Pele de Asno / Peau d’Âne

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Nota: ★★★½

Os contos de fada não têm muita lógica mesmo. Trafegam em uma outra realidade, uma outra sintonia. Este é um fato incontestável. Mas Pele de Asno exagera, excede demais nesse quesito. É uma história louquíssima, com diversos elementos completamente sem nexo.

Charles Perrault escreveu a história – em versos – em 1694. Se tivesse escrito uns 270 anos depois, daria para jurar que tinha tomado uma dose fenomenal de ácido.

A absoluta falta de lógica, de razão da história não impediu, de qualquer forma, que esse conto de fadas – o primeiro escrito em francês –  caísse no gosto do povo. Dezenas, talvez centenas de artistas plásticos, ao longo destes três séculos, ilustraram a história (na foto, apenas um exemplo).

zzpele0Em 1899, Pele de Asno foi encenada como uma ópera cômica, adaptada por Raoul Laparra.

Em 1904, deu origem a um filme dirigido por Albert Capellani.

Em 2003, deu origem a um romance assinado por Christine Angot. Em 2010, foi publicada como história em quadrinhos de Edmond Baudoin. Em 2012, deu origem a um espetáculo de dança criado por Emilio Calcagno.

O grande Jacques Demy filmou a história em 1970, com um elenco estelar em que brilhavam Catherine Deneuve, Jean Marais, Delphine Seyrig, Jacques Perrin, Micheline Presle.

Não é apenas um conto de fadas recontado com toda fidelidade possível à história original escrita por Perrault em 1694 – é um conto de fadas musical.

Foi a terceira colaboração Jacques Demy-Catherine Deneuve-Michel Legrand, depois Os Guarda-Chuvas do Amor/Les Parapluies de Cherbourg (1964) e Duas Garotas Românticas/Les Demoiselles de Rochefort (1967).

Como nos dois filmes anteriores, as melodias são de Michel Legrand, as letras, do próprio Demy – e quem dubla Catherine Deneuve é a irmã do maestro e compositor, Christiane Legrand.

O filme é um absoluto encanto.

Teve uma edição brasileira em DVD, pela Versátil, impecável, com diversos especiais interessantes, ricos, fascinantes. Agora em 2014 essa mesma edição foi incluída na Coleção Folha Grandes Astros do Cinema. É uma pérola.

Mag Bodard diz que, dos cem filmes que produziu, o predileto é Peau d’Âne

zzpele2Nos especiais do DVD, informa-se (eu não sabia disso) que Demy queria filmar Peau d’Âne desde sempre, desde que começou no cinema. Chegou a apresentar o projeto para alguns produtores, mas não conseguiu quem bancasse o filme. Depois da aprovação geral da crítica e do sucesso de seus primeiros filmes, Lola, a Flor Proibida/Lola (1961), A Baía dos Anjos (1963), Os Guarda-Chuvas e Duas Garotas, e com o firme apoio de Catherine Deneuve, já então uma grande estrela, das maiores, ele pôde, enfim, levar a história para o cinema.

Teve também o apoio, e o dinheiro, da fantástica produtora Mag Bodard. Mag Bodard foi a produtora, nos anos 60, de filmes de Demy, de sua mulher Agnès Varda (As Duas Faces da Felicidade, As Criaturas), de Robert Bresson (A Grande Testemunha/Au Hasard Balthazar e Uma Mulher Delicada/Une Femme Douce) e Alain Resnais (Eu te amo, eu te amo). Aos 87 anos, às vésperas de completar 88, em 2003, ela gravou um interessante depoimento reproduzido num dos vários especiais que acompanham o filme no DVD. “Quando vi Lola, eu disse: quero trabalhar com a pessoa que fez este filme”. E, de fato, foi ela que produziu Os Guarda-Chuvas do Amor – o filme que transformou Catherine Deneuve em estrela – e Duas Garotas Românticas – o único filme que reuniu as irmãs Catherine Deneuve-Françoise Dorléac.

“Adoro contos de fada – acredito neles”, diz Mag Bodard. “Dos filmes que fiz, para a TV e o cinema, em torno de cem, meu favorito é Pele de Asno.

Um rei bom, uma rainha feliz, uma princesa perfeita – e um asno que defeca ouro!     

A história de Peau d’Âne tem um narrador: em off, a bela voz do ator Jean Servais (1910-1976) vai contando os fatos básicos do conto de fadas, muitas vezes usando as frases originais escritas 270 anos antes por Perrault, enquanto vamos vendo na tela o que ele descreve. É uma narrativa lenta, com pausas entre uma sequência e outra – filmadas em alguns famosos castelos franceses, como o de Chambord e Plessis-Bourré, ambos no Vale do Loire.

zzpele3– “Era uma vez um rei tão grande, tão amado pelo povo e respeitado pelos vizinhos, que poderia ser considerado o mais feliz dos monarcas. Sua felicidade era ainda maior pela princesa que escolheu, bela e virtuosa. O casal vivia em perfeita harmonia.”

Vemos o rei, interpretado por Jean Marais (1913-1998), um dos maiores nomes do cinema francês entre os anos 30 e 70. Em 1946, havia feito A Bela e a Fera, de Jean Cocteau – e a presença de Jean Marais em Pele de Asno é uma das nítidas influências do filme marcante sobre Demy e especificamente sobre este filme aqui.

Quem não conseguir entrar no clima de Peau d’Âne, quem se esquecer de que aquilo é um conto de fadas, poderá achar os gestos, a forma de falar e em especial as roupas de Jean Marais um tanto ridículas.

A câmara evita mostrar o rosto da bela rainha de que nos fala o narrador, ao contrário do rei, focalizado de frente várias vezes. Com o rosto da rainha, a câmara é discreta, elusiva. Se não estou enganado, o rosto da rainha só aparece em três tomadas, uma delas bem rápida, todas um tanto de longe – evita-se com rigor o close-up.

A rainha tem longos cabelos castanhos. O espectador menos atento poderá nem perceber que a atriz que a interpretada é Catherine Deneuve.

O rosto extraordinariamente belo de Catherine Deneuve aparecerá de frente, nítido, de perto, logo em seguida, quando ela, louríssima como em todos os seus primeiros filmes, interpreta a princesa.

Na primeira tomada que mostra a princesa, ela está num dos jardins internos do castelo, tocando piano e cantando uma canção de amor, enquanto a voz de Jean Servais prossegue a narrativa:

– “Dessa união nasceu uma filha tão cheia de graça e charme que nunca se arrependeram por terem uma filha só.”

Descreve um pouco a beleza do palácio, até chegar ao personagem que dá o título do conto de fadas:

– “Os estábulos abrigavam os mais belos cavalos do mundo. Mas surpreendia a todos ver na entrada, em local de destaque, um asno de orelhas grandes. Vocês estão surpresos? Quando souberem de suas virtudes únicas, acharão a honra bem merecida.”

E então a câmara mostra que, no chão sob o asno, caem pedras preciosas, ouro, diamantes.

O asno defeca ouro!

Ao morrer, a rainha faz uma exigência: que o viúvo se case com jovem tão bela quanto ela

zzpele6Vemos uma mesa compridíssima posta para um banquete ao ar livre, diante de uma das alas do palácio. Diversos criados andam daqui para lá preparando a mesa para os convidados – todos os criados desse reino têm o rosto azul. Bem mais tarde, veremos que todos os criados de um outro reino têm o rosto vermelho.

Jacques Demy era um cineasta que adorava cores fortes, vivas. Se começou no preto-e-branco de Lola (um fantástico, maravilhoso preto-e-branco), radicalizou nas cores a partir de Les Parapluies de Cherbourg. Este, assim como o musical seguinte, Les Demoiselles de Rochefort, são explosões de cor, são espetáculos feéricos de fogos de artifício.

As cores fortes, vivas, predominam também em Peau d’Âne.

De repente, o céu se fecha, e começa a cair uma tempestade, tornando inútil todo o trabalho dos criados azuis de preparar a imensa mesa para o banquete festivo. E Jean Servais narra:

– “Mas os reveses da vida se abatem também sobre reis, os grandes bens vêm com grandes males. Quis o céu que a rainha fosse vítima de uma doença que nem os grandes médicos que sabiam grego nem os charlatães da época puderam ajudar.”

zzpele00000Ajoelhado junto ao leito de morte da rainha, o rei ouve o único pedido dela: que ele se case de novo, para ter um herdeiro do trono homem, o que seguramente será exigido dele por seus ministros. Mas com uma condição: que se case com uma mulher jovem e tão bela quanto ela, a rainha.

Não sei se a idéia foi do próprio Demy ou de seu diretor de arte, Jacques Dugied, mas nunca vi, em desenho, ilustração, filme, fantasia alguma, um caixão, uma urna funerária tão bela como a dessa rainha. A tampa é a metade de uma grande esfera de vidro, de tal forma que a rainha morta paramentada por um vestido longo parece uma flor num desses enfeites que contêm paisagens e uns flocos brancos imitando neve.

O chão está coberto de neve. Na paisagem branca, imaculada, o rei se senta diante da linda urna funerária. A filha se aproxima: – “Venha, meu pai.” E o rei responde, voz dura: – “Me deixe só, minha filha. Nunca mais quero ver você.”

No cerne do conto de fadas, a questão do incesto

zzpele5Passa-se o tempo. Como a rainha morta havia previsto, logo os ministros passam a cobrar do rei que se case novamente para dar um herdeiro ao reino. O rei diz que só se casará com um princesa tão bela quanto a falecida rainha. Os ministros e conselheiros trazem para o rei retratos de todas as princesas dos reinos conhecidos – todas mulheres feias.

Finalmente, exaustos, os ministros apresentam um quadro que reproduz uma princesa linda. O rei se encanta, pergunta quem é – é sua filha.

O rei manda chamar a filha, lê para ela um poema que em 1694 ainda não havia sido escrito (de Apolinaire, creio, sem qualquer certeza), e diz que quer casar com ela.

Para o rei, aquilo parece a coisa mais natural do mundo. Era o que a falecida rainha havia pedido: que ele se casasse com uma jovem tão bela quanto ela. Já a filha se assusta – embora fique confusa, porque ama o pai, e até demonstra que mistura o amor filial com o outro tipo de amor que pode levar ao casamento.

Incesto! Incesto em primeiro grau!

Confesso que me assustei bastante nesse trecho do filme – e ainda estamos aí bem no início da narrativa.

O que pretenderia Perrault ao trazer à baila o tema incesto, num conto de fadas em 1694?

Entre os filmetes fascinantes que acompanham Peau d’Âne no belo DVD da Versátil há um em que umas duas dezenas de crianças entre uns 6 e uns 9 anos de idade são convidados a contar a história, que elas certamente já conheciam de livrinhos de contos de fada e que reviram em exibições do filme de Demy.

A garotada demonstra que compreendeu cada um dos acontecimentos do filme, da história. Às vezes repetem falas – “A rainha está morta! A rainha está morta!”

zzpelecathSobre o tema do incesto, eles dizem o que diz a fada lilás, que é o que diz o senso comum: “Pais não se casam com as filhas”. Às vezes grandes questões têm respostas simples.

Um outro filmete, bem à maneira da intelectualidade francesa, reúne dois psicanalistas, uma professora de literatura do século XVII e mais Camille Taboulay, uma bela jovem que escreveu o livro Le Cinéma Enchanté de Jacques Demy. Discutem sobre complexo de Édipo, complexo de Electra, Freud, o escambau. A jovem Camille Taboulay conta que, ao longo de suas entrevistas com Demy para escrever seu livro, teve a oportunidade de fazer uma pergunta direta sobre a questão do incesto que aparece em Peau d’Âne. Em resposta, Demy botou o dedo indicador na vertical sobre os lábios cerrados, como quem diz: sssshhh – não se deve falar sobre isso…

O psicanalista Jean-Claude Polack faz nesse filmete uma afirmação que me parece corretíssima: “O que me comoveu no filme foi a tentativa – única, que eu saiba – de fazer com que o clima de um conto de fadas seja transmitido com imagens realistas. Não é usar um desenho animado, imagens desenhadas, fabricadas, mas é tornar a história crível com a natureza puramente realista do cinema”.

A madrinha da princesa sabe coisas do futuro, e até usará um helicóptero!

zzpele99Citei aí acima a fada lilás, e ainda não havia falado sobre ela.

A fada lilás é a madrinha da princesa. Ela existe, é claro, na história original de Perrault, e nas adaptações todas que foram feitas do conto, mas me parece que foi na composição dela que o roteirista Demy se soltou um pouco da fidelidade total ao texto de 1694.

A fada lilás vem na pele de Delphine Seyrig, a musa de Alain Resnais em O Ano Passado em Marienbad (1961) e Muriel (1963); a linda atriz desses dois filmes densos, surpreendentes, experimentais, está também em O Discreto Charme da Burguesia (1972), de Luís Buñuel, e no delicioso Beijos Proibidos (1968), de François Truffaut.

A fada lilás é bem humorada, irônica, brincalhona, um tanto debochada. É também especialmente misteriosa, e seus poderes são fortes: como se verá ao longo da narrativa, ela conhece coisas do futuro. A fada lilás sabe, por exemplo, da existência de pilhas, e, surpresa total, usará até mesmo um helicóptero. (O fato de o rei ler um poema que seria escrito no futuro não é, portanto, um erro, um furo do roteiro. No Pele de Asno de Demy, o futuro, ou seja, a época em que o filme foi feito, às vezes se intromete naquela era medieval em que se passa a história.)

Depois que o pai diz que quer casar com ela, a princesa procura a madrinha em busca de conselhos. A fada lilás diz aquela coisa fundamental – pais não se casam com filhas – e a instrui a pedir para o pai coisas impossíveis de se conseguir: um vestido da cor do tempo, um vestido com o brilho da lua, um vestido com o brilho do sol.

Como, ao contrário do que seria de esperar, os costureiros do rei conseguem criar todos aqueles vestidos impossíveis (e o visual dos vestidos é algo fantástico, extraordinário, psicodélico), a fada madrinha aconselha a princesa a pedir algo ainda mais absurdo.

Embora este seja um filme que reconta um conto de fadas, uma história conhecidíssima, vou parar por aqui o relato. Eu mesmo não conhecia a história de Pele de Asno; Mary também não. O que vem a partir desse ponto aí é ainda mais surpreendente do que a primeira parte da história. Mais surpreendente, mais fantástico, e ainda mais distante da lógica.

No conto de fadas francês de 1694, um forte cheiro dos hippies, da contracultura

Bem en passant, usei a expressão psicodélico. Lá no começo, tinha feito referência a ácido. Não é à toa. Interessantíssimo, fascinante: Peau d’Âne tem muito do clima hippie de sua época.

É algo um tanto difícil de explicitar em palavras, mas está lá, firme e forte: o filme sobre o conto de fadas intrinsecamente francês escrito 270 anos antes do flower power tem gosto da contracultura, dos hippies americanos dos anos 60 e 70! Periga até o espectador de olfato mais apurado sentir um cheiro forte de baseado, ao ver, por exemplo, a sequência em que a princesa e o príncipe do reino vermelho (interpretado por um Jacques Perrin com cara de fedelho de tudo) brincam pelos campos, dão cambalhotas e fazem coisas que não se deve fazer – comer muito doce, fumar charutos (de tabaco? de cannabis?).

zzpele00O príncipe Jacques Perrin e a princesa Catherine Deneuve, esse casal lindérrimo dando cambalhotas no campo faz lembrar os dois belos jovens brincando e se amando ao ar livre nos campos em Elvira Madigan (1967), do sueco Bo Widerberg – outro filme da mesma época que, embora contando história acontecida bem no passado, tinha um inconfundível e forte sabor hippie.

Era uma época em que jovens cineastas europeus olhavam com fascínio para aquela movimentação da contracultura nos Estados Unidos: o sueco Bob Widerberg com seu Elvira Madigan, o francês Jacques Demy com este Pele de Asno, o italiano Michelangelo Antonioni com seu Zabriskie Point (1970), o checo Milos Forman, que, antes mesmo de se sentir obrigado a deixar seu país quando os tanques de Leonid Brezhnev sepultaram a Primavera de Praga em 1968, já pensava em filmar Hair.

Jacques Demy havia visto e sentido de perto o clima todo da contracultura americana naquele efervescente final dos anos 60. Depois de Les Demoiselles de Rochefort, talvez seu filme musical mais clara e diretamente influenciado pelos musicais americanos, que tem no elenco ninguém menos que Gene Kelly, além de George Chakiris, Oscar de melhor coadjuvante por West Side Story (1962), Demy fez um filme nos Estados Unidos, Model Shop, no Brasil O Segredo Íntimo de Lola (1969). No filme, a mesma Lola de seu filme de estréia de 1961, interpretada pela mesma Anouk Aimée, viajou para os Estados Unidos e está trabalhando lá como modelo fotográfico.

Em sua temporada em Los Angeles, Demy fez amizade com muita gente de Hollywood, e encantou-se com o clima hippie que tomava conta das grandes cidades.

Dedicou-se à realização de Peau d’Âne assim que voltou à França após a temporada americana.

Foi Demy que transformou Catherine em estrela

É especialmente fascinante ver as trajetórias, os encontros de Catherine Deneuve e Jacques Demy, um cineasta que sempre filmou histórias sobre trajetórias, encontros e desencontros.

zzpele7Em 1963, quando começaram as filmagens de Les Parapluies de Cherbourg, Demy tinha dois filmes respeitáveis no currículo, os já citados Lola e A Baía dos Anjos, mais uma participação em um filme de esquetes, Os Sete Pecados Capitais, ao lado de outros jovens realizadores em ascensão fulminante: Claude Chabrol, Jean-Luc Godard, Édouard Molinaro, Philippe de Broca.

Catherine tinha 20 anos, um rosto lindérrimo e oito filmes no currículo, inclusive um dirigido pelo pai de seu primeiro filho, Roger Vadim – nada marcante, importante, duradouro.

Conta-se que Catherine chegou para seu primeiro encontro com Demy com os cabelos enrolados no alto como um bolo de noiva. Foi Agnès Varda, a mulher de Demy, quem a repenteou: “Tirei aquilo tudo e coloquei um lacinho no cabelo dela. Foi com esse visual que ela apareceu em Les Parapluies de Cherbourg e usou durante anos”.

Les Parapluies teve cinco indicações ao Oscar (melhor filme estrangeiro, roteiro original, canção, trilha sonora original, adaptação ou orquestração de trilha sonora), levou três prêmios no Festival de Cannes, inclusive o maior de todos, a Palma de Ouro. Fez de Catherine uma estrela.

zzpele9Três anos depois, em 1967, Les Demoiselles de Rochefort foi uma nova grande conquista para Demy. Após mais três anos, em 1970, quando se reuniram para fazer Pele de Asno, ele era um diretor de grande prestígio e ela já era a maior estrela do cinema francês. Só isso: a maior estrela.

Iriam se encontrar de novo daí a mais três anos, para Um Homem em Estado Interessante/L’événement le plus important depuis que l’homme a marché sur la lune. Foi o primeiro filme em que Catherine contracenou com Marcello Mastroianni; depois os dois fariam uma filha, Chiara Mastroianni, e mais quatro filmes, e seria amigos até a morte dele, em 1996.

Era para ter havido um quinto filme dirigido por Demy e estrelado por Catherine. Ela queria o principal papel feminino de Um Quarto na Cidade/Une Chambre en Ville (1982), que, exatamente como Les Parapluies, é inteiramente cantado, com todos os diálogos musicados. Consta que Catherine queria cantar com sua própria voz, dessa vez, mas Demy insistia em que, como nos filmes anteriores, ela fosse dublada por Christiane Legrand. Desentenderam-se, o papel ficou para outra bela loura, Dominique Sanda.

Catherine não seria a estrela que é se não tivesse se encontrado, quando estava com 20 aninhos, com Jacques Demy. “Pele de Asno me persegue aonde eu vou. Há papéis que esquecemos, mas esse filme nunca me deixou”, disse Catherine.

Todo mundo que viu esta jóia deveria mostrá-la para seus filhos, seus netos

zzpele4O Guide des Films do mestre Jean Tulard dá 4 estrelas a Peau d’Âne. Obra grandiosa, com 15 mil filmes, o guia dá estrelas apenas para os melhores filmes; a grande maioria não tem cotação alguma. São raríssimos os que merecem 4 estrelas. “Um sucesso absoluto. Um verdadeiro encantamento cinematográfico em que Demy harmoniza à perfeição a magia do conto de Perrault, a poesia de Jean Cocteau e um humor muito contemporâneo. Cenários esplêndidos, figurinos suntuosos, canções deslumbrantes, anacronismos saborosos, interpretação perfeita (Catharine Deneuve é uma princesa ideal), tudo concorre para fazer de Peau d’Âne uma jóia pura, um milagre do cinema, um filme que nos dá um prazer extremo.”

É a palavra de um crítico, um dos bons críticos de cinema reunidos por Jean Tulard para seu Guide. Aí vai a opinião de um ser humano normal, uma brasileira que escreveu em 2006 para o IMDb assinando-se angelmpb: “Eu vi este filme pela primeira no cinema quando era uma garotinha. Nunca esqueci dele, nunca esqueci a canção principal. Durante anos tentei acha-lo nas lojas de vídeo, gostaria que ele tivesse sido lançado em DVD.”

Foi lançado, está nas bancas de jornais, acessibilíssimo.

Todo mundo que viu esta jóia deveria mostrá-la para seus filhos, seus netos. Não mostrei para minha filha – foi um erro. Quero mostrar para a minha neta assim que ela crescer um pouquinho.

Anotação em outubro de 2014

Um P.S. em 2/2015: Sandrine Kiberlain, ótima atriz e nas horas vagas também compositora e cantora, fez uma deliciosa homenagem a Demy, a Pele de Asno e a Duas Garotas Românticas. Na canção “Le Vent”, letra dela, melodia de Pierre Souchon, em que enumera as coisas que ama, Sandrine canta: “J’aime Peau d’Âne, / Demy et ses demoiselles”. Sandrine Kiberlain é mesmo uma gracinha.

Pele de Asno/Peau d’Âne

De Jacques Demy, França, 1970.

Com Catherine Deneuve (a rainha / a princesa), Jean Marais (o rei),

e Delphine Seyrig (a fada lilás), Jacques Perrin (o príncipe encantado), Micheline Presle (a rainha vermelha), Fernand Ledoux (o rei vermelho), Henri Crémieux (o chefe dos méedicos), Sacha Pitoëff (o primeiro-ministro), Pierre Repp (Thibaud), Jean Servais (a voz do narrador)

Roteiro Jacques Demy

Baseado no conto de fadas de Charles Perrault

Fotografia Ghislain Cloquet

Música Michel Legrand

Letras das canções Jacques Demy

Montagem Anne-Marie Cotret

Direção de arte Jacques Dugied

Produção Mag Bodard, Marianne Productions, Parc Film. DVD Versátil.

Cor, 100 min

***1/2

4 Trackbacks

  1. […] de Alain Resnais em O Ano Passado em Marienbad (1961), que teve também uma bela participação em Pele de Asno de Jacques Demy (1970) e trabalhou com Luís Buñuel em O Discreto Charme da Burguesia […]

  2. Por 50 Anos de Textos » A década que coloriu o cinema em 26 outubro 2015 às 12:39 am

    […] Parapluies de Cherbourg (1964), Duas Garotas Românticas/Les Demoiselles de Rochefort (1967) e Pele de Asno (1970). Cada tomada de cada um desses filmes tem mais cores do que a bandeira do Brasil – e olha […]

  3. […] que não estaria errado se dissesse que Jacques Demy (1931-1990) foi um cineasta apaixonado pelo cinema, por Agnès Varda, sua mulher, pelo amor e pelos […]

  4. […] Cocteau trabalhou como ator em 14 filmes e dirigiu 11. Desses 11, seis foram estrelados por Jean Marais, seu companheiro, amante, camarada, […]

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