O Relutante Fundamentalista / The Reluctant Fundamentalist

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Nota: ★★★★

É um filme extraordinário, este O Relutante Fundamentalista, uma co-produção EUA-Inglaterra-Qatar que a indiana radicada nos Estados Unidos Mira Nair lançou em 2012. Um filmaço. Daquelas obras que, além de serem excelentes enquanto arte, são também admiráveis, importantes, pelo que falam, pelo seu significado.

O filme trata de uma das questões mais complexas, mais fundamentais que há no mundo hoje: o profundo ódio, a guerra aberta entre, de um lado, o que se costuma chamar de a civilização ocidental, e, de outro, o mundo muçulmano.

O abismo que existe entre o mundo ocidental e o muçulmano é algo talvez mais profundo, mais apavorante, mais perigoso, mais ameaçador do que o choque entre capitalismo e comunismo durante a Guerra Fria.

O comunismo ruiu feito um castelo de cartas. Sumiu, desapareceu – a não ser nos lugares e nas mentes mais atrasadas do Planeta: Cuba, Coréia do Norte, os países mais ultrapassados da América Latrina – Nicarágua, Venezuela, Equador, Argentina, Brasil. A China deixou de ser comunista faz tempo.

Cerca de um terço dos habitantes do planeta é formado por muçulmanos. O islamismo não cairá feito castelo de cartas. Muito ao contrário, ele se alastra, se espalha – até porque a taxa de natalidade entre eles é muitíssimo maior do que no resto do mundo, aí incluindo até os países mais periféricos, tipo Brasil.

A maravilha de O Relutante Fundamentalista é que ele não é um filme fundamentalista – nem de um lado, nem de outro. Muitíssimo ao contrário. É um filme que mostra os dois lados, os dois tipos de raciocínio. Both sides now, como dizia Joni Mitchell. There must be two ways to every story, como dizia Willie Nelson.

O cinema está à frente das sociedades que ele reflete

Grandes filmes foram feitos sobre o mundo pós 11 de setembro. O cinema é melhor do que a política institucional, as ideologias. O cinema sempre esteve à frente – o cinema é progressista, é mais inteligente, mais adiantado, melhor do que as sociedades que ele reflete. O cinema é basicamente anti-racista, anti-machista, anti-colonialista, anti-classista, anti-guerra.

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Quantos filmes o eventual leitor já terá visto que defendem idéias ruins? Quantos filmes defendem, por exemplo, o racismo? O machismo? As guerras?

Sim, sim, há filmes que defendem a Lei do Talião, o olho por olho, dente por dente. Há os Desejo de Matar, Os Boinas Verdes – mas isso é lixo, e é minoria.

Após o 11 de setembro de 2001, o cinema nos deu belas, belíssimas obras. Tive a sorte de ver diversas delas, e várias já foram comentadas neste site. Há London River (2009), Ataque Terrorista (2007), Rede de Mentiras (2008), O Visitante (2007), O Traidor (2008), Sorry, Haters (2005), Ato Terrorista (2005), Vôo United 93 (2006), As Torres Gêmeas (2006), Strip Search (2004), Medo e Obsessão (2004), Yasmin, Uma Mulher, Duas Vidas (2004).  Não gostei muito de Tão Forte e Tão Perto, mas o filme foi bastante premiado.

Pois bem: o filme de Mira Nair é um dos melhores de todos esses belos filmes. Talvez seja o melhor de todos.

Um americano é sequestrado no Paquistão. O protagonista parece estar envolvido

Começa a mil por hora. Como um estrondo, uma explosão. Vemos duas ações simultâneas – as diferentes sequências são montadas rapidamente, freneticamente. Há uma espécie de festa em uma casa, com a apresentação de um grupo musical (na foto acima). E, paralelamente, um homem de cabelos brancos sai de um cinema acompanhado por uma jovem; acabam de ver Bol, uma produção paquistanesa de 2011, sobre uma mulher que está no corredor da morte, à espera da execução da sentença. O homem comenta que prefere ver filmes que o façam esquecer dos problemas do mundo.

Um letreiro informa: “Lahore, Paquistão, 2011”.

É tudo muito rápido, como um clipe da MTV. Neste início de filme, as tomadas são curtas, a montagem é frenética.

A música vai ficando cada vez mais alta. Os cantores elevam a voz, a instrumentação cresce. Na casa, um homem aí de uns 30 anos, de barba, fala no celular.

Um veículo se aproxima do casal que saiu do cinema. O homem de cabelos brancos – veremos que é um cidadão americano, professor numa universidade local, Anse Rainier (Gary Richardson) – é espancado e em seguida jogado dentro do veículo, que sai em disparada, enquanto a jovem grita por socorro.

Na casa da festa, o homem de barba vê no smartphone uma foto que acaba de ser enviada. Chama-se Changez, é interpretado pelo ator inglês de origem paquistanesa Riz Ahmed, e será o protagonista da história.

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Um DVD é enviado para jornalistas; mostra Rainier preso, com um cartaz que exige, em troca da liberdade dele, a libertação de 600 prisioneiros políticos mais 700 mil euros.

Logo em seguida aparece o outro personagem central, Bobby Lincoln (Liev Schreiber), um escritor e jornalista americano há vários anos radicado no Paquistão, fluente na língua urdu. Pouco depois do seqüestro de Rainier, Bobby chega a uma casa de chá para entrevistar Changez. Fazia muito tempo que Bobby vinha pedindo uma entrevista com o rapaz, um influente professor universitário, adorado por centenas e centenas de jovens estudantes, crítico feroz da forte influência americana sobre o governo do Paquistão.

Uma equipe da CIA acompanha, de um prédio ao lado da casa de chá, a entrevista.

Nada é dito muito explicitamente neste iniciozinho de narrativa – quando Bobby e Changez se encontram, estamos com 10 minutos de filme –, mas o filme parece indicar para o espectador que o jovem professor paquistanês está envolvido no seqüestro do americano.

Um geniozinho que faz carreira relâmpago em Wall Street. Aí veio o 11 de setembro

Antes de autorizar Bobby a ligar seu gravador, Changez comenta que leu os três livros escritos pelo americano. “Seu livro sobre Massoud na luta contra o taliban é muito bom”. Depois apresenta um pedido: “Só peço uma coisa. Que, por favor, você ouça toda a história, desde o início. Não só alguns trechos. Tenho a sua palavra?”

E, depois que o americano concorda com o pedido, ele começa:

– “As aparências podem enganar. Sou um amante da América, apesar de ter sido criado para sem bem paquistanês.”

E há então um flashback, para dez anos antes, início de 2001: vamos ver na tela a história de Changez, conforme contada por ele a Bobby. Ao longo de todo o filme, de 129 minutos, veremos a história de Changez, entremeada por algumas sequências em que o jovem paquistanês fala com o jornalista americano.

– “Eu fui um soldado do seu exército econômico”, diz ele, no início da longa entrevista. “Eu reverenciava um daqueles magníficos templos de dinheiro e aço, onde homens de terno controlam o destino de empresas de bilhões de dólares.”

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A família de Changez, classe média, culta, cultivada, não é religiosa, muito menos fanaticamente seguidora do Corão. Bem ao contrário. Isso fica claro ao longo de todo o filme.

Em 2001, Changez, filho de pai poeta famoso (interpretado por Om Puri, na foto acima), estudante brilhante, de notas impecáveis, emigrou para os Estados Unidos e foi aceito em uma das mais prestigiosas universidades do mundo. Mais ainda: conseguiu um cobiçadíssimo emprego em uma grande empresa de Wall Street, dirigido por um gênio das finanças e da administração de empresas, Jim Cross (o papel de Kiefer Sutherland, na foto abaixo).

Inteligentíssimo, dedicado, destacou-se rapidamente, meteoricamente, entre seus pares. Tornou-se o preferido do patrão. E ainda teve a sorte de ficar conhecendo uma moça linda e muito rica, Erica (interpretada por uma Kate Hudson com cabelos negros e longos), e viver com ela um intenso caso de amor.

Aí veio o 11 de setembro.

A radicalização americana contra tudo o que fosse próximo ao islamismo vai levando Changez a se rebelar cada vez mais.

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São os EUA que empurram o rapaz para o ódio ao Ocidente

Há um diálogo precioso quando o filme ainda está aí com uns 20 minutos. Ainda não tinha havido o 11 de setembro. Changez e alguns companheiros de trabalho, todos jovens geninhos, estão fazendo um churrasco no Central Park. Conversam sobre seu futuro. Um deles, Wainwright (Nelsan Ellis), diz que pretende ter o seu próprio fundo de hedge, ficar estupidamente rico e, dentro de 25 anos, poder se dedicar 100% à filantropia: vai erradicar a malária do mundo.

A moça do grupo (não guardei seu nome) diz que vai comandar uma das 500 maiores empresas do mundo, até seu salário chegar aos dez dígitos.

Aí perguntam a Changez o que ele fará daí a 25 anos. Ele pensa um pouco e diz: – “Daqui a 25 anos serei o ditador de um país islâmico dotado de armas nucleares”.

Os colegas ficam assustadíssimos, mas é fácil perceber que aquilo é uma blague, uma piada, uma brincadeira feita para espantar, chocar, assustar. Changez é a antítese do muçulmano fanático; é absolutamente secular, inteiramente ocidentalizado.

O que vai empurrar o rapaz para o ódio ao Ocidente é exatamente a radical brutalidade com que o Estado americano, e um grande número de americanos, passam a tratar qualquer muçulmano depois dos ataques terroristas de 11 de setembro.

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Uma trilha sonora extraordinária, arrebatadora, com a participação de Peter Gabriel

É necessário fazer o registro: a trilha sonora do filme é extraordinária. Não conheço muito, mas tudo indica que é riquíssima a música do Paquistão, do Punjab, das regiões muçulmanas do subcontinente índico. (Afinal, como se sabe, a divisão política do subcontinente feita ao fim do domínio britânico, na segunda metade dos anos 1940, em dois países, Índia e Paquistão, foi feita pelos colonizadores, é algo imposto de fora.)

A gente conhece pouco, mas dá para perceber, por exemplo, pelo que se sabe de Nusrat Fateh Ali Khan, que é uma música poderosa, fortíssima. O trabalho de Nusrat Fateh Ali Khan teve boa divulgação no Ocidente graças ao trabalho de pesquisador de Peter Gabriel e seu selo Real World.

O Relutante Fundamentalista tem créditos iniciais extremamente breves, sintéticos – aparecem apenas o nome das empresas produtores, do filme e da diretora Mira Nair, sobre um grafismo belíssimo que mostra o mapa mundi e o símbolo da meia lua com uma estrela no meio. Os créditos finais, bem ao contrário, são longos, detalhados, mostrando, por exemplo, todas as equipes dos diferentes locais em que houve filmagens, Turquia, Filipinas, Paquistão, Estados Unidos. Nos mais de oito minutos de créditos finais, há uma sequência impressionante de melodias – e Peter Gabriel participa com sua voz marcante. Peter Gabriel é um daqueles eternos believers, lutadores incessantes pelas boas causas. A presença dele engrandece ainda mais o filme, e sua participação no filme o engrandece ainda mais.

Uma realizadora que, como o protagonista, trafega entre Ocidente e Oriente

Mira Nair é uma grande realizadora. Como Changez, seu protagonista, trafega pelo Oriente e pelo Ocidente, e tem educação fina: estudou primeiro em Nova Délhi, depois em Harvard. Nascida em 1957, em Bhubaneshwar, na Índia, começou a carreira dirigindo documentários, a partir de 1979. Passou a ter reconhecimento internacional com Salaam Bombay!, de 1988, um filme sobre menores de rua na metrópole indiana: o filme recebeu um prêmio do público em Cannes e teve indicação para o Oscar, o Globo de Ouro, o Bafta e o César de melhor filme estrangeiro.

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O sucesso a levou a filmar nos Estados Unidos; primeiro veio Mississippi Masala (1991), sobre racismo e imigração, com Denzel Washington e vários atores indianos, e em seguida Tudo por um Sonho/The Perez Family (1995), de novo sobre imigrantes, desta vez cubanos.

De volta à Índia, fez Kama Sutra (1996), recebido com indiferença pela crítica. Retornou ao tema imigração em My Own Country (1998), sobre médico indiano que se muda para o Tennessee. Um Casamento à Indiana/Monsoon Wedding (2001) foi um tremendo sucesso de bilheteria – e levou o Leão de Ouro no Festival de Veneza. Em 2004, fugiu completamente de temas ligados à Índia e à imigração, com Feira das Vaidades/Vanity Fair, adaptação da novela do inglês William Thackaray sobre uma moça pobre que faz de tudo para subir na escala social.

Dois anos depois, em 2006, retornou aos temas que domina perfeitamente, em Nome de Família/The Namesake, sobre a luta de um filho de imigrantes indianos para se encaixar na vida em Nova York sem abandonar as tradições dos pais.

“Não há sentido em continuar demonizando um mundo ou outro”

O filme se baseia no romance homônimo de autoria de Mohsin Hamid, um paquistanês nascido em Lahore em 1971 que passou praticamente toda a vida alternando estadias no Paquistão e outras nos Estados Unidos e Inglaterra. Lançado em 2007, The Reluctant Fundamentalist foi imenso sucesso: vendeu mais de um milhão de cópias nos Estados Unidos, chegou ao quarto lugar na lista de best-sellers do New York Times, foi premiado e traduzido para mais de 25 línguas; o jornal inglês The Guardian o classificou como um dos livros que definiram a primeira década do século.

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Dada a importância toda de Mira Nair, e até pelo fato de o elenco ter atores de fama do cinema americano – Kate Hudson, Kiefer Sutherland, Liev Schreiber –, é incompreensível o fato de o filme não ter tido lançamento comercial no Brasil. Segundo informou o jornal O Globo, o filme saiu diretamente em DVD – eu o encontrei como lançamento na locadora um dia antes de O Globo publicar uma pequena entrevista com a realizadora.

“Como todos nós sabemos, há muitos mal-entendidos sobre o subcontinente indiano, em particular com relação aos aspectos do mundo islâmico”, disse ela ao Globo (estranhamente, o jornal não publicou o nome do repórter). “Assim como Hamid, vivo nas duas partes do mundo, e compartilhamos o mesmo amor por ambos, e isso nos dá meios para entender os dois lados. Não há sentido em continuar demonizando um mundo ou outro.”

Nos créditos finais, Mira Nair dedica o filme a seu pai, Amrit Lal Nair (1924-2012), “um verdadeiro lahoriano”.

É o tal negócio. Quem puxa aos seus não degenera.

Anotação em abril de 2014

O Relutante Fundamentalista/The Reluctant Fundamentalist

De Mira Nair, EUA-Inglaterra-Qatar, 2012.

Com Riz Ahmed (Changez), Liev Schreiber (Bobby Lincoln), Kate Hudson (Erica), Kiefer Sutherland (Jim Cross), Om Puri (Abu), Shabana Azmi (Ammi), Martin Donovan (Ludlow Cooper), Nelsan Ellis (Wainwright), Haluk Bilginer (Nazmi Kemal), Meesha Shafi (Bina), Imaaduddin Shah (Sameer), Gary Richardson (Anse Rainier)

Roteiro William Wheeler

Adaptação Ami Boghani e Mohsin Hamid

Baseado no romance de Mohsin Hamid

Fotografia Declan Quinn

Música Michael Andrews

Montagem Shimit Amin

Produção Cine Mosaic, The Doha Film Institute, Mirabai Films. DVD Califórnia.

Cor, 129 min.

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