Uma Garrafa no Mar de Gaza / Une Bouteille à la Mer

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Nota: ★★★½

Uma Garrafa no Mar de Gaza, co-produção França-Canadá-Israel de 2011, é uma absoluta maravilha. É belo, esplêndido, nos aspectos formais todos, mas, além disso, é daquelas obras necessárias, daquelas que é preciso haver para que caiamos na desesperada certeza de que a humanidade foi uma invenção que não deu certo.

Vem se juntar a uma nobre estirpe de filmes sobre o mesmo tema: Lemmon Tree, A Noiva Síria, A Banda, E Agora, Aonde Vamos?, Ó Jerusalém, Valsa com Bashir.

O tema é o eterno conflito entre árabes e judeus no pedaço de chão em que surgiram três das maiores religiões do planeta. Ou, para usar a frase do compositor americano Steve Earle, a incapacidade milenar, que vigora até hoje, e às vezes parece mais feroz que nunca, de os filhos de Abraão deixarem de lado suas espadas em Jerusalém.

Para os falcões de todas as linhagens e ideologias, os crentes da Lei do Talião, aquela do olho por olho, dente por dente, e os cínicos de maneira geral, Uma Garrafa no Mar de Gaza pode e até deve parecer ingênuo, naïf,  tolo.

Por uma dessas coincidências da vida, vimos o filme no mesmo dia em que um grande estadista publicou um artigo em que dizia o seguinte: “Sei que se trata de um grito um tanto ingênuo, pedir grandeza. (…)  Ainda assim, sem um pouco de quixotismo, nada muda.”

Para os defensores do ódio e os cínicos, sem dúvida Uma Garrafa do Mar de Gaza parecerá quixotesco.

Ainda bem que alguns ainda acreditam que o quixotismo é necessário.

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Desde o início fica claro: é um filme feito com talento

Um filme pode defender bons valores e ao mesmo tempo ser pobre, mal feito. Pode ser bom de idéias e de realização fraca.

Por isso, repeti para Mary, antes de começarmos a ver o filme, a mesma regra de sempre que a rigor nem precisaria ser lembrada: “Se for chato, ou ruim, a gente pára”.

Com cinco minutos, tínhamos a certeza clara: é um bom filme.

Pode parecer estranho, ou talvez pretensioso, dizer isso, mas a verdade é que, depois de mais de meio século vendo filmes, e vendo muitos filmes, para mim é muito fácil definir, nos primeiros cinco, dez minutos, se uma obra foi feita com talento ou não.

Jamais tinha ouvido falar do diretor e co-autor do argumento e do roteiro Thierry Binisti, mas, com cinco minutos de Uma Garrafa no Mar de Gaza já estava muito claro: não é apenas um filme cheio de boas intenções. É um bom filme.

Uma abertura com elementos aparentemente soltos. Só aparentemente

Abre com créditos iniciais, letras brancas sobre fundo negro. Vemos os nomes das empresas produtoras, das instituições oficiais de França, Canadá e Israel que deram apoio à produção, e em seguida os nomes dos atores – só um deles me parece conhecido, o da maravilhosíssima atriz palestina Hiam Abbas.

Enquanto a tela ainda está negra, com as palavras em branco, ouvimos ruídos – conversas, várias vozes, vários ruídos. Seguramente um lugar público, um bar, um café.

E então o ruído de uma bomba, uma explosão.

Em letras brancas sobre o fundo negro, a informação: “Jerusalém, 2007”.

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E então surge a primeira imagem: uma jovem adormecida. A câmara a focaliza de trás, faz um pequeno movimento da esquerda para a direita, aproxima-se da cabeça da moça, vista de trás. Ruídos de ambulância – a moça leva a mão ao ouvido, o ruído some.

Prosseguem os créditos iniciais, enquanto agora vemos uma praia, um jipe militar que chega à praia. Desce um soldado. Ele tira uma garrafa da bolsa e a lança com força, com muita força, ao mar.

Uma tomada da garrafa no mar, e terminam os créditos iniciais com o nome do filme, Une Boutaille à la Mer.

Message in a bottle. Isso já deu música do Police, já deu uma novela do meloso fazedor de best-sellers Nicholas Sparks, em seguida transformada em filme de 1999 com diretor assim-assim, Luis Mandoki, e elenco de primeira, Kevin Costner no auge da fama, Robin Wright que já foi Robin Wright-Penn, mais Paul Newman.

Dará agora início a um belíssimo filme sobre uma das mais milenares provas de que a humanidade bem que parece uma invenção que, infelizmente, não deu certo.

“Se você encontrar esta garrafa, me responda. Me fale de você, por favor”

Logo após as tomadas do belíssimo mar (e eu me perguntava como podia ser tão cheio de ondas, no Oriente Médio, o Mediterrâneo que normalmente é tão pacífico), vemos três amigos caminhando por um lugar pobre, quase favelento. Gaza – o filme mostrará bastante – é um lugar favelento.

Um grupo de jovens palestinos de Gaza fuma e conversa fiado diante do mar.

Um deles leva uma bolada na cara. Puto da vida, pega a bola, e, para desespero do garotinho que vem procurá-la, dá um baita bicão e a remete para o mar. Furioso, enfezado, o garotinho que jogou a bola na cara do jovem e agora a perdeu tenta brigar com o mais velho. Vê uma garrafa na areia da praia, agarra-a, tenta usá-la como arma, mas o rapaz mais velho é, obviamente, mais safo, e toma dele a garrafa. E dá-lhe um cascudo na bunda, que é para o garotinho ir procurar sua turma.

Aí ele olha para a garrafa e vê que há um papel dentro dela.

A turma dos garotões aí de cerca de 20 anos brinca com a garrafa, que passa de uma mão para a outra.

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Um tempinho depois, o grupo de marmanjos pára com a brincadeira e resolve ver o que está escrito no papel.

Está em inglês. Um dos garotões – veremos depois que se chama Efrat (Riff Cohen) assume a tarefa de ler e traduzir. Um outro garotão se aproxima, vai também ajudar na tradução. Só algum tempinho depois o espectador verá que ele se chama Naïm (o papel de Mahmoud Shalabi), e será um dos dois protagonistas da história.

Enquanto os garotões de Gaza lêem em voz alta a carta, num inglês hesitante, entra uma voz adolescente em francês, e revemos então aquela garotinha da sequência anterior. É a outra protagonista da história, Tal (interpretada por Agathe Bonitzer). Os garotões palestinos somem da tela, vemos a adolescente Tal caminhando por ruas de Jerusalém, enquanto ela recita o que diz em sua carta colocada na garrafa.

Achei que merecia o trabalho de degravar. É óbvio que vale.

“Olá. Meu nome é Tal Lavine. Vou fazer 17 anos e vivo em Jerusalém. Ontem à noite, explodiram um café perto de casa. Entre os mortos tinha uma garota um pouco mais velha que eu. Ela se casaria hoje. Em vez disso, ela e o pai serão enterrados hoje. Não entendo como a vida pode depender de se estar num café. Alguns se habituam. Dizem que os atentados são como os acidentes – uma questão de sorte. Ou morre ou perde a vez. Eu me pergunto como alguém pode levar explosivos no corpo, escolher um lugar e observar suas vítimas, sabendo que vai morrer. Por que razão? A cada bomba ou míssil em Sderot, você escuta: ‘Malditos palestinos!” Ou até mesmo: ‘Morte a todos eles”. Os palestinos, quem são? Se você encontrar esta garrafa, me responda para o e-mail bottle@newaccess.com. Diga-me onde a encontrou, quem você é. Me fale de você, por favor. Tal.”

Estamos neste momento com exatos 6 minutos e 39 segundos de filme. Um filme que já se provou bom.

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Veremos, mais tarde, que Tal, a garotinha de quase 17 anos, nasceu nos arredores de Paris; os pais, judeus franceses, resolveram emigrar para Israel, com seus filhos, Tal, a caçula, e Eytan (Abraham Belaga), o primogênito, que, naquele 2007 em que começa a ação, está servindo seus três anos obrigatórios de exército. É Eytan que lança a garrafa com a carta de Tal ao mar.

Veremos também, ao longo da narrativa, que os pais do palestino Naïm haviam passado um tempo na Europa; prezam o estudo, incentivaram Naïm a aprender inglês. Ambos trabalhavam em hospital; quatro anos antes do tempo atual, o pai de Naïm havia morrido. A mãe, Intessar, mulher que o filme nos mostra como tão fantástica quanto a atriz que a representa, a gigante Hiam Abbbas, é enfermeira, gostaria que o filho tivesse uma vida melhor, incentiva-o a dar duro, estudar, aprender.

O interesse em saber o que pensa, como vive alguém do outro lado

“Diga-me quem é você, me fale de você”, diz a carta da adolescente judia para algum interlocutor palestino do lado oposto do mundo, na Faixa de Gaza, que o filme se preocupa em mostrar que fica a menos de 80 quilômetros de Jersulalém. Meu Deus, 80 quilômetros! É menos que a distância entre São Paulo e Campinas – mas é outro mundo, é o mundo do inimigo, é como se fosse em Marte, em Júpiter.

“Diga-me quem é você, me fale de você”, diz a jovem judia na carta que pede ao irmão que arremesse numa garrafa para cair numa praia de Gaza.

Não pensei nisso na hora, enquanto via o filme – até porque, enquanto via o filme, me sentia emocionado pela história, e não pensava em mais nada –, mas, depois que ele terminou, e enquanto fazia esta anotação aqui, me lembrei do que me parece ser a frase chave de Fahrenheit 451, o filme de François Truffaut a partir da história de Ray Bradbury: “Do you ever read the books you burn?”

Para quem não se lembra: no futuro terrível imaginado por Bradbury, a palavra escrita havia sido proibida. Não havia mais incêndios, e então os bombeiros se dedicavam apenas e tão somente a queimar os livros que ainda restavam.

E então uma subversiva, amante de livros, por quem se está apaixonando o até então rigoroso, corretíssimo bombeiro-queimador-de-livros que é o protagonista da história, faz a pergunta a ele: alguma vez você lê os livros que queima?

A curiosidade. A vontade de saber como é o mundo que você não compreende

Fahrenheit 451 é ficção científica pura: mostra um mundo que poderia talvez existir no futuro. Uma Garrafa no Mar de Gaza é um filme realista: mostra o mundo tal como ele existe hoje, como sempre existiu, há milhares de anos – mas ousa lançar sobre a realidade dos fatos um olhar… Como dizer isso? Esperançoso. Otimista, talvez.

Quem sabe algum dia eles percebam que desse jeito não dá? Quem sabe talvez um dia eles percebam que a relação custo-benefício poderia ser muitíssimo melhor sem um bombardear o outro? Afinal, são todos filhos de Abraão: se em vez de guerrear fizermos uma joint-venture para atrair o turismo do mundo inteiro, e até dos aliens que virão no futuro, não ganharíamos uma imensidão de dinheirinha?

Alguma vez você lê os livros que queima? Diga-me quem é você, me fale de você.

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Ah, que maravilha, a curiosidade. A vontade de saber como é o mundo que você não compreende.

A partir daí a escritora Valérie Zenatti, nascida em 1970, em Nice, construiu sua história, essa espécie assim de Romeu e Julieta passada entre Jerusalém e a Faixa de Gaza. O livro, Une Bouteille dans la Mer de Gaza, sua oitava obra, foi publicado em 2005. A própria Valérie Zenatti escreveu o roteiro juntamente com Thierry Binisti, que dirigiu o filme – foi o segundo longa dirigido por ele.

Vejo que Thierry Binisti nasceu em Créteil, nos arredores de Paris – no filme, a garotinha Tal conta para o palestino Naïm que nasceu em Créteil.

“Apredi o condicional. É um tempo indispensável para os palestinos.”

 O filme – realizado com o apoio, entre outras instituições, do Israel Film Fund – seguramente não deve ter agradado à direita israelense, aos que se opõem às tentativas de acordo com os palestinos. Uma Garrafa no Mar de Gaza não é um filme pró-palestinos – nem pró-Israel. É a favor do entendimento, da compreensão, da aceitação mútua. Mostra a barbárie perpetrada pelos dois lados. Mas mostra, com muita firmeza, como Israel nos últimos anos transformou a Faixa de Gaza numa imensa prisão, cercada por aquele grotesco, nojento, ofensivo muro altíssimo – um muro tão vergonhoso quanto o que os comunistas construíram para cercar o setor oriental de Berlim durante a Guerra Fria.

A autora Valérie Zenatti assina os diálogos do filme (os franceses dão tremenda importância à autoria dos diálogos). Há diversos trechos de grande beleza, nas falas dos personagens. Uma delas, em especial, é brilhante. Vem quando, a partir dos contatos via internet com a garota Tal, Naïm decide estudar francês.

Ah, a curiosidade, a vontade de aprender… Isso que distingue nossa raça dos demais animais que povoam a casca do planeta. Que permite que as pessoas se livrem da miséria, da marginalidade, como bem mostra outra nobre estirpe de filmes, como Lila Diz…, Entre os Muros da Prisão, Stella.

E então o palestino Naïm escreve para a judia Tal:

– “Eu também gostaria de ver você. Se conseguisse sair de Gaza, seria um milagre. Está vendo? Aprendi o condicional. É um tempo indispensável para os palestinos.”

Meu Deus do céu e também da terra!

É. Enquanto houver filmes como este, não dá para ter a certeza de que a humanidade é uma invenção que não deu certo.

Anotação em maio de 2014   

Uma Garrafa no Mar de Gaza/Une Bouteille à la Mer

De Thierry Binisti, França-Canadá-Israel, 2012

Com Agathe Bonitzer (Tal Levine), Mahmoud Shalabi (Naïm Al Fardjouki)

e Hiam Abbass (Intessar, a mãe de Naïm), Riff Cohen (Efrat), Abraham Belaga (Eytan Levine), Jean-Philippe Écoffey (Dan Levine), Smadi Wolfman (Myriam), Salim Daw (Ahmed), Loai Nofi (Hakim), François Loriquet (Thomas Morin, o professor de francês)

Argumento e roteiro Thierry Binisti e Valérie Zenatti

Fotografia Laurent Brunet

Música Benoît Charest

Montagem Jean-Paul Husson

Produção TS Productions, EMA Films, Lama Films, France 3 Cinéma, Canal+, France Télévision, com apoio de instituições oficiais da França, Canadá e Israel. DVD Europa Filmes.

Cor, 100 min

***1/2

Um Trackback

  1. […] de origem árabe, e um único nome mais conhecido no circuito internacional, o da excepcional Hiam Abbass, Amreeka, que Cherien Dabis escreveu e dirigiu, passou em Cannes, na mostra paralela Quinzena dos […]

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