Adeus às Ilusões / The Sandpiper

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Nota: ★★★☆

Não são muito comuns os filmes do cinemão comercial que discutem escala de valores, diferenças entre justiça e legalidade, esgarçamento de princípios éticos. The Sandpiper, no Brasil Adeus às Ilusões, que Vincente Minnelli lançou em 1965, na época da explosão do hippismo, vai fundo na discussão desses temas.

Os temas são sérios, importantes, fundamentais – mas não é, de forma algum, um filme chato, papo-cabeça, desagradável, árido. E tem uma grande beleza visual: a ação se passa num lugar especialmente belo, a costa da Califórnia ao Sul de San Francisco, na região de Big Sur. E a câmara do veterano Minnelli e do diretor de fotografia Milton Krasner não se cansa de passear (seguramente em um helicóptero) sobre aquele litoral acidentado, em que as montanhas de um verde glorioso terminam abruptamente junto do mar. Dos 117 minutos de duração do filme, uns bons 10, talvez até um pouco mais, são de tomadas esplêndidas do litoral, com às vezes a Highway 1 sendo visível, serpenteando entre as montanhas e a costa.

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E há a beleza luminosa, tão luminosa que deixa o espectador tonto, zonzo, de Elizabeth Taylor, aos 33 aninhos de idade, 23 de carreira.

Foi o terceiro dos 11 filmes estrelados por Liz e Richard Burton, depois de Cleópatra e Gente Muito Importante, ambos de 1963. Como se sabe, os dois se conheceram durante as filmagens, na Itália e na Espanha, do gigantesco épico dirigido por Joseph L. Manckiewicz. Conheceram-se, apaixonaram-se, casaram, fizeram mais dez filmes, discutiram demais, brigaram demais, beberam demais, descasaram, casaram de novo.

Burton foi o marido números cinco e seis dos oito que Liz contabilizou.

zzsandpiper7Falava-se demais, mas demais, do casal Liz-Burton, naquela época. Era o casal mais falado pela imprensa americana, já que o outro que poderia rivalizar com eles, o formado por John F. Kennedy e Jacqueline Bouvier Kennedy depois Onassis, não existia mais, depois dos tiros em Dallas, em 22 de novembro de 1963.

É bem possível que o excesso de publicidade, de luzes em cima do casal Liz-Burton, tenha influenciado as pessoas no julgamento do filme.

Leonard Maltin, por exemplo, deu 2.5 estrelas em 4 e afirmou: “Um caso de triângulo amoroso comum. Beatnik (Liz) Taylor apaixonada por Burton, que é casado com (Eva Marie) Saint. Nada novo, mas as paisagens lindas de Big Sur na California ajudam; ajuda também o tema vencedor do Oscar, ‘The Shadow of your Smile’”.

Todo mundo tem o direito de se equivocar. Eu, por exemplo, me equivoco dia sim e o outro também. Mas o fato é que Leonard Maltin, o autor do guia de filmes mais vendido do mundo (acabei de comprar o de 2013, que assim aposenta o de 2011, que havia aposentado a edição de 2009), se equivocou feio aqui. Não é um caso de triângulo amoroso comum, de forma alguma. A questão maior não é que o personagem de Burton é casado quando conhece a personagem de Liz e se apaixona por ela. A questão maior é que ele é um pastor, um ministro da igreja episcopal.

Uma jovem pintora mãe solteira, uma proto-hippie, libertária, vanguardista

Ahnn… Acho que é bom organizar um pouco esta anotação.

Laura Reynolds, a personagem de Liz Taylor, é uma pintora. Sim, de maneira bem simplificada, ela poderia ser definida como uma beatnik. Uma beatnik, uma proto-hippie. É uma pessoa libertária, vanguardista, pra-frente, avançada, liberal, livre-pensadora – o distinto espectador pode escolher o termo que mais o agradar.

zzsandpiper0Lá pelo meio do filme ficaremos sabendo que ela vem de uma família “muito decente” do conservador estado de Indiana; aos 17 anos, namorava um rapaz de família igualmente “decente” e muito rica – e ficou grávida, coisa que, no final daqueles imbecis, caretas, retrógrados, hipócritas anos 50, não era nada normal entre famílias “decentes”. O rapaz, “honrado”, propôs casamento, mas Laura não aceitou – não amava o cara, apenas tinha transado com ele. A família dela ofereceu a possibilidade de um aborto – e, caso ela não quisesse o aborto, poderia ter o filho e continuar vivendo com pai e mãe. Laura entendeu que, como os pais ofereceram a opção do aborto, na verdade teriam um pouco de vergonha de ter em casa um neto filho de mãe solteira – e assim Laura havia decidido cascar fora, e tinha se mudado para a Califórnia.

Todas essas informações só serão apresentadas ali pelo meio do filme, como já disse. A narrativa começa mostrando que Laura vive numa “cabana” – na verdade, uma belíssima casa rústica – debruçada sobre uma pequena praia, uma praia praticamente particular, já que não há outra casa alguma ali.

Laura pinta na areia da praia, enquanto seu filho, Danny (Morgan Mason), aí de uns 9 anos, brinca no meio da natureza luxuriante do lugar.

Danny tem uma espingardinha, vê um pequeno cervo – e atira nele.

zzsandpiper2Fim da primeira sequência, corta, e na segunda sequência do filme Laura Reynolds está diante do juiz Thompson (Torin Thatcher), tudo indica que o juiz encarregado das questões de família daquele condado. Laura tinha tirado o filho da escola, e estava ela própria cuidando da educação dele; no entanto, o assassinato do pequeno cervo era a terceira vez em que Danny tinha sido levado ao juiz Thompson. E então ele decide: Laura terá que matricular o filho numa escola. E ele, o juiz, sabe em que escola o garoto será matriculado: a escola de seu amigo, o dr. Edward Hewitt, uma ótima escola episcopal, mantida com as doações dos ricos da região.

O dr. Edward Hewitt é o personagem interpretado por Richard Burton.

Quando aquela mulher de beleza faiscante, acachapante, até torturante, entra na sala do ministro religioso, ele leva um choque. Tadinho.

Um diálogo fascinante entre o pastor e a mulher moderna, liberada

O diálogo é extraordinário. Mas atenção: para ser perfeitamente compreendido, ou para ser minimamente compreendido, é necessário que o espectador ponha aas coisas sob perspectiva, entenda as circunstâncias, a época, a conjuntura. Era 1965 – o hippismo, a contracultura estava ainda em seu início. O feminismo estava apenas começando a fazer as grandes conquistas. A própria pílula ainda era recente, a virgindade das moças ainda era sagrada. A figura da mãe solteira era rara como o pote de ouro ao final do arco-íris. As coisas todas ainda eram extremamente caretas, velhas, retrógadas.

Ele pergunta qual é a religião dela, ela diz que é naturalista.

Ele: – “O quê?”

Ela: – “Nós acreditamos que os homens são dominados por seus mitos. Que não pode haver paz na terra até que o homem deixe de lado toda essa crença no sobrenatural.”

zzsandpiper3Ele: – “Sei. Muito interessante. Continue.”

Ela: – “É isso. É uma seita muito pequena.”

Ele: – “Com aproximadamente uma só devota?”

Ela: – “Exatamente uma.”

Logo em seguida, ele, o pastor, o diretor da escola, diz: – “Não temos muitos meninos vindos de lares desfeitos, mas…”

Ela o interrompe: – “Meu filho não vem de um casamento desfeito.”

Ele: – “Desculpe. Tive a impressão de que a senhora era divorciada.”

Ela: – “Eu nunca fui casada.”

Ele: – “Ahn… Abandonado pelo pai…”

Ela: – “Ele não foi abandonado pelo pai. O pai dele é que foi abandonado por mim.”

Já tinha havido outro diálogo sensacional como este. Quando Laura é chamada para conversar com o juiz Thompson, e ele pergunta a ela por que, afinal de contas, ela não põe o filho numa escola, como todo mundo faz, ela diz que quer ensinar ao filho os valores corretos. Por exemplo: quer ensinar a ele que ele deve obedecer às leis que são corretas, mas não precisa obedecer às leis que não são corretas.

O que é justiça e o que é legal é discussão séria. Filme do cinemão comercial, com os atores top da época, o casal Brad Pitt-Angelina Jolie daquele tempo, trazer essa discussão à baila é uma maravilha.

“Você acha que Orozco acredita no cristianismo? Ou Rivera, ou Portinari?”

Não, não se trata de um triângulo amoroso comum, este aqui. É, no mínimo, no mínimo, um quadrado amoroso: o pastor Edward não só está casado com uma mulher perfeita, Claire (e, credo, como Eva Marie Saint é maravilhosa!), como também está comprometido com a Igreja. Ele diz isso, lá pelas tantas: “Eu sou um ministro de uma Igreja cristã!”

zzsandpiper4Depois de conhecer a pintora Laura, naquele encontro que teve o diálogo que anotei e transcrevei aí acima, o pastor Edward pensa em formas de ajudá-la. Já soube que ela não consegue vender seus quadros, e portanto vive com muito pouco dinheiro. A escola tem planos de construir uma nova e maior capela, e então o pastor propõe a Laura que pense na possibilidade de desenhar os vitrais.

Ela: – “Mas eu sou ateísta! Como posso desenhar algo para glorificar um credo em que não acredito?”

Ele: – “Você acha que Orozco acredita no cristianismo? Ou Rivera, ou Portinari, ou Chagall? Alguns dos melhores trabalhos deles estão em igrejas.”

Fiquei fascinado por esse diálogo fantastico. Claro, fiquei maravilhado por ver o paulistíssimo Portinari ser citado ao lado de Diego Rivera e Marc Chagall – mas a beleza da frase está muito acima dessa coisa de patriotada.

A grande arte – muitas vezes sem querer, sem saber – glorifica a crença, a religião. Até porque as igrejas estão entre os melhores museus do mundo.

Um filme que, além de mostrar belezas, vai fundo na discussão de idéias

Não, não é um triângulo amoroso comum, e não é apenas um filme para servir de veículo para o casal da moda. A avaliação das pessoas na época deve de fato ter sido obnubilada pela exposição sem tamanho do casal Liz-Burton.

zzsandpiper5Este é um filme que, além de mostrar belezas – Liz, Burton, Big Sur –, discute idéias. Não é à toa que seu realizador seja Vincente Minnelli. O ex-marido de Judy Garland, o pai de Liza, sabe ser quase irresponsável, como em Gigi (1958), perfeito no musical (Sinfonia de Paris, 1951), genial em comédia romântica (Teu Nome é Mulher, 1957), E sabe falar sério, ir fundo, como fez em Deus Sabe Quanto Amei, 1958. O cara é tão bom, e tão eclético, que até filme de guerra faz com maestria: Quatro Cavaleiros do Apocalipse (1962) é uma maravilha.

A história e o roteiro de The Sandpiper são assinados por nada menos que cinco pessoas – algo absolutamente normal no cinema italiano, por exemplo, mas bem mais raro no de Hollywood. Segundo os créditos iniciais – que vemos enquanto a câmara passeia pelo litoral de Big Sur –, o roteiro é de Dalton Trumbo e Michael Wilson, com base em uma história de Martin Ransohoff, adaptada por Irene Kamp e Louis Kamp.

Desses nomes aí, só conheço bem o de Dalton Trumbo, um talentosíssimo escritor que sempre fez questão de deixar claro que é um homem de esquerda, naquele tempo de antigamente em que havia esquerda e direita.

E The Sandpiper é um filme contra o Establishment, contra as regras velhas, calhordas. É um filme contra o imobilismo, a favor do avanço, do progresso, do abandono dos antigos, velhos, imbecis, idiotas preconeitos.

Aquela mulher libertária faz o pastor reavaliar sua escala de valores

Vincente Minnelli, então com 62 anos de idade, ao fazer o que seria seu antepenúltimo filme, vem com a energia de um garoto rebelde mostrar que bom é quando a gente checa os valores, bota pra quebrar.

Num país de roubalheira do tamanho dessas da Petrobrás nos governos do PT, fica difícil para o espectador entender a questão moral que assalta o pastor Edward.

zzsandpiper8Ele foi deixando de ser um professor, à medida em que tinha mais e mais obrigações como diretor da escola. E uma das obrigações do diretor da escola era recolher donativos entre os ricos. Uma das formas de atrair dconativos é dar um golpe no imposto de renda. Em nome da escola, dos alunos, ao longo dos anos o pastor Edward foi se permitindo aquela pequena corrupção – a escola recebia o donativo, o donativo ajudava o doador a se livrar de pagar o imposto de renda.

Perto do volume dos crimes do PT, isso de fato é pequeno, não é nada.

Mas o pastor Edward, com sua escala de valores checada e espancada pela beatnik quase hippie Laura Reynolds, volta a ver que os pequenos crimes são tão ruins quanto os crimes grandes.

Acho que Leonared Maltin deveria ver The Sandpiper de novo. É um belo filme.

As mãos de Liz Taylor – diz  Pauline Kael – não conseguem seus seios amplos

Eis o que diz Pauline Kael, a rainha da crítica americana (sem aspas para que eu não tenha que ser literal):

Na época em que o filme foi lançado, Richard Burton e Elizabeth Taylor, que tinham sido os amantes mais escandalosamente divulgados nos jornais durante as filmagens de Cleópatra, apenas dois anos antes, haviam finalmente se casado, e então Burton, muito sério, olha para a imponente Taylor vestida com seu poncho, e eles dizem falas do tipo ‘Eu nunca soube o que é o amor’ e ‘Perdi todo o meu senso do que é pecado’, e as pessoas nos cinemas não conseguiam se conter. O filme não deverá ser de novo tão hilariante, mas é um clássico, não importa quando você o veja. Burton, um clérigo episcopal, faz afirmações bastante literárias para a artista-beatnik-ateísta Taylor, tipo, ‘Eu não consigo dissipar você de meus pensamentos’, e então, quando ele se odeia pela manhã, ela o anima dizendo ‘Você não entende que o que aconteceu entre nós é bom?’

Pauline Kael sabia como ninguém destruir um filme. Ela continua: “No final, o clérigo, redimido pelos valores espirituais da ateísta, se livra das tentações da riqueza e do sucesso mundano e descobre sua simples fé de novo. Se isso não é demais, há Charles Bronson interpretando um escultor (posando para ele, Taylor modestamente cobre os seios com as mãos – embora elas não pareçam adequadas para a tarefa).”

São personagens believers, que teriam pouco espaço no mundo cínico de hoje

zzsandpiper9Penso aqui comigo, depois de ter revisto este filme pela primeira vez desde os meados dos anos 60, meio século atrás, que ser cínico, como Pauline Kael, parece muito mais esperto, mais inteligente, mais brilhante, do que ser believer – como é a personagem de Liz Taylor, como é, afinal, o personagem de Richard Burton, como sempre foi o personagem da maravilhosa Eva Marie Saint.

Pauline Kael escreveu principalmente nos anos 70 e 80. De lá para cá, o mundo se tornou ainda muito mais cínico.

Imagino que The Sandpiper possa soar bastante bobo para muitos garotos de hoje.

Uma pena enorme.

Anotação em dezembro de 2014

Adeus às Ilusões/The Sandpiper

De Vincente Minnelli, EUA, 1965.

Com Elizabeth Taylor (Laura Reynolds), Richard Burton (Dr. Edward Hewitt)

e Eva Marie Saint (Claire Hewitt), Charles Bronson (Cos Erickson), Robert Webber (Ward Hendricks), James Edwards (Larry Brant), Torin Thatcher (juiz Thompson), Tom Drake (Walter Robinson), Douglas Henderson (Phil Sutcliff), Peter O’Toole (voz )

Roteiro Dalton Trumbo, Michael Wilson

Adaptação Irene Kamp e Louis Kamp

Baseado em história de Martin Ransohoff

Fotografia Milton Krasner

Música Johnny Mandel

Canção “The Shadow of you Smile” por Johnny Mandel-Paul Francis Webster

Montagem David Bretherton

Produção MGM, Filmways Pictures, Venice Productions. DVD Lume Filmes.

Cor, 117 min

R, ***

Um Comentário

  1. Jussara
    Postado em 3 abril 2015 às 1:26 am | Permalink

    Esse eu ainda não vi, mas seu texto e o fato de ter Richard Burton despertaram meu interesse.
    Também gosto dos temas que o filme aborda: religião, “pecado”, valores morais.

    Não vi todos os filmes de Minnelli, mas só por ter feito “Sinfonia de Paris”, ter dado liberdade de criação e permitido que Gene Kelly fizesse o que fez, com coreografias avançadas para a época (como a censura deixou passar, é uma pergunta que me faço) já o considero à frente de seu tempo, cabeça aberta. E mais: o pai de “Liza with a Z” deixou que Gene dirigisse muita coisa no filme, pois ele estava às voltas com alguma das “doenças” de Judy Garland.
    Acho que todos os adjetivos que você deu à personagem de Liz Taylor cabem perfeitamente em Minnelli também (embora alguns sejam sinônimos).

    Para quem viveu aquela época e acompanhou o romance e as brigas do casal protagonista, devia ser mesmo hilário ouvir frases da boca de Burton, como “Perdi todo o meu senso do que é pecado”, até porque Taylor era casada com Eddie Fisher quando o conheceu. Devia ser impossível não rir (até eu ri enquanto lia esse trecho; mas não sou cínica, juro).

    E como assim, Charles Bronson no papel de um escultor? Quero muito ver isso.

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