Refém da Paixão / Labor Day

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Nota: ★★★½

Labor Day, no Brasil Refém da Paixão, quinto filme desse garoto prodígio Jason Reitman, é muito, muito, muito bom. Um belo filme, caloroso, sensível, que sabe trafegar com elegância entre o previsível e o surpreendente.

Mas a sensação mais forte que me ficou, ao terminar de vê-lo, foi: meu Deus do céu e também da terra, ver Kate Winslet numa tela é uma das grandes felicidades da vida.

Poucos dias antes de vermos este Refém da Paixão, tínhamos revisto Almas Gêmeas/Heavenly Creatures, que o neo-zelandês Peter Jackson lançou em 1994, portanto 20 anos atrás, quando Kate Winslet tinha 19 anos, um rostinho de garotinha de uns 15 e já demonstrava um talento descomunal. Neste período de 20 anos, virou estrela com o mega-sucesso Titanic (1997), de James Cameron, teve o bom senso de escolher bons papéis com diretores de prestígio – Ang Lee, Michael Winterbottom, Kenneth Branagh, Philip Kaufman, Michel Gondry, Alan Parker, Stephen Daldry, Roman Polanski, Todd Haynes, Steven Soderbergh, Sam Mendes (com quem foi casada de 2001 a 2010, e a quem deu um filho). E amealhou 67 prêmios (inclusive um Oscar), fora 80 outras indicações.

Kate Winslet ainda é muito jovem, só em 2015 completará 40 anos. Mas eu ousaria dizer que ela já é uma das atrizes mais importantes do cinema, assim num patamar de Katharine Hepburn, Jane Fonda, Meryl Streep, Jeanne Moreau, Ingrid Bergman, Catherine Deneuve, Sophia Loren.

LABOR DAY

Infelizmente, há alguns filmes dessa atriz fabulosa que ainda não vi, ou sobre os quais não escrevi; gostaria de ver todos, gostaria que todos estivessem neste site. Mas alguns de seus filmes já estão aqui:

Razão e Sensibilidade, de Ang Lee, 1995;

Paixão Proibida, de Michael Winterbottom, 1996;

A Vida de David Gale, de Alan Parker, 2003;

Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças, de Michel Gondry, 2004;

O Amor Não Tira Férias, de Nancy Meyers, 2006;

Um Louco Apaixonado, de Robert B. Weide, 2008;

Foi Apenas um Sonho, de Sam Mendes, 2008;

O Leitor, de Stephen Daldry, 2008;

Contágio, de Steven Soderbergh, 2011;

Mildred Pierce, de Todd Haynes, 2011;

Deus da Carnificina, de Roman Polanski, 2011.

Um mulher sofriada, angustiada, permanentemente em tensão

Em Refém da Paixão – um misto de thriller, drama familiar e romance, com uma pitada forte de amor pela culinária -, Kate Winslet interpreta Adele, uma mulher sofrida, angustiada, permanentemente tensa. A história é narrada por Henry (Gattlin Griffith, na foto abaixo), o único filho dela, um jovem adolescente de uns 13 anos. O texto que ele fala, ao longo de toda a narrativa, é belíssimo, caprichado, escrito com inteligência e sensibilidade.

Aos poucos, o espectador vai percebendo que Adele sofre de um tipo de agorafobia, aquela doença que impede as pessoas de sair de casa, enfrentar o mundo lá fora, conviver normalmente com as pessoas. A palavra agorafobia não é mencionada, mas ao longo da narrativa mostra-se que Adele tem absoluto pavor de sair de sua casa, situada na periferia de uma pequena cidade de New Hampshire, praticamente na área rural – portanto lugar de sólida classe média. Só consegue sair – e sempre acompanhada de Henry – quando é obrigada a fazer as compras no supermercado mais próximo, e sofre tremendamente nessas ocasiões; tem que fazer um gigantesco esforço para entrar no carro e dar a partida.

LABOR DAY

Adele foi abandonada pelo marido, Gerald (Clark Gregg), que se casou de novo, com sua secretária, que já tinha um filho de seu primeiro casamento e teve outra filha com o novo marido. Assim, Henry, filho único por parte de mãe, passou a ter uma meia-irmã e um irmão torto. Gerald vê o filho toda semana, aos domingos. No início da narrativa, sugere a Henry que passe a viver com ele e a atual mulher, já que, aparentemente, sua mãe está cada vez pior.

A proposta não é feita por maldade: Gerald não parece ser um mau caráter, um safado; é apenas um sujeito fraco, que não aguentou a barra de viver com uma mulher em crise. Está pensando no bem estar do filho – embora, com uma eventual mudança de Henry, Adele fosse ser deixada sozinha, abandonada pelo único apoio que tem na vida.

Mas Henry, garoto extremamente sensível, recusa a oferta do pai. Ao contrário de Gerald, que não aguentou conviver com a abalada Adele, Henry tem plena consciência de que a mãe precisa dele – e ele se esforça para fazer tudo para que a mãe tenha um mínimo de alegria e conforto. Faz, por exemplo, diversas das tarefas de casa que Adele, perdida em sua amargura, negligencia.

Só bem no final da narrativa saberemos exatamente o que levou Adele a ficar tão psicologicamente perturbada.

Um homem condenado por assassinato irrompe na vida de Adele e Henry

Adiantei aqui informações que o filme, repito, vai mostrando aos poucos. Mas nada disso chega a ser um spoiler, e boa parte dos dados é mostrada logo no início dos 111 minutos de duração. Ainda não temos 5 minutos de filme quando a voz em off do narrador da história diz:

– “Não acho que perder meu pai partiu o coração da minha mãe, mas a faz perder o próprio amor. Mesmo com aquela idade, eu entendia isso, e queria dar um jeito de ajudá-la.”

E é antes dos 10 minutos de narrativa que surge o terceiro principal personagem da história, juntamente com Adele e Henry. Mãe e filho estão exatamente no supermercado, fazendo a compra mensal, Henry um pouco afastado dela, vendo as revistas num canto, quando um desconhecido se aproxima do garoto. Está ferido, manca de uma perna; diz a Henry que precisa da ajuda dele e de sua mãe – quer uma carona. Garoto de boa índole, prestativo, Henry o leva para junto de Adele. Ela, evidentemente, rejeita a possibilidade de dar carona a um total desconhecido. Mas este – veremos que ele se chama Frank (o papel de Josh Brolin, nas fotos abaixo) – segura o pescoço de Henry e diz que Adele terá que ajudá-lo.

LABOR DAY

Mesmo apavorada, em absoluto pânico, Adele sai do supermercado com o homem que ameaça seu único filho.

Frank diz que precisará ficar um dia na casa de Adele e Henry, para se recuperar dos ferimentos. E não demora muito para explicar que fugiu da prisão. Na verdade, fugiu do hospital para onde foi levado com uma crise de apendicite: aproveitou-se de um momento de descuido do policial que o acompanhava, pulou da janela do segundo andar, machucou a perna na queda e conseguiu esconder-se no supermercado.

O noticiário da TV informará que Frank, condenado por homicídio, é procurado em toda a região. A Adele e Henry, Frank informa que jamais agrediu uma pessoa sequer na vida.

A irrupção do homem condenado por assassinato na vida dessa mulher sofrida se dá numa quinta-feira, antes do feriado do Dia do Trabalho – razão do título original, Labor Day. Praticamente toda a ação do filme se dará entre a quinta e a terça seguinte.

Uma belíssima história, que Jason Reitman adaptou para o cinema com talento

O que virá depois do que narrei é em parte até previsível – e em boa parte absolutamente surpreendente.

É uma belíssima história, de autoria da escritora Joyce Maynard, que se transformou, nas mãos do próprio diretor Jason Reitman, em um roteiro muito bem escrito. Há momentos de imensa tensão, e outros de grande ternura – e, no meio deles, sequências que fazem lembrar os filmes sobre culinária, como A Festa de Babette, Chocolate, Simplesmente Martha. E há também sequências de muita sensualidade – nada explícito, nada gráfico. É uma sensualidade forte, mas mostrada de forma suave, um pouco como as sequências de As Pontes de Madison em que os personagens de Meryl Streep e Clint Eastwood dançam na cozinha da casa dela.

O filme deixa também – como Mary bem notou – uma imagem muito negativa da Justiça. A moral da história é que a Justiça, quando não tarda, falha.

LABOR DAY

A voz em off que narra a história – a voz de Henry – é bela, suave, melódica. Parece a de alguém muito jovem, e cheguei a pensar, erradamente, que podia ser de Gattlin Griffith, o jovem ator que interpreta (muito bem) o filho de Adele. Engano absoluto meu. A voz do narrador é de Tobey Maguire, esse ótimo ator de tantos bons filmes. O nome dele é o último a aparecer nos créditos iniciais (sim, o filme tem créditos iniciais, que o espectador pode ler tranquilamente, enquanto a câmara, em um carro, passa por uma bela paisagem rural e por uma cidadezinha pequena). Nome de ator de fama que é o último a aparecer nos créditos iniciais indica que é participação especial – e, de fato, Tobey Maguire só aparece em cena em duas ou três rápidas seqüências no final do filme. Mas sua voz está presente ao longo de toda a narrativa – e é um elemento fundamental do filme.

Jason Reitman confirma mais uma vez que é um realizador de talento. Filho de diretor – seu pai é Ivan Reitman, de Os Caça-Fantasmas –, nascido em Montreal em 1977 (dois anos, portanto, depois de Kate Winslet), o rapaz ainda não tropeçou sequer uma vez. Seus filmes anteriores são ótimos: Obrigado por Fumar (2005), Juno (2007), Amor Sem Escalas (2009). O mais fraco deles, Jovens Adultos (2011), é no mínimo regular.

Labor Day não teve prêmios. A indicação mais importante foi para Kate Winslet como melhor atriz no Globo de Ouro, mas ela não levou. Nem foi um grande sucesso de bilheteria: custou US$ 18 milhões, e rendeu US$ 19 milhões (um filme americano só se paga se render ao menos duas vezes o que custou).

Uma pena, porque é um belo filme.

LABOR DAY

Anotação em agosto de 2014

Refém da Paixão/Labor Day

De Jason Reitman, EUA, 2013

Com Kate Winslet (Adele), Josh Brolin (Frank), Gattlin Griffith (Henry), Tom Lipinski (Frank jovem), Maika Monroe (Mandy), Clark Gregg (Gerald), Brooke Smith (Evelyn)

e, em participações especiais, Tobey Maguire (Henry adulto) e J.K. Simmons (Mr. Jervis)

Roteiro Jason Reitman

Baseado no livro de Joyce Maynard

Fotografia Eric Steelberg

Música Rolfe Kent

Montagem Dana E. Glauberman

Produção Indian Paintbrush, Mr. Mudd, Right of Way Films, distribuição Paramount. DVD Paramount.

Cor, 111 min

***1/2

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