Tese sobre um Homicídio / Tesis sobre um Homicidio

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Nota: ★★★½

Uma beleza de thriller, este Tese sobre um Homicídio, segundo longa-metragem do jovem diretor argentino Hernán Golfrid, mais um dos tantos e tantos bons filmes protagonizados pelo incansável e sempre bom Ricardo Darín.

É um daqueles thrillers cerebrais, lógicos, e nada hard-boiled, mais próximos de Sherlock Holmes ou Hercule Poirot do que dos detetives que sofrem, apanham, levam porrada, tipo Sam Spade e Philip Marlowe.

O personagem principal, Roberto Bermúdez, interpretado, claro, por Darín, não é um detetive, e sim um ex-advogado criminal, que se transformou num especialista em criminologia, e dá cursos de pós-graduação na Faculdade de Direito de Buenos Aires. Nunca foi propriamente detetive, é agora um acadêmico – mas adora uma investigação policial, é bom nisso, é extremamente seguro de si, de sua capacidade de – após décadas de estudo, de acompanhamento de casos – deduzir, intuir, farejar, saber quais poderão ser os próximos passos de um assassino.

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Embora seja muito mais cerebral, mais intelectual que Spade e Marlowe, Roberto tem no entanto alguns pontos em comum com os detetives criados por Dashiell Hammett e Raymond Chandler. Para começo de conversa, bebe demais, mas demais da conta. Não que seja um alcoólatra do tipo que começa a beber pela manhã; é do tipo menos óbvio, que trabalha normalmente durante o dia, mas à noite enche a cara com doses industriais de uísque. Tem insônia, dorme pouco; às vezes liga de madrugada, no meio da madrugada, para a ex-mulher, Mónica (Mara Bestelli). Mônica, uma psiquiatra, está agora casada com um juiz de instrução criminal, Alfredo Hernández (Arturo Puig), o qual terá também participação importante na trama.

Como é um sujeito bonitão, charmoso, elegante (os argentinos costumam se considerar ingleses), respeitadíssimo pelos alunos, às vezes tem um caso com uma ex-aluna. Mas é sobretudo um sujeito solitário, um tanto angustiado, e obsessivo.

Na abertura, o protagonista acorda na sala revirada após um porre homérico

O filme se baseia numa novela homônima, a primeira das quatro escritas por um jovem autor argentino, Diego Paszkowski, nascido em Buenos Aires em 1966. O livro, lançado em 1998, foi o ganhador do prêmio La Nación na categoria novela, teve boa vendagem na Argentina e foi traduzido para o francês, o italiano e o português, segundo a Wikipedia em espanhol.

O roteirista Patricio Vega usou o que chamo de narrativa laço: o filme abre com uma seqüência acontecida bem perto do desfecho da história, e logo em seguida volta no tempo.

Na primeira seqüência, vemos Roberto Bermúdez-Ricardo Darín começando a acordar no sofá da sala de seu belo apartamento. Tem uma das mãos enfaixadas, por causa de algum corte, e é visível que está acordando depois de um porre homérico. A grande sala tem papéis e livros espalhados por todo o chão, como se alguém tivesse revirado tudo à procura de alguma coisa difícil de achar.

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A câmara do realizador Hernán Golfrid e seu diretor de fotografia Rolo Pulpeiro é, nesta seqüência inicial (e voltará a ser em várias outras ao longo do filme), extremamente estilosa. A câmara passeia pelos objetos em ultra big close-ups, às vezes perdendo – muito propositadamente – o foco. Parece coisa de diretor que veio do cinema publicitário, e nessa afirmação não vai crítica alguma – é só para definir o estilo de tomadas cuidadosamente planejadas, muitas vezes abusando de pequenos detalhes, e com movimentos inesperados.

Corta, e vem o longo flashback que ocupará praticamente todos os 106 minutos de bom cinema do filme; a narrativa só bem no finalzinho voltará àquele momento em que Roberto acorda após um porre homérico na sala completamente revirada.

Quando voltamos atrás no tempo, Roberto está treinando boxe num clube, ou academia. O sparring é um colega dele na faculdade. Após o treino, e o banho, enquanto se arrumam e saem juntos, conversam. O diálogo é saboroso, inteligente. Quando falam da carreira na faculdade, um deles diz: – “Aos 30 anos, trabalha-se por um cargo. Aos 40, por dinheiro. Aos 50, por prestígio.”

“Posso lhe dar um conselho? Transe o máximo que puder”

Na seqüência seguinte, Roberto está fazendo o discurso inaugural de um novo curso de pós-graduação para advogados que atuarão na área criminal. Serão oito semanas de aula, e ele avisa seus alunos que o curso não será fácil. Mais que um aviso, é uma advertência, uma ameaça: os estudantes terão 2.500 páginas de leitura obrigatória, mais de 3.000 outras de leitura complementar.

Um dos alunos inscritos para o curso chega atrasado, e leva uma bronca de Roberto. Após a aula, aquele mesmo aluno espera pelo professor à saída da sala. Conhecem-se faz tempo: Gonzalo Ruiz Cordera (Alberto Ammann, na foto abaixo) é filho de um casal de amigos de Roberto, de uma cidade do interior. Veremos mais tarde que a amizade entre Roberto e os pais Gonzalo havia sido bem íntima; veremos também que desde garoto Gonzalo tem imensa admiração por Roberto.

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Poucos dias depois, Gonzalo vai ao lançamento de um livro de Roberto, A Estrutura da Justiça. É um garotão alto, com um jeito óbvio de quem se tem em altíssima conta; esteve fora do país um tempo, na Espanha. Ali na livraria, relata para o professor uma tese:

– “O maior ardil das sociedades modernas é nos fazer crer que o legal é justo. O problema é que as leis e o conceito de Justiça são estabelecidos por um grupo de pessoas interessado apenas em manter seu poder. O que digo é: posso matar uma borboleta, e isso não é ilegal. Agora, se a borboleta for da coleção de um milionário, posso ser preso. Não é o ato em si que é julgado. A lei não nos protege. A lei só intervém se o ato aberrante ameaça a vontade dos poderosos.”

Se o aluno tem admiração faz anos pelo professor, é visível que o professor não vai com a cara do aluno. Roberto acha Gonzalo presunçoso, metido a besta. E, ali, no lançamento do livro, está interessado mesmo é em reencontrar uma antiga aluna que já o havia cumprimentado logo antes, e que ele levaria para a cama naquela noite.

Assim, a resposta que Roberto dá, sem esconder um ar de enfado, de desdém, é: – “Eu teria ao menos 20 argumentos para refutar isso, mas posso lhe dar um conselho? Transe o máximo que puder. O resto virá normalmente.”

Naquela mesma noite, enquanto a jovem ex-aluna dorme pelada na cama de Roberto, ele, insone e com copo na mão, ligará para Mónica, a ex-mulher – às 3 e meia da madrugada.

Um assassinato com extremos requintes de crueldade

Na semana seguinte, exatamente no meio da aula de Roberto para aquela turma de pós-graduandos, ruídos altos do lado de fora do prédio da faculdade despertarão a atenção de todos. No pátio externo, bem diante da sala em que Roberto dá sua aula, a polícia acabava de encontrar o corpo de uma jovem assassinada. Não dá para continuar a aula; descem todos. Velho conhecido do vice-comissário que chefia a primeira investigação, Roberto tem autorização para entrar na área já cercada pela polícia.

Estamos aí com exatos 15 minutos do filme.

Naquela noite, Roberto enche a cara em casa pensando no crime. No dia seguinte, vai fazer uma visita na Polícia a seu velho conhecido, o vice-comissário. Fica sabendo que a moça, Valéria Di Natale, foi assassinada com requintes de crueldade, depois de ser espancada, violentada e cortada a faca em várias partes do corpo. O assassino injetou formol no corpo, o que torna dificílimo estabelecer a hora exata do crime. Valéria trabalhava como garçonete no bar bem em frente à Faculdade de Direito.

Por acaso, naquela visita à delegacia, Roberto fica conhecendo a irmã mais jovem da vítima, Maria Laura di Natale (interpretada por Calu Rivero, na foto abaixo).

Outro acaso: o juiz de instrução que acompanhará o caso é exatamente Alfredo Hernández, o marido de Mónica, a ex-mulher.

Atenção: embora não se revele o fim da trama, o que vem a seguir pode ser spoiler

zztese6Não tem sentido avançar mais no relato do que acontece na história, mas creio não ser propriamente um spoiler falar do cerne da trama: Roberto passará a crer que o crime foi cometido por seu aluno e admirador Gonzalo. De propósito, como um desafio – para que o professor investigue e descubra o autor do crime.

A grande questão é: Roberto está certo? Ou não?

Nos diálogos, é mencionado mais de duas vezes que, no passado, ele já cometeu um grande erro de avaliação, envolvendo um caso específico. É bem possível que no livro fique claro que caso foi esse, mas o filme deixa claro o essencial: com toda sua experiência, sua expertise, Roberto já cometeu um grande erro. Pode perfeitamente estar cometendo mais um.

O filme faz lembrar Festim Diabólico/Rope, o clássico de Hitchcock

É bem possível que o jovem autor Diego Paszkowski tenha visto várias vezes o grande clássico Rope, no Brasil Festim Diabólico, que Alfred Hitchcock lançou em 1948. O roteiro de Rope se inspirou em um caso real acontecido em 1924, em Chicago: dois estudantes da Faculdade de Direito da Universidade de Chicago, Leopold e Richard Loeb, assassinaram um garoto de 14 anos, na tentativa de provar que pode existir um crime perefeito. O caso pavoroso, que ficou conhecido como “Leopold and Loeb” daria origem a um outro filme importante, Estranha Compulsão/Compulsion, de Richard Fleischer, com uma magnífica interpretação de Orson Welles como o promotor do caso.

Lembro de Rope e do caso real Leopold and Loeb para argumentar para mim mesmo que esse tipo de crime de fato existe – crime cerebral, criado por mentes seguramente doentias, mas bem dotadas intelectualmente.

E digo que argumento isso para mim mesmo porque este filme tão estupidamente bem realizado me deixou com sensações conflitantes. Sim, por um lado a trama é cerebral demais, tudo é lógico demais, perfeito demais. Mais perto da ficção que da vida real. Mas, por outro, é isso aí que o caso Leopold and Loeb prova: existe, sim, o crime cerebral, frio, bem planejado, bem executado.

Por ser a trama assim tão bem montada, com todos os detalhes se encaixando como peças de um quebra-cabeças, e também pelo fato de a ação se passar no ambiente acadêmico, Tese sobre um Homicídio me fez lembrar, além de Festim Diabólico/Rope, de Enigmas de um Crime/The Oxford Murders, de Alex de la Iglesia.

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Há outras características em comum entre The Oxford Murders e este Tese sobre um Homicídio: os dois têm participações de espanhóis, são co-produções com participação da Espanha. E os são estupidamente bem realizados, em todos os quesitos técnicos. Os dois excedem nos cuidados com o visual, nos movimentos extraordinários de câmara. São cinema de gente grande, de primeiríssimo mundo.

Não é possível evitar: dá inveja.

Tese sobre um Homicídio teve grande sucesso de público na Argentina. Chegou aos 500 mil espectadores, o que é um número extraordinário, se levarmos em conta que a população da Argentina é próxima à do Estado de São Paulo, apenas, e umas cinco vezes menor que a do Brasil. Aqui, pouquíssimos filmes chegam a 2 milhões de espectadores – e os que chegam são comédias leves, agradáveis, que falam para grandes audiências. E este aqui é um drama pesado.

Merecido sucesso. Tese sobre um Homicídio é um belo filme.

Anotação em janeiro de 2014

Tese sobre um Homicídio/Tesis sobre um Homicidio

De Hernán Golfrid, Argentina-Espanha, 2013.

Com Ricardo Darín (Roberto Bermúdez), Alberto Ammann (Gonzalo Ruiz Cordera), Calu Rivero (Laura Di Natale), Arturo Puig (Alfredo Hernández), Fabián Arenillas (Máuregui), Mara Bestelli (Mônica)

Roteiro Patricio Vega

Baseado na novela de Diego Paszkowski

Fotografia Rolo Pulpeiro

Música Sergio Moure

Montagem Pablo Barbieri Carrera

No DVD. Produção Burman Dubcovsky Cine, Haddock Films, Instituto Nacional de Cine y Artes Audiovisuales (INCAA), Telefe, Tornasol Films. DVD Califórnia Filmes.

Cor, 106 min

***1/2

3 Comentários

  1. Jussara
    Postado em 30 março 2014 às 1:14 am | Permalink

    Eu gosto de cinema argentino, de thriller e do Darín (não necessariamente nessa ordem) mas não gostei desse filme. Não que seja ruim, é muito bem feito, mas não gostei da história nem da forma como foi contada, me deixou com uma sensação estranha (talvez pelo fato que você citou: o de ser um crime cerebral – isso me dá calafrios). Mas também não gosto quando uma pessoa está certa, e todas as outras lhe viram as costas, a chamam de louca…
    Achei os atores que fazem a Laura e o Gonzalo muito fracos, foi triste aguentar os dois.
    E o Darín podia ter perdido um pouco daquela barriga pra fazer um homem que treina boxe, hein?!
    E o que foi o Roberto querendo “pegar” a tal da Laura? Peloamor, já não bastavam as alunas com quem ele saía? Ainda bem que ela não quis, ia ficar MUITO estranho.
    Ok, os hermanos sabem fazer filme, mas esse não me agradou.

  2. Patrícia Pantoni
    Postado em 26 outubro 2014 às 9:37 am | Permalink

    olá, Sérgio!
    Assisti a esse filme logo após ter visto 12 homens e uma sentença (único 5 estrelas do Telecine!) e os detalhes, tão importantes para a definição de uma sentença, mencionados em 12 homens tb se menciona neste: é nos detalhes que as personagens dos 2 filmes se apegam, coisas que passam desapercebidas para muitos. Gosto de tramas assim, assisto Criminal minds repetidas vezes, tenho mania de ver várias vezes filmes e séries de que gosto muito (rsrsrs) Esse é um dos filmes que gostaria de rever… pra atentar-me aos detalhes.
    abraço

  3. Deise
    Postado em 12 janeiro 2016 às 12:55 pm | Permalink

    Estava lendo os comentários sobre este filme no site filmow e me surpreendeu que muitas pessoas chamavam de fraco um filme tão bom quanto esse! A maior das queixas era contra o final em aberto, o que não não costuma me incomodar. Sendo assim, foi muito bom vir aqui e ler uma crítica que faz jus a qualidade deste filme. Obrigada!

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  1. […] nível. As interpretações são excelentes – e é muito impressionante constatar que, além de Ricardo Darín, todos os atores não estão nos diversos outros filmes argentinos que tenho visto. Ou seja: los […]

  2. […] episódio número 3, Ricardo Darín está sentado no banco de uma bela praça cheia de verde. Segura na mão o celular e de vez em […]

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