que aponta para seu amigo-colega-companheiro-rival eterno.

Richard percebe que Preston está absolutamente imóvel, mas não compreende o motivo. Vai andando, vai andando – e aí, finalmente, vê o que uma árvore escondia, a figura do jovem soldado alemão pronto para disparar sua arma contra Preston.

A arma de Richard está apontada contra o soldado do exército nazista, cuja arma está apontada contra Preston.

Richard tenta dialogar: – “Veja o que eu penso. Botamos nossas armas no chão. Você segue seu caminho, nós seguidos os nossos. Sem ressentimentos.”

Percebe-se que o garoto não fala inglês.

Bill Murray;Bob Balaban

Então Richard senta-se no chão, e pede-ordena que o amigo faça o mesmo. O jovem alemão também se senta.

Richard tira um maço de cigarros do bolso, lança para o alemão, em seguida lança seu isqueiro. O alemão acende um cigarro, devolve o maço, devolve o isqueiro. Richard joga os dois objetos para Preston, que retruca que não fuma. Richard manda que ele fume, caceta, car&a%lho. Preston afinal compreende, acende um cigarro.

Ficam ali os três, naquela situação ao mesmo tempo trágica e ridícula. Aí o garotinho alemão, soldado do exército nazista, mas ele mesmo talvez não nazista, e sim apenas um jovem que foi obrigado a lutar no exército de seu país, exclama: “John Wayne!”

Os três fumam em silêncio seu cachimbo da paz. E vão ficando ali, até que o garotinho alemão compreende que é melhor ele simplesmente ir embora e deixar vivos aqueles dois coroas malucos americanos que também o deixaram viver.

O que em Kubrick é trágico aqui é esquisito, quase engraçado

A sequência tem tensão, sim – mas o tom é de aventura, de coisa engraçada. Muito mais para Indiana Jones do que para Glória Feita de Sangue.

Eis outro exemplo.

O americano grandalhão Walter Garfield (o papel do grande, em todos os sentidos, John Goodman) e o francês Jean-Claude Clermont (Jean Dujardin, o astro de O Artista, todos os prémios possíveis e imagináveis em 2011/2012) estão numa cidade que a princípio já teria sido abandonada pelos nazistas. De repente, no entanto, tiros são disparados em direção a eles. Walter, arquiteto, especialista em artes, tinha tido um rapidíssimo treinamento para ser admitido no exército; Jean-Claude, também especialista em arte, igualmente não é um soldado bem treinado. Ficam combinando entre eles o que fazer para enfrentar aquele franco-atirador: um deles tem que atirar enquanto o outro avança rumo ao prédio do inimigo.

Já vi filmes demais na vida, e, naquele momento, me passou pela cabeça: o franco-atirador será uma criança. Não cheguei a comentar isso com Mary; não teria, portanto, o testemunho dela, mas digo que isso me passou pela cabeça – simplesmente porque me lembrei de uma das sequências mais duras, pesadas, tensas, pavorosas, de Nascido para Matar/Full Metal Jacket (1987), o penúltimo filme de Stanley Kubrick.

Matt Damon;Bill Murray;John Goodman;Jean Dujardin;Hugh Bonneville;Bob Balaban

Os despreparados, mal treinados Walter e Jean-Claude acabam chegando ao prédio de onde o franco-atirador dispara contra eles – e o franco-atirador é uma criança.

O americano e o francês saem do prédio dizendo um para o outro que é melhor não comentarem com ninguém aquilo que acabava de acontecer.

No filme terrível, pesado, horroroso de Kubrick sobre a guerra do Vietnã, um bando de soldados bem treinados da maior potência militar que já houve no planeta enfrentar um franco-atirador que se revela uma criança é uma porrada na cabeça, no coração, no saco, no peito, em qualquer lugar sensível do espectador.

Neste Caçadores de Obras-Primas, um americano grandão e um francês bonitão enfrentarem uma criança que atira é quase uma graça. Uma brincadeira. Coisa de filme de aventura.

O próprio Clooney deixa claro: a intenção era fazer um filme que não fosse pesado

Conforme mostram os dois filmetes publicitários que acompanham este The Monuments Men no DVD, e conforme mostra, por exemplo, a reportagem de Flávia Guerra, do Estadão, que foi a Los Angeles a convite do estúdio para entrevistar os principais envolvidos na produção, foi tudo absolutamente intencional. George Clooney e sua trupe queriam fazer um filme que não fosse um drama horroroso, algo que não fosse um A Lista de Schindler.

George Clooney;Matt Damon;John Goodman;Bob Balaban

Clooney falou isso, segundo Flávia Guerra publicou em matéria de duas páginas no Caderno 2 do Estadão de 2 de fevereiro de 2014, pouco antes da estréia mundial do filme no Festival de Berlim: “Sim, a gente queria fazer um filme capaz de entreter as pessoas e, ao mesmo tempo, contar essa história rara. Em geral, a gente acha que já sabe tudo quando o assunto é a Segunda Guerra. E desta vez queria contar algo inusitado. É um tema pesado, claro, mas também curioso.”

O fato é que este Caçadores de Obras-Primas é mesmo um bom entretenimento. Os atores se deram muito bem, gostaram de trabalhar juntos (Clooney e Matt Damon já haviam feito juntos os três filmes da série 11 Homens e um Segredo), curtiram tudo, conforme eles contam nos filmetes de making of e também conforme dá perfeitamente para o espectador perceber. Mary e eu demos boas risadas com o filme.

O filme é engraçado, mas a história que ele conta é apavorante demais

Mas a história que o filme conta é apavorante, é absurda, chocante demais.

Os nazistas roubaram entre 5 e 6 milhões de objetos e obras de arte dos países que ocuparam, como a França, a Bélgica e a Holanda – a terra de Rembrandt, Vermeer, Van Gogh, Monet, Manet, Cézanne, entre tantos e tantos e tantos outros.

Roubaram quadros, painéis, afrescos, esculturas de museus, de igrejas, das casas das pessoas. Saquearam o patrimônio público e o patrimônio particular. Para o que pertencia aos judeus, usaram a desculpa do confisco. Nos outros casos, nem deram desculpa – roubaram, simplesmente.

Boa parte da herança cultural do Ocidente foi encaixotada e enviada para a Alemanha em caminhões, em trens.

O plano de Hitler era construir um gigantesco museu, onde exporia todos aqueles tesouros roubados de seus proprietários.

Isso é absolutamente inconcebível, absurdo, ilógico, irracional – um exército roubar, saquear, tomar para seu líder boa parte da arte que se produziu em metade do planeta ao longo de séculos e séculos.

Mas afinal no nazismo tudo é absolutamente inconcebível, absurdo, ilógico, irracional: a louca, desvairada, insana perseguição aos judeus, homossexuais, ciganos, deficientes físicos, e o extermínio de milhões e milhões de pessoas nos campos de concentração.

E aí me faltam palavras, eu, que paguei minhas contas a vida inteira porque sei usar as palavras.

1170482 – Monuments Men

“Quem vai garantir que a Mona Lisa continuará sorrindo?”

O filme abre com aquele letreiro tradicional: “Baseado em uma história real”.

Outro letreiro informa “Ghent, Bélgica”. Estamos numa igreja, e os padres estão embalando os painéis que formam o Retábulo de Ghent; a intenção é tirar dali a obra de arte do século XV – 12 painéis, que juntos medem 3,50 m x 4,60 m – e escondê-la, para que os nazistas não se apoderem dela.

Outro letreiro indica “Paris, março de 1943”. Um general nazista chega a um imenso prédio em que um certo doutor Viktor Stahl (Justus von Dohnányi) administra uma fabulosa coleção de quadros pilhados de seus verdadeiros donos. A secretária desse Stahl, veremos em seguida, é Claire Simone (interpretada por uma Cate Blanchett sempre vestida de preto, com ar grave e cabelos presos), uma expert em arte, curadora de um grande museu parisiense.

Novo letreiro: “Milão, Agosto de 1943”. Dezenas de pessoas correm para colocar sacos de areia junto de um muro de um prédio atingido por bombas. Naquele muro está A Última Ceia, o gigantesco painel de 4,6 m x 8,8 m, que Leonardo da Vinci terminou de pintar em 1498, dois anos antes portanto de os portugueses aportarem em Pindorama, o país do futuro.

A imagem do painel em Milão se funde com uma nova imagem do próprio painel em uma foto que está sendo projetada numa tela em um gabinete de Washington, a capital americana. Um importante, reconhecido, famoso professor de artes, Frank Stokes, está fazendo uma apresentação para o presidente Franklin D. Roosevelt. Frank Stokes é interpretado pelo diretor, produtor executive e roteirista do filme, o galã George Clooney.

As frases que Clooney e seu companheiro Grant Heslov escreveram para botar na boca de Frank Stones são excelentes. Eis as primeiras, ele falando para o presidente Roosevelt:

– “Esta é A Última Ceia de da Vinci. Bombardeios britânicos botaram abaixo três paredes e o teto. (Surge outra foto na tela do salão da Casa Branca, de uma construção medieval numa colina.) Monte Cassino foi fundada em 529 por São Bento de Núrsia. Esta foto é de fevereiro e (outra foto aparece, a construção semi-destruída) este é Monte Cassino em março, depois que despejamos nele 20 toneladas de explosivos. Sr. presidente, a questão é que estamos no momento da Guerra que é o mais perigoso para as grandes obras da humanidade.”

– “Mas, professor Stokes, estamos em guerra! Perdem-se vidas e com elas muitas vezes suas grandes obras.”

– “Sim, senhor. Mas veja. Este é Retábulo de Ghent. (Entra na tela do gabinete a foto do conjunto de painéis.) É o monumento que define a Igreja Católica. Hoje sabemos que ele foi roubado pelos nazistas. Precisamos vencer esta Guerra, e vamos vencer. Mas devemos também nos lembrar do preço a pagar se os pilares da nossa sociedade forem destruídos.”

Projeta-se na tela o mapa da Europa; Stokes mostra o avanço dos aliados – britânicos e americanos vindo do Oeste, russos vindo do Leste. Ele diz que daqui a algum tempo estarão todos em Berlim, e faz a frase de efeito: – “A pergunta a ser feita é a seguinte. Quem irá garantir que a estátua de Davi ainda estará de pé? Que a Mona Lisa ainda estará sorrindo? Quem estará lá para protegê-la?”

O presidente Roosevelt diz que a argumentação é convincente, e pergunta o que o professor sugere.

E então, a partir de março de 1944, o professor Frank Stokes começa a recrutar um time de grandes especialistas em arte, que farão um treinamento intensive no exército americano e formarão um comando especial para, na Europa, caçar as obras de arte roubadas pelos nazistas.

(Na foto, soldados nazistas no momento em que estão roubando o quadro Camila e o Centauro, de Botticelli, do museu Uffizi de Florença.)

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Parece que a humanidade não aprende, não tem mesmo jeito

O cinema já mostrou que Adolf Hitler ordenou ao seu comandante militar na França que, em caso de derrota para os aliados, Paris deveria ser arrasada: os principais edifícios e monumentos da Cidade Luz deveriam ser explodidos. A história foi contada em detalhes numa superprodução de 1966, dirigida por René Clément, Paris Está em Chamas?, e está na sequência de abertura de On Connaît la Chanson, que o mestre Alain Resnais fez em 1997.

Dá calafrios só de imaginar que tal possibilidade existiu.

Caçadores de Obras-Primas mostra que a mesma ordem foi dada por Hitler a seus militares: caso houvesse risco de derrota, as obras de arte roubadas deveriam ser destruídas. Ou pertenceriam ao III Reich, ou não pertenceriam a ninguém.

Há no filme uma sequência apavorante, aterrorizante: como se viu cercado pelos aliados, um alto oficial alemão deu ordem para que as obras de arte sob seu controle fossem incineradas.

Sempre foi dito – e com carradas de razão – que é sempre necessário lembrar das atrocidades cometidas no passado para que evitemos sua repetição.

Mas parece que não adianta, que a humanidade de fato é uma invenção que não deu certo: enquanto milhares de pessoas em todo o mundo vêem este belo filme, loucos, insanos, idiotas do fanatismo religioso muçulmano destróem obras de arte seculares no Oriente Médio.

É de chorar. É de querer desistir de tudo.

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Anotação em março de 2015

Caçadores de Obras-Primas/The Monuments Men

De George Clooney, EUA-Alemanha, 2014

Com George Clooney (Frank Stokes), Matt Damon (James Granger), Bill Murray (Richard Campbell), Cate Blanchett (Claire Simone), John Goodman (Walter Garfield), Jean Dujardin (Jean-Claude Clermont), Hugh Bonneville (Donald Jeffries), Bob Balaban (Preston Savitz), Dimitri Leonidas (Sam Epstein), Justus von Dohnányi (Viktor Stahl), Holger Handtke (Coronel Wegner)

Roteiro George Clooney e Grant Heslov

Baseado no livro Caçadores de Obras-Primas – Salvando a Aerte Ocidental da Pilhagem Nazista, de Robert M. Edsel

Fotografia Phedon Papamichael

Música Alexandre Desplat

Montagem Stephen Mirrione

Produção 20th Century Fox e Columbia Pictures. DVD Fox.

Cor, 118 min

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  1. […] hospedeiro do número 10 da Downing Street, um político do Partido Trabalhista. Robert, o conde (Hugh Bonneville) e Carson, o mordomo mais realista que qualquer rei (Jim Carter), ficam chocados, mas parte da […]

  2. […] temporada – é a necessidade de cortar gastos, reduzir o número de empregados. Robert, o conde (Hugh Bonneville), tem certeza de que os tempos mudaram, e é preciso reduzir custos – e até o mordomo, Mr. […]

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