Um Convidado Bem Trapalhão / The Party

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Nota: ★★★☆

Um Convidado Bem Trapalhão, no original The Party, é um daqueles filmes que se sustentam por causa da interpretação do ator principal. Sem Peter Sellers, o filme não existiria. Ou, se existisse, se tivesse sido feito com algum outro ator, não teria a mesma qualidade.

Tudo, absolutamente tudo gira em torno do personagem de Peter Sellers – um personagem criado exclusivamente para ele.

zzparty3Blake Edwards e seus dois co-roteiristas, Tom Waldman e Frank Waldman, escreveram tudo para Peter Sellers brilhar.

E ele não se faz de rogado: ele brilha. Em cada tomada em que aparece – e ele aparece na maior parte das tomadas do filme -, Peter Sellers brilha.

Ele interpreta um ator indiano, Hrundi V. Bakshi, contratado para trabalhar em uma produção hollywoodiana passada na Índia. Nas sequências iniciais, ele inferniza a vida de todos os envolvidos na produção do filme, cometendo os maiores desatinos. Em um desses desatinos, provoca um prejuízo bilionário ao estúdio. A sequência é absolutamente hilariante e, embora aconteça quando o filme está apenas com uns 5 minutos, descrevê-la seria um spoiler. Ao rever o filme agora, sabendo, portanto da história, me peguei gargalhando ao ver a cena do desatino maior.

O personagem central é mais trapalhão que Didi, Dedé, Mussum e Zacarias juntos

Do local de filmagem, numa área afastada, bem longe de Hollywood, o pessoal da produção liga para o chefão do estúdio, Fred Clutterbuck (J. Edward McKinley), para informá-lo sobre a catástrofe. Possesso, enfurecido – com carradas de razão –, Clutterbuck pede para soletrarem o nome do grande trapalhão, e anota o nome em um dos vários papéis em cima de sua mesa de trabalho. Jura que aquele tal Hrundi V. Bakshi jamais voltará a ter emprego em Hollywood.

Levanta-se da cadeira, prepara-se para deixar sua sala. Entra sua secretária, perguntando sobre a lista de convidados para a grande festa que a sra. Clutterbuck (Fay McKenzie) vai dar no fim de semana. O chefão diz para a secretária achar a lista no meio da papelada espalhada sobre a grande mesa.

Claro, óbvio: Clutterbuck havia anotado o nome do trapalhão, o louco varrido que tinha causado o prejuízo milionário no papel com a lista de convidados para a festa em sua casa!

E pronto: quando estamos com exatos dez minutos de filme, Hrundi V. Bakshi está chegando à mansão dos Clutterbuck para a festa.

zzparty4Hrundi V. Bakshi é mais trapalhão que Didi, Dedé, Mussum e Zacarias juntos. Mais trapalhão que qualquer personagem interpretado por Jerry Lewis. Mais trapalhão que o Inspetor Clouseau, o personagem criado pelo mesmo Blake Edwars e imortalizado – contra sua vontade – por Peter Sellers.

Bakshi vai fazer, na festa que tinha tudo para ser fina, elegante, o mesmo estrago que um elefante provocaria numa loja de porcelana.

É tanto estrago que, lá pelas tantas, depois de rir muito, comecei a ter pena dos pobres coitados de Fred e Alice Clutterbuck.

Mais de um elefante no meio da loja de porcelana

É bem verdade que Bakshi não está sozinho na tarefa de arruinar a festa. Há um outro personagem engraçadíssimo na história, um dos vários garçons, que a cada copo de bebida que serve para um convidado sorve ele mesmo um outro copo. Rapidamente ficará bêbado, trêbado, e agirá, ele também, como um elefante numa loja de porcelana.

Não consegui identificar o nome do ator que faz esse garçom bêbado. Uma pena, porque o cara é ótimo.

zzparty6Aliás, lá pelas tantas, o garçom bêbado e uma convidada bêbada ficarão frente à frente, uma garrafa de Smirnoff entre eles. No meio dessa comédia escrachada, doida, hilariante, não pude deixar de me lembrar do filme que Blake Edwards havia feito apenas seis anos antes, Vício Maldito/Days of Wine and Roses, um dos dramas mais sérios sobre alcoolismo que o cinema criou.

Citei duas vezes a coisa do elefante em loja de porcelana. Não foi à toa. Lá pelas tantas, um elefante de verdade irrompe na festa da pobre Alice Clutterbuck.

Às vezes dá a impressão de que, ao escrever o roteiro, Blake Edwards e seus colaboradores Tom Waldman e Frank Waldman foram aumentando o tom, acelerando a voltagem das piadas. O filme vai num crescendo alucinante de loucuras.

Algumas piadas se repetem, um espectador mais mal-humorado poderá argumentar. E é verdade: há, sim, piadas que se repetem.

O filme espelha perfeitamente a sua época, e tem vários toques hippies

Um Convidado Bem Trapalhão é de 1968, e espelha perfeitamente o seu tempo, a sua época. Não poderia faltar um toque hippie num filme feito e passado na Hollywood de 1968, e há, sim, toques hippies, e também referências aos constantes e diários protestos (não se especifica que são contra a guerra do Vietnã porque não era necessário).

O elefante que adentra a mansão – o de quatro patas, especificamente – vem dentro dessa atmosfera hippie. A cítara que o personagem de Peter Sellers toca em casa, no momento em que chega o convite para a festa, também.

zzparty7Todo filme precisa ter um female interest, como se diz em Hollywood – uma personagem feminina, para tornar as coisas mais interessantes.

O female interest de Um Convidado Trapalhão é uma jovem atriz e cantora francesa, bela, mignonzinha, charmosa, uma deliciosa gracinha, Claudine Longet.

Claudine Longet interpreta Michele Monet, um personagem feito à sua imagem e semelhança. Michele é uma jovem cantora e aspirante a atriz francesa recém-chegada a Hollywood, em busca de um lugar ao sol. Ela é levada à festa por um diretor que trabalha para o estúdio de Clutterbuck, Divot (Gavin MacLeod). Esse Divot está dando a maior força para que Michele tenha uma oportunidade, faça um teste, ganhe algum papel em um filme. Naturalmente, não faz isso porque é bonzinho, e sim porque quer comer a francesa gracinha.

Michele, aquele anjinho, vai simpatizar com o indiano trapalhão.

Claudine Longet, absoluta gracinha, enfretou uma tragédia e saiu de cena cedo

Em uma hora lá, Divot consegue convencer Clutterbuck a reunir os convidados para ouvir a francesinha cantar uma canção, acompanhando-se ao violão. E aí o espectador ganha uma canja – com sua vozinha pequetita que nem minha netinha, pequetita mas linda, agradável, graciosa, Michele-Claudine Longet canta “Nothing to lose”, letra de Don Black, música de Henry Mancini, compositor das trilhas de diversos dos filmes de Blake Edwards, inclusive as comédias da série A Pantera Cor-de-Rosa, o já citado Vício Maldito e o amargo thriller Escravas do Medo/Experiment in Terror.

“Nothing to lose” é uma autêntica bossa nova, que se adapta com perfeição à voz pequetita e de forte sotaque francês de Claudine Longet, que canta no estilo banquinho e violão.

Um Convidado Bem Trapalhão foi o primeiro longa-metragem de cinema da carreira de Claudine Longet – e, a rigor, um dos dois únicos. Sua filmografia, iniciada em 1963 e encerrada em 1975, contém 20 títulos – 18 deles de séries e/ou filmes feitos para a TV.

zzparty5Teve razoável sucesso como cantora: gravou sete discos (tenho quase todos), com canções de Donovan, Jagger-Richards, Lennon-McCartney, John Lennon, Paul McCartney, George Harrison, Leonard Cohen, Kris Kristofferson, Neil Young, Burt Bacharach, Tom Jobim.

Nascida em Paris, em 1942, mudou-se para os Estados Unidos aos 19 anos; em 1961, casou-se com o cantor Andy Williams, então no auge da fama e com um programa de TV de grande audiência.

Em 1976, houve uma tragédia absurda na vida pessoal dessa jovem tão absolutamente doce: seu namorado, Spider Sabich, um campeão de esqui, morreu baleado por um tiro de sua pistola Luger, na casa do casal, em Aspen, Colorado. Só os dois estavam em casa na hora. Houve rumores de que Claudine Longet havia assassinado o amante a sangue frio. Ela sempre alegou que foi um tiro acidental – e, ao fim de um julgamento que atraiu as atenções de toda a imprensa, foi condenada apenas por negligência, e cumpriu 30 dias de cadeia.

Não voltaria a atuar nem a cantar em público. Tornou-se absolutamente reclusa.

“Peter Sellers interpreta o indiano desastrado perversamente bem”

Leonard Maltin dá 3 estrelas em 4 para The Party: “Gags divertidas animam este filme frouxamente estruturado sobre uma festa elegante de Hollywood à qual comparece um desastrado ator indiano (Sellers). Não se segura direito até o finalzinho, mas tem algumas sequências memoráveis.”

zzparty8Pauline Kael escreveu: “A maioria desta farsa-pastelão de Blake Edwards mostra como o indiano inocentemente destrói a festa, e é muito longa para suas piadas de uma nota só, muitas vezes óbvias demais para ser realmente divertidas. Mas tem um tom agradável, embora, à medida que prossegue, as gags não tenham qualquer ligação particular com a personagem patética e enlouquecedora interpretada perversamente bem por Sellers.”

Às vezes Dame Pauline Kael me aborrece. Aqui fez uma frase perfeita: Peter Sellers interpreta o indiano desastrado perversamente bem.

O filme já valeria só por ele – e pela graça, pelo encanto de Claudine Longet, essa moça de carreira tão curta.

Anotação em maio de 2014

Um Convidado Bem Trapalhão/The Party

De Blake Edwards, EUA, 1968

Com Peter Sellers (Hrundi V. Bakshi), Claudine Longet (Michele Monet)

e Marge Champion (Rosalind Dunphy), Sharron Kimberly (Princesa Helena), Denny Miller (Wyoming Bill Kelso), Gavin MacLeod (C.S. Divot), Buddy Lester (Davey Kane), Corinne Cole (Janice Kane), J. Edward McKinley (Fred Clutterbuck), Fay McKenzie (Alice Clutterbuck), Kathe Green (Molly Clutterbuck), Carol Wayne (June Warren)

Roteiro Blake Edwards, Tom Waldman e Frank Waldman

Baseado em história de Blake Edwards

Fotografia Lucien Ballard

Música Henry Mancini

Montgem Ralph E. Winters

Produção The Mirisch Corporation. DVD MGM.

Cor, 99 min

R, ***

 

3 Comentários

  1. Heitor
    Postado em 18 agosto 2014 às 9:21 am | Permalink

    Olha só, não digo que eu precisava achar site?
    Vi esse com meu pai há muuuuuuito tempo, no Rio ainda, fedelho ainda. Adorei, lembro de quase tudo. Quem comenta esse tipo de coisa hoje em dia? Só você.

  2. mario.silva
    Postado em 30 setembro 2014 às 2:26 am | Permalink

    Este filme é hilariante. Foi assim quando o
    assisti no cinema e continuo a gargalhar cada vez que o assisto. Uma das maiores comédias-pastelão de todos os tempos. Peter Sellers deve tudo a Blake Edwards, pq somente esse
    diretor conseguiu fazer com que brilhasse.
    Em tempo: acho Claudine Longet meio sem gracinha e, certamente, não é um mulherão de fazer babar, como é tradição nas atrizes francesas, Brigitte, Catherine Deneuve, Françoise Dorleac, Danielle Darrieux, Michelle Morgan, Irene Jacob, Isabelle Adjani, Carole Bouquet, Miou-Miou, Isabelle Hupert, Juliette Binoche, etc etc.

  3. Sérgio Vaz
    Postado em 30 setembro 2014 às 1:27 pm | Permalink

    Hêhê… É, de fato a Claudine Longet não é um mulherão. Parece mignonzinha. Daquelas que dá vontade de a gente botar no colo…
    Um abraço, Mario!
    Sérgio

Um Trackback

  1. […] um monte de grandes nomes. Audrey Hepburn, para começar, é claro. O grande Blake Edwards, diretor por quem tenho o maior respeito. Truman Capote, o autor da noveleta que deu origem ao […]

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