A Caça / Jagten

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Nota: ★★★½

A Caça, do dinarmarquês Thomas Vinterberg, de 2012, é um belo filme. Um danado de um drama pesado, denso, extremamente doído, angustiante, apavorante, como os nórdicos sabem fazer melhor do que ninguém.

É um estudo sobre a injustiça. Vintergerg analisa, esmiúca, disseca, com a precisão de um cirurgião com seu bisturi, um caso de injustiça, cometido não pelo Estado, por um poder constituído, mas por toda uma comunidade – os habitantes de uma cidade do interior da rica, evoluída, civilizada Dinamarca, gente letrada, instruída, que não passa por falta de coisa alguma.

Como um cirurgião com seu bisturi, o realizador expõe o drama, o calvário, a descida ao inferno de um homem inocente julgado e condenado por seus pares sem prova alguma.

O espectador sabe o tempo todo que Lucas, o protagonista da história, é inocente. Não há dúvida possível – tudo é mostrado às claras. Com isso, o bisturi com que Vinterberg corta a carne de Lucas faz doer o coração do espectador. Só quem tiver sangue de barata não sentirá terrível aflição com os absurdos que vão se sucedendo na vida de Lucas a partir do momento em que ele é acusado de ter abusado sexualmente de Klara, uma menininha aí de uns cinco anos de idade.

É uma comunidade gregária, e Lucas é uma pessoa benquista

zzcaça2Quando a narrativa começa, Lucas (magistralmente interpretado por Mads Mikkelsen, do extraordinário Depois do Casamento, de Susanne Bier, de 2006, e do extremamente bem realizado O Amante da Rainha, de Nikolaj Arcel, de 2012) é um homem benquisto na sua cidade. É uma pessoa solidária, prestativa, disposta a ajudar os outros. O filme abre com um letreiro que nos avisa que é novembro – e sabemos que novembro, na Dinamarca, é frio pacas. Mas os nórdicos são meio neuróticos – como diria Obelix, batendo com o nó dos dedos na testa –, adoram brincar de enfrentar as temperaturas geladas, e então, numa das primeiras sequências de A Caça, um grande número de pessoas está junto de um lago próximo à cidade em que vivem, e um bobalhão tira toda a roupa e mergulha.

Mas, assim que pula n’água, começa imediatamente a gritar que está com câimbra, que está doendo demais – e quem primeiro pula na água para ajudar o pândego é Lucas.

O que o filme mostra em seus primeiros momentos é que aquela é uma comunidade de pessoas que gostam de convivência. São gregários, aqueles dinamarqueses do interior, gostam de se reunir em grandes grupos, todo mundo conhece todo mundo, todo mundo é amigo de todo mundo.

Lucas ficou sozinho faz pouco tempo. O roteiro – escrito por Tobias Lindholm e pelo próprio Thomas Vinterberg – faz questão de não explicar muito sobre o passado do protagonista. Só mostra que a separação dele e da ex-mulher é recente; aparentemente, quem decidiu cascar fora foi ela, e ela levou embora o único filho do casal, Marcus (Lasse Fogelstrøm), um adolescente de 15 anos. Quer que Marcus veja o pai somente uma vez por semana – essa coisa pavorosa que algumas mulheres fazem, e que só prejudica os filhos.

A ex-mulher de Lucas – que o espectador não vê em momento algum, só ouve a voz dela ao telefone – cobra dele o fato de ele ser apenas um professor de jardim de infância.

Lucas é feliz no que faz, adora crianças e as crianças o adoram

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Este é apenas um pequenino, ínfimo detalhinho do filme, mas me impressionou demais. Numa conversa por telefone, a ex-mulher joga na cara de Lucas o fato de ele ser apenas um professor de jardim de infância –como se isso fosse um crime, fosse uma confissão de fracasso na vida. Como se o estivesse acusando do gravíssimo crime de ser um “loser”, um perdedor – uma das expressões mais abjetas de que uma língua humana já foi capaz, usada para descrever, na sociedade americana, alguém que não conseguiu juntar uma boa quantidade de dinheiro no banco.

Ah, a humanidade que se preocupa muito mais com o ter do que com o ser, como dizia o professor de Lucy, o maravilhoso filme de Luc Besson!

A mulher de Lucas certamente gostaria que ele fosse um corretor da bolsa de valores, o dono de uma empresa em crescimento acelerado. Alguém com um alto salário ou rendimentos polpudos. Não importa que ele fosse feliz ou infeliz no que fizesse.

Ao contrário do que parece pensar a idiota da ex-mulher, não é preciso ter uma profissão de prestígio ou muito dinheiro no banco para ser feliz. Lucas é feliz no que faz – o filme deixa isso absolutamente claro. Lucas adora crianças, as crianças o adoram.

Lucas é uma boa pessoa, uma boa alma.

Mas sobre ele recairá a injustiça perfeita.

Acusar sem provas um inocente é tão hediondo quanto o crime em si

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Klara (interpretada por Annika Wedderkopp, uma criança com um rosto absolutamente angelical, de quem o diretor Vinterberg consegue extrair, sei lá eu como, expressões fantásticas, de medo, insegurança, pavor) é filha de Agnes (Anne Louise Hassing) e Theo (Thomas Bo Larsen), que é o maior amigo de Marcus. Klara gosta muito do grande amigo do pai, que é professor exatamente no jardim de infância que ela frequenta. Muitas vezes os dois caminham juntos entre a casa dela e a escolinha.

Klara tem um irmão mais velho, um adolescente, Thorsten (Sebastian Bull Sarning), que, como todo adolescente, pensa em sexo mais do que em qualquer outra coisa. Klara, bem criança, percebe coisas, sem compreender bem, é claro.

Um dia, na escolinha, no meio de brincadeiras absolutamente inocentes, Klara pula em cima de Lucas, e encosta seus lábios nos lábios dele.

Lucas, muito sério, diz a Klara que ela só deve beijar na boca o pai e a mãe.

Klara se isola dos colegas naquele dia. E, para a diretora da escolinha, Grethe (Susse Wold, na foto acima), que a encontra no final do período sentada no escuro, Klara, tipo cinco anos de idade, loura e linda como um anjo, mente, inventa, cria: diz que Marcus mostrou para ela o seu pau – coisa, o pau, que ela havia visto em foto no telefone celular do irmão adolescente.

A acusação de abuso sexual de criança é coisa séria demais, seriíssima. O crime me abusar sexualmente de uma criança é um dos mais absurdos, mais cruéis que pode haver.

Acusar sem provas um inocente é tão hediondo quanto o crime em si, e é isso que Grethe faz. Grethe chama Lucas para conversar, mas não dá a ele o direito de se defender – ela já prejulgou, já condenou. Afasta-o da escola, comunica aos professores e aos pais que Lucas cometeu o crime de abuso sexual contra Klara.

Quando Agnes, a mãe de Klara, a mulher do melhor amigo de Lucas, conversa com ela, ouve da garotinha a seguinte frase (estamos aí com exatos 52 minutos de filme): – “Ele não fez nada. Fui eu que falei bobagem.”

Agnes, a mãe, ouve a frase, pensa dois segundos, e diz algo tipo: – – – – “Sei, Klara: você quer afastar da sua cabeça essa lembrança ruim”.

É a injustiça perfeita.

Mesmo diante da frase clara, direta, simples, límpida da filha, não passa pela cabeça de Agnes que ela pode estar naquele momento dizendo a verdade. Agnes já tomou a decisão, já deu o veredicto: Lucas, o maior amigo de seu marido, é de fato um tarado, um doente, um louco.

As crianças não falam a verdade o tempo todo. As crianças mentem

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Não creio que Thomas Vinterberg tenha tido conhecimento do caso da Escola de Base, acontecido num país periférico, do quinto mundo. Mas seu filme parece ter se inspirado no caso da Escola de Base.

Mais recentemente, em 2014, houve também na Grande São Paulo um caso de acusação de abuso sexual que teria sido perpetrado por um tio, um professor de uma escola de ricos, se não me engano em Alphaville. Foi uma história polêmica: muitos dos pais saíram em defesa do acusado, mas ele foi mantido preso.

Crianças só falam a verdade? O filme de Vinterberg bota isso em questão. E é óbvio, é claro como água da fonte que criança não fala apenas a verdade. Quem acha que criança fala apenas a verdade jamais chegou perto de uma criança.

O filme de Vinterberg mostra às claras que Klara mentiu, inventou, ficcionou, fugiu da realidade dos fatos. As crianças fazem isso.

O apavorante é que toda aquela comunidade de pessoas ricas, evoluídas, civilizadas, letradas, instruídas, tenham agido como bois no momento do estouro de boiada, tenham quase todos (com raríssimas exceções) julgado e condenado aquele homem até então sempre tão bem

considerado.

O filme pode ser visto, creio, como uma parábola sobre o nazismo

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Estranho: eu não tinha pensado nisso enquanto via o filme, mas pensei agora, ao escrever esta anotação sobre ele. De alguma forma, Vinterberg parece estar falando sobre o nazismo, fazendo uma parábola sobre o nazismo.

Uma das maiores questões da História me parece que é esta: como um povo rico, evoluído, civilizado, letrado, instruído como o alemão pôde, em sua maioria, em sua imensa maioria, apoiar Hitler?

Talvez o filme de Vinterberg queira dizer que há momentos em que as comunidades – mesmo as letradas – agem insensatamente.

Meu, se uma comunidade dinamarquesa consegue ser tão idiota, o que pensar dos povos que habitam os países mais periféricos de toda a periferia?

Um ator extraordinário, uma interpretação impressionante

Boa parte da qualidade deste filme se deve a Mads Mikkelsen, o ator que interpreta Lucas. Mads Mikkelsen tem as características físicas perfeitas para fazer o papel daquele homem bom, de bom coração, que adora crianças, que jamais seria capaz de cometer qualquer tipo de abuso contra uma criança – e de repente se vê acusado pelos antigos amigos, isolado, agredido de todas as formas possíveis e imagináveis.

Mikkelsen é um homem bonito, alto, forte. Mas ele tem um jeito, uma expressão um tanto infantil, de garotão. Ele transmite – através de seu olhar, dos movimentos da boca – inocência, pureza, e um espanto absurdo, amazônico, colossal, diante da acusação que cai sobre seus ombros.

Todo o elenco é afiadíssimo, mas Mads Mikkelsen se sobressai. É uma interpretação magnífica. Ela faz com que o espectador sofra juntamente com o personagem.

A Caça ficou entre os cinco indicados ao Oscar de melhor filme estrangeiro. (Perdeu para o italiano A Grande Beleza.) Ao todo, teve 41 prêmios e outras 53 indicações em festivais ao redor do mundo.

Atenção: spoiler. Quem não viu o filme não deve ler a partir daqui

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Confesso que não compreendi o que Vinterberg quis dizer no final deste belo filme. E aqui vou reveler o final do filme. É spoiler total, colossal.

Depois de passar por todo tipo de tortura, de humilhação, de ser agredido fisicamente, depois de perder seu cachorro de estimação, morto por alguém de sua cidade, Lucas é enfim inocentado do crime que não cometeu por Theo, o pai de Klara. A garotinha repete para o pai o que já havia dito para a mãe, sem que ela acreditasse: “Fui eu que falei besteira. Ele não fez nada” – e então Theo procura Lucas, e eles se reconciliam.

Há então um corte no tempo. Um letreiro avisa que estamos agora um ano depois; Marcus, o filho de Lucas, fez 16 anos e pôde ganhar a autorização para caçar – a caça é um dos passatempos prediletos dos moradores do lugar.

E então, um ano depois, Lucas já vive normalmente com os membros de sua comunidade. Aparentemente, todos se convenceram da inocência dele, e ele foi capaz de perdoar a todos os que o agrediram, insultaram, ofenderam.

É um tanto difícil aceitar essa realidade que o filme mostra em seu finalzinho, mas dá para compreender: Vinterberg está defendendo o perdão, o esquecimento das mágoas do passado. É bonito. É cristão, é budista – é nobre, admirável.

(Cristão: como não notar que os nomes de pai e filho, Lucas e Marcus. são nomes ligados à Bíblia, e que Theo, afinal de contas, é Deus?)

Mas, na última sequência do filme, durante a caça que comemora a maioridade do garoto Marcus, alguém atira na direção de Lucas.

Não pega nele – mas ele se assusta, e aí Vinterberg encerra seu filme.

Como assim: então alguém na comunidade ainda mantém a crença de que Lucas, afinal, abusou das crianças? E fez questão que ele soubesse disso?

Fiquei com a sensação de não ter compreendido o que o realizador quis dizer exatamente.

Mas isso não importa muito, e não diminui as qualidades e a importância deste belo filme.

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Anotação em fevereiro de 2015

A Caça/Jagten

De Thomas Vinterberg, Dinamarca-Suécia, 2012

Com Mads Mikkelsen (Lucas),

e Thomas Bo Larsen (Theo), Annika Wedderkopp (Klara), Lasse Fogelstrøm (Marcus), Susse Wold (Grethe),

Anne Louise Hassing (Agnes), Lars Ranthe (Bruun), Alexandra Rapaport (Nadja), Sebastian Bull Sarning (Torsten), Daniel Engstrup (Johan), Troels Thorsen (Bent)

Argumento e roteiro Tobias Lindholm e Thomas Vinterberg

Fotografia Charlotte Bruus Christensen

Música Nikolaj Egelund

Montagem Janus Billeskov Jansen e Anne Østerud

Produção Danmarks Radio, Det Danske Filminstitut, Eurimages,

Film i Väst. DVD Califórnia Filmes.

Cor, 115 min

***1/2

7 Comentários

  1. Postado em 6 Maio 2015 às 5:25 am | Permalink

    Eu gostei muito desse filme. O que a cena final me fez pensar (mas isso não quer dizer que seja isso que o realizador quis dizer) é que, muitas vezes, não importa a verdade ou os motivos. Que nós, humanos, somos ambíguos e, por vezes, temos prazer na humilhação, no sofrimento do outro. Nem todo mundo que julgou o Lucas e o maltratou o fez pelo motivo alegado. Alguns fizeram pela humilhação em si, pelo sofrimento em si, para causar dor e desassossego. E que por mais que as comunidades sejam instruídas e pacíficas e tal, ainda são constituídas por pessoas, nós, humanos, capazes do mais belos, altruístas e generosos gestos e, ao mesmo, tempo, do seu contrário.

  2. Claudia Maria de Oli
    Postado em 9 Maio 2015 às 1:36 pm | Permalink

    Concordo com a Luciana e também acho que sempre haverá uma desconfiança sobre o protagonista. É como se fosse dado o recado “vc não nos engana, estamos de olho em vc…”…

    Não encontraria melhor jeito de encerrar esse filme. É muito bom. Acho, aliás, que merece nota 4! Rs

  3. Jefferon C. S. Silva
    Postado em 11 Maio 2015 às 12:15 pm | Permalink

    Amigos do 50anosdefilmes,
    O final remete àquela parábola do caluniador que sobe ao topo de uma montanha e rasga um travesseiro de penas, lançando todas as penas ao vento.
    Depois mesmo reconhecendo a calúnia, não se tem mais como recuperar todas as penas e restaurar a originalidade do travesseiro, ou da honra vilipendiada.
    Abraços. Excelente filme. Assisti-o por duas vezes. Para perceber as nuances de como se desenvolve essas falsas acusações, como age os propagadores de calúnias, com um sorriso no rosto e a máscara do altruísmo.

  4. José Luís
    Postado em 14 Maio 2015 às 6:52 pm | Permalink

    Achei o filme muito bom e impressionante. Mads Mikkelsen tem uma interpretação de grande nível. O final também me deixou um tanto perplexo mas penso que Jefferon C. S. Silva tem razão no seu comentário. Ao ver este filme lembrei-me de um outro que vi na TV baseado num caso verídico; aqui fica o endereço da Wikipedia que o descreve: https://en.wikipedia.org/wiki/McMartin_preschool_trial

  5. Patrícia Pantoni
    Postado em 1 junho 2015 às 12:11 pm | Permalink

    Oi, Sérgio! Esse filme é mesmo muito bom! Pensei tb no caso da escola em SP e em como uma vida pode ser mudada simplesmente pelo julgamento de outros. Concordo quando vc fala que a gente sofre com o Lucas, sim , o tempo todo e chega a dar raiva da gracinha loira!!! Penso que o final é isso mesmo q vc achou q é, a ponta da desconfiança que fica… sem provas, nada pra bem, mas muita coisa pra mal, acreditaram só nela! triste…
    abraço

  6. Postado em 17 Janeiro 2017 às 11:12 pm | Permalink

    O filme só demonstra o que é a mente humana:Uma ficção em todo o seu fluxo de condicionamentos.Sendo uma ficção, tudo pode ser inventado.Todos serão vítimas.O que mais me impressionou foi a menina. Trabalho notável de direção sobre sua interpretação.Só isso.O final, cômodo.O cinema chamado moderno adora terminar os filmes assim, pondo uma dúvida no espectador, que fica matutando como o roeirista foi criativo(ou o Diretor),inventando aquela”saída”.

  7. Hugo de Farias
    Postado em 19 Janeiro 2017 às 11:23 pm | Permalink

    O filme faz clara alusão ao Holocausto.

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  1. […] nascida em 1978 na Dinamarca, vem assinando a direção de fotografia de filmes importantes, como A Caça (2012), de Thomas Vinterberg, e Um Limite entre Nós (2016), de Denzel […]

  2. […] com o selo de garantia da BBC Films, um orçamento confortável, a direção segura do dinamarquês Thomas Vinterberg, um ótimo elenco e, nele, uma atriz mais que perfeita para o papel principal – Carey […]

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