3 Corações / 3 Coeurs

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Nota: ★★½☆

Com uma única exceção, tudo é excelente em 3 Corações, um drama de amor que Benoît Jacquot lançou em 2014. Os grandes atores estão maravilhosos, com interpretações primorosas: Benoît Poelvoorde, Charlotte Gainsbourg, Chiara Mastroianni e Catherine Deneuve.

A trilha sonora composta por Bruno Coulais é um espanto. Coulais é um dos grandes compositores de trilhas em atuação hoje, e trabalha demais: tem mais de 170 títulos em sua filmografia. São dele, por exemplo, as extraordinárias trilhas do documentário Migração Alada/Le Peuple Migrateur (2003) e o ótimo A Voz do Coração/Les Choristes (2004).

Para 3 Corações, compôs uma trilha um tanto minimalista, que faz questão de ficar em segundo plano – mas que, ao mesmo tempo, pontua de maneira eficaz e emocionante a ação. Assim, na primeira parte do filme – em que se fala de encontros e desencontros, as peripécias do destino, do acaso –, ouvimos uma melodia suave, acordes tristes ao piano. Na segunda parte – quando a angústia dos personagens centrais vai aumentando –, há frases fortes de violino que acentuam a dor dos protagonistas.

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A narrativa é serena, tranquila, sem criativóis, sem invencionices desnecessárias. A fotografia é perfeita, e a câmara é calma. Há muitos close-ups dos rostos dos principais atores – e é uma maravilha ver as expressões deles ocupando toda a tela. Mas não há exagero de close-ups – é tudo na medida certa.

Achei um tanto surpreendente surgir a voz de um narrador quando o filme já está com 47 de seus 106 minutos. É um narrador externo, uma terceira pessoa – não é um dos personagens. O texto do narrador é belo, a voz também. Ele voltará a pontuar a ação mais umas duas ou três vezes, não mais que isso.

Os personagens criam drama grande demais, fazem tempestade em copo d’água

O único ponto fraco do filme, o único senão, é a trama, a história, o enredo. Bem, foi o que eu senti – e foi também o que Mary sentiu.

Cria-se um drama grande demais quando aqueles pobres personagens poderiam ter resolvido tudo sem tanta dor, sem tanta angústia, sem tanto sofrimento.

A sensação que fica é de que os personagens fizeram uma baita tempestade num copo d’água. Muito barulho por nada.

Tudo bem: coisas assim acontecem de fato na vida. As pessoas se equivocam, erram, pisam em falso, fazem besteira, calam quando deveriam se comunicar, e, como Paul Simon já dizia lá atrás, no início dos anos 60, o silêncio cresce como um câncer.

Mas a sensação que tive foi de que de fato não havia justificativa para tanta dor.

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Um homem e uma mulher passam a madrugada inteira conversando

A narrativa abre com Marc (Benoît Poelvoorde) perdendo o trem – e era o último trem daquela noite saindo da pequena cidade do interior em que ele está em direção a Paris, onde ele mora.

Ele vai então a um belo bar em frente à estação ferroviária que ainda está aberto. Pede uma água. È evidente que não sabe o que fazer, embora a única coisa a fazer fosse procurar um hotel.

Uma mulher entra no bar, pede um Marlboro – é a personagem de Charlotte Gainsbourg, essa moça fascinante, boa atriz, boa cantora. Veremos bem mais tarde que ela se chama Sylvie.

O Marlboro custa 5 euros. O detalhe me impressionou: diacho, como é caro. Sim, cigarro sempre foi caro lá fora – mas 5 euros?

Pouco depois que Sylvie sai do bar, Marc vai atrás, puxa conversa, oferece um cigarro. Ele pergunta por um hotel, não é dali, perdeu o trem. Estão naquele momento diante de um hotelzinho simples. Ela se dispõe a caminhar com ele até uma quadra em que há outras opções de hotel.

Vão conversando, conversando, Marc desiste de hotel, e ficam conversando a noite inteira, caminhando pelas ruas, até o amanhecer.

O espectador não fica sabendo tudo o que eles conversam, é claro. Mas ouve Sylvie dizer que está num momento em que tem que tomar uma decisão, dizer sim ou não.

Por várias vezes vemos Sylvie acender cigarro – para ela e para Marc – com um isqueiro colorido e que muitas vezes não pega, não acende. O detalhe terá grande importância na trama.

Sylvie vai com Marc até a estação ferroviária pela manhã. Só na hora em que ele está subindo no trem resolve sugerir novo encontro; ela diz que poderá ir a Paris; marcam num determinado ponto do Jardin des Tuileries, às 18 horas da sexta-feira seguinte.

Por que raios não trocaram os números dos celulares ao longo das mais de seis horas em que ficaram juntos? Por que não combinaram o encontro dez minutos antes de Marc embarcar no trem?

Ora, essas coisas acontecem, a gente se esquece das coisas óbvias.

Então: não é que seja implausível – mas é um tanto forçação de barra, não é, não?

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Um imprevisto, outro imprevisto, e Marc não chega a tempo ao encontro

O encontro com Marc faz Sylvie tomar a decisão: ela não vai mais se mudar com o marido, Christophe (Patrick Mille), para Minneapolis, Minnesota. Faz as malas e vai para a casa da mãe – o papel de Catherine Deneuve.

Madame Berger (o primeiro nome da mãe não aparece uma vez sequer) e sua outra filha, Sophie (o papel de Chiara Mastroianni), não podem expressar muito abertamente, mas ficam bastante contentes com a decisão de Sylvie. As três trabalham juntas no antiquário que sempre foi da família. Mas, muito mais que isso, Sylvie e Sophie se adoram, são daquele tipo de irmãs amicíssimas uma da outra. Jamais haviam se separado antes.

Na sexta-feira, Sylvie vai a Paris. Chega cedo ao lugar marcado nas Tuileries. Marc se enrola. O espectador vê tudo, acompanha o drama: Marc é agente fiscal, trabalha no equivalente na França à Receita Federal (que lá, pelo que mostra o filme, se chama Finances Publics), e, naquela tarde de sexta-feira, está tentando ouvir o depoimento de dois chineses que não parecem entender patavina alguma de francês. Ele se enrola com essa entrevista; quando finalmente se livra daquilo e pega o carro para ir às Tuileries, tem um desmaio, alguma coisa no coração.

O encontro era às 6 da tarde, Sylvie espera até quase 7 da noite – e aí, claro, vai embora. Marc chega um pouco depois de ela ter ido embora para pegar o trem de volta para sua cidadezinha.

Na viagem de volta, ela decide ir com o marido para Minneapolis, Minnesota.

Passa-se o tempo. E então acontece de, em nova viagem àquela pequena cidade do interior, Marc ficar conhecendo Sophie.

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Apaixonam-se. Sophie abandona o namorado na casa de quem vivia fazia tempo, muda-se de volta para a casa da mãe. Durante algum tempo, Marc trabalha em Paris e passa todos os fins de semana na cidade de Sophie. Quando o filme já está com uns 45 minutos, ele anuncia para Sophie e sua mãe que pediu sua transferência de Paris para aquela cidade.

É claro que Marc não tem a mínima idéia de que Sophie é irmã de Sylvie, a moça com quem passou uma noite conversando e por quem tinha se apaixonado. Assim como Sophie não tem idéia de que Marc é exatamente o homem que tinha provocado um profundo impacto na irmã – mas que não havia aparecido no encontro marcado no Jardin des Tuileries.

O espectador, ao contrário dos personagens, sabe de tudo, o tempo todo. E, naturalmente, pode imaginar ao menos parte do que virá depois disso.

O autor e diretor Benoît Jacquot disse que se inspirou em John M. Stahl

Propositadamente, o filme não fala em momento algum o nome da cidade em que a maior parte da ação se passa. É aquela forma de dizer que não importa qual é a cidade – é uma pequena cidade do interior, uma qualquer, igual a tantas outras.

Fica na região de Rhône-Alpes, no Sudeste francês, próximo à Suíça – isso dá para saber, porque o governo de Rhône-Alpes deu apoio à produção do filme, e também porque é uma região montanhosa, belíssima.

O AlloCiné, o site enciclopédico que tem tudo sobre os filmes franceses, conta que a cidade em que foram feitas as filmagens é Valence, às margens do Rio Rhône – em português, Ródano. Uma calma cidade de uns 60 mil habitantes.

zztrois6O diretor Benoît Jacquot, ele também co-autor do argumento e do roteiro, diz, segundo o AlloCiné, ter se inspirado nos filmes de John M. Stahl (1886-1950), o autor de clássicos melodramas como Imitação da Vida (1934), Sublime Obsessão (1935), As Chaves do Reino (1944), Amar Foi Minha Ruína (1945).

Stahl é uma boa fonte de inspiração. Não é à toa que dois de seus filmes, Imitação da Vida e Sublime Obsessão, tenham sido refeitos mais tarde por Douglas Sirk, o realizador que ficaria conhecido como o grande mestre do melodrama.

Jacquot, veterano realizador, nascido em 1947, mais de 40 títulos na filmografia, fez diversos filmes de época e com mulheres como personagem principal. O belo Adeus, Minha Rainha/Les Adieux à la Reine, de 2012, é apenas um exemplo recente dessa característica dos filmes de Jacquot: nele se contam quatro dias na vida da rainha Maria Antonieta, justamente os dias após a queda da Bastilha, o início da Revolução Francesa, vistos pelos olhos de uma mulher do povo, uma empregada da corte. A rainha é interpretada por Diane Kruger, e a protagonista, Sidonie, pela bela e jovem Léa Seydoux.

Léa Seydoux foi a atriz inicialmente escolhida para interpretar Sophie. E Marion Cotillard deveria ficar com o papel de Sylvie. As duas foram eventualmente substituídas por respectivamente por Chiara Mastroianni e Charlotte Gainsbourg.

O fato de essas duas atrizes não terem sido a primeira escolha não as desmerece, de forma alguma. Elas estão excepcionais, as duas, como essas tristes irmãs que vêm a se apaixonar pelo mesmo homem.

E é interessante pensar que são, essas duas ótimas atrizes, filhas de casais dourados, especiais, excepcionais – Charlotte, de Serge Gainsbourg e Jane Birkin, e Chiara, de Marcello Mastroianni e Catherine Deneuve.

Benoît Jacquot se demonstra, mais uma vez, um excepcional diretor de atores. Prova também que pode dominar, com facilidade, quando quiser, as histórias passadas hoje em dia.

Não fez aqui um grande filme – mas é um filme belo, sensível, maduro, feito para adultos. É preciso agradecer a ele.

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Anotação em julho de 2015

3 Corações/3 Coeurs

De Benoît Jacquot, França-Alemanha-Bélgica, 2014

Com Benoît Poelvoorde (Marc Beaulieu), Charlotte Gainsbourg (Sylvie Berger), Chiara Mastroianni (Sophie Berger), Catherine Deneuve (Madame Berger)

e André Marcon (Castang, o prefeito), Patrick Mille (Christophe, o marido de Sylvie), Cédric Vieira (o namorado de Sophie), Thomas Doret (Gabriel),

Argumento e roteiro de Julien Boivent e Benoît Jacquot

Fotografia Julien Hirsch

Música Bruno Coulais

Montagem Julia Gregory

Produção Rectangle Productions, Wild Bunch, Pandora Filmproduktion, Scope Pictures, Arte France Cinéma, WDR / Arte, Rhône-Alpes Cinéma.

Cor, 106 min

**1/2

2 Comentários

  1. Jussara
    Postado em 20 novembro 2015 às 12:55 pm | Permalink

    Vi esse filme com uma expectativa alta, pois pela sinopse parecia ser um filmão. Mas que nada. O roteiro é fraco, os personagens são desinteressantes, tristes, apáticos até. Ninguém sorri. Catherine Deneuve num papel que é quase uma ponta, um personagem indefinido. A história tinha tudo pra ser um bom drama, mas caiu num dramalhão estilo mexicano. E o ator nem galã é.

    O trio de atores principais é bom, mas a faixa etária não bate com os papéis. Ficou meio forçado.
    E por falar em forçar, uma situação parecida de não trocar telefone ou e-mail, já aconteceu comigo. Estávamos num lugar sem acesso à internet, então só trocamos nomes no ‘livro das faces’, mas sem anotar não deu muito certo… No meu caso não era um interesse amoroso. Ainda assim foi bem chato não ter podido manter contato. Então não achei forçada a história do filme. Mas o fato de ela não ter falado o nome é mais do que implausível.
    Marcar de se reencontrar em cima da hora da despedida sem trocar telefone ou endereço me lembrou “Antes do Amanhecer” (pelo menos nesse eles sabiam os nomes um do outro).

    Se Jacquot se inspirou mesmo em Stahl, se inspirou muito mal; este pelo menos fazia um melodrama com personagens ricos e interessantes, diferentes dos desse filminho chato (detestei a covardia dos personagens: passar metade do tempo desde a descoberta evitando uma conversa, para depois ficar se agarrando escondido, como dois adolescentes? Fala sério!).
    A trilha sonora é excelente mesmo, mas causa muito mais suspense do que a história tem a oferecer.

  2. Daniel Gawas
    Postado em 19 fevereiro 2017 às 1:06 am | Permalink

    Se você não tem hábito de ler, principalmente os grandes autores, não conseguirá nunca gostar de Filmes francese e Europeus em geral, pois assistir a estes filme é como ler um livro.
    Ninguém questiona o nacionalismo exacerbado, ou as distorções históricas feitas pelos roteiristas de Hollywood, mas todos vibram com as explosões alheias que surgem a cada minuto de filme rodado. Enquanto isso os filmes europeus valorizam um roteiro forte que levam a reflexão dos temas propostos, o que gera desconforto na platéia apática dos filmes hollywoodianos. O telespectador dos filmes americanos não quer pensar, questionar ou contestar, isso cansa.

    Quero reiterar aqui, que quem não tem ou nunca teve o hábito da leitura, jamais vai gostar de verdade de qualquer coisa nessa vida.

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