Trem Noturno para Lisboa / Night Train to Lisbon

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Nota: ★½☆☆

O livro é um sucesso extraordinário. A sexta edição brasileira, da Editora Record, de 2010, trazia na capa o aviso: mais de 2 milhões de exemplares vendidos no mundo. Um número impressionante para um romance filosófico, como foi chamado.

Lançado em 2004, Nachtzug Nach Lissabon foi traduzido para 15 línguas e vendido em mais de 30 países. O autor, Peter Bieri, que usa o pseudônimo de Pascal Mercier, é um suíço de Berna, de língua mãe alemã, que hoje dá aulas de Filosofia em Berlim.

O filme, lançado em 2013, é uma co-produção Alemanha-Suíça-Portugal, dirigida pelo dinamarquês Bille August, duas vezes premiado com a Palma de Ouro em Cannes, por Pelle, o Conquistador, de 1987, e As Melhores Intenções, este último com roteiro de Ingmar Bergman, sobre a história dos pais do genial realizador sueco.

Um sujeito que é escolhido por Ingmar Bergman para realizar um filme sobre a vida de seus pais, com base em roteiro de sua autoria – pode haver melhor cartão de visitas?

zznighrt2O elenco é uma quase inacreditável reunião de talentos das mais diversas nacionalidades. Jeremy Irons. Mélanie Laurent. Charlotte Rampling. Martina Gedeck, Lena Olin, Bruno Ganz, Tom Courtenay, Christopher Lee.

E o filme ainda traz Jack Huston, garotão nascido em Londres em 1982, da quarta geração dos Huston: ele é sobrinho de Anjelica e Danny Huston, neto de John Huston, bisneto de Walter Huston.

Pois é. Tudo isso: livro de sucesso, diretor de renome, um elenco de dar água na boca. E, no entanto, me pareceu um filme fraco – se não pura e simplesmente ruim.

No livro, um começo surpreendente, espetacular, cinematográfico

É louco: o romance começa de forma espetacular, cinematográfica. É daquelas aberturas de romance que ficam na nossa memória para sempre, como a de Cem Anos de Solidão. Aí vai, na tradução assinada por Kristina Michahelles:

“O dia a partir do qual nada mais continuaria como antes na vida de Raimund Gregorius começou como outro qualquer. Às quinze para as oito, vindo da Bundesterrasse, entrou na ponte de Kirchenfeld, que liga o centro da cidade ao liceu. Era o que fazia todos os dias úteis durante o período letivo,  e sempre chegava à ponte precisamente às quinze para as oito. Quando, certa vez, a encontrou fechada, ele cometeu um erro na aula de grego. Nunca isso acontecera antes, e nunca mais haveria de acontecer. A escola inteira só falou desse lapso durante dias e dias. Quanto mais durava a discussão, maior era o número dos que se convenciam de que aquilo fora fruto de um erro acústico. Finalmente, essa versão acabou se impondo também entre os alunos que haviam testemunhado o erro. Era simplesmente impensável que Mundus, como era conhecido, pudesse cometer um erro em grego, latim ou hebraico.”

No primeiro parágrafo de seu livro, Peter Bieri-Pascal Mercier pinta os traços básicos do protagonista de sua história. Um professor de línguas clássicas perfeccionista, muito respeitado na escola, de hábitos extremamente regulares – logo, um sujeito muitíssimo inteligente e muitíssimo rigoroso, previsível, apegado à rotina, nada propenso a aventuras.

A cidade é Berna, a cidade natal do escritor, ele próprio um professor.

“Gregorius olhou em frente, para as torres esguias do Museu Histórico da cidade de Berna, para cima, onde ficava a montanha, e para baixo, para o rio Aar, com suas águas verdes como as geleiras. Um vento forte empurrou as nuvens baixas e virou o seu guarda-chuva do avesso, enquanto a chuva lhe dava chicotadas no rosto. Foi então que ele notou a mulher no meio da ponte. Tinha apoiado os cotovelos no parapeito e, sob a chuva torrencial, lia algo que parecia ser uma carta.”

É nesse segundo parágrafo, que é longo, que Gregorius percebe que a mulher (na foto acima) está para saltar da ponte. Ele se aproxima dela para tentar impedir o suicídio, sua pasta cai, os cadernos se espalham no chão molhado.

zznight2Na oitava página do livro, o professor que sempre fazia as mesmas coisas, que nunca tinha feito um movimento surpreendente ao longo de décadas, abandona sua sala de aula, e sai para as ruas à procura da mulher que havia encontrado na ponte.

Encontrará, numa livraria espanhola, um livro (fictício, é claro) de capa amarelada, de autoria de um Amadeu Inácio de Almeida Prado, intitulado Um Ourives das Palavras, publicado em Lisboa, em 1975.

Compra o livro. Não sabe português, mas compra uma caixa com lições da língua em livro e discos; como é professor de grego, latim e hebraico, aprenderá a ler e a falar a última flor do Lácio inculta e bela com facilidade.

Embarca no trem noturno para Lisboa do título no final do capítulo 3, na página 38.

No filme, fica implausível a mudança na vida do protagonista

Um começo no mínimo fascinante, não?

Um encontro por absoluto acaso com uma mulher, uma portuguesa, que parecia que iria se matar saltando de uma ponte no centro de Berna, e depois um livro, mudam inteiramente a vida de um professor até então metódico, organizado, pontual, que jamais havia feito nada imprevisível, surpreendente. Jogam de pernas para o alto toda uma vida.

Um diretor calejado, um elenco formidável, o grande Jeremy Irons no papel do protagonista, uma história que parte de um princípio espetacular – então, o que é que deu errado? Por que não funcionou (ao menos na minha opinião) a transposição para o cinema?

zznight3Não li o livro inteiro; não passei da página 100 – são 460. Confesso, não sem alguma vergonha, que o romance me cansou, em especial por causa dos longos trechos do livro dentro do livro, o tal Um Ourives das Palavras, que teria sido escrito pelo português Amadeu (e, é óbvio, é também obra de Peter Bieri-Pascal Mercier).

A prosa de Trem Noturno para Lisboa é fascinante; já o texto do livro dentro do livro é um papo-cabeça descomunal, uma papagaida de filosofia de botequim que pode agradar a muita gente, mas a mim pareceu intragável.

Então, com base apenas nas cerca de cem páginas que li, eu diria que, no livro, as ações de Raimund Gregorius se tornam compreensíveis. Porque, no texto, o autor penetra na cabeça do personagem, explica seu passado, explica suas sensações, seus sentimentos, suas vontades. Cada gesto, cada pequena ação dele entre o encontro com a jovem portuguesa na ponte e a entrada dele no trem noturno para Lisboa, tudo vai sendo destrinchado, esquadrinhado. E a decisão inopidada, repentina, de mudar completamente o rumo de sua vida se torna explicável, compreensível, plausível.

No filme, tudo aquilo, apresentado bem rapidamente, nos primeiros minutos, fica parecendo simplesmente improvável, absurdo, sem sentido.

Encontrei um texto na internet que expõe exatamente o que senti ao ver o filme. É assinado por João Marcos Flores, e foi publicado no site Cineviews:

zznight4“Por mais entediante que a vida do professor suíço Raimund Gregorius (Irons) possa parecer no início deste Trem Noturno para Lisboa – seu “tempo livre” se resume a madrugadas inteiras jogando xadrez contra si próprio em um apartamento claustrofóbico, abarrotado de livros mofados e mergulhado em uma fotografia acinzentada e opressiva –, é difícil acreditar que o sujeito se interessaria de tal forma pela história do livro encontrado no bolso de uma jovem suicida que cruza o seu caminho (Bühlmann) a ponto de pegar o primeiro trem para Lisboa e mergulhar em um intenso e extensivo trabalho de reconstrução da vida de seu falecido autor. Caso suas pesquisas em Portugal revelassem na trajetória de vida do ex-médico e militante Amadeu uma trama minimamente envolvente, porém, tal improbabilidade até poderia ser perdoada. O problema é que os longos flashbacks que percorrem a narrativa preferem usar um interessante contexto político como mero plano de fundo para um dramalhão aborrecido e protagonizado por Jack Huston (neto do lendário diretor de Relíquia Macabra, O Tesouro de Sierra Madre e Uma Aventura na África) com antipatia ímpar.”

O recém-chegado consegue localizar em Lisboa todas as pessoas chave da história

Concordo com quase todas as palavras de João Marcos Flores – só acho que o contexto político também é mal colocado no filme.

Logo após chegar a Lisboa, Gregorius consegue, por uma sorte inexplicável, incompreensível, entrar em contato com várias pessoas que haviam sido próximas de Amadeu Inácio de Almeida Prado, o autor do livro Um Ourives das Palavras. Encontra-se com a irmã dele, Adriana (na pele da extraordinária Charlotte Rampling). Depois, com um dos grandes amigos dele, João Eça (interpretado por Tom Courtenay, que tenho revisto com alguma frequência, depois de hiato de décadas), que, por uma fantástica coincidência, é tio da oculista que Gregorius consulta após ter seus óculos fundo de garrafa quebrados num choque com um rapaz que descia de bicicleta a toda uma ladeira de Lisboa. A oculista, Mariana, é interpretada pela excelente atriz alemã Martina Gedeck.

zznight5Logo depois, Gregorius conhece o outro grande amigo de Amadeu, Jorge (o papel do alemão Bruno Ganz, esse extraordinário ator).

Através dessas pessoas, Gregorius vai conhecendo as histórias envolvendo Amadeu e um grupo de lutadores contra a ditadura salazarista – que são chamados, no filme, de resistência, como se fosse a resistência francesa ao nazismo. João Eça e Jorge eram da “resistência” – e Jorge, o maior amigo de Amadeu, amigo irmão, era amante de uma das personalidades mais fascinantes do movimento, Estefânia. Claro que o jovem Amadeu (interpretado, como já foi dito no texto de João Marcos Flores, por Jack Huston) cairá de amores por Estefânia, a mulher do seu maior amigo.

Mesmo quando conversam entre si, os portugueses falam em inglês! 

Todos esses personagens portugueses falam… em inglês!

No livro, o suíço de fala alemã professor de línguas clássicas aprende português.

No filme, todo mundo fala em inglês, e estamos conversados.

O suíço de fala alemã bate a campainha na casa dos Almeida Prado, e a criada Clothilde (Jane Thorne) fala no idioma de Shakespeare, não no de Camões. A jovem Clodilde (Ana Lúcia Palminha) também falava como se fala em Hollywood, não em Lisboa.

Os personagens todos, quando jovens, ali por volta de 1972, crepúsculo da ditadura de Salazar, falam entre si em inglês. Talvez acreditassem que assim os homens da infame Pide, o Dops/Operação Bandeirantes deles, não os compreenderiam.

zznight6Mary, que não tem nada, mas nada, nada, de idiota da objetividade, ao contrário de mim, comentou, após o final do filme, que aquela coisa de os portugueses falarem em inglês a havia irritado. “Tive uma irritação à la Sérgio Vaz”.

Claro, essa questão é complexa. Cinema é indústria, tem que dar lucro. O inglês é o idioma preponderante no mundo. Os Estados Unidos e o Canadá são o maior mercado mundial de consumidores de filmes – e a imensa maioria dos americanos detesta ter que ler subtitles.  Co-produção Alemanha-Suíça-Portugal, Trem Noturno para Lisboa cedeu às regras do mercado.

Afinal de contas, faz quase cem anos que todos os tipos de povos falam inglês no cinema. Russos, chineses, japoneses, brasileiros, mexicanos, húngaros, drusos, judeus, gregos e romanos da antiguidade, todos eles falaram em perfeito inglês nos filmes feitos em Hollywood.

Humm… É verdade. Só que, depois dos anos 70, 80, o cinema avançou um pouco em direção a algo mais próximo da verdade dos fatos.

Kevin Coster teve a ousadia de botar os índios falando não em inglês, e sim em sua própria língua em Dança com Lobos (1990). Forçou os americanos a lerem legendas – e ainda assim ganhou um bando de Oscars.

Hoje, 2014, ouvir portugueses falando em inglês é simplesmente preguiçoso, tolo, ridículo. Que tivessem feito duas versões – uma para os americanos monoglotas, outra para o resto do mundo, em que as pessoas falam sua própria língua.

Se isso irritou Mary, imagine como é absurdo!

Mas há a beleza estrondosa de Mélanie Laurent, de Lena Olin e de Lisboa…

zznight8João Marcos Flores falou de “um interessante contexto político como mero pano de fundo para um dramalhão aborrecido”.

O dramalhão me pareceu bobo, de fato. E o contexto político – os anos finais da ditadura salazarista – poderia ter sido usado numa história interessante, mas achei que o filme retrata a situação política de maneira simplória, infantil, distante de qualquer verossimilhança.

Simplificando um pouco, o que achei foi o seguinte: o filme transforma o que viria a ser a Revolução dos Cravos de 25 de abril de 1974 em uma aventura estudantil.

Sabe aquela coisa de gente que não conhece uma determinada cultura e se põe a falar de uma realidade diferente da sua? O americano John Frankenheimer fez um filme sobre Chico Mendes – Amazônia em Chamas/The Burning Season, 1994 – que me pareceu bom, mas ele é uma exceção. Em geral, quando gringos tentam falar da realidade de países abaixo do Rio Grande se dão muito mal. O grande John Ford deu com os burros n’água ao falar da guerra dos revolucionários mexicanos contra os padres e o catolicismo de uma maneira geral em Domínio de Bárbaros/The Fugitive, 1947. No Tempo das Borboletas, co-produção EUA-México sobre a ditadura de Trujilo na República Dominicana, também padece desse mal – são filmes falando de uma cultura que seus autores não conhecem, não compreendem.

zznight99Não sei como o livro se encaminha a partir da página 100. Mas sei que o filme transforma a trama numa coisa boba. É uma tentativa troncha, deselegante, boboca, de, pela trilhonésima vez, chegar perto do clima de Casablanca. Só que entre o amor de Ilsa Lund e Rick Blaine e o de Amadeu e Estefânia há uma distância de uns trocentos Grand Canyons, alguns zilhões de anos-luz.

Isso assim apesar de Estefania aparecer na pele de duas atrizes belíssimas, estonteantemente maravilhosas – a francesa Mélanie Laurent quando jovem, e a sueca Lena Olin quando mais velha.

Há isso, é bem verdade, no filme. Ao longo de seus 111 minutos de cinema fraco, ruim, vemos a beleza estrondosa, acachapante, de Mélanie Laurent, de Lena Olin e de Lisboa.

A beleza Mélanie Laurent, de Lena Olin e da capital de Portugal é a melhor coisa de Trem Noturno para Lisboa.

Anotação em outubro de 2014

Trem Noturno para Lisboa/Night Train to Lisbon

De Bille August, Alemanha-Suíça-Portugal, 2013

Com Jeremy Irons (Raimund Gregorius),

e Mélanie Laurent (Estefania jovem), Jack Huston (Amadeu), Martina Gedeck (Mariana), Tom Courtenay (João Eca velho), August Diehl (Jorge O’Kelly jovem), Bruno Ganz (Jorge O’Kelly velho), Lena Olin (Estefania mais velha), Marco D’Almeida (João Eça jovem), Charlotte Rampling (Adriana mais velha),  Beatriz Batarda (Adriana jovem), Christopher Lee (padre Bartolomeu velho), Burghart Klaußner (juiz Prado, o pai de Amadeu), Adriano Luz (Mendez, “o carrasco de Lisboa), Sarah Bühlmann (Catarina Mendez, a neta do “carrasco de Lisboa”), Filipe Vargas (padre Bartolomeu jovem), Jane Thorne (a empregada Clotilde velha), Ana Lúcia Palminha (jovem Clotilde)

Roteiro Greg Latter e Ulrich Herrmann

Baseado no livro de Peter Bieri, que usa o pseudônimo de Pascal Mercier

Fotografia Filip Zumbrunn

Música Annette Focks

Montagem Hansjörg Weißbrich

Produção Studio Hamburg Filmproduktion, C-Films AG, PalmStar Entertainment, Efish Entertainment. DVD Europa Filmes.

Cor, 111 min

*1/2

Um Comentário

  1. Maria Teresa
    Postado em 26 dezembro 2014 às 5:07 pm | Permalink

    Achei o filme cansativo… Lá pela metade eu ansiava por vê-lo terminar. Achei os personagens bem blasé, talvez por isso o fato dos portugueses falarem indiscriminadamente o inglês também tenha me irritado bastante. Enfim, um filme para ser esquecido.

    Ps.: Sérgio, se você e a Mary puderem não deixem de conhecer Lisboa(se é que já não conhecem) que delícia de cidade, ficar de frente para o Rio Tejo é uma experiência inesquecível, começar umas sardinhas assadas no Bairro da Alfama… umas alheiras acompanhadas de uma boa cerveja …. Abraços.

2 Trackbacks

  1. Por 50 Anos de Filmes » 45 Anos / 45 Years em 25 fevereiro 2016 às 3:01 pm

    […] ter dois atores esplendorosos. Como é um filme inglês, 45 Anos tem dois atores esplendorosos – Charlotte Rampling e Tom Courteney. Por isso, é um belo, sensível […]

  2. […] country paquistanesa em Wild West (1992), uma chilena vítima de estupro na adaptação feita por Bille August da novela de Isabel Allende A Casa dos Espíritos (1993) e uma mãe lésbica em Fresh Kill (1994). […]

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