Amores Inversos / Loveship Hateship

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Nota: ★★½☆

No finalzinho dos anos 70, inicio dos 80, Fernando Brant fez um verso de uma tristeza abolutamente profunda: “Como é miúda e quase sem brilho a vida do povo que mora no vale”.

Vida miúda e quase sem brilho. A imagem fortíssima da canção “Itamarandiba” me veio à mente a propósito de Johanna Parry, a protagonista de Loveship Hateship, no Brasil Amores Inversos.

Johanna (interpretada por Kristen Wiig) tem uma vida duríssima, só de trabalho e nada, ou quase absolutamente nada de prazer, contentamento, satisfação. Nasceu pobre, no interiorzão do distante estado de Iowa; aos 15 anos, começou a trabalhar como empregada doméstica na casa de uma senhora da região, Mrs. Willets (Lauren Swinney). A sra. Willets envelheceu sem parentes, e Johanna tornou-se sua cuidadora.

Na primeira sequência do filme – uma obra absolutamente feminina, dirigida por Liza Johnson e baseada em conto da escritora canadense Alice Munro –, a sra. Willetts, muito idosa e doente, na cama com toda certeza há muito, muito tempo, diz que quer usar seu vestido azul. Daí a pouco, quando Johanna volta ao quarto, a velha senhora está morta.

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A câmara de Liza Johnson e do seu diretor de fotografia Kasper Tuxen mostra então Johanna tendo aquele trabalho insano, pavoroso, de vestir o corpo inanimado de sua agora ex-patroa com o vestido azul que ela havia pedido.

O tom pesado, duro, cru, cruel, dessa primeira sequência estará presente em quase todos os longos – porque dolorosos – 104 minutos de duração do filme.

Uma garota peçonhenta arma uma cilada, e a pobre Johanna cai como um patinho

O pastor da igreja de Johanna irá arrumar um novo emprego para ela. Passará a trabalhar na casa de Bill McCauley (o papel de Nick Nolte, num desempenho inesperadamente contrito, sem os gestos largos e o abuso do vozeirão que em geral acompanham o ator), um senhor aposentado, que vive com a neta, Sabitha (interpretada Hailee Steinfeld, na foto abaixo, a garotinha indicada ao Oscar por sua interpretação na refilmagem de Bravura Indômita).

Quando Johanna chega à casa de McCauley, estão lá também, além do dono da casa e de sua neta, Ken (Guy Pearce) e Edith (Sami Gayle). Edith é a grande amiga da garota Sabitha, colega dela de escola, unha e carne. Ken é o pai de Sabitha.

Johanna ficará sabendo rapidamente – assim como o espectador – que Marcella, a mãe de Sabitha, está morta. Com o tempo, saberá que ela morreu em um acidente em uma lancha dirigida por Ken – e Ken estava entupido de cachaça e cocaína no momento da tragédia.

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McCauley responsabiliza o genro pela morte da filha. Na verdade, McCauley acha o genro um absoluto irresponsável – e não é só ele. A mãe de Edith não permite que a filha ande num carro dirigido por Ken.

E Ken é de fato – conforme o filme mostrará exaustivamente – um sujeito fraco, sem força de vontade, sem capacidade de trabalho, preguiçoso, indolente. Não chega propriamente a ser um bandido, um mau caráter, um filho da mãe, que se compraz em fazer mal aos outros. Não, não chega a ser isso – é apenas um fraco, um zero à esquerda, um pustema.

Ao voltar para Chicago, onde está morando – e onde comprou um motel caindo aos pedaços, que tenta aprumar para com ele ganhar a vida –, Ken deixa um bilhete simpático para Johanna, agradecendo a ela porque a partir de então ela passaria a cuidar de Sabitha.

Johanna escreve de volta para ele um bilhete – algo normal, formal. Sabitha e Edith – sobretudo a última – se oferecem para botar o bilhete no correio.

Sabitha, um pouco como o pai, não chega a ser uma má pessoa – mas é facilmente influenciável, manipulável por Edith, e esta, sim, é uma figurinha já peçonhenta, embora tão jovem. As duas, lideradas por Edith, escrevem para Johanna uma carta como se fosse de Ken, sugerindo que eles passem a trocar mensagens via e-mail, que é mais rápido.

Começa a troca de e-mails – e as garotas falseiam que Ken está vivamente interessado em Johanna. A moça – uma pessoa humilde, de pouco estudo, que não tinha tido oportunidade alguma na vida – cai como um patinho no conto das vigaristas, e acredita que Ken está apaixonado por ela.

Lá pela metade, o filme surpreende com uma reviravolta inesperada

Quando o filme chegou nesse ponto, aí com uns 20, talvez 25 minutos de narrativa, Mary e eu pensamos seriamente em parar de ver. Apertar a tecla stop, simplesmente. Parar, desistir.

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Não que o filme fosse ruim até ali. Não. Os bons atores estão bem dirigidos, os personagens são bem construídos, a narrativa flui de maneira quase normal, sem invencionices, fogos de artifício. Digo quase normal porque na verdade a diretora Liza Johnson, propositadissimamente, ralenta cada pequeno episódio mostrado. Faz a coisa andar lentamente, penosamente – para realçar que a vida de Johanna anda lentamente, penosamente.

Pensamos em parar exatamente por isso – porque é uma vida penosa demais. É uma vida por demais miúda e sem brilho – para usar as palavras do poeta. E, quando essa pobre Johana se vê vítima da maldade extrema das duas adolescentes, algo assim como Madame de Tourvel se vê vítima da vileza combinada do visconde de Valmont e da marquesa de Meurteil em Ligações Perigosas, o clássico de Chardelos de Laclos que Stephen Frears transformou em filme soberbo, achamos que era sofrimento demais para ver numa tarde de feriado (era a quinta-feira da Semana Santa).

Acabamos – depois de uma paradinha para parlamentar – indo em frente.

Surpreendentemente, o filme deu um drible na nossa expectativa. Deu, literalmente, um drible à la Garrincha – ele indicava que ia para um lado, de repente foi para o lado oposto.

Não deixa nunca de ser um drama denso, pesado, amargo. Mas, ao contrário do que imaginávamos – que ele mostraria uma história cada vez mais cruel, desencantada, desenganada –, o roteiro assinado por Mark Jude Poirier, com base no conto “Hateship, Friendship, Courtship, Loveship, Marriage”, de Alice Munro, dá uma reviravolta inesperada.

Atenção: spoiler. Quem não viu o filme deve pular para o próximo intertítulo

É uma reviravolta inesperada – mas não ilógica, irracional, inverossímil.

Não vou revelar detalhes, é claro, mas de qualquer forma os próximos parágrafos contêm spoiler.

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O ótimo colunista Ancelmo Gois, de O Globo, costuma dizer, citando o Barão de Itararé, que de onde menos se espera é dali que de fato não sai coisa alguma.

É uma grande verdade – mas toda verdade tem uma ou outra exceção a contradizê-la, e aqui temos uma exceção. De onde menos se espera de repente, uma vez na vida e outra na morte, sai alguma coisa boa.

As chanches de sair alguma coisa boa dessa história da pobre coitada dessa Johanna, que parecia condenada à miséria eterna e total, até a morte, com esse infeliz pustema desse Ken eram, como dizia Bob Dylan em uma canção do seu segundo disco, a million to one.

Pois às vezes os dados, as cartas, a roleta dão o que é uma chance em um milhão.

Não é inverossímil. Já vi isso acontecer, pertinho de mim.

E não é ilógico, inverossímil. Johanna parece condenada a uma vida sombria, sem brilho, quase sem vida – mas tem força, tem vontade, tem determinação. Tem tutano, estômago, guts. Capacidade de trabalho.

Ao fim e ao cabo, a trama deste Loveship Hateship, tão árdua, tão dolorosa, faz uma bela defesa da capacidade de trabalho.

Nestes tempos de lulo-petismo, roubo-petralhismo, de cotas de todos os tipos e todos os tipos de execração do mérito pessoal, este filme é uma bênção.

É como diz a frase monumental de Graciliano Ramos, comunista dos bons: “Certos escritores se desculpam de não haverem forjado coisas excelentes por falta de liberdade – talvez ingênuo recurso de justificar inépcia ou preguiça. Liberdade completa ninguém desfruta: começamos oprimidos pela sintaxe e acabamos às voltas com a Delegacia de Ordem Política e Social, mas, nos estreitos limites a que nos coagem a gramática e a lei, ainda podemos nos mexer.”

Nos estreitíssimos limites a que sua vida sem brilho, quase sem vida, a condenava, Johanna consegue, com brilhantismo, se mexer.

E a diretora Liza Johnson acaba, depois de expor tanta crueza, tanta crueldade, tanta tristeza, inoculando no espectador o virus da esperança.

Kristen Wiig é uma atriz que me impressionou muito

Por que, entre tantos milhares e milhares de filmes à disposição, escolhi ver este Hateship Loveship?

Essa é uma questão que só interessa a mim mesmo – mas falo um pouquinho aqui sobre isso.

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Pois é: por que raios um sujeito que tem um site de filmes, com cerca de 2.250 filmes comentados, escolhe para ver Hateship Loveship, em vez de rever para comentar obras absolutamente fundamentais que ainda não estão no site, como, por exemplo, só para ser bem rápido, curto e grosso, Encouraçado Potemkim, Ivan, o Terrível, Intolerância, Nascimento de uma Nação, Jules et Jim, Bye, Bye, Brasil, A Noviça Rebelde, West Side Story, Lugares Comuns, O Regate do Soldado Ryan, A Lista de Schindler, O Bebê de Rosemary, Acossado, O Leopardo?

Eu respondo. É porque isto aqui é para minha diversão. Não é obrigação. Vejo os filmes que simplesmente me dá na telha ver – não apenas porque são importantes e precisam estar no site. O site é uma brincadeira, uma diversão – não pretende ter todos os maiores filmes, os mais importantes, de forma alguma. Jamais pretendeu.

E agora respondo especificamente à pergunta que ninguém me fez, mas eu mesmo me faço – sim, mas por que ver exatamente este filme aqui, e não qualquer outro?

Por causa de Kristen Wiig. Peguei para ver este Loveship Hateship porque a atriz principal era Kristen Wiig.

A quantidade de atrizes e atores de grande talento que aparecem a cada ano é algo muito assustador, e então muitas vezes a gente se perde.

Mas Kristen Wiig é impressionante.

Vi essa atriz numa comédia louca, aloprada, Paul – O Alien Fugitivo (2011), e depois num fantástico filme de ação/considerações sobre a condição humana, A Vida Secreta de Walter Mitty (2013). No primeiro, ela faz uma cristã xiita bobona, quase debilóide – e, diacho, tem a cara de uma pessoa bobona, quase debilóide. No segundo, ela faz o papel da mulher ideal do protagonista, interpretado por Ben Stiller – uma nova-iorquina esperta, moderna, lindérrima. O rosto que ela exibe num filme não tem absolutamente nada a ver com o rosto que ela expõe no outro – é como se fossem duas pessoas absolutamente diferentes. Em Walter Mitty, ela tem todo o jeito e a cara de uma mulher descolada, moderna, que vive em metrópole – e lindérrima.

Uma jovem fadada ao insucesso que ousa brigar com os fados – e derrotá-los

Os grandes atores são assim – camaleônicos. Há grandes atores que têm sempre a mesma cara, embora interpretando personagens diferentes: James Stewart, por exemplo, é o mesmo velho e bom James Stewart de sempre, esteja num western de Anthony Mann como Winchester ’73, numa comédia deliciosa de Frank Capra como A Felicidade Não se Compra, ou num suspense de Alfred Hitchcock como Um Corpo Que Cai/Vertigo. Há grandes atores que têm quase a mesma cara em diversos filmes, mas têm interpretações totalmente diferentes entre uns e outros, como Robert de Niro e Al Pacino – preguiçosos às vezes, geniais em outras.

Essa moça Kristen Wiig é camaleônica camaleônica mesmo – em cada filme ela tem uma cara, como Meryl Streep, para dar o exemplo mais exemplar, como a maravilhosa Bridget Fonda, que trabalha menos do que deveria.

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Neste filme aqui, Kristen Wiig está uma jovem mulher triste, desafortunada. Tem uma expressão séria que não sai do seu rosto quase absolutamente nunca. E é mais que séria – é triste, é sem esperança, é quase trágica de tão sem esperança.

Quando Paul McCartney e todos os outros autores de belas canções que falam de ordinary people criam suas músicas, seguramente pensam em pessoas comuns, não geniais, não excepcionais, mas não tão tristes, tão marcadamente infelizes quanto essa Johanna Parry de Kristen Wiig.

Este Loveship Hateship não chega a ser um grande filme, mas é bom. E a melhor coisa que ele tem, disparado, disparado, é a interpretação dessa fantástica, camaleônica Kristen Wiig como a personagem central.

Só uma atriz com as características dessa moça poderia interpretar essa jovem fadada ao insucesso que ousa brigar com os fados – e derrotá-los.

Não é garotinha, é já uma jovem madura. Nasceu em 1973, no interior do Estado de Nova York, descendente de ingleses, escoceses e irlandeses. Passou pelo famosérrimo programa humorístico da TV Saturday Night Live em 2008 e 2009 e naquele ano foi colocada na lista das 25 mulheres mais engraçadas de Hollywood feita pela Entertainment Weekly. Também por sua participação no Saturday Night Live, teve nada menos de seis indicações ao Primetime Emmy – o Oscar da TV. O que é outra prova de sua versatilidade – já que está maravilhosa neste drama pesadíssimo, sombrio.

O primeiro filme em que teve um papel de alguma importância foi Ligeiramente Grávidos (2007). Em 2012, foi uma das roteiristas e uma das atrizes de Missão Madrinha de Casamento/Bridesmaids – e foi indicada tanto ao Oscar de melhor roteiro original quanto ao Globo de Ouro de melhor atriz em comédia ou musical.

É necessário registrar que uma atriz extraordinária, das melhores que já houve em Hollywood, faz um pequeno papel neste filme. A fantástica – e também camaleônica – Jennifer Jason Leigh interpreta Chloe, a mulher com quem Ken está tendo um caso em Chicago. Chloe é uma drogada que ajuda Ken a se afundar mais e mais na apatia, na inação.

Tenho sentido falta de Jennifer Jason Leigh em mais filmes.

Então, para encerrar: este Amores Inversos é um filme pesado demais – mas que, surpreendentemente, revela ao final uma radiosa esperança na capacidade do ser humano de melhorar. Apesar disso, não é um filme que deva ser visto em momentos em que o eventual espectador está triste, pra baixo. Nesse caso, periga provocar depressão profunda.

Anotação em abril de 2015   

Amores Inversos/Loveship Hateship

De Liza Johnson, EUA, 2013.

Com Kristen Wiig (Johanna Parry),

e Guy Pearce (Ken), Hailee Steinfeld (Sabitha), Nick Nolte (Mr. McCauley), Sami Gayle (Edith), Jennifer Jason Leigh (Chloe), Christine Lahti (Eileen), Lauren Swinney (Mrs. Willets)

Roteiro Mark Jude Poirier

Baseado no conto “Hateship, Friendship, Courtship, Loveship, Marriage”, de Alice Munro

Fotografia  Kasper Tuxen

Música Dickon Hinchliffe

Montagem Michael Taylor

Produção The Film Community, Benaroya Pictures, Fork Films. DVD Paris Filmes.

Cor, 104 min

**1/2

2 Comentários

  1. Heitor
    Postado em 11 agosto 2015 às 10:40 am | Permalink

    Grande Sérgio, graaaaaaande Sérgio…
    rapaz, como vc é bom. Ler sobre os filmes aqui em geral é muito melhor do que vê-los. E vc tem esse jeito de ir contando e informando ao mesmo tempo que é o que há!!! Mas quero te sugerir um desafio, quem sabe te diverte também: criar uma sessão aqui que conte a história dos filmes em uma frase só. Um ponto final só. Tipo: Psicose: secretária dá golpe no patrão, foge com o dinheiro e vai parar numa espelunca de beira de estrada onde acaba morta por fulano, louco de pedra que mantém o esqueleto da mãe no sótão há anos. Que tal?

  2. Sérgio Vaz
    Postado em 12 agosto 2015 às 3:50 am | Permalink

    Grande Heitor!
    Você andava sumido…
    Adorei sua observação. Mas eu jamais conseguiria resumir em uma frase a história de um filme. Eu sou o contrário disso, da capacidade de síntese…
    Mas você poderia assumir esse desafio, e, sempre que entrasse aqui um filme que você viu, escreveria uma sinopse.
    Mas sem contar o final das histórias, que aí é sacanagem, ne?
    Um abraço.
    Sérgio

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