O Pecado Mora ao Lado / The Seven Year Itch

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Nota: ★★★½

Exatos 60 anos depois de ter sido feito – as filmagens foram entre setembro e novembro de 1954 –, e 52 anos depois que eu o vi pela primeira vez, O Pecado Mora ao Lado/The Seven Year Itch continua sendo um filme absolutamente delicioso. Tornou-se, com o tempo, um grande clássico, dos maiores que há, e tem uma das seqüências mais antológicas de toda a história do cinema.

O filme não mudou, é claro. Mas o mundo mudou demais, e então o que era na época uma grande ousadia – embora o roteiro tenha sido duramente mutilado pelo Hays Office, o órgão da autocensura dos grandes estúdios de Hollywood –, hoje parece tão inocente quanto um filme de Lassie, de Shirley Temple.

E as histórias sobre o filme, sobre como foi sua produção, são tão absolutamente fascinantes quanto os maravilhosos diálogos escritos por Billy Wilder e George Axelrod e as interpretações memoráveis de Tom Ewell e Marilyn Monroe.

Hum… Por que Tom Ewell e Marilyn Monroe, assim, nessa ordem? Não seria o contrário, Marilyn Monroe e Tom Ewell? Aliás, quem mesmo é Tom Ewell?

zzseven4Pois é. O papel principal do filme é do pobre Richard Sherman, editor de livros baratos, bem casado, pai de um garotinho de uns seis anos, que, como a imensa maioria dos nova-iorquinos, no auge do verão escaldante e úmido, despacha a família para um lugar mais aprazível, ao Norte, e acontece de ganhar como vizinha no prédio de apenas três andares em que mora uma loura deslumbrantérrima.

O pobre Sherman – sujeito de imaginação imensa, capaz de criar fantasias criativíssimas na cabeça, já que sua profissão é descobrir como transformar em apelativas, chamativas, sensacionalistas, as capas de livros muitas vezes sérios, sisudos, grandes clássicos – está exatamente no sétimo ano do casamento. Um dos manuscritos que ele examina, de autoria de um psiquiatra muito doido, afirma que, no sétimo ano do casamento, a imensa maioria dos homens sente uma coceira danada, uma necessidade premente de ser infiel à mulher, de ter uma aventura extra-conjugal.

The Seven Year Itch – a coceira do sétimo ano, como diz o título original. Os exibidores brasileiros, que muitas vezes inventam títulos estapafúrdios, dessa vez criaram um que se ajusta perfeitamente à história: O Pecado Mora ao Lado, embora muito distante do original, é um belo título.

O desempenho de Tom Ewell é um espetáculo, mas é Marilyn que rouba a cena

Então: Richard Sherman é o protagonista da história. Ele está presente em praticamente todas as seqüências do filme. E é interpretado por Tom Ewell, um ator de quem hoje pouca gente se lembra.

zzseven0Acontece que o papel da Garota (ela não tem nome, quer dizer, seu nome não aparece em momento algum), bem menor que o de Sherman, coube a Marilyn Monroe. E então, mesmo não aparecendo na tela em diversas, diversas sequências, mesmo aparecendo muitíssimo menos que Sherman-Tom Ewell, Marilyn rouba o filme.

Nisso, Marilyn se parece com outra deusa do sexo de Hollywood, Mae West. Quando Mae West fez seu primeiro filme, Noite Após Noite, de 1932, em que tinha um papel pequeno, o ator que fazia o protagonista da história, George Raft, afirmou: “Mae West roubou tudo, menos as câmaras.”

O desempenho de Tom Ewell é um espetáculo, e não é à toa: ele havia feito o papel de Richard Sherman no teatro – a peça, de autoria de George Axelrod, estreara na Broadway em 1952, e foi um imenso sucesso durante três anos.

Mas o que fica na memória do espectador, a marca do filme é Marilyn.

Nos créditos iniciais – um grafismo belo, esperto, inteligente, criado pelo genial Saul Bass –, quem aparece primeiro é Marilyn.

Fazer o quê? É assim que são as coisas.

zzsevenrua2Quando as filmagens começaram, em setembro de 1954, Marilyn já era a maior estrela de Hollywood. Em 1953, havia aparecido nua no número 1 da revista Playboy; entre 1953 e 1954, tinha brilhado em Torrente de Paixão/Niagara, Os Homens Preferem as Louras, Como Agarrar um Milionário, O Rio das Almas Perdidas e O Mundo da Fantasia.

Como se não bastasse, na mesma época havia se casado com Joe Di Maggio, o maior nome do beisebol de então, o esportista mais adorado pelos americanos e americanas, o Pelé, o Neymar daqueles anos.

O casamento durou apenas nove meses. Os biógrafos e estudiosos do cinema americano são unânimes em dizer que The Seven Year Itch foi um dos motivos principais para o final abrupto do casamento. Quando o filme estreou, no dia 1º de junho de 1955 – o dia em que Marilyn completava 29 aninhos de vida –, Joe Di Maggio compareceu à festa, num cinema da Times Square sobre o qual havia um cartaz com uma foto de Marilyn de 16 metros de altura, boa parte deles ocupada pelas coxas dela, a saia levantada pelo vento do metrô. Mas ele já era o ex-marido da estrela.

E ela era a maior estrela do cinema mundial.

Em 500 anos, nada mudou na ilha de Manhattan

O filme começa com uma sequência brilhante, genial, hilariante. Logo após os créditos iniciais de Saul Bass, vemos um mapa – imitando os mapas muito antigos – da ilha de Manhattan. Começa uma música imitando canções dos indígenas da América do Norte, vemos uma típica aldeia indígena, enquanto uma voz em off, emproada, empostada, como as dos locutores de antigamente, diz o seguinte texto:

– “A ilha de Manhattan deve seu nome aos seus primeiros habitantes, os índios Manhattan. Eram uma tribo pacífica: faziam armadilhas, pescavam e caçavam. Havia um costume entre eles: a cada mês de julho, quando o calor e a umidade ficavam insuportáveis, eles mandavam suas mulheres e filhos em viagem rio acima, para as montanhas, ou, se tivessem meios, para a costa.”

zzseven00Vemos diversas canoas deixando a aldeia com mulheres e crianças. A homarada fica. Um dos índios olha para trás, para onde está a câmara, arregala os olhos, e chama a atenção dos outros. Aparece na tela o que faz o índio, e em seguida todos os índios, arregalarem os olhos, cara de quem está babando: uma índia gatíssima caminha sozinha. A homorada toda vai atrás.

O narrador prossegue:

– “Os maridos ficavam na ilha cuidando dos negócios: fazendo armadilhas, pescando e caçando. Na verdade, nossa história não tem nada a ver com os índios. Ela se passa 500 anos mais tarde.”

Corta, saem os índios, surge tela o hall de uma gigantesca estação ferroviária, certamente a Grand Central Station

– “Só mencionamos o tema para mostrar que nada mudou. Os maridos em Manhattan ainda mandam embora as mulheres e os filhos, e ficam cuidado dos negócios: fazendo armadilhas, pescando e caçando. Agora, queremos que você conheça um marido típico de Manhattan, cuja família está saindo para a viagem de verão.”

E então acompanhamos Richard Sherman-Tom Ewell se despedindo de Helen (Evelyn Keyes) e do garotinho Ricky (Butch Bernard).

Quando Helen e Ricky entram para a plataforma, Sherman percebe que haviam esquecido o grande remo do caiaque do garoto. Sherman tenta entrar na plataforma para entregar o remo, mas é impedido pelos funcionários: só entra quem tem passagem.

Sherman fica no meio da multidão segurando o grande remo.

Passa por ali uma mulher gostosa: dezenas de homens agora solteiros pelo verão vão atrás dela, exatamente como os índios da sequência anterior.

Sherman fala para si mesmo (ao longo de toda a narrativa, Sherman vai falar alto para si mesmo) algo do tipo: – “Não, não, não. Eu não vou entrar nessa.”

zzseven2Não me lembrava de forma alguma dessa fantástica seqüência inicial com os índios. Também pudera: vi O Pecado Mora ao Lado pela primeira vez em 1962; é bem possível que tenha revisto uma ou duas vezes ali pelos anos 70 ou 80, uma época em que deixei de anotar muitos dos filmes que via, ocupado demais com muito trabalho e frilas e a vida conturbada. O fato é que só anotei aquela primeira vez, em 1962, o ano em que Marilyn morreu. O Cine Guarani, na Rua da Bahia, pouco acima do Maletta, programou um festival de Marilyn, um filme por dia. Está lá anotado no meu primeiro caderninho de cinema, com letra de criança, que, entre os dia 24 de agosto e 2 de setembro, o garoto Sérgio Vaz viu Os Desajustados, Adorável Pecadora, Torrente de Paixão, O Mundo da Fantasia, Nunca Fui Santa, O Pecado Mora ao Lado e Como Agarrar um Milionário.

“A santidade da instituição do casamento e do lar será preservada”

Pobre Richard Sherman! Cheio de boas intenções, disposto a resistir às tentações da solteirice durante o verão sufocante, pegajoso.

Aí, toca a campainha no seu predinho de três andares, ele abre a porta, e adentra no hall e no filme The Girl, na pele de Marilyn Monroe. Aí, como diria o gago da piada, fô fô fô fô…

Os vizinhos do segundo andar – Sherman mora no térreo – haviam viajado para a Europa, e sublocado o apartamento, durante aqueles meses de verão, para A Garota.

Aí, como diria o gago da piada, fô fô fô fô fô fô…

Na peça que fazia um tremendo sucesso na Broadway, fô fô fô fô fô fô…,, sim. Sherman e A Garota chegam às vias de fato. No teatro não havia Hays Office, não havia o Motion Picture Production Code, o código de autocensura da Motion Pictures Producers and Distributors of America (mais tarde renomeada para Motion Pictures Association of America).

O teatro – sem dúvida por atingir muitíssimo menos gente que o cinema – sempre tinha sido mais livre. Ainda nos anos 30, Mae West, já citada aí acima, falava de sexo de maneira aberta, escrachada, nos teatros de Nova York. Foi ela cruzar o país e começar carreira em Hollywood que as ligas de decência todas se ouriçaram. Foram os protestos dos conservadores, moralistas, católicos, cristãos de maneira geral contra o que consideravam abuso de licenciosidade do cinema nos primeiros anos da década de 30 que levaram a associação dos grandes estúdios a criar o código, que passaria para a história como Código Hays por causa do nome do rigoroso censor-chefe, Will H. Hays,

zzseven3O Código Hays foi adotado em 1930, e nos anos seguintes tornou-se ainda mais rígido – ao menos em parte como uma reação à desabrida Mae West, uma mulher de fato sem medo de ser feliz e sem papas na língua.

Vale sempre lembrar o que dizem alguns trechos do Código:

“Nenhum filme será produzido que possa fazer abaixar os princípios morais daqueles que irão vê-lo. Desta forma, a simpatia da audiência jamais deve ser jogada para o lado do crime, do fazer errado, mal ou pecado. Princípios corretos de vida, sujeitos apenas às exigências do drama e do entretenimento, devem ser apresentados. A lei, natural ou humana, não será ridicularizada, nem simpatia pela sua violação será criada. (…) A santidade da instituição do casamento e do lar será preservada. (…) O adultério, às vezes material necessário para a trama, não deve ser tratado explicitamente, ou justificado, ou apresentado de forma atraente.”

O Código passou a sofrer duros ataques no final dos anos 50 e ao longo dos anos 60 – até cair de maduro em 1968, quando foi instituído o sistema de classificação etária da MPAA que está em vigor até hoje. Cineastas como Billy Wilder, Otto Preminger e Elia Kazan, entre outros, insistiam em ousar, em forçar a barra para fazer passar coisas proibidas. Mas o fato é que nos anos 50 a pressão conservadora, moralista, era violentíssima.

O autor reconhece que a censura fez a história ficar sem sentido

Billy Wilder e o próprio autor da peça The Seven Year Itch, George Axelrod, trabalharam juntos no roteiro. A batalha entre eles e os censores do Hays Office foi duríssima. Os censores cortavam trechos e trechos do roteiro como se fazia na época da ditadura com as letras de Chico Buarque, Taiguara e tantos outros compositores. Wilder e Axelrod reescreviam, reapresentavam os trechos reescritos, os censores faziam novos cortes.

Como, segundo o Código, “a santidade da instituição do casamento e do lar será preservada”, decidiu-se que Richard Sherman e A Garota simplesmente não se comiam!

zzseven88O que se vê em O Pecado Mora ao Lado é que Sherman e A Garota trocam três beijinhos. O pecado que mora ao lado são três selinhos desses absolutamente inocentes.

Em um excelente documentário sobre a produção de The Seven Year Itch, feito em 2000, que acompanha o filme no DVD lançado pela Fox, o autor George Axelrod diz, com imensa dose de lógica, que, a rigor, a rigor, a história ficou sem sentido: ora, se não aconteceu coisa alguma entre Sherman e A Garota, então por que raios ele fica tão absolutamente tomado pela culpa?

Só por ter desejado, ter fantasiado que houvesse alguma coisa de fato entre ele e aquela mulher estrondosamente bela, aquele convite descomunal ao desejo, à luxúria? Ora, qualquer pessoa, de qualquer uma das diversas opções sexuais hoje tão exigentes de seus direitos, que tivesse ficado junto com aquela Marilyn toda naquelas condições e não a tivesse desejado teria que ser condenada ao inferno dos chatos e loucos sem graça.

Apesar de todos os cortes, o filme é deliciosamente safado

Apesar de todos os cortes determinados pelo Hays Office, no entanto, o filme é deliciosamente safado – ou não seria um filme de Billy Wilder. Como é, é todo cheio de insinuações gostosas, de brincadeiras sacanas engraçadíssimas. E, como é um filme com Marilyn Monroe, acaba sendo muito mais sensual do que a maioria dos filmes de sexo explícito que a TV a cabo mostra todas as madrugadas.

A bunda de Marilyn quando ela sobe as escadas, logo na primeira sequência em que ela aparece e bate a campainha, e entra carregando o ventilador, cujo fio fica preso na porta… Meu Deus do céu e também da terra.

zzseven5A piadinha do tomateiro que cai do segundo andar no banco em que Sherman estava sentado até um segundo antes… A Garota aparece na tela com os ombros nus – e a insinuação é de que ela está peladinha de tudo, ao dizer que vai até a cozinha se vestir, porque naquele calor ela bota a roupa íntima no congelador…

O momento em que Marilyn tira o cinto e ergue a blusa para sentir o ventinho frio que sai do aparelho de ar condicionado da sala do apartamento de Sherman…

A cena de Marilyn na banheira – uma das loucas fantasias que passam pela cabeça de Sherman – enquanto ela conta ter sido atacada por um homem casado para o bombeiro que tenta tirar o dedão o pé dela de dento da torneira…

Sherman bota para tocar Rachmaninoff, mas a Garota gosta é do Bife

Aliás, como são bem sacadas todas as sequências das fantasias que passam pela cabeça super imaginativa de Sherman, o editor de livros que consegue fazer uma capa apelativa até mesmo para o clássico extremamente família Little Women, de Louisa May Alcott (1832–1888).

É uma maravilha a fantasia de que a secretária da editora o ataca pedindo sexo, de que a enfermeira da noite do hospital em que operou do apêndice o ataca pedindo sexo.

Wilder goza até o cinema: antecipando-se várias décadas a Mel Brooks e às paródias de filmes, do tipo Apertem os Cintos… O Piloto Sumiu, ele goza uma das mais antológicas sequências de filmes americanos, o apaixonado beijo de Burt Lancaster e Deborah Kerr em A Um Passo da Eternidade/From Here to Eternity – ela mesma, aliás, a esplêndida sequência do filme de Fred Zinnemann de 1953 uma vigorosa afronta ao Código Hays.

zzseven9As citações ao cinema são várias. Gregory Peck, então um dos maiores galãs de Hollywood, é citado como o antípoda de Sherman, um sujeito feioso, sem qualquer charme.

A mais hilária é bem no final, quando Tom MacKenzie, o bonitão pretenso paquerador da esposa Helen, chega ao apartamento e A Garota está na cozinha, preparando o café da manhã. E Sherman diz que ele vai querer saber quem é a loura que está na cozinha, e Tom MacKenzie diz: “Qual loura na cozinha?” Aí Sherman diz: – “Ah, bem que você gostaria de saber! Talvez seja Marilyn Monroe!”

Nossa, como tem sequência deliciosa este filme!

A da primeira visita da Garota… Que maravilha! Sherman bota na vitrola Rachmaninoff, o Concerto número 2 para piano, e imagina A Garota chegando numa roupa elegante. E aí A Garota chega de blusa e calça comprida confortável, esportiva… e a música que mexe com ela, em vez do solene Rachmaninoff, é O Bife!

E, quando ele tenta atracar-se com ela, e caem ao chão (e o espectador pode ver, por alguns rápidos segundos, as coxas fartas de Marilyn), ele fica culpado, mortificado, envergonhado, e diz que aquilo nunca tinha acontecido antes com ele – ao que ela candidamente responde: “Pois comigo acontece o tempo todo!”

A sequência antológica: o vento do metrô levanta a saia de Marilyn

Mas é claro que, de todas as sequências engraçadas, safadas, divertidas, deliciosas, a melhor, a absolutamente antológica, é a do vento que sai dos dutos do metrô, no passeio, e levanta a saia da Garota.

zzseven8Tinham ido ao cinema ver The Creature from the Black Lagoon.

Fiquei em dúvida se o filme existiu mesmo ou foi uma invenção de Wilder e Axelrod. Não, não, existiu mesmo – deve ser uma absoluta delícia de produção não B, mas Z: é de 1954 mesmo, foi dirigido por Jack Arnold, e estrelado por Richard Carlson e Julie Adams.

Saem do cinema, e A Garota está encantada com O Monstro da Lagoa Negra (este foi de fato o título do filme no Brasil). Está encantada com O Monstro da Lagoa Negra como as criaturas de narizinho empinado ficam ao sair do cinema após ver Amor, de Michael Heneke, ou Uma Eternidade e um Dia, de Theodoros Angelopoulos. Apiedou-se do monstro, ficou profundamente triste com o destino dado ao monstro.

Aí pára sobre a grade no passeio em cima do respiradouro do metrô.

Passa um metrô, o vento sai de baixo do passeio e joga a saia branca rodada de Marilyn Monroe para cima.

Naquele calor insuportável do auge do verão pegajoso de Manhattan, até o vento que sai do duto do metrô é mais fresquinho – e A Garota faz uma expressão de mais puro prazer.

E aí vem outro metrô.

A Fox convocou a imprensa toda para testemunhar a filmagem da seqüência

A vida muitas vezes imita a arte, a arte em geral tenta imitar a vida, mas há momentos em que a ficção não tem absolutamente nada a ver com a realidade.

zzsevenruaA sequência é maravilhosa, é engraçadíssima, virou antológica, é uma das imagens mais emblemáticas do cinema americano. O por trás das cenas, no entanto, é triste a não mais poder.

Aos 28 anos de idade apenas, maior estrela de Hollywood, Norma Jean vivia, para aproveitar a belíssima imagem criada por Bernie Taupin na canção de Elton John, como uma vela ao vento. Não uma vela de barco, que infla, cresce com o vento, mas uma vela de cera, cuja pequena chama o vento apaga. Incensada, desejada pela multidões, a maior deusa do sexo do século, Norma Jean era insegura, instável – a candle in the wind. Entupia-se de remédios.

Tinha dificuldades para memorizar as falas. Errava as falas constantemente. No pequeno – 24 minutos – mas belíssimo documentário Back Story: The Seven Year Itch, há trechos de depoimentos de Billy Wilder em que ele fala disso. Tinha que repetir várias vezes a mesma tomada, até que Marilyn conseguisse dizer a fala como ele esperava – mas, quando ela enfim conseguia, era a mais absoluta maravilha.

(O filme Sete Dias com Marilyn/My Week with Marilyn, sobre as filmagens de O Príncipe Encantado/The Prince and the Showgirl, mostram exatamente a mesma realidade: as filmagens foram duríssimas, um inferno – mas, quando a gente vê Marilyn no filme, é impossível imaginar tanto drama, porque as imagens afinal escolhidas são maravilhosas, estonteantes.)

O casamento com Joe Di Maggio já não ia muito bem. Di Maggio era do tipo que achava que lugar de esposa é em casa, cozinhando e cuidando dos filhos. Por que ele achou que Marilyn abandonaria a carreira para ficar em casa, isso é um mistério impenetrável. Nem mesmo o extraordinário Gay Talese, em seu famoso perfil do ídolo do beisebol, conseguiu chegar sequer perto de uma resposta. Mas o fato é que Marilyn estar filmando em Nova York, seguida em cada passo por toda a imprensa, e ele estar do outro lado do país, em San Francisco, não facilitava as coisas.

zzseven9999E então Di Maggio voou para Nova York, para ficar junto da esposa. Estava lá quando Billy Wilder filmou a sequência do vento do metrô.

A Fox investia muito no filme. Tinha a certeza absoluta de que teria um gigantesco sucesso de bilheteria. E então, para incendiar ainda mais o circo, convocou a imprensa para acompanhar as filmagens da sequência, em locação perto da Times Square, no umbigo de Manhattan. Toda a imprensa estava lá, batalhões de fotógrafos, uma multidão de 5 mil pessoas – homens babando como os índios babavam pela gostosona na sequência inicial, como os nova-iorquinos da atualidade babariam ainda na estação ferroviária pela gostosona moderna.

Há testemunhos de que Marilyn tomou o cuidado de vestir duas calcinhas, uma sobre a outra, para que não houvesse possibilidade de se avistarem os pelos pubianos.

E filmavam-se as tomadas uma, duas, dez, 20 vezes. A saia rodada de Marilyn subia até a cabeça dela, e o mundo inteiro via a calcinha de Marilyn. Diante do maridão italiano.

No dia seguinte, ou dois dias depois, Di Maggio voltou para a Costa Oeste.

Só na ficção o sangue do marido é de barata

zzseven99A vida muitas vezes imita a arte, a arte em geral tenta imitar a vida, a arte imita a arte, a vida imita a ficção. Apenas dois anos antes das filmagens de O Pecado Mora ao Lado, ainda antes de estourar como grande estrela, Marilyn havia feito o papel de uma mulher bonita e gostosa que se dá bem nos concursos de miss, ou de Mrs. Em Travessuras de Casados/We’re not Married,  de 1952 a personagem de Marilyn, Annabel Norris, expõe o corpo inteiro nos concursos – e o maridão, Jeff, não vê problema algum nisso. Ao contrário: ele incentiva a homarada a olhar para aquela preciosidade toda que dorme em sua cama.
Fantástico: eu não havia percebido a semelhança entre a situação de Joe Di Maggio com a de Jeff Norris, o marido da personagem de Marilyn em We’re Not Married. Quem chamou minha atenção para isso foi Mary, sempre atenta, muito mais que eu.

Eu, que não tenho nenhum pingo de sangue siciliano, digo aqui: me sinto muito mais próximo do Di Maggio pessoa real do que do de Jeff Norris da ficção.

Só na ficção – ou numa Escandinávia fictícia – o sangue do marido é de barata. 

Os cartazes mostram as coxas todas que no filme não puderam aparecer

Nada do que foi filmado em locação, na rua de Nova York, a céu aberto, diante de fotógrafos dos jornais e daquela homarada babante, foi aproveitado. O ruído da multidão mostrou-se ensurdecedor demais.

zzseven999A produção teve que construir uma réplica do cinema que exibia The Creature from the Black Lagoon e da rua de Nova York dentro dos estúdios da Fox em Hollywood para que as tomadas fossem refeitas. E foi necessário filmar 40 novas tomadas da saia branca de Marilyn subindo até sua cabeça e mostrando toda a amplidão de suas coxas, até a calcinha.

Entra em ação novamente o Hays Office. Na versão finalmente aprovada do filme, na montagem final que chegaria aos cinemas depois da grande estréia no dia do 29º aniversário de Marilyn, o que o espectador vê é apenas o iniciozinho das coxas.

Os cartazes mostram toda a extensão das coxas, a calcinha. No filme, aparece apenas o iniciozinho das coxas. O mesmo que já havia sido visto em O Inventor da Mocidade/Monkey Business, de 1952, em que Marilyn faz um papel secundário, antes de virar estrela.

Censura, moralismo caolho e calhorda, ligas de decência, essas tristezas ficariam para trás muito rapidamente, nos anos que se seguiram a O Pecado Mora ao Lado.

O talento dos realizadores, dos atores, o brilho do filme, tudo isso continua intacto, 60 anos depois.

Billy Wilder e Marilyn voltariam a se encontrar, poucos anos depois, em 1959, em Quanto Mais Quente Melhor/Some Like it Hot. O segundo filme que fizeram juntos conseguiria a proeza de ser ainda melhor do que o primeiro.

Anotação em junho de 2014

O Pecado Mora ao Lado/The Seven Year Itch

De Billy Wilder, EUA, 1955.

Com Marilyn Monroe (The Girl),  Tom Ewell (Richard Sherman)

e Evelyn Keyes (Helen Sherman), Sonny Tufts (Tom MacKenzie), Robert Strauss (Mr. Kruhulik), Oskar Homolka (Dr. Brubaker), Marguerite Chapman (Miss Morris), Victor Moore (o encanador), Butch Bernard (Ricky Sherman)

Roteiro Billy Wilder e George Axelrod

Baseado na peça homônima de George Axelrod

Fotografia Milton R. Krasner

Música Alfred Newman

Montaagem Hugh S. Fowler

Produção 20th Century Fox. DVD Fox.

Cor, 105 min

***1/2

7 Comentários

  1. José Luís
    Postado em 12 setembro 2014 às 7:40 pm | Permalink

    Adorei ver este filme. Graças ao DVD que comprei pois nunca tinha visto. Até parece impossível mas é verdade. Lembro aqui a crónica do nosso amigo Rato que é muito interessante.

  2. mario.silva
    Postado em 27 setembro 2014 às 1:46 am | Permalink

    Uma delícia de filme e crítica irretocável.
    Além da cena do vestido levantado pelo vento, a cena mais estupenda é aquela em que ela informa que sua calcinha estava na geladeira,
    para apagar o fogo que a consumia… Apesar da crítica do autor, creio que o filme ganhou com a frustração da relação adúltera. Uma informação: O Monstro da Lagoa Negro é um clássico do terror, que
    marcou meus 9 ou 10 anos de idade e que, surpreendentemente, se passa na Amazonia, e como em King Kong o monstro se apaixona pela bela (Julie Adams).Tal foi o sucesso que houve uma sequência – A Volta do Monstro da Lagoa Negra. Uma discordância:
    apesar do mito Marilyn, a grande fêmea do sec. XX foi Brigitte Bardot.

  3. Fred
    Postado em 2 novembro 2014 às 4:13 am | Permalink

    Não sei como vim parar aqui, mas sei que, após ter lido o seu post, me senti “obrigado” a assistir este filme…

    Valeu cada segundo e, ao final, veio o inevitável questionamento: “Como é que eu posso ter passado tanto tempo sem nunca tê-lo assistido?!”

    Não há uma explicação, mas há, com certeza, um grande agradecimento a vc, Sérgio, por ter me apresentado a essa delícia de filme.

    Obrigado!

    Abs,
    Fred.

  4. Sérgio Vaz
    Postado em 3 novembro 2014 às 12:10 am | Permalink

    Que coisa boa receber sua mensagem, Fred!
    Maravilha.
    Obrigado. Espero que você volte outras vezes ao site.
    Sérgio

  5. Jussara
    Postado em 22 dezembro 2014 às 12:09 am | Permalink

    Esse filme não teve apelo para mim, penso que por eu ser mulher, e a história não segurar, devido aos inúmeros cortes no roteiro. Li que eles não quiseram optar por um galã (o protagonista é feiosinho demais, verdade seja dita), para que ficasse mais crível ou interessante, algo assim, mas precisava ser um homem tão sem sal e sem charme? Pelo menos ele era bom ator, isso ajuda.

    Adorei a frase “Ora, qualquer pessoa, de qualquer uma das diversas opções sexuais hoje tão exigentes de seus direitos” (…).
    Tão exigentes de seus direitos – disse tudo! Quanto ao restante do parágrafo, como sou hétero demais (li essa expressão esses dias, escrita por uma mulher, e achei *hilária) se eu estivesse no mesmo lugar que MM, o máximo que faria seria tirar uma selfie pra postar nas redes sociais!

    Seu texto destrincha e discorre maravilhosamente bem sobre tudo, com riqueza de detalhes (que eu particularmente adoro), que não há o que acrescentar.

    Apesar de todos os cortes, o filme conseguiu ser mesmo safado, as tiradas são boas. Algumas partes eu achei meio maçantes, em compensação tem outras ótimas e super engraçadas. Para mim valeu mais para conhecer a marcante e icônica cena do vestido levantado pelo vento do metrô, uma das mais famosas do cinema.

    Espero que você decida rever e escrever sobre Some Like it Hot. Esse sim, é um filme que eu adoro! E ainda tem Tony Curtis, gato demais, e impagável imitando Cary Grant, e Jack Lemmon, que me faz rir muito, toda vez!
    As historinhas de bastidores são ótimas, com MM sendo MM e esquecendo as falas.

    *alguns podem achá-la politicamente incorreta, mas ai, preguiça.

  6. Ana Clara
    Postado em 30 Janeiro 2015 às 10:53 pm | Permalink

    Boa noite. Sou dooooida pra assistir esse filme, e todos os outros da Marilyn. Porém, não sei onde encontrá-los. Há algum link/site, ou recomendações de algum vendedor pela internet?

  7. Miguel
    Postado em 18 Maio 2015 às 6:16 pm | Permalink

    Uma comédia divertida, sofisticada e com uma Marilyn maravilhosa, mas não completamente divertida. Eu julgo que raramente me ri ao ver o filme. Os tons azuis são predominantes e o ambiente é belo e caseiro. Os diálogos inteligentes e as interpretações soberbas mas há comédias melhores

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  1. […] o autor do roteiro, escritor e roteirista de primeiro time, autor da peça teatral que resultou em O Pecado Mora ao Lado, entre várias obras […]

  2. Por 50 Anos de Filmes » Sabrina em 8 Abril 2015 às 4:17 pm

    […] ou para o mal. Mas com Sabrina não tem jeito: o filme é superlativo. Sabrina é a prova de que Billy Wilder é um dos mais magníficos, mais maravilhosos textos do cinema. E de que Audrey Hepburn é uma das […]

  3. […] foi homem de muitas esposas – cinco. Meu Deus: ela trabalhou em E o Vento Levou… (1939) e em O Pecado Mora ao Lado (1955): neste, foi a esposa do protagonista, interpretado por Tom Ewell, que viaja de férias […]

  4. […] desses filmes é “O Pecado Mora ao Lado“, em que a personagem de Marilyn é uma loira, padrão estereotipado de beleza […]

  5. Por 50 Anos de Textos » O ar no meio das pernas em 1 agosto 2016 às 4:47 pm

    […] The Seven Year Itch no Brasil é O Pecado Mora ao Lado. […]

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