As Coisas da Vida / Les Choses da la Vie

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Nota: ★★★★

O que mais me impressiona em As Coisas da Vida, esta maravilha de Claude Sautet de 1970, é a absoluta simplicidade da trama. E como, com esse fiapinho de história, mais uma imensa sensibilidade e atores extraordinários, o filme nos envolve de forma tão forte.

Claude Sautet (1924-2000) é um cineasta que, assim como François Truffaut, e bem ao contrário de Claude Chabrol, ama os personagens que cria, sobre os quais conta histórias. Tem profundo amor por eles, simpatiza com eles, perdoa seus pequeninos defeitos. Dá para dizer com segurança que Sautet gostaria que seus personagens fossem felizes.

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Pierre e Hélène – os protoganistas da história, interpretados por Michel Piccoli e Romy Schneider – têm tudo para ser felizes. São ainda jovens, ele na casa dos 40, ela na dos 30. (Piccoli estava com 45 no ano de lançamento do filme; Romy Schneider, com 32.) Têm todos os confortos materiais necessários; ele é engenheiro, toca a empresa de engenharia da família; ela faz traduções do alemão. Vivem num apartamento gostoso em Paris. Planejam se mudar para a Tunísia, ver novas paisagens, enfrentar novos desafios.

Sobretudo, Pierre e Hélène se amam.

São carinhosos um com o outro, a companhia do outro faz bem, é coisa prazerosa.

Ao sair para o trabalho, Pierre catilografa (que beleza de expressão, catilografar; pena que tenha caído em desuso) na lauda em que Hélène está escrevendo à máquina uma tradução de texto em alemão: “Je t’aime”.

zzchoses2aSó depois que ele sai de casa é que ela, ao retomar o trabalho, vai ver a declaração de amor. Está fazendo a tradução em pelo menos duas vias, usando papel carbono, e então a declaração de amor a fará ter mais trabalho: terá que tirar aquelas laudas da máquina de escrever – e o espectador a vê executando essa ação – e refazer o que já havia feito até ali. Não poderia, é claro, entregar uma tradução com uma lauda que de repente, no meio, tem uma declaração de amor.

Mas ela retira as laudas da máquina de escrever sorrindo, feliz. Ouvir (ou ler) uma declaração de amor da pessoa amada é uma das boas coisas da vida.

O duro é que as coisas da vida nem sempre são boas.

Não tem lógica, mas um casal apaixonado pode se desentender por qualquer bobagem

A ação de As Coisas da Vida se passa basicamente entre o início de uma manhã e a metade do dia seguinte. Pouco mais de 24 horas – talvez umas 36, um dia e meio. Há alguns flashbacks – e haverá também algumas imagens que estão apenas na mente de Pierre, misturando-se aos fatos daquele único dia e meio. Mas o que vemos na tela não obedece à ordem cronológica.

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Na primeira sequência, na abertura, vemos algumas tomadas que mostram um acidente com um carro – o carro de Pierre.

Acontece na manhã do segundo dia, numa estrada pequena do interior, e é a primeira coisa que o espectador vê. Alguém fala que o motorista do carro sobreviveu.

Na segunda sequência, Pierre primeiro e em seguida Hélène estão acordando, de manhã.

São ternos, carinhosos, um com o outro. Ao sair para o trabalho, ele usa dois dedos para catar as letras que foram a frase “je t’aime”.

Nada de muito importante, extraordinário, vai acontecer ao longo daquele dia que vemos começar na segunda sequência do filme. E, no entanto, à noite, aquele casal que amanheceu terno, carinhoso, adorando a presença um do outro, estará de mau humor, à beira de uma briga feia.

São coisas da vida. Acontecem. Não tem lógica, não tem explicação, mas esse tipo de coisa acontece. Sei bem disso porque vivi situações assim diversas vezes, ao longo do meu segundo casamento. Não faltavam amor, paixão, admiração, tesão – de forma alguma. Mas sobravam estranhamentos, desentendimentos, distanciamentos, cobranças, brigas, discussões, em geral terminando com declarações e demonstrações de amor, pedidos de desculpa e juras de se tomar jeito e não repetir as besteiras.

No caso específico de Pierre e Hélène, há um pouco de ciúme que ela sente da ex dele. Catherine, a ex, é também bela (ela é interpretada pela italiana Lea Massari, na foto abaixo); trabalha na mesma empresa familiar de engenharia tocada por Pierre; o filho deles já está grande, tem aí uns 18 a 20 anos. Mas Catherine é uma boa pessoa, não interfere de maneira alguma na vida do ex-marido. É um absurdo, uma total falta de lógica: lindérrima, maravilhosa, apaixonante, como é possível Hélène ter ciúme da ex-mulher do homem que é absolutamente apaixonado por ela?

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Pois é: não tem lógica, não tem explicação, mas acontece. Coisas da vida.

E naquele dia Pierre se encontra com o filho, que diz que gostaria que o pai passasse uns dias com ele nas férias na casa de praia da família.

Quando, durante o almoço, ele conta que passará uns dias com o filho, Hélène fecha a cara, fica mal humorada: passar uns dias com o filho significa passar uns dias com a ex-mulher, na casa que foi deles. E significa adiar a ida para a vida nova na Tunísia.

E então vão se crispando, os dois.

Pierre tem chateação no trabalho. E, à noite, têm já agendada faz tempo uma visita à mãe de Hélène.

Quando saem da casa da mãe dela, estão distantes um do outro. Em silêncio. O dia havia começado com ternura, declaração de amor, nenhum fato fundamental ocorrera – mas estão distantes, crispados.

Hélène diz para ele: – “Você me ama porque estou aqui. Mas se for para você atravessar a rua para me encontrar, você está perdido.”

Quando dois amantes se distanciam, ficam crispados, costumam falar frases doídas para ferir o outro. Coisas da vida.

Pierre diz para Hélène descer do carro: ele seguirá, naquela noite mesmo, naquele instante, para Rennes, onde, pela manhã, terá um compromisso de trabalho.

A beleza de Romy Schneider é literalmente de tirar o fôlego

Uma das características de Claude Sautet é gostar de trabalhar sempre com os mesmos atores, a mesma equipe. O cineasta acaba ficando amigo dos colaboradores, e assim trabalham mais à vontade, passam a se entender como numa orquestra bem preparada, como a engrenagem de um relógio.

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Sautet teve o privilégio de trabalhar com os melhores atores franceses de várias décadas, a partir dos anos 60 – e vice-versa, é claro: vários dos melhores atores franceses dessas décadas todas tiveram o privilégio de serem dirigidos por Sautet.

Romy Schneider foi dirigida pelo realizador neste As Coisas da Vida e também em Sublime Renúncia/Max et les Ferraileurs, César e Rosalie, Mado, um Amor Impossível e Uma História Simples. Cinco dos filmes dessa atriz de beleza estonteante, de tirar o fôlego, foram com Sautet.

Em quatro desses filmes com Romy Schneider está também Michel Piccoli – só em César e Rosalie ele não aparece em cena, mas faz o narrador que encerra a história.

Sorte grande de todos eles – e do espectador.

Quando vi César e Rosalie, escrevi: “Há muitas atrizes competentes e belas, e sou bastante chegado a um superlativo, mas nenhum superlativo é o bastante para Romy Schneider. Talvez o superlativo mais próximo da verdade seja dizer que Ingrid Bergman sorrindo como Ilsa Lund e Romy Schneider sorrindo como Rosalie são os mais belos rostos que uma câmara jamais filmou.”

zzchoses8A mesma frase, é claro, vale aqui. Basta trocar Rosalie, seu personagem no filme de 1972, por Hélène, seu personagem aqui.

É fascinante ver que, neste Les Choses de la Vie, Sautet e seu diretor de fotografia Jean Boffety como que adiam um pouquinho o momento de mostrar o rosto de Romy Schneider em close-up. Se não estou enganado, em toda a primeira sequência em que ela aparece, aquela da manhã no apartamento do casal, eles acordando, tomando café, ela começando a trabalhar, ele se preparando para sair para o trabalho, não há um close-up do rosto aterradoramente belo – ou, se há, é bem curtinho.

Haverá um estonteante close-up do rosto de Hélène-Romy Schneider quando a narrativa já se aproxima do fim. É um flashback: Pierre está se lembrando da primeira vez que viu Hélène, num leilão. Ele estava bem atrás; quando deu o lance que definiu a compra do objeto leiloado, aquela moça de beleza estúpida se virou para trás para ver quem era que havia arrematado a peça. A câmara faz um rápido zoom, e o rosto dela ocupa a tela inteira.

É, literalmente, de tirar o fôlego.

Philippe Sarde, então com apenas 20 anos, fez uma belíssima trilha sonora

A trilha sonora de Les Choses de la Vie é coisa séria. Seriíssima.

Philippe Sarde, então com ridículos 20 anos de idade, compôs para o filme uma trilha de uma beleza marcante, forte. O tema principal é triste, delicado e belo – exatamente como o filme, exatamente como a obra desse magnífico cineasta.

Assim como Federico Fellini teve Nino Rotta e Sergio Leone teve Ennio Morricone, Claude Sautet teve Philippe Sarde. Ao longo de 30 anos, Sarde foi o autor das trilhas sonoras de 11 filmes do diretor. A colaboração começou exatamente em As Coisas da Vida: “Eu conheci Claude Sautet em 1969. Ele tinha 44 anos, e eu 20. Ele procurava um compositor para Les Choses de la Vie. Contrariando a vontade dos produtores, ele teve a coragem de impor meu nome. Desde aquele momento, ele foi mais que meu primeiro diretor: um pai do cinema, uma espécie de sherpa (os guias que conduzem as pessoas pelo Himalaia). Foi ele que me formou”, testemunhou o compositor para a edição – preciosa – do CD Le Cinéma de Claude Sautet – Musiques de Philippe Sarde, que a Universal lançou em 2000.

zzchoses9Sarde trabalharia também para outros diretores importantes: Roman Polanski (Tess, O Inquilino, Piratas), Costa-Gavras (Muito Mais que um Crime), Marco Ferreri (Ciao Maschio, Crônica de um Amor Louco), Bertrand Blier (A Filha da Minha Mulher/Beau-Père), Jean-Jacques Annaud (A Guerra do Fogo), entre muitos outros.

Mas a marca de sua música foi dada nos filmes de Sautet.

Nesse CD que citei, há uma versão do tema central criado por Sarde para o filme que não está no filme. É uma versão com uma letra – cantada pela própria Romy Schneider, em cima de um texto recitado por Michel Piccoli.

É sempre uma grande prazer quando estou ouvindo música no iPod ou no computador e surge uma das faixas de Les Choses de la Vie.

O IMDb informa que o filme inspirou uma canção que a cantora Frida Boccara gravou, chamada “L’année où Piccoli jouait les Choses de la Vie”. Um bom jogo de palavras: tanto pode ser o ano em que Piccoli trabalhava em As Coisas da Vida quanto o ano em que Piccoli brincava com as coisas da vida. Eu não sabia disso.

Se você é fumante tentando parar, evite ver As Coisas da Vida

Detalhe pequenino mas importante: fumantes que estiveram tentando parar não devem ver As Coisas da Vida.

Todo mundo fuma muito no filme. Mas Pierre-Michel Piccoli excede no quesito fumar demais. Pierre fuma sem parar, sem parar. Acende um cigarro no outro. Na segunda sequência do filme, a que mostra Pierre e Hélène acordando em seu apartamento, Pierre mal acorda e já pega o primeiro cigarro do dia.

O IMDb traz, na página de Trivia, o seguinte: “Cigarette count: 46”.

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Truco! Truco duas vezes. Em primeiro lugar, porque duvido que algum maluco tenha tido a pachorra de ficar contando o número de cigarros que aparecem no filme. E segundo porque é muito mais do 46. Com toda certeza.

Vi o filme me encaminhando para um ano limpo do vício delicioso. Foi duro. Nos dias seguintes, andei sonhando com cigarro.

Ahnn… Detalhinho dentro do detalhe: Michel Piccoli, fumante inveterado, completa 90 anos em dezembro de 2015. Passa bem.

Os americanos fizeram uma refilmagem. Não vejo nem se me pagarem muito bem

O filme ganhou o Prêmio Louis-Delluc, um dos mais importantes do cinema francês na época. E foi admitido para participar da competição oficial do Festival de Cannes, mas não ganhou nenhum prêmio ali.

O roteiro é assinado por Claude Sautet juntamente com seu colaborador Jean-Loup Dabadie e por Paul Guimard. Este último é autor do romance homônimo em que o filme se baseia, e que havia sido lançado em 1967.

As filmagens foram entre junho e agosto de 1969; só a sequência do acidente de carro – que aparece diversas vezes, de diferentes ângulos, sob diferentes perspectivas – levou dez dias para ser completada.

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Hollywood – que sempre acha que, se o filme é estrangeiro, então não foi feito – refilmou a história em 1993, com o título de Intersection – no Brasil, Intersection: Uma Escolha, uma Renúncia.

O diretor, Mark Rydell, já fez coisa boa, como Os Cowboys (1972), A Rosa (1979) e Num Lago Dourado/On Golden Pond (1981). Os atores são bons: Richard Gere, Sharon Stone e Lolita Davidovich. Parece que transformaram a história em um triângulo amoroso – coisa que não existe nem de longe no original, pois Pierre e Catherine estão separados faz algum tempo e não se aventa a possibilidade de voltarem a ficar juntos. Não vejo Intersection nem se me pagarem uma boa grana. Para que refilmar um filme perfeito?

O Guide des Films do mestre Jean Tulard diz que uma impressão do absurdo nos assombra ao ver este filme; no entanto, ele não é desesperado, ao dar a importância a essas pequenas múltiplas “coisas da vida”, essas alegrias e essas penas que constituem talvez a felicidade. Um belo filme, com uma realização bem cuidada, diálogos justos, interpretações impressionantes, notadamente a de Michel Piccoli.

O AlloCiné, o site que tem tudo sobre o cinéma français, informa que o filme teve 2.959.682 espectadores na França. É um belíssimo número para um drama sério, pesado, sobre seres humanos – e não filme de ação para público adolescente com um bando de super-heróis.

O AlloCiné também informa que uma versão restaurada do filme lançado em 1970 foi apresentada nos cinemas franceses a partir da véspera do Natal de 2014.

Filme bom não fica velho, não prescreve. Muito ao contrário.

Um filme que “dá a importância a essas pequenas múltiplas ‘coisas da vida’, essas alegrias e essas penas que constituem talvez a felicidade”.

Que frase feliz, que bela definição. Quando eu crescer, gostaria de escrever sobre os filmes dos outros com o talento que os franceses escrevem.

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Anotação em junho de 2015

As Coisas da Vida/Les Choses da la Vie

De Claude Sautet, França-Itália-Suíça, 1970.

Com Michel Piccoli (Pierre Bérard), Romy Schneider (Hélène),

e Lea Massari (Catherine Bérard), Gérard Lartigau (Bertrand Bérard), Jean Bouise (François), Boby Lapointe (o criador de porcos), Hervé Sand (o outro caminhoneiro), Jacques Richard (o enfermeiro), Henri Nassiet (M. Bérard, o pai de Pierre)

Roteiro Claude Sautet, Jean-Loup Dabadie e Paul Guimard

Baseado no romance de Paul Guimard

Fotografia Jean Boffety

Música Philippe Sarde

Montagem Jacqueline Thiédot

Produção Fida Cinematografica, Lira Films, Sonocam. DVD Versátil.

Cor, 89 min

****

2 Comentários

  1. Senhorita
    Postado em 15 outubro 2015 às 12:15 am | Permalink

    Eu gosto muito de assistir esses filmes por gostar dos atores, e de repente encontrar ali pessoas como o Boby Lapointe, assim sem esperar.

  2. Senhorita
    Postado em 15 outubro 2015 às 12:16 am | Permalink

    Inclusive, tive um treco quando vi o Georges Brassens em “Por ternura também se mata”…

2 Trackbacks

  1. […] e imediatamente acende um cigarro. (Ele consegue fumar mais que o personagem de Michel Piccoli em As Coisas da Vida, que Claude Sautet lançou em 1970, o mesmo ano de M.A.S.H. Fuma em praticamente todas as tomadas […]

  2. Por 50 Anos de Filmes » A Piscina / La Piscine em 26 novembro 2016 às 8:57 pm

    […] É lindeza demais da conta, um absurdo de lindeza. Quase toda a ação se passa numa rica, maravilhosa villa no meio do mato, no Sul da França, perto do mar da Côte d’Azur. A piscina da villa é um estupor de beleza. E os protagonistas são Alain Delon e Romy Schneider. […]

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