A General / The General

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Nota: ★★★★

A General é um filmaço, uma obra de gênio. É impressionante, é um tour-de-force: são 67 minutos de filme – e em, digamos, 60 minutos é tudo acelerado, com um novo acontecimento a cada momento, uma gag atrás da outra, uma supresa atrás da outra. Nos outros 7 minutos dá para ter algum respiro – mas na imensa maior parte é sempre a mil por hora.

É inacreditável a quantidade de idéias para gags, para surpresas, para novos acontecimentos.

E é extremamente impressionante como é uma realização madura, completa, redonda. Como é maravilhosa a fotografia, como é ágil a câmara. E que produção suntuosa – são centenas e centenas e centenas de extras na tela.

Estranho: não me lembro de ter ficado tão absolutamente impressionado, mesmerizado com o filme quando o vi pela primeira vez, em 1971, segundo minhas anotações. Vi no cineclube bissexto que funcionava no Equipe, se não me engano dirigido pelo Serginho Groisman, na época em que o cursinho ocupava o prédio do Des Oiseaux, na Rua Caio Prado; Suely fazia o cursinho lá, e vimos lá alguns filmes, como Os Deuses Malditos, de Visconti, Blow Up, de Antonioni, e esta pérola de Buster Keaton.

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A versão que vi agora no DVD é uma que foi restaurada nos anos 90, com nova trilha sonora – muito boa – composta por Robert Israel. Segundo o IMDb, já havia tido uma outra trilha sonora para o filme, de autoria de Carl Davis, num relançamento de 1987.

Buster Keaton lançou A General em 1926, o ano anterior à chegada do som, um ano depois de Charlie Chaplin ter lançado Em Busca do Ouro.

Esses dois filmes geniais têm alguns pontos em comum. Ambos são épicos, mostram eventos históricos importantes, que movimentaram dezenas e dezenas de milhares de pessoas, e portanto os dois filmes envolveram o trabalho de multidões de extras; um faz rir às custas da miséria e da fome durante a corrida do ouro na região de Klondike, no Alasca (1896-1899), o outro faz rir ao contar uma história que se passa em meio à Guerra Civil Americana (1861-1865)

O roteiro parte de um episódio real, o roubo de uma locomotiva na Guerra Civil

O roteiro de A General é assinado pelos dois homens que dividiram a direção do filme, Buster Keaton e Clyde Bruckman. Os créditos iniciais dizem que a adaptação é de Al Boasberg e Charles Henry Smith. Não se diz o que eles adaptaram. Segundo o IMDb, a base para o roteiro veio de dois livros – Daring and Suffering: a History of the Great Railroad Adventure, de William Pittenger, e The Great Locomotive Chase, de William Pittenger – que contam a história verdadeira de uma locomotiva que foi roubada durante a Guerra Civil.

A partir desse episódio real, Keaton e Bruckman criaram sua história originalíssima, deliciosa.

O protagonista se chama Johnnie Grey, um maquinista da Western & Atlantic Railroad, que operava uma linha de trens entre Marietta, na Georgia, e uma cidade bem mais ao Norte, Chatanooga, creio. Johnnie Gray – o papel, claro, do próprio Buster Keaton – é um homem de dois grandes amores: a General, a locomotiva que dirige, e Annabelle Lee (o papel de Marion Mack, uma atriz, tadinha, danada de feia e sem qualquer graça).

Annabelle Lee. Keaton e seu co-roteirista e co-diretor Clyde Bruckman seguramente se inspiraram em Annabel Lee, do poema de Edgar Allan Poe, para batizar a heroína da história.

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Johnnie está visitando Annabelle em sua casa em Marietta quando o irmão dela (interpretado por Frank Barnes) chega com a notícia de que o Forte Summer havia sido bombardeado. “Então é a guerra”, diz o pai do sujeito e de Annabelle. (O pai é interpretado por Charles Henry Smith, um dos dois homens que assinam a adaptação da história.)

O irmão de Annabelle parte logo em direção à junta de alistamento militar. A mocinha deixa claro que espera que o namorado faça o mesmo, e Johnnie bem que corre para a junta de alistamento, e até fura a fila para ser o primeiro cidadão a entrar para o exército confederado em Marietta. Mas um oficial, ao vê-lo, e ouvir que ele é maquinista da Western & Atlantic, diz para o encarregado: “Não o aliste. Ele será mais importante para o Sul fazendo o seu trabalho”.

Desacorçoado, o pobre Johnnie vai até Annabelle, mas o irmão havia dito para ela que o rapaz não tinha ido se alistar. A moça é peremptória: diz a Johnnie que só aceita vê-lo de novo se ele estiver com a farda do exército confederado.

zzgeneral2E é aí que acontece uma das mais belas cenas deste filme esplendoroso. Com o coração machucado, triste, acabrunhado, Johnnie Gray senta-se naquela barra de ferro lateral das velhas locomotivas movidas a lenha, as marias-fumaças. A General começa a se mover devagarinho, e lá vai nosso herói, subindo e descendo como se estivesse num balanço de criança, numa gangorra.

A cena é engenhosa, é bem sacada, é bela, é realizada com perfeição, é estupidamente engraçada – mas também triste.

Buster Keaton era realmente o comediante que jamais sequer sorria.

A velocidade da ação deste filme de 1926 é semelhante ao dos filmes de hoje

Um pelotão avançado do exército da União – que o filme chama de espiões –, liderados pelo capitão Anderson (Glen Cavender), é incumbido de uma missão no Sul: aproveitar uma parada para almoço e roubar um trem da Western & Atlantic.

E os nortistas de fato roubam o trem – exatamente o comboio puxado pela General, a locomotiva de Johnnie Gray. E, no momento do roubo, o trem estava quase inteiramente vazio. Na verdade, tinha apenas uma passageira – exatamente Annabelle Lee, é claro.

Quando os nortistas roubam o trem sulista, estamos aí com talvez uns 15 minutos de filme, apenas. Vai começar a incansável caçada solitária de Johnnie Gray por sua amada locomotiva – e ele só vai saber que sua outra amada, Annabelle, está em poder dos nortistas lá pela metade do filme.

As aventuras que ele viverá são incríveis, sensacionais – e a velocidade com que novos fatos acontecem neste filme de 1926 é idêntica ao ritmo acelerado dos grandes blockbusters para platéias juvenis deste novo milênio.

Só que tudo é feito com inteligência, astúcia, bom gosto, belas sacadas – e um humor finíssimo.

Buster Keaton era gênio.

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É uma grande unanimidade hoje. No entanto, não foi bem recebido na sua época

Vou agora procurar o que dizem do filme os bons livros, mas tenho a certeza de que todos dirão que é a obra-prima de Buster Keaton – e um dos melhores filmes americanos da era do cinema mudo.

Sim. Em 2007, no décimo aniversário da lista dos 100 melhores filmes americanos de todos os tempos do American Film Institute, The General ficou na 18ª colocação.

O filme está, obviamente, nos livros 5001 Must-See Movies e 1001 Filmes para Ver Antes de Morrer. O Guide des Films de Jean Tulard dá 3 estrelas, algo raríssimo. Leonard Maltin dá 4 estrelas, a cotação máxima. O CineBooks’ Motion Picture Guide dá 5 estrelas, a cotação máxima. Também o guia de Steven H. Scheuer e o de Mick Martin & Marsha Porter dão a cotação máxima.

Não tem outro jeito. É obra-prima mesmo, das maiores.

E, no entanto, o filme não foi bem recebido na época do seu lançamento.

Foi uma produção cara – afinal, era de fato um épico, uma superprodução, com milhares de figurantes, cenas de ação em vários locais – e uma sequência de destruição de uma ponte que David Lean deve ter revisto diversas vezes para fazer a sequência final de seu esplendoroso A Ponte do Rio Kwai, 31 anos mais tarde.

Essa sequência da ponte, que é o clímax da obra, foi filmada no interior do Oregon. Nela, um comboio conduzido pelo exército da União vai atravessar uma ponte que havia sido parcialmente incendiada por Johnnie Gray – e a ponte cede, e a locomotiva e os vagões caem no rio, vários metros abaixo.

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A filmagem foi real: a locomotiva de fato caiu no rio! Durante anos, quase duas décadas, a locomotiva caída no meio do rio não muito profundo, bem visível, foi objeto de curiosidade de turistas do país inteiro. Nos anos finais da Segunda Guerra, finalmente, ela foi removida e virou ferro-velho.

Para a sequência da ponte, e a grande batalha que se segue a ela, a produção usou 500 extras fornecidos pela guarda nacional no Oregon. Eles se vestiram nos uniformes azul escuro da União e foram filmados vindos da esquerda para a direita, e depois usaram os uniformes azul bem clarinho dos confederados para serem filmados avançado da direita para a esquerda.

O próprio Buster Keaton, antecipando-se muitas décadas a Tom Cruise, fez questão de fazer ele mesmo as cenas perigosíssimas em que pula da locomotiva para o vagão de lenha e dali para o outro vagão, e depois para aquela grade que vai na frente da locomotiva, aquele pára-choque dianteiro, e depois de volta para a locomotiva.

Eram necessárias a coragem e a forma física de um super-homem para fazer o que esse artista genial fez no seu filme.

As críticas foram muito ruins e o filme fracassou na bilheteria

Mas as críticas não foram favoráveis – e o público não foi às bilheterias. Tendo custado a fortuna – para a época – de US$ 750 mil, bancados pelo então chefão da Metro Joseph Schenck, rendeu apenas US$ 500 mil no mercado americano e canadense, e mais US$ 1 milhão em todo o resto do mundo.

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A Variety – a publicação que já era a bíblia de todos os envolvidos na indústria do cinema em Hollywood – escreveu que os cinemas que passavam The General estavam às moscas. E acrescentou que o filme está “longe de ser engraçado”, e que é “um fracasso”. No New York Times, a crítica de Mordaunt Hall dizia: “A produção é singularmente bem estruturada, mas a graça não é exatamente muita”. E mais: “Este filme não é, de maneira alguma, tão bom quando as realizações anteriores de Mr. Keaton”.

O Los Angeles Times disse que o filme “não é nem uma comédia propriamente dita nem chega a ser um drama emocionante”. O filme “se alonga terrivelmente com uma comprida e cansativa caçada de uma locomotiva por outra”.

Como resultado desse fracasso comercial, Buster Keaton perdeu a independência absoluta de que desfrutava antes – ele tinha sua própria companhia produtora dentro da então Metro Pictures Corp, mais tarde Metro-Goldwyn-Mayer. A partir daí, passou a ter que se submeter às determinações dos produtores da Metro. Virou assalariado do estúdio.

Pouco antes de morrer, Keaton foi homenageado em Paris, e emocionou quem o viu

“Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades”, escreveu, cerca de 350 anos antes de Buster Keaton lançar esta obra-prima, o poeta Luís Vaz de Camões.

Quando eu, adolescente, nos anos 60, fiz uns dois ou três cursos de história do cinema com os bons críticos que Belo Horizonte, A General já era unanimemente reverenciada com a obra-prima que de fato é, que sempre foi, e que os críticos em 1926, 1927 não perceberam porque estavam preocupados demais com a morte de Rodolfo Valentino ou com a iminente chegada dos talkies, os filmes falados.

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Naqueles anos 60, os bons críticos de cinema de Belo Horizonte (assim como seguramente os de todos os lugares do mundo) bebiam do que se escrevia nas revistas de cinema da França, os Cahiers du Cinéma sobretudo, mas também a Positif.

Em 1962, aconteceu na Cinémathèque Française uma grande retrospectiva da obra de Buster Keaton. O artista – que morreria quatro anos mais tarde – esteve presente em uma das exibições de seus filmes. Tenho para mim que Jean Tulard esteve lá, naquele dia em que a cidade sinônimo de cinema homenageou o velho palhaço que jamais dava um sorriso sequer. Eis o que escreve o mestre, em seu Dicionário de Cinema:

“Em 1962, ao apresentar sua obra em Paris, no espaço da Cinemateca, Keaton entrou por uma porta, enquanto era esperado por outra; pegou o microfone que lhe deram e o utilizou como um barbeador elétrico: com alguns gestos, resumiu toda a sua arte. A ovação que lhe foi feita por um público bastante jovem de cinéfilos foi a maior e mais espontânea já registrada na Cinemateca. E também a mais merecida.”

Johnnie é “belo em sua determinação corajosa e ligeiramente ridícula”

Entre tantos textos que fazem elogios entusiásticos ao filme, pego o do livro 1001 Filmes Para Ver Antes de Morrer:

“Keaton fez vários filmes – Nossa Hospitalidade (1923), Sherlock Jr. (1924), Marinheiro de Encomenda (1928) – que podem ser incluídos entre os melhores (e mais engraçados) de toda a produção cômica do cinema, porém nenhum deles é mais forte candidato ao primeiro lugar do que esta obra-prima atemporal. Isso não se dá apenas pelo fluxo constante de ótimas gags, tampouco pela maneira como elas derivam totalmente das situações e do personagem, em vez de existirem isoladas da trama do filme. Em vez disso, o que torna A General tão extraordinário é o fato de ele ser superlativo em todos os aspectos: em termos de humor, suspense, reconstituição histórica, estudo de personagens, beleza visual e precisão técnica. Pode-se argumentar que ele chega mais perto da total perfeição do que qualquer outro filme já feito, seja ele comédia ou não.”

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E, depois de fazer uma sinopse, um bom resumo da trama, o livro afirma:

“Esse enredo de elegante simetria, além de admirável em sua forma, é a fonte do suspense e das gags; porém a viagem também confere ao filme um tom épico que, aliado à costumeira atenção aos detalhes históricos de Keaton, o transforma, talvez, no melhor filme sobre a Guerra Civil já feito. Por fim, há o Johnnie de Buster: sisudo, porém belo em sua determinação corajosa e ligeiramente ridícula – que é o ápice desta obra-prima ao mesmo tempo séria e cômica – e o herói mais humano que o cinema já nos ofereceu.”

Belo texto, esse do livro 1001 Filmes.

E, sim: como Buster Keaton era belo.

Há momentos do filme em que se nota – é impossível deixar de notar – o excesso de maquiagem a que os atores do cinema mudo em geral eram submetidos. Mas a maquiagem não o torna feio – ao contrário, realça a beleza dos traços de seu rosto.

Filho da mãe. Gênio, sublime – e até bonito o cara era!

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Anotação em setembro de 2015

A General/The General

De Clyde Bruckman e Buster Keaton, EUA, 1926.

Com Buster Keaton (Johnnie Gray),

e Marion Mack (Annabelle Lee), Glen Cavender (capitão Anderson), Jim Farley (general Thatcher), Frederick Vroom (um general do Sul), Charles Henry Smith (o pai da Annabelle), Frank Barnes (o irmão de Annabelle), Joe Keaton (um general da União), Mike Donlin (um general da União), Tom Nawn (um general da União)

Roteiro Clyde Bruckman e Buster Keaton

Adaptação de Al Boasberg e Charles Henry Smith

Baseado nos livros Daring and Suffering: a History of the Great Railroad Adventure, de William Pittenger, e The Great Locomotive Chase, de William Pittenger

Fotografia Bert Haines e Devereaux Jennings

Montagem Buster Keaton e Sherman Kell

Música da versão restaurada de 1995 Robert Israel

No DVD. Produção Buster Keaton Productions, Joseph M. Schenck Productions, United Artists.

P&B, 67 min

R, ****

Título na França: Le Mécano de la “General”

4 Comentários

  1. Senhorita
    Postado em 15 dezembro 2015 às 7:45 pm | Permalink

    Aaaaah, homem, Buster Keaton, 4 estrelinhas, cara, que texto lindo, eu te adoro, te adoro!

  2. Jussara
    Postado em 15 dezembro 2015 às 8:58 pm | Permalink

    Eita, nunca te vi falar que nenhum homem era bonito aqui no site, assim com todas as letras. No máximo era um “fina estampa”, e isso até para o mais belo dos belos Paul Newman. E agora vem e fala que Buster Keaton era belo. Morro e não vejo tudo. hehehe
    [não consigo achá-lo bonito, por mais que eu me esforce]

  3. eLIEZER
    Postado em 5 Janeiro 2016 às 11:23 am | Permalink

    Buster Keaton é melhor que absolutamente 100 % dos comediantes atualmente.

  4. Leandro
    Postado em 9 Abril 2016 às 7:58 am | Permalink

    Keaton era formidável! The General é ex-tra-or-di-ná-rio!

2 Trackbacks

  1. […] este é o nome dado a um dos principais atores do filme dentro do filme. Não foi escolhido à toa: Buster Keaton botou em seu filho o nome de Robert Talmadge Keaton. Uma das inspirações de Woody Allen para […]

  2. Por 50 Anos de Filmes » Chocolate / Chocolat em 23 novembro 2017 às 2:41 pm

    […] se aprimorando nela – mas um homem triste. Faz lembrar o título brasileiro da cinebiografia de Buster Keaton, um dos grandes gênios da comédia no cinema – O Palhaço Que Não […]

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