Nada é para Sempre / A River Runs Through It

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Nota: ★★★½

Robert Redford é um excelente diretor. Me impressiona que este não seja um fato tão reconhecido quanto deveria.

Uma grande quantidade de atores se lança na experiência de dirigir. Nada contra isso, de forma alguma. Creio, no entanto, que Robert Redford é diferente de tantos colegas seus, alguns deles extremamente talentosos em suas experiências na direção, como Jodie Foster, Mel Gibson, Diane Keaton, John Turturro, Dustin Hoffman, para mencionar apenas alguns.

No entanto, Redford me parece um caso à parte. Me parece que Redford simplesmente poderia não ter atuado em nenhum de seus quase 70 filmes; só pelo seu extraordinário trabalho como diretor, já seria grande.

Redford jamais dirigiu um filme ruim, ou fraquinho, ou pouco importante. Bem ao contrário: sua obra como realizador é sólida, admirável, respeitável.

São nove filmes, até aqui – desde Gente como a Gente/Ordinary People, de 1980, até Sem Proteção/The Company You Keep, de 2012. Nove filmes sérios, densos, de grande qualidade, importantes.

Vários deles são políticos. Redford é um ser político até a medula.

Rebelião em Milagro (1988) fala de imigração – com um inesperado toque de realismo fantástico. Quiz Show (1994) fala da responsabilidade social da TV, de racismo. Leões e Cordeiros (2007) fala especificamente de política, política externa, o papel dos Estados Unidos no mundo. Em Conspiração Americana (2010), ele reconstitui o julgamento dos acusados de matar o presidente Abraham Lincoln, e questiona duramente uma das instituições que mais fazem o orgulho dos Estados Unidos da América, a sua Justiça. E Sem Proteção mostra como antigos terroristas nos loucos anos 60 e 70 podem hoje em dia ser pessoas do bem, enquanto muita coisa na polícia federal fede.

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Creio que os filmes de Redford diretor que não tratam direta ou indiretamente de política são a minoria.

Ele estreou com um filme sobre vida em família: Gente como a Gente examina uma família de classe alta, em que o símbolo perfeito da paz familiar – a mãe – é o vilão.

O cara não está no mundo para deixar as pessoas felizes. Ele questiona, põe o dedão nas feridas todas.

Um drama familiar passado na América profunda, o interiorzão de Montana

A River Runs Through It, no Brasil Nada é Para Sempre, de 1992, seu terceiro filme como diretor, também sobre vida em família, me parece seu filme menos briguento, menos polêmico, menos assustador. E é belíssimo.

Creio que é próximo, de alguma forma, de O Encantador de Cavalos/The Horse Whisperer (1998).

Os dois, Nada é Para Sempre e O Encantador de Cavalos, passam-se na América profunda, a mais profunda que poderia existir – o interiorzão do país-continente. Muito, muito longe das grandes metrópoles.

A ação dos dois filmes se passa em Montana.

Na visão de um urbanóide, um neguinho de uma grande cidade americana, Montana fica depois de onde Judas perdeu as meias. Montana faz fronteira direta com o Canadá, aquela coisa gelada. Fica longe do mar. E tem as Rochosas. É estupidamente lindo – mas estupidamente longe de qualquer parte trepidante deste insensato mundo.

zzriver2Redford parece ter ligação forte com essa América profunda. Seu Sundance Film Festival, o festival de Cannes dos filmes independentes, que existe desde 1978, se realiza em Utah, que fica ao Sul de Montana. Em vários de seus filmes como ator, Redford interpretou homens com ligações com aquelas imensidões relativamente pouco habitadas, os campos, as pradarias do Oeste americano. É o caso, por exemplo, de Mais Forte que a Vingança/Jeremiah Johnson (1972), O Cavaleiro Elétrico (1979), Um Lugar para Recomeçar/An Unfinished Life (2005), e o próprio O Encantador de Cavalos.

“Na nossa família, não havia separação entre religião e pesca”

A família focalizada neste Nada é Para Sempre mora numa pequenina cidade de Montana, Missoula, junto de gigantescas montanhas, em um vale por onde corre um rio de águas cristalinas e geladas, que, exatamente por serem cristinalinas e geladas, têm uma grande quantidade de trutas. O pai, o reverendo Maclean (Tom Skerritt), pastor da igreja presbiteriana local, descendente de escoceses, tem imensa reverência por Deus e pela pesca. Ensina aos dois filhos, Norman e Paul, lições sobre a Bíblia e a pesca.

Norman, o mais velho, interpretado por Joseph Gordon-Levitt quando garoto e por Craig Sheffer quando adulto, é o narrador da história.

Paul, o mais novo (Vann Gravage quando garoto, um Brad Pitt jovenzinho e muito belo aos 29 anos quando adulto), é tão importante na história quanto o próprio narrador. A mãe deles, simpática, amorosa, dedicada, é quase uma coadjuvante, como costumavam ser as mães de família daquele lugar e daquele tempo – a ação começa nos anos 1910. É uma figura tão coadjuvante que sequer prenome tem – é tratada sempre com a mãe, ou sra. Maclean, e é interpretada por Brenda Blethyn, essa maravilhosa atriz inglesa.

A primeira tomada do filme é um close-up das águas claras do rio. De cara, Redford já mostra que o rio será personagem fundamental da história.

A segunda tomada, outro close-up, mostra as mãos trêmulas de um velho acertando a isca no anzol, enquanto a voz em off do narrador diz:

– “Muito tempo atrás, quando era jovem, meu pai me disse: ‘Norman, você gosta de escrever histórias’. E eu disse que sim. E então ele disse: ‘Algum dia, quando você estiver preparado, você poderia contar a história de nossa família. Só então você vai entender o que aconteceu e por quê.’”

A voz do narrador – o espectador atento percebe de cara; o menos atento lerá nos créditos finais – é do próprio Robert Redford.

E então começam os créditos iniciais, as palavras sobre fotos em sépia de uma cidade surgindo num vale de Montana.

O narrador prossegue: – “Na nossa família, não havia separação entre religião e pesca. Morávamos perto dos rios de truta, em Missoula, Montana, onde os índios ainda apareciam, e andavam pelos bares e bordéis da Front Street.”

Quando os créditos iniciais terminam, vemos uma igreja, primeiro por fora, e depois por dentro, em dia de missa. Os garotos Norman e Paul estão sentados, a mãe entre eles. O pai está no púlpito, lendo seu sermão. E o narrador prossegue: – “Meu pai era pastor presbiteriano – e pescador. E, apesar de um dia da semana ser todo dedicado à religião, até nesse dia ele falava sobre o fato de que os discípulos de Cristo eram pescadores.”

Um é introspectivo – estudaria Letras. O outro é charmoso, briguento – viraria jornalista

É um belo texto, este que o narrador vai nos apresentando. Um texto caprichado, de quem gosta de texto.

O roteiro, assinado por Richard Friedenberg, se baseia na novela A River Runs Through It, de autoria de Norman Maclean – o personagem e narrador do filme. O filme é, portanto, a reconstituição de fatos reais narrados por Norman Maclean em seu livro A River Runs Through It and Other Stories, publicado em 1976.

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Norman Maclean, como o filme mostra, teve vida longa. Morreu aos 88 anos em 1990; não chegou a ver, portanto, a sua vida retratada neste belo filme.

Quando o filme está com 12 minutos, há um diálogo dos dois irmãos garotos sobre o futuro. Paul pergunta o que o irmão vai ser quando crescer, e Norman diz que será pastor, provavelmente – ou então boxeador. O próprio Paul, o mais novo, diz que vai ser pescador profissional – ao que Norman retruca que isso não existe; já que não existe, então Paul diz que vai ser boxeador.

Depois desse diálogo há um corte no tempo, para 1917, o ano em que os Estados Unidos entraram na Primeira Guerra Mundial. Os irmãos Maclean eram jovens demais para serem recrutados: Norman estava com 16, indo para 17.

A partir dos 15 minutos de filme, temos já Craig Sheffer e Brad Pitt interpretando os dois irmãos.

Nenhum dos dois viraria boxeador profissional – nem pastor presbiteriano. Norman, menos expansivo, mais introspectivo, menos charmoso, iria fazer faculdade no Leste, onde se daria muito bem nas Letras. Paul, charmoso, encantador, viraria jornalista, como tantos outros jovens que não sabem fazer coisa alguma. E continuaria indisciplinado,  brigão; não um boxeador profissional, mas um brigão eterno.

A falta de fatos extraordinários pode aborrecer espectadores de filmes de ação

Como na vida real de tanta gente, não há fatos extraordinários, especialmente memoráveis, na vida daqueles dois irmãos e seus pais. Há momentos no filme em que Mary e eu, ao revê-lo agora, ficamos achando que em seguida viria uma grande tragédia – mas ela não vem. Quando acontece uma tragédia, já bem no fim da narrativa, o filme não a mostra – o espectador só ouve a descrição que Norman faz dela.

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Essa característica de ser um filme sobre gente como a gente, pessoas comuns, cujas vidas não têm fatos extraordinários, pode talvez aborrecer os espectadores acostumados aos filmes de ação. Aparentemente, foi o que aconteceu com Leonard Maltin, o autor do guia de filmes mais vendido no mundo. Ele deu 2.5 estrelas ao filme:

“Um pastor (Skerritt) ensina a seus filhos sobre vida, graça e amor através da arte de pescar em sua Montana nativa, mas quando eles crescem e seguem diferentes caminhos (um reto e estreito, o outro selvagem), descobrem que a pesca é o elo que ainda os une. Respeitosa adaptação da novela autobiográfica de Norman Maclean. Belamente filmada em Montana, com fotografia de Philippe Rousselot premiada com o Oscar… mas o ritmo é lento, as emoções mudas, e o resultado é um tanto sonífero às vezes.”

Cada um tem direito à sua opinião.

“Os fatos são apenas ilustrações dos princípios que estão sob eles”

Roger Ebert, o crítico que amava os filmes que via, deu 3.5 estrelas em 4. “A River Runs Throught It, o filme poético, elegíaco de Robert Redford, é sobre as tentativas de um pai de passar para seus filhos os princípios fundamentais de sua vida. Mas é mais que isso. É também como um de seus filhos se lembra daquelas lições anos depois…”

E aqui Ebert comete um pequeno erro, na minha opinião, ao fazer uma revelação sobre algo que acontece bem no final da narrativa. Vou omitir isso.

“A pesca significa a vida, neste filme. Se você conseguir aprender a fazê-la corretamente, a ler o rio e o peixe e você mesmo, e fizer o que é preciso fazer sem um movimento errado, você terá alcançado parte da graça e da economia necessárias para viver uma boa vida. Se você puder fazer isso e compreender que o rio, o peixe e todo o mundo são presentes de Deus para que usemos de forma inteligente, você terá percorrido todo o caminho.

“Essas memórias de uma infância no Oeste foram primeiramente contadas em um livro publicado cerca de 20 anos atrás por Norman Maclean, depois que ele se aposentou de seu emprego como professor de Inglês na Universidade de Chicago. (…) O livro foi publicado discretamente pela editora universitária, e imediatamente encontrou sua audiência. Muitas edições depois, ele é um dos livros sagrados na biblioteca de muitas pessoas – um dos livros que de fato ensinam alguma coisa, como os de Walden ou Huckleberry Finn.

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“O filme de Redford tomou a decisão crucial de manter a voz de Maclean; sua própria prosa é lida como narração, por Redford, de maneira que nós não apenas vemos os eventos como eles aconteceram; somos lembrados de que elas são memórias de muito tempo atrás, e que o autor passou tempo para compreender as lições daqueles fatos.

E Ebert conclui assim:

“Deve ter sido muito difícil escrever este filme. Ele a rigor não é sobre os eventos que acontecem nele. Os fatos são apenas ilustrações dos princípios que estão sob eles. Se você deixar de fora os princípios, tudo o que fica são algumas pessoas interessantes que nascem, crescem e tomam várias direções na vida. Redford e seu roteirista, Richard Friedenberg, compreenderam que a maior parte dos eventos em qualquer vida são acidentais ou arbitrários, especialmente aqueles cruciais, e nós podemos exercer pouco controle consciente sobre os nossos destinos. Em vez disso, compreendemos que as lições do reverendo Maclean são sobre como nos comportarmos, não importa o que o vida traga; sobre como enfrentar a correnteza imprevisível e reagir aos acontecimentos com graça, coragem e honestidade. A melhor característica do filme é que ele comunica essa mensagem com tamanho sentimento.”

É… Quando eu crescer, gostaria de escrever sobre os filmes como Roger Ebert.

Os bons filmes têm sempre histórias gostosas sobre eles

Aí vão fatos e historinhas sobre o filme, a maioria tirada do IMDb:

* Como a crítica de Leonard Maltin menciona, o filme levou o Oscar de fotografia, dirigida pelo francês Philippe Rousselot. A fotografia do filme de fato é extraordinária, cheia de planos gerais mostrando a beleza incrível do interior de Montana.

* O filme teve duas outras indicações ao Oscar – música (de Mark Isham) e roteiro (do já citado Richard Friedenberg).

Et au milieu coule une rivire* Robert Redford foi indicado ao Globo de Ouro de melhor direção.

* Consta que Redford cortejou o escritor Norman Maclean durante anos para ganhar os direitos de filmagem de sua novela autobiográfica.

* Consta também que, antes de Redford conseguir os direitos, William Hurt também cortejou Norman Maclean; queria fazer o papel de Paul, o irmão mais jovem, no filme que viesse a ser feito. Chegou a pescar com Norman em Montana; e o autor teria dito a ele: “Bill, você é um pescador bem bom, mas não bom o suficiente para ser o meu irmão”.

* Norman Maclean gostava de contar que seu livro foi rejeitado por diversas editoras comerciais. Algumas delas disseram que o livro continham “árvores demais”. O livro, como já foi dito, acabaria sendo publicado pela University of Chicago Press, e vendeu bastante.

* O filme foi de fato rodado em Montana, mas não exatamente em Missoula, a terra dos Macleans, e sim na região das cidades de Livingston, Bozeman e Big Timber. Muitas das cenas de pescaria foram filmadas no Gallatin Canyon, ao sul de Bozeman.

* Houve todo tipo de cuidado para não maltratar as trutas que aparecem no filme. Não se usaram anzóis, e não se derramou sangue de truta alguma.

* Os atores Brad Pitt, Craig Sheffer e Tom Skerritt tiveram lições de pescaria com George Coonenbergs, um engenheiro ferroviário aposentado, que foi vizinho e amigo da família Maclean. Antes das filmagens, nenhum dos atores do filme havia pescado.

* O poema que Norman e seu pai recitam no filme é “Ode: Intimations of Immortality”, do inglês William Wordsworth (1770-1850). O trecho que eles recitam inclui os versos “Though nothing can bring back the hour of splendour in the grass, / of glory in the flower, / we will grieve not, / rather find strength in what remains behind”, dos quais saiu o título do filme de Elia Kazan Splendor in the Grass, no Brasil Clamor do Sexo.

* Na tradução de Paulo Vizioli, no livro bilíngue Recordações da Primeira Infância (editora Mandacaru, 1988), é: “Mesmo que nada nos devolva o instante / De esplendor para a relva e glória para a flor, / No que restou vamos achar, / Sem mágoa, um poder similar.”

* Numa tradução muito menos bela, porém mais literal, seria: “Embora nada possa trazer de volta a hora do esplendor na relva, da glória na flor, não lamentaremos, e encontraremos força com o que fica para trás.”

* Nos créditos iniciais, aparece que o autor da trilha sonora é Elmer Bernstein (1922-2004), o grande compositor, autor das trilhas de filmes importantes, como A Idade da Inocência, Longe do Paraíso, Bravura Indômita (o original, de Henry Hathaway), Pelos Bairros do Vício, O Sol é para Todos, Sete Homens e um Destino, O Homem do Braço de Ouro. (As trilhas de todos esses filmes citados acima foram indicadas ao Oscar.) No entanto, Redford não aprovou a trilha escrita pelo grande Bernstein, e a trilha que se ouve no filme é de autoria de Mark Isham.

É isso aí. Os bons filmes sempre têm boas histórias sobre eles.

Anotação em fevereiro de 2014

Nada é para Sempre/A River Runs Through It

De Robert Redford, EUA, 1992.

Com Craig Sheffer (Norman Maclean), Brad Pitt (Paul Maclean), Tom Skerritt (reverendo Maclean), Brenda Blethyn (Mrs. Maclean), Emily Lloyd (Jessie Burns), Edie McClurg (Mrs. Burns), Stephen Shellen (Neal Burns), Joseph Gordon-Levitt (Norman jovem), Vann Gravage (jovem Paul),  Nicole Burdette (Mabel), Michael Cudlitz (Chub)

Roteiro Richard Friedenberg

Baseado no livro de Norman Maclean

Fotografia Philippe Rousselot

Música Mark Isham

Montagem Lynzee Klingman e Robert Estrin

Produção Patrick Markey, Robert Redford, Allied Filmmakers, Wildwood Enterprises. DVD Sony.

Cor, 123 min

***1/2

4 Comentários

  1. José Luís
    Postado em 10 maio 2014 às 11:09 am | Permalink

    É um bom filme, feito com muito talento e que embora com pouca acção não deixa de agarrar o espectador. Por mim concordo com a sua pontuação.

  2. Jussara
    Postado em 29 outubro 2016 às 7:10 pm | Permalink

    Não me lembrava de nadinha nesse filme, mas assim como em “Somente Elas”, sabia que tinha visto por causa da foto do pôster, que acredito que era a mesma usada na capa do VHS, e porque nos anos 1990 eu via filmes como nunca (talvez empate com uma época em meados dos anos 2000, mas não tenho certeza). E de novo, a parte que fez acender alguma luz na minha memória foi algo negativo: a cena da briga entre os irmãos, e mais para o final, a morte de determinado personagem (o ser humano se apega mesmo mais às coisas ruins que às positivas, ou pelo menos, é marcado por elas. Damn it!). De resto, era como se eu tivesse vendo o filme pela primeira vez. É tão estranho quando um filme se apaga totalmente das minhas lembranças, pois geralmente alguma coisa fica, nem que seja uma impressão.

    Gostei bastante, fazia tempos que queria revê-lo, e ia adiando. Gosto de filmes que falam sobre famílias, suas relações, etc. É a cara dos filmes dirigidos pelo Redford. Claro que sou das espectadoras atentas, e reconheci a voz dele. E que dicção maravilhosa! Nem era preciso legenda para entendê-lo! Fica a dica aí para Mark Ruffalo, o ator que parece que tem um ovo na boca. Que saudade dos atores da época de ouro de Hollywood, ao menos sabiam falar.
    É curioso ver como dois irmãos podem ser tão diferentes no caráter, e como uma educação rígida muitas vezes não é suficiente nem a mais apropriada quando o espírito é rebelde. Aqui entra também a questão de que muitos pais educam os filhos de maneira igual, e ainda acham que estão agindo certo. Se as pessoas são diferentes por natureza, por que educar filhos da mesma forma? Não dá certo. Paul já dava mostras de como seria uma pessoa turrona desde criança, quando o pai disse que não faria a prece se ele não comesse toda a aveia. Horas se passaram, e o moleque não comeu. O prato ficou intocado. Aliás, tenho que dar razão a ele nesse ponto; nunca gostei de aveia, até hoje meu estômago embrulha só de eu ver a coisa, principalmente se misturada ao leite, que também detesto.

    Não entendo nada de pescaria, nunca me interessei pelo assunto, mas achei interessante a analogia que o pai dos meninos faz da pesca com a vida. Por coincidência, uma semana depois de rever esse “Nada é Para Sempre”, vi um vídeo no YouTube, de um americano que fala português e dá dicas de inglês, em que ele conversa com um amigo que gosta de pescar, e utiliza essa técnica do fly-fishing. Comentei com ele sobre o filme, e ele falou que o livro em que a história foi baseada é o preferido do amigo. Uma pena que o autor tenha morrido antes da obra ter sido realizada.

    Achei engraçado ver Joseph Gordon-Levitt ainda criança, não sabia que ele havia começado tão cedo. Ele continuou com a mesma cara de fuinha. (Tentei ver um filme que ele escreveu, dirigiu e em que atuou, e que tem a Scarlet Johansson no elenco, talvez para cavar bilheteria, mas é uma bela porcaria. Não sei o que ele tentou dizer com aquilo, mas não passei dos 15 minutos. Péssimo).

    “Paul, charmoso, encantador, viraria jornalista, como tantos outros jovens que não sabem fazer coisa alguma.” Eu ri! E a gente chega a pensar que Norman é quem enveredaria pelas letras, não? Se bem que dando aulas ele também ficaria perto da escrita.

  3. Jussara
    Postado em 29 outubro 2016 às 7:18 pm | Permalink

    Olha, nem tudo o que está no IMDb é verdadeiro, vira e mexe vejo muita bobagem escrita lá; vide a história de que colocaram leite na água da chuva em “Singin’ in the Rain”!! Nonsense total, e ainda prestam um desserviço, pois tem muita gente que acredita nisso.
    Não sei se foi de lá que saiu essa informação de que nos créditos iniciais aparece que o autor da trilha é Elmer Bernstein. Eu vi e revi a abertura e não encontrei o nome dele. Só aparece mesmo o nome de Mark Isham. Achei estranho que uma pessoa levasse os créditos por uma trilha sonora que não está no filme; não seria justo, então fiz questão de conferir. Os créditos estão em francês, então o que aparece é o seguinte: “Musique Mark Isham”. E só.

    Falando em curiosidades, aqui vai mais uma (que não é sobre este filme, mas é sobre um dos atores): Brad Pitt tinha feito “Thelma & Louise” um ano antes, e dizem que foi o filme que lhe abriu as portas para o estrelato. George Clooney também havia feito teste para o papel, e diz ele que passou anos sem conseguir ver T&L, por causa disso. Geena Davis gostou de Pitt, e parece que deu uma mãozinha para que ele fosse escolhido. Engraçado como nunca dei a menor pelota pra ele, nunca achei bonito, e revendo esse filme agora com o cara jovem, continuo com a mesma opinião. Quando ele estourou, a mídia o colocou como “concorrente” de Tom Cruise, talvez por terem idades bem próximas e serem galãs. Só que eu sempre fui #teamtomcruise, já que ele foi um dos galãs da minha pré-adolescência, com “Top Gun” passando ad nauseam na “Sessão da Tarde”, e vários outros que vieram depois (e eu via todos, hehe). Sem falar que sempre foi muito mais bonito que Brad Pitt mesmo, desculpaê. Craig Sheffer que não é propriamente bonito, é mais interessante que BP, na minha opinião. E por onde anda esse ator? Sumiu, hein?
    A info sobre as trutas aparece também nos créditos finais, já quase no finzinho mesmo. Achei incrível essa preocupação, em plenos anos 1990, quando ainda não se falava de meio-ambiente, reciclagem, camada de ozônio, etc. (Ano da Eco-92). Só podia ser um filme de Redford.

    Voltando à história: assim como você e Mary, também fiquei achando que em seguida a determinados momentos viria uma tragédia. Muito bem apontado o papel da mãe dos meninos, que é quase uma coadjuvante e nem prenome tem. E hoje ainda é assim em muitas casas, só que agora a mulher trabalha fora também, só que os outros co-habitantes do lugar acham que é só dela o dever de fazer as tarefas. Mas de quem é a culpa, a não ser delas mesmas, que se deixam explorar? Naquela época pelo menos não havia escolha.

    Discordo de Ebert quando diz que os acontecimentos da vida são arbitrários ou acidentais, e de que temos “pouco controle consciente sobre os nossos destinos.” (Whaaat?). Algumas ocorrências são inevitáveis e não estão sob o nosso controle, mas acho que podemos escolher sim determinados caminhos; não acredito em destino. Creio que temos livre-arbítrio justamente para fazermos escolhas. (O que é obviamente doloroso, pois a consciência pesa, mas é mais fácil culpar o “destino”, não?). No caso de Paul, por exemplo, quantas vezes o irmão avisou que não era mais pra ele ir à casa de jogos? Que ele podia lhe emprestar dinheiro? Procurou, procurou, até que achou. E não era má pessoa, apenas preferiu passar pela “porta larga”.

    Enfim, filme bonito e delicado. O final com o “velho” pescando sozinho é tristíssimo, acho que dei uma choradinha nessa hora.
    Achei o poema recitado por Norman e pelo pai muito mais bonito aqui do que em “Clamor do Sexo” (até hoje não tive coragem de comentar sobre ele, porque não gostei. Periga eu ser linchada. Talvez eu tenha que rever, mas vontade zero).

    E para fechar, concordo plenamente com esse trecho do comentário de Roger Ebert: (…) “as lições do reverendo Maclean são sobre como nos comportarmos, não importa o que o vida traga; sobre como enfrentar a correnteza imprevisível e reagir aos acontecimentos com graça, coragem e honestidade. A melhor característica do filme é que ele comunica essa mensagem com tamanho sentimento.”

    “Quando eu crescer, gostaria de escrever sobre os filmes como Roger Ebert.” Que nada, Sérgio, você quase sempre fala isso, mas seus textos são maravilhosos, cheios de informações, ricos em detalhes. E ainda escreve com sensibilidade e amor à sétima arte. Várias vezes vi filmes por causa de apenas uma frase sua, que de alguma forma me tocou ou chamou a atenção.

    É, às vezes eu escrevo demais. ;D

    PS: Depois do intertítulo “Os fatos são apenas ilustrações dos princípios que estão sob eles”, você começa falando de Ebert, mas se equivoca e diz “E aqui Maltin comete um pequeno erro…”. Na verdade, você já havia mostrado a opinião de Maltin, então quem comete o pequeno erro é Ebert. Houve uma troca de sobrenomes.

  4. Sérgio Vaz
    Postado em 29 outubro 2016 às 9:49 pm | Permalink

    Jussara, querida, muitíssimo obrigado

    a) pelos deliciosos comentários;

    b) pelos elogios, embora eu não os mereça;

    c) pela correção – que já providenciei;

    d) por existir.

    Um abraço.
    Sérgio

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