O Negociador / Whole Lotta Sole

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Nota: ★★★☆

Whole Lotta Sole, no Brasil O Negociador, é uma comédia engraçadíssima, hilariante. Fala de temas pesados de uma forma alegre, extremamente bem humorada, livre leve solta, de quem está de bem com a vida.

Coisa de irlandês. Sei que generalizar é sempre perigoso, mas todas as indicações mostram de que os irlandeses são, de maneira geral, alegres, bem humorados, de bem com a vida.

O filme abre, como quase todos os filmes recentes, com os logotipos das empresas produtoras – e faz questão de dizer, em letras gigantes, após os primeiros logos: Northern Ireland. É da Irlanda do Norte, com muito orgulho.

A narrativa começa freneticamente, aceleradissimamente, a mil. Confesso que fiquei bem zonzo, sem fôlego, com tanta pressa, tanto fato, tanto personagem novo aparecendo bem no comecinho do filme.

zzsole7Tomada aérea, plano geral, de uma megalópole à noite, e um letreiro: “Boston, Massachusetts”. Corta. Uma rua residencial, noite: um sujeito sai correndo de uma das casas, um braço ferido; atrás dele sai uma jovem mulher só de calcinha e sutiã, segurando uma faca. Ela grita coisas como “Joe, volte! Joe, eu te amo!”

Joe, o protagonista da história, o papel do grandalhão Brendan Fraser, corre até um táxi, consegue entrar, o táxi dá a partida. A jovem lança a faca contra o carro que se distancia e grita: “Vou contar para o meu pai e ele vai te matar!”

Aí ela bate o pezinho no chão, como algumas mulheres costumam fazer quando estão contrariadas. Só que ela está descalça, seu pezinho bate no asfalto áspero e ela faz uma careta. Aí, já um tanto conformada, gira 180 graus e se encaminha de volta para sua casa.

Um grande número de personagens, uma trama bem boladadíssima

Levei três parágrafos para descrever – no filme, a ação não demora mais que dois minutos, se tanto.

Corta. Tomada aérea, plano geral, de uma grande cidade durante o dia, e um letreiro: “Belfast, Irlanda do Norte – Três meses depois”.

E então começam os créditos iniciais, enquanto vamos vendo cenas de Belfast, amplas tomadas gerais, outras de gente nas ruas. Ao fundo, uma bela canção, uma letra falando de tragédias como são em geral as canções folk irlandesas. O espectador ainda não sabe, mas as pessoas que aparecem caminhando nas ruas de Belfast ao longo dos créditos iniciais serão os personagens da história.

zzsole4E é uma história muito, mas muito bem bolada. E são muitos, mas muitos os personagens, que vão sendo apresentados ao espectador numa velocidade de Fórmula-1, de videoclipe. Eis os principais:

* Joe Maguire, o sujeito que levou a facada da jovem mulher em Boston, e é interpretado por Brandan Fraser, está, três meses depois de ter sido esfaqueado, vivendo em Belfast, tomando conta da loja de antiguidades e bugigangas de seu primo, o qual, por sua vez, está fora do país, em algum tipo de missão humanitária ligada à Igreja Católica. O primo ausente não faz parte da história.

* Jimbo (Martin McCann, na foto acima) é o desacerto em pessoa, tadinho. Garotão aí de 20 e poucos anos, working class, desempregado, pai de um bebezinho, Sean, endividou-se espetacularmente. Deve a fortuna de 5 mil libras a Mad Dog Flynn.

* Mad Dog Flynn (David O’Hara) é o mal em si. É um gângster, ladrão, assassino, que, à la Al Capone, só não foi preso ainda por falta de provas claras, inequívocas, de seus roubos e assassinatos. É dono de um uma casa de jogos, na qual o pobre Jimbo se endivida mais e mais. Mad Dog Flynn é tão mau, mas tão mau, que é capaz de dar um sopapo na própria mulher porque ela traz à baila o tema ter filhos. Ela é louca para ter filhos, e ele se recusa sequer a admitir a possibilidade de ser infértil.

* Randy (Michael Legge) é um garotão boa gente, gente finíssima. Entrou para a polícia (veremos que por insistência do pai), mas é uma personalidade talhada para o serviço social. Gosta de ajudar os outros, os desvalidos, os não afortunados. Tem conflitos incessantes com o pai, o detetive-inspetor Weller.

* O detetive-inspetor Weller, uma espécie assim de chefão da polícia civil, é uma figuraça – e é interpretado por Colm Meaney (na foto abaixo), esse maravilhoso ator que rouba todas as cenas em que aparece em The Commitments, em que interpreta o pai do protagonista, o garoto que está putting up a band. Weller é um velho policial à moda antiga, que gosta da Irlanda, de comida gordurosa, polícia feita sem tiros à toa e, lá pelo fim da lista, protestantismo. Gostar da Irlanda, no caso, significa que Weller não gosta muito especialmente do fato de seu pedaço da Irlanda, a Irlanda do Norte, pertencer ao Reino Unido.

zzsole5* Sox (Conor MacNeill) é o maior amigo do garoto trapalhão Jimbo. Amigo do peito, faz tudo para ajudar o camarada em apuros. É dele a idéia de sugerir – como forma de Jimbo pagar sua dívida para com Mad Dog Flynn – um assalto ao grande mercado de peixes numa sexta-feira, dia em que os católicos compram muitos peixes e o caixa fica recheado. O mercado se chama Whole Lotta Sole, o título original do filme – que, a rigor, quer dizer um grande monte de linguado. Para o eventual assalto, Sox sugere a arma: uma metralhadora de um ativista do IRA, o Exército Republicano Irlandês, que havia no passado se refugiado na casa de seu avô

* O vovô de Sox (interpretado por James Greene) é talvez a figura mais fascinante – e hilariante – de toda essa plêiade de personagens. Parece um nonagenário, velhinho de tudo – mas se mantém tão fiel aos ideais separacionistas quanto décadas antes. Mais fiel que à Irlanda livre da Inglaterra ele só é fiel à maior paixão irlandesa, além da música, da religião, da briga religiosa, da briga qualquer que seja ela, do bom humor, que é a bebida.

* Sophie (Yaya DaCosta) é uma comerciante vizinha da loja de antiguidades que agora está sendo cuidada por Joe Maguire, o ianque que foi para Belfast fugindo de uma vingança do pai da garotinha que no início da narrativa o esfaqueou e depois o perseguiu na rua quase pelada dizendo que o amava. Na verdade, Sophie é o tal do female interest – todo filme tem que ter uma garota que seja próxima do protagonista, porque… porque… Porque é um axioma: filme sem uma mulher interessante tem menos público, pô!

Parece que já tem personagem demais – mais ainda há outros. Há uma família de ciganos – pai, mãe, dois filhos. O pai é um malandro, um pequeno trapaceiro contumaz. A mãe é brava, bravíssima. O pai tenta usar os dois filhos garotos nos seus pequenos golpes.

Um grande diretor e roteirista de filmes sérios sobre conflitos políticos

A trama espertíssima junta todos esses personagens, e cria situações absolutamente hilariantes. Por muitas vezes, chegamos bem perto das comédias mais escrachadamente pastelão.

Se fosse apenas uma comédia escrachada, screwball, pastelônica, já seria uma delícia.

Acontece que o diretor se chama Terry George – e isso faz toda a diferença.

zzsole6Terry George não apenas dirigiu, mas também foi o co-autor do roteiro, juntamente com Thomas Gallagher, o autor da história original.

Terry George é um grande roteirista e um grande diretor. É da minha geração: nasceu em 1952, na Belfast que mostra neste filme aqui. Formou com Jim Sheridan, outro irlandês, só que natural de Dublin, onde nasceu em 1949, uma dupla que fez uma série de filmes fascinantes sobre os conflitos religiosos-políticos que transformaram a Irlanda do Norte em um campo de batalha sangrento, absurdo, entre o final dos anos 60 e o início dos 90.

Levam a assinatura de Terry George, como roteirista ou como diretor, os maravilhosos Em Nome do Pai (1993), Mães em Luta (1996) e O Lutador (1997), todos sobre os conflitos na Irlanda do Norte. É dele também o roteiro do excelente Hotel Ruanda (2004), sobre outra guerra tribal, dessa vez num continente mais acostumado a guerras tribais.

Terry George é um escritor e diretor de filmes políticos, de filmes que falam sobre política, sobre conflitos que envolvem etnias, costumes, religiões. Autor ou co-autor de dramas pesados, aqui Terry George cai na comédia escrachada, pastelônica. Mas não se esquece jamais das questões sérias das quais tratou em seus outros trabalhos.

Ele faz uma gozação violenta das forças especiais do exército da Grã-Bretanha ainda presentes para o caso de o Ulster virar um caos de novo. O detetive-inspector Weller é firme no enfrentamento dos chefes, os burocratas que estão acima dele. Ao saber que havia ordens do ministro do Interior, não tem dúvidas: diz aos ingleses que eles podem falar com o primeiro-ministro, ou com a Rainha – ele está se danando.

Yaya DaCosta, jovem e e bela atriz, faz a principal personagem feminina  

Female interest, todo filme tem que ter, como já falei mais acima. A existência de uma mulher na trama torna qualquer filme mais interessante.

Mas este é um filme de Terry George, e Terry George não desperdiça nada, não põe bola alguma para fora. O female interest, a moça por quem o Joe, o personagem do grandalhão Brendan Fraser vai se interessar, vem na pele negra de Yaya DaCosta. Sua personagem, Sophie, é uma emigrante da Etiópia.

zzsole99Yaya DaCosta é uma bela atriz que está em ascensão. Começou a carreira em 2005, e tem tido participação em bons filmes, como O Mensageiro (2009), Minhas Mães e Meus Pais (2010), O Mordomo da Casa Branca (2013). Foi escolhida para fazer o papel da cantora Whitney Huston em um filme para a TV previsto para estrear em 2015. Nascida no Harlem, Nova York, em 1982, ela é filha de um brasileiro com uma nigeriana.

Dá um imenso, infinito prazer ver um casal de cores de pele diferentes – seja em um filme, seja mais ainda na vida real.

Os casais de cores de pele ou tipo de olhos diferentes são a melhor esperança de que algum dia teremos vencido os racismos.

Este filme que parece apenas uma comédia hilária trata – muito bem – de muita coisa séria.

Anotação em julho de 2014

O Negociador/Whole Lotta Sole

De Terry George, Irlanda do Norte, 2011.

Com Brendan Fraser (Joe Maguire), Colm Meaney (detetive Weller), Martin McCann (Jimbo), Yaya DaCosta (Sophie), David O’Hara (Mad Dog Flynn), Michael Legge (Randy Weller), Conor MacNeill (Sox), Frankie McCafferty (Skins), Rupert Wickham (capitão Farnsworth), Mary McCrossan (Annie), Amanda Hurwitz (Mary Ellen), Marie Jones (Ma Flynn), James Greene (Granda Sox), Jamie Kierans (Petie)

Roteiro Terry George e Thomas Gallagher

Baseado em história de Thomas Gallagher

Fotografia Des Whelan

Montagem Nick Emerson

Produção Generator Entertainment, Media Pro Six,

Menlo Park Productions.

Cor, 89 min

***

2 Trackbacks

  1. Por 50 Anos de Filmes » Trapaça / American Hustle em 22 novembro 2014 às 6:22 pm

    […] me surpreendem, tipo Refém da Paixão/Labor Day (2013), A Gaiola Dourada/La Cage Dorée (2013), O Negociador/Whole Lotta Sole […]

  2. Por 50 Anos de Filmes » A Caça / Breakout em 15 janeiro 2015 às 10:43 pm

    […] gravar. Hoje fui ver o filme – só que é um outro A Caça, de um sujeito chamado Damian Lee, com Brendan Fraser. Com cinco minutos já dava para saber que é porcaria; com meia hora, o filme mostra o que vai ser […]

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