O Enigma da Pirâmide / Young Sherlock Holmes

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Nota: ★★½☆

Young Sherlock Holmes, no Brasil O Enigma da Pirâmide, de 1985, tem um monte de coisas simpáticas, deliciosas, encantadoras. Mais para o fim, a trama se enrola e se perde – mas, apesar disso, é um filme gostoso de ver e rever.

O argumento e o roteiro são de Chris Columbus, um sujeito que de fato domina como poucos o mundo da adolescência. Este aqui foi seu quarto roteiro, depois de Gremlins e Jovens Sem Rumo/Reckless (de 1984) e Os Goonies. Mais tarde teria extraordinário sucesso como produtor e/ou diretor de Esqueceram de Mim/Home Alone (1990), Uma Babá Quase Perfeita/Mrs. Doubtfire (1993), Harry Potter e a Pedra Filosofal (2001) e Harry Potter e a Câmara Secreta (2002).

Muito do encanto de Young Sherlock Holmes vem da imaginação de Chris Columbus; infelizmente, boa parte dos tropeços do filme, depois da metade, também se deve a ele.

zzyoung2A idéia básica, que o título original já realça, é uma maravilha: Chris Columbus inventou uma história sobre o tempo em que Sherlock Holmes, um dos personagens mais marcantes e mais amados de toda a literatura, era estudante, e resolveu seu primeiro caso.

Todos os sherlockistas do mundo (e eles são centenas e centenas de milhares) sabem que Holmes conheceu o dr. John Watson quando os dois já eram perfeitamente adultos. É o que reza o Cânone. Mas por que não brincar, por que não fazer uma fantasia, e contar que, na realidade, os dois se conheceram ainda adolescentes, colegas de uma mesma escola na Londres ali por volta de 1875?

Por que não?

Um intróito arrasador, com espetaculares efeitos especiais

O jovem Watson aparece antes que o jovem Sherlock, em Young Sherlock Holmes, mas antes de eles aparecerem há um intróito – e que intróito!

Um cavalheiro sai de casa à noite e caminha pelas ruas de Londres. Está nevando. Uma figura encapuzada, sinistra, segue o cavalheiro pelas ruas movimentadas da capital do império que ocupava então mais da metade do mundo – não há letreiro para especificar a data, mas percebe-se que é século XIX, a Era Vitoriana. (Isso será especificado um pouquinho adiante.)

O cavalheiro, Mr. Bobster (Patrick Newell), pára por um momento para examinar o cardápio de um restaurante, exposto para a rua. A figura encapuzada saca uma zarabatana, e sopra com força em direção a Bobster. Este sente como que uma picada de um mosquito na garganta, passa a mão nela. O encapuzado some da cena, enquanto Bobster entra no belo restaurante.

O garçom serve seu prato predileto – uma ave, frango ou pato, whatever, ainda não desossada.

A ave vira um monstro que ataca Mr. Bobster. O espectador vê o monstro de perto.

zzyoung0Mr. Bobster luta contra a ave agora monstruosa, para surpresa da fina clientela do restaurante, que vê (assim como o espectador) apenas um homem mexendo freneticamente com as mãos diante de seu próprio rosto.

Mr. Bobster deixa o restaurante em pânico, vai muito rapidamente para a casa, sobe para o segundo andar quase correndo. Protegido em seu quarto, pendura a cartola e lava o rosto na bacia.

A cartola cai no chão: o suporte onde ela havia sido colocada adquire vida.

Diversos móveis e utensílios do quarto passam a ter vida, e se unem para prender Mr. Bobster e sufocá-lo. As lamparinas a gás explodem, o quarto se incendeia. No auge do pavor, Mr. Bobster se lança pela janela afora e cai estatelado no meio da rua, sobre a neve.

Os efeitos especiais são de arrasar, e não é para menos: criação do Industrial Light and Magic, de George Lucas, o fantástico celeiro de efeitos especiais que dominou o cinema americano nos anos 80.

O intróito dura cinco minutos, e só quando termina, o corpo inanimado do pobre homem jazendo na rua, é que começam os créditos especiais. A direção é do competente, eclético Barry Levinson, e os produtores executivos são Steven Spielberg e seus companheiros de sempre, Kathleen Kennedy e Frank Marshall.

Young Sherlock Holmes tem o toque de Steven Spielberg e George Lucas, os garotos prodígios que haviam surgido na década anterior para que nunca mais o cinema-espetáculo hollywoodiano fosse a mesma coisa, e que quatro anos antes, em 1981, haviam se reunido em Caçadores da Arca Perdida.

A voz em off do John Watson velho narra o momento em que conheceu Sherlock Holmes

Ao final dos créditos iniciais, há um letreiro com esta explicação: “A história a seguir é original e não se baseia especificamente nas façanhas de Sherlock Holmes conforme descritas nos trabalhos de Sir Arthur Conan Doyle.”

zzyoung3E então vemos um garoto cheinho, rolicinho, com uma carinha simpática e óculos redondos, comendo um doce, num carruagem – o jovem John H. Watson (interpretado por Alan Cox), a caminho de sua nova escola. Entra a voz do narrador – o próprio Watson, é claro, o eterno narrador das peripécias e façanhas do detetive mais inteligente de toda a história. Numa bela sacada, a voz não é de um garoto, e sim de um velho – o velho dr. John Watson contando a história de seu primeiro encontro com Sherlock Holmes. É uma bela voz, feita por Michael Hordern:

“Era um dia frio, com muita neve, no início de dezembro”, principia ele. “A falta de fundos havia forçado minha antiga escola a fechar. Eu estava sendo enviado para uma nova no meio do ano escolar. Estava acostumado à vastidão do campo e, agora, estava no coração de Londres, no auge da Era Vitoriana. As ruas estavam repletas de gente em todas as atividades imagináveis. Eu estava muito impressionado com o que via. Enquanto descia da carruagem, a visão da minha nova escola me encheu de medo e apreensão, mas fui tomado por uma onda de curiosidade. No entanto, nada poderia ter me preparado para a extraordinária aventura que viria, ou o extraordinário indivíduo que iria mudar minha vida.”

O jovem Watson ficará num dormitório próximo do jovem Sherlock Holmes (interpretado por Nicholas Rowe). Ao ver o novo colega, o rapazote usa o poder de deducação que já possui, e descreve diversos fatos sobre a vida do recém-chegado: é do Norte da Inglaterra, chama-se James Watson, gosta de doces, etc, etc. Ele havia lido as iniciais J. W. numa das malas do outro, e saiu-se com um prenome comum e um sobrenome idem – o único erro foi trocar John por James.

A primeira metade do filme é uma absoluta delícia. Depois tudo desanda

A primeira grande investigação da vida do jovem Sherlock Holmes será sobre a morte de Mr. Bobster e de outras que se seguirão, sempre de homens que, após serem atacados pelo encapazado misterioso e sua zarabatana, sofrem terríveis alucinações. O aprendiz de detetive e Watson terão uma companhia feminina: Elizabeth (Sophie Ward, uma gracinha) participará de todas as aventuras com o garoto comprido e magrinho e o garoto baixinho e cheinho. Elizabeth é sobrinha-neta do professor Waxflatter (Nigel Stock), que havia sido diretor daquela escola e agora mora com a garotinha num sótão, onde realiza diversas experiências, a principal delas a construção de uma máquina voadora, o primeiro avião da história.

A primeira metade do filme é uma absoluta delícia. Depois da metade, quando aparece uma gigantesca seita de religiosos fundamentalistas egípcios em plena Londres da Era Vitoriana, o roteiro de Chris Columbus desanda bastante – ao menos na minha opinião.

É muito óbvio o dedo de Spielberg no filme, e tanto Leonard Maltin quanto Roger Ebert e Pauline Kael apontam isso.

zzyoung4Maltin deu ao filme 2 estrelas em 4, e escreveu que o filme parece promissor ao especular sobre o detetive de Conan Doyle quando era garoto. Mas depois, diz ele, surgem efeitos especiais, uma subtrama à la Indiana Jones e um clímax de ação que não faz muito sentido. “Se você for de fato ver o filme, tenha o cuidado de ir até bem o final”.

É uma sábia advertência. O diretor Barry Levinson e o roteirista Chris Columbus deixaram bem para o final, após todos os créditos, uma rapidíssima seqüência que faz os sherlockistas se divertirem. Os pais ou avós que forem apresentar o filme a seus filhos ou netos poderão explicar para eles quem é aquele personagem que só aparece depois que terminaram todos os créditos finais.

Ebert deu 3 estrelas em 4 para Young Sherlock Holmes. Escreve longamente, ao contrário do sempre sintético Maltin. Lá pelas tantas, ele afirma que, se há na história elementos típicos de Conan Doyle, há muito também que pode ser identificado como trabalho de Steven Spielberg, o produtor executivo. “Os heróis juvenis, por exemplo, não são apenas inspirados em Holmes e Watson, mas são também primos dos jovens personagens de The Goonies. A fascinação com o mais-leve-que-o-ar leva a uma cena final que me fez lembrar de E.T. E o templo secreto do vilão, com seu ritual de sacrifício humano, parece com cenas dos dois filmes de Indiana Jones.” (Quando o filme foi lançado e Roger Ebert escreveu ainda não havia sido feito, é claro, o terceiro filme de Indiana Jones.)

Ebert diz ainda que um elemento que parece fora de lugar é a personagem Elizabeth – afinal, todos nós sabemos que Sherlock Holmes jamais foi chegado a esse troço chamado mulher.

Eu apostaria que J. K. Rowling viu Young Sherlock Holmes mais de uma vez

O que Maltin e Ebert falam a respeito das influências do estilo Spielberg me parece corretíssimo. É isso mesmo, é Spielberg escrachado, escancarado. Na história passada na Londres vitoriana, Spielberg enfiou muito de Goonies – e mais ainda de Indiana Jones.

Mas há algo interessante que notei ao rever o filme agora – e que Mary e Andrea, que reviram comigo, também notaram: a escola em que Holmes e Watson estudam (e em que mora Elizabeth) tem muito, mas muito, mas muito a ver com Hogwarts, a escola de Harry Potter.

Como nas aventuras do menino mágico, há três heróis, dois garotos e uma garota. Como em Hogwarts, a escola em que estudam Holmes e Watson tem professores que são figuras interessantíssimas, cada uma com sua especialidade. Como em Hogwarts, há os alunos que são vilões, malvadinhos – neste filme aqui o garoto mau, o principal inimigo de Holmes, chama-se Duddley (Earl Rhodes), e é um pentelhinho mauricinho, almofadinha.

zzyoung00As cenas no refeitório de Hogwarts lembram demais as cenas no refeitório da escola de Young Sherlock Holmes.

O primeiro livro de J. K. Rowling saiu em 1997, e o primeiro filme da série de Harry Potter, Harry Potter e a Câmara Secreta, é de 2002, enquanto Young Sherlock Holmes é de 1985. Eu apostaria algumas fichas em que J. K. Rowling viu Young Sherlock Holmes mais de uma vez.

Ou seria apenas coincidência que o diretor de Câmara Secreta tenha sido exatamente Chris Columbus?

Filmes que têm um delicioso gosto de minha filha garotinha

Steven Spielberg é sem dúvida alguma um artista extraordinário. Entre as aventuras e fantasias Caçadores da Arca Perdida, de 1981, E.T. – o Extra-Terrestre, de 1982, e Além da Eternidade/Always, de 1989, ele dirigiu dois filmes sérios, seriíssimos, dramas duríssimos, barra pesada – A Cor Púrpura, de 1985, e Império do Sol, de 1987. Nesse mesmo período, de 1981 a 1989, foi produtor executivo e supervisionou um filme de terror, Poltergeist (1982), e vários para platéias infanto-juvenis dos 11 aos 99 anos de idade: Gremlins (1984), De Volta para o Futuro (1985), Os Goonies (1985), este Young Sherlock Holmes, Um Dia a Casa Cai (1986), O Milagre Veio do Espaço (1987), Viagem Insólita (1987) e Uma Cilada para Roger Rabbit (1988).

Tá louco, siô!

zzyoung9Foi a época, 1981 a 1988, em que comecei a ver filmes com minha filha – primeiro no cinema, e depois, com o advento da fantástica novidade do videocassete, também em casa. (Me lembro bem de Inês e Fernanda ficarem vendo e revendo 20 vezes sem parar, indo para a frente e voltando no vídeo, as cenas de Caçadores da Arca Perdida em que os soldados nazistas vão virando caca musgosa no momento da abertura da arca.) Vi vários desses filmes citados aí acima com minha filha. Inclusive, é claro, O Enigma da Pirâmide, no velho Comodoro Cinerama da Avenida São João.

Os filmes dessa época têm um delicioso gosto de Fernanda garotinha.

Quem sabe não mostro para Marina, daqui a uns oito, nove anos, este Young Sherlock Holmes?

Anotação em março de 2014

O Enigma da Pirâmide/Young Sherlock Holmes

De Barry Levinson, EUA, 1985

Com Nicholas Rowe (Sherlock Holmes), Alan Cox (John Watson), Sophie Ward (Elizabeth),

e Anthony Higgins (Rathe), Susan Fleetwood (Mrs. Dribb), Freddie Jones (Cragwitch), Nigel Stock (Waxflatter), Patrick Newell (Bentley Bobster), Earl Rhodes (Dudley), Michael Hordern (a voz de John Watson idoso)

Argumento e roteiro Chris Columbus

Com base nos personagens criados por Arthur Conan Doyle

Fotografia Stephen Goldblatt

Música Bruce Broughton

Montagem Stu Linder

Produção Steven Spielberg, Mark Johnson, Paramount Picures. DVD Paramount.

Cor, 109 min

R, **1/2

Um Comentário

  1. Carla
    Postado em 6 junho 2014 às 8:53 pm | Permalink

    É fantasia, é fantasia… E vamos curtir como fantasia. Vi (e revi) este filme nos anos da faculdade. Realmente, qualquer fã de Holmes sabe que há exageros e imprecisões. Mas não acho o “elemento Elizabeth” tão impreciso assim – alguém aí se esqueceu de Irene Adler (personagem aliás muito injustiçada nas recentes transposições no cinema e TV).
    O “professor” Anthony Higgins faria sua própria personificação de Sherlock Holmes num filme de 1990 e alguma coisa – Sherlock Holmes: O Retorno, onde Holmes aporta nos dias de hoje via criogenia. Exagerado, às vezes de humor duvidoso – mas, tem seus momentos.
    Ah, se não ficou claro: sou leitora de Holmes desde adolescente.

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  1. […] Sherlock Holmes, todo mundo que já leu alguma coisa sobre ele sabe muito bem, é um homem da era vitoriana. Os grandes casos que ele resolveu (e os pequenos também) aconteceram nas últimas décadas do século XIX e bem no início do século XX. O mais famoso detetive do mundo nasceu, segundo seus biógrafos, em 1854, e foi visto pela última vez em 1914. […]

  2. […] Holmes, co-produção Inglaterra-EUA de 2015, fala desta tragédia. Mostra um Sherlock Holmes bem idoso, aos 93 anos de idade, vivendo isolado do mundo, numa casa num local distante de qualquer […]

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