A Sorte em Suas Mãos / La Suerte en Tus Manos

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Nota: ★★★☆

Divertida, gostosa comedinha romântica de Daniel Burman, o jovem argentino realizador de filmes muito bons – O Abraço Partido (2004), As Leis de Família (2006) – e outros nem tanto assim – Ninho Vazio (2008), Dois Irmãos (2010).

Uma das características mais fascinantes de A Sorte em Suas Mãos é o fato de que um dos dois protagonistas, Uriel Cohen, é interpretado pelo cantor e compositor uruguaio há muito radicado na Espanha Jorge Drexler. Drexler não é estranho ao mundo do cinema. Compôs a trilha sonora de quase uma dezena de filmes, inclusive de The City of Your Final Destination (2009), do grande diretor americano James Ivory, e quase 40 filmes apresentam uma ou mais canções dele, como Diários de Motocicleta (2004), de Walter Salles.

Mas esta é primeira vez que Jorge Drexler trabalha como ator. A primeira e, pelo menos até meados de 2015, a única.

E é fantástico: ele trabalha surpreendentemente, deliciosamente bem. Está absolutamente à vontade, como se fosse ator de cinema desde criancinha.

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Uriel, seu personagem, fala pelos cotovelos. Fala sem parar, convulsivamente. Fala tanto quanto os personagens judeus de outro judeu, Woody Allen. Assim como seu colega mais velho e mais mundialmente famoso, Daniel Burman gosta de focalizar a comunidade judaica de sua cidade, Buenos Aires, e muitos de seus personagens são judeus, como Uriel.

A segunda característica marcante de Uriel é que ele mente. Mente compulsivamente. Mente sobre pequenas coisas sem importância, mente sobre coisas maiores. Simplesmente mente – não tem jeito, ele mente.

A terceira é que ele gosta de jogar pôquer. De qualquer jeito: no computador, em cassinos. Diz que não é vício, que é só um passatempo, mas está absolutamente viciado, não vive sem o pôquer. E tem sorte: em geral ganha. Numa passagem por um cassino, ganhará – como ele mesmo comenta – o equivalente à pensão mensal que paga à ex-mulher.

Uriel está separado faz algum tempo. Tem boa relação com os filhos, uma garota aí de uns dez anos, Sara, Sarita (Paloma Alvarez, maior gracinha), e Otto (Lucciano Pizzicchini). Passeia com eles, compra para eles um grande aquário, que monta com capricho em seu apartamento – embora seja incapaz de comprar um peixe sequer pra botar lá dentro. Leva-os para o escritório; quando, do escritório, liga para a ex-mulher, e ela pergunta se ele está no escritório com as crianças, ele mente: não, está em casa, nunca leva os meninos para o trabalho.

Uriel herdou do pai uma empresa financeira. É, a rigor, uma agência de viagem, mas funciona também como casa de câmbio – e quem já esteve em Buenos Aires sabe como casa de câmbio é importante na cultura, na alma portenha: aquele povo não consegue viver sem ter dólares em casa. E então a agência de viagem-casa de câmbio que Uriel herdou do pai é também uma empresa financeira, com um grande movimento, muitos funcionários.

Uriel não pega muito no pesado. Em geral, fica jogando pôquer no computador – e respondendo às dúvidas de seus funcionários sobre a taxa a ser cobrada de cada tipo de cliente, por exemplo.

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Uriel quer fazer vasectomia mas tem medo. Gloria não está feliz com o namorado

Ficamos conhecendo todas essas características do protagonista masculino da história nos primeiros 20, 25 minutos do filme. O início da narrativa – aproveito para realçar – é um tanto cansativo, porque Uriel fala demais, fala depressa, e Daniel Burman e seu diretor de fotografia Daniel Ortega resolveram abusar da câmara de mão. Me senti um pouco tonto nos primeiros 15 minutos de filme – e, não, não havia bebido sequer um copo de cerveja, estava em dia não.

A primeira sequência do filme mostra um diálogo entre Uriel e um médico, o dr. Weiss (Luis Brandoni). O dr. Weiss será um personagem importante da história; é urologista, mas às vezes parece um psiquiatra, um psicólogo, porque Uriel o consulta para tudo. No diálogo que abre o filme, a consulta é sobre vasectomia. Uriel conta para o médico que está numa fase em que chove mulher na horta dele – e ele gostaria muito de se sentir livre da eventualidade de surgir mais um filho. Mas ao mesmo tempo tem dúvidas: a operação dói? Pior ainda: mexe com a potência?

Uriel é um homem de muitas dúvidas. Felizmente para ele, o dr. Weiss é um homem de grande paciência.

Após uns 10 minutos conhecendo Uriel, o espectador é apresentado a Gloria (Valeria Bertuccelli), a protagonista feminina da história. Gloria está, na primeira sequência em que aparece, enterrando o pai. Está ao lado do namorado, Ludovic (Oliveir Ubertalli), um tipo que gosta de falar em francês.

Gloria esteve fora do país durante uns bons anos, tocando algum projeto que os roteiristas não se preocupam em nos dizer qual é. Aliás, não se preocupam também em mostrar o que é que Gloria, afinal de contas, faz na vida, mas tudo bem.

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O fato é que Gloria está de volta à Argentina, e acabou de enterrar seu pai. O namoro com o tal de Ludovic não é muito satisfatório. Veremos isso pela própria cara de Gloria, não muito animada com o tipo, e por um comentário que ela fará com uma grande amiga com que se encontrará em Buenos Aires. A amiga pergunta como está o sexo, ela dá uma resposta que indica que não vai bem demais. A amiga chega a perguntar sobre o tamanho do pau do namorado. E pergunta como o namorado é em comparação com aquele outro que Gloria teve muito tempo atrás, aquele que gostava de motéis…

O namorado de tempos atrás que gostava de motéis é Uriel.

Ficaram juntos nos tempos da faculdade. Na ocasião, Uriel não conversava muito, não levava a moça ao cinema, a um bar, a um restaurante: queria saber era dos motéis. O sexo era bom, mas Gloria sentia falta de namoro, e então se separaram, e nunca mais tinham se visto – até porque ela foi para o estrangeiro.

Uriel vai se reencontrar com Glória justamente no dia em que não pode fazer sexo

Em Buenos Aires, Gloria reencontra a mãe, Susan – e a existência da personagem Susan no filme permite que o espectador tenha o prazer de rever Norma Aleandro, esse monumento das artes cênicas argentinas, melhor atriz no Festival de Cannes por A História Oficial (1985), a noiva de O Filho da Noiva (2001), para mim o marco do novo e maravilhoso cinema argentino.

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Susan é uma professora, uma acadêmica, uma expert em literatura. Tem um programa de rádio famoso, em que fala sobre escritores e livros. Está casada de novo, feliz da vida.

No fim de semana seguinte ao reencontro de mãe e filha, Susan tem um compromisso em Rosario, um lançamento de livro. Convida a filha para ir junto com ela – são três horas de viagem, rumo ao Norte, estrada boa, um tanto paralela ao curso do Rio Paraná.

Naquele mesmo fim de semana, Uriel estará em Rosario para dois compromissos. Um, a operação de vasectomia, com um cirurgião indicado pelo dr. Weiss. Dois, o belo cassino que há na cidade à beira do Paranázão.

Como dizia o poeta, a vida é feita de encontros – e reencontros –, embora haja tanto desencontro na vida, e então Uriel e Gloria vão se reencontrar em Rosario.

Justamente no dia em que ele acabou de fazer a vasectomia e não pode, de jeito nenhum, fazer sexo.

Um rabino e um amigo aconselham Uriel a não mentir, mas ele não tem jeito

Como em tantos filmes de Woody Allen, entrará na história um rabino (interpretado por Fernando Diego Barletta), que Uriel fica conhecendo exatamente no cassino de Rosario. Uma figuraça, esse rabino. Ele mesmo gosta de um poquerzinho. Mas não é proibido?, pergunta Uriel, que, pelo jeito, não é muito religioso, praticante.

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O rabino diz que a Torá não proíbe o jogo. Apenas indica que não se deve achar que o jogo está definido pelo destino: é preciso saber que o destino está nas mãos de cada um.

Uma bela lição, essa, que dá o título do filme e é um sinônimo da crença no livre arbítrio.

O próprio rabino, e também Germán (Gabriel Schultz), o funcionário da financeira que é mais próximo de Uriel, mostrarão para ele que a mentira é considerada pela Torá um pecado terrível.

Mas o bicho não tem jeito: ele mente.

Quando ele e Gloria começam a passear por Rosario, assim que se reencontram, ela pergunta se ele está financeira do pai dele – e ele diz que não, que está no meio artístico, é produtor de shows de música. Está naquele momento tentando promover o reencontro da Trova Rosariana, conjunto dos anos 80 cujos quatro músicos há muito haviam se separado.

Daniel Burman e seu co-roteirista (e co-produtor) Sergio Dubcovsky criaram situações e diálogos gostosos, muitas vezes hilariantes. Burman é um grande diretor de atores, e então todos no elenco estão muito bem. A experiente Valeria Bertuccelli (de Clube da Lua, 2004, XXY, 2007, Um Namorado para Minha Esposa, 2009, e Viúvas, 2011) e o estreante Jorge Drexler parecem ter se dado bem, há química entre os dois.

Atenção, atenção: spoiler. Quem não viu o filme deve pular para o próximo intertítulo

Só fiquei um tantinho incomodado – e aqui vai um spoiler: quem não viu o filme deve pular para o próximo intertítulo – com o desfecho da história porque, no final das contas, o mentiroso contumaz, inapelável, é abençoado pela sorte.

Não acho que essa seja uma boa moral da história.

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“Equilibrio elegante entre a leveza cômica e a profundidade da alma”

Um detalhinho gostoso: quando Uriel e Gloria vão a um cinema, vemos um cartaz de um filme com Ricardo Darín, creio que Um Conto Chinês. Uma gostosa homenagem de um bom diretor a um colega, Sebastián Borensztein. De judeu para judeu. A colônia judaica em Buenos Aires parece ser uma das maiores do mundo.

A Sorte em Suas Mãos foi exibido no Tribeca Film Festival, criado por Robert De Niro, e conquistou lá o prêmio de melhor roteiro de longa-metragem de ficção. O IMDb traz o texto com que o júri concedeu o prêmio:

“Ficamos impressionados com o equilíbrio elegante e inteligente do filme entre a leveza cômica e a profundidade da alma; sua habilidade para localizar temas universais sobre famílias, amantes, filhos, e a direção de um negócio dentro da picante especificidade do meio dos jogadores de pôquer da comunidade judaica na Argentina; e sua habilidade de misturar vasectomia e rabinos que tocam rock’n’roll na mesma história sem perder a graça. Comédia é difícil; o filme lida com ela com tranquilidade.”

Depois desse texto, não há o que dizer.

Como se diz nos tribunais americanos, the defense rests.

Ou, como diriam nuestros hermanos: trankííílo.

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Anotação em julho de 2015

A Sorte em Suas Mãos/La Suerte en Tus Manos

De Daniel Burman, Argentina-Espanha, 2012

Com Jorge Drexler (Uriel Cohen), Valeria Bertuccelli (Gloria),

e Norma Aleandro (Susan), Luis Brandoni (Dr. Weiss), Gabriel Schultz (Germán), Paloma Alvarez (Sara), Lucciano Pizzicchini (Otto), Fernando Diego Barletta  (o rabino), Silvina Bosco (amiga de Gloria), Eugenia Guerty (Mariana), Salo Pasik (Rafael), Olivier Ubertalli (Ludovic)

Argumento e roteiro Daniel Burman e Sergio Dubcovsky

Fotografia Daniel Ortega

Música Nico Cota

Montagem Luís Barros

Produção Gullane Filmes, BD Cine, Instituto Nacional de Cine y Artes Audiovisuales, Telefe, Tornasol Films.

Cor, 110 min

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