Minha Nova Vida / How I Live Now

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Nota: ★★★☆

Minha Nova Vida/How I Live Now, do competente diretor escocês Kevin Macdonald, lançado em 2013, é um filme pretensioso, ambicioso. É uma distopia – uma terrível, apavorante visão de como poderá ser a Inglaterra, a mais sólida e longeva democracia do planeta, em um futuro bem próximo, num mundo assolado pelo terrorismo que leva à Terceira Guerra Mundial.

É também uma história de amor, uma bela, trágica história de um grande amor de dois adolescentes.

E, como se não bastasse, é também o relato da brutal transformação por que passa a protagonista da história em um curto período de tempo, de aborrescente irritante, egocêntrica, a uma jovem firme, determinada, forte, disposta a ajudar os mais frágeis.

É um filme bem realizado em todos os quesitos técnicos, e os atores – todos muito, muito jovens, embora já experientes – estão ótimos. Não seria de se esperar algo diferente de Kevin Macdonald, que tem em seu currículo os ótimos O Último Rei da Escócia (2006) e Intrigas de Estado/State of Play (2009).

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Na minha opinião, o que há de fraco no filme são problemas na trama, na história, em seu desenvolvimento.

A narrativa tem duas partes bem distintas, separadas por uma breve espécie de intermezzo, e, na segunda parte, na segunda metade dos 101 minutos de filme, há um sério problema de falta de verossimilhança. É muito difícil acreditar que aqueles fatos pudessem vir a acontecer no mundo real, com pessoas reais.

Não tanto no contexto maior, no pano de fundo, a Inglaterra atacada e invadida por forças armadas estrangeiras. É uma ficção, uma fantasia, uma distopia, e então tudo é possível. O que me incomodou bastante, o que me pareceu totalmente não factível foram as ações dos personagens da história, as circunstâncias no micro-universo deles. A jornada que Daisy (Saoirse Ronan), a adolescente protagonista da história, e a pequena Piper (Harley Bird) empreendem, através de imensas distâncias, é algo humanamente impossível de ser feito. Não é crível. É absolutamente inverossímil.

Numa Inglaterra do futuro próximo, o terrorismo é ameaça constante, perene

Mas acho que passei o carro à frente dos bois.

How I Live Now se baseia no livro homônimo, escrito por Meg Rosoff e lançado em 2004. Foi a primeira novela da autora, uma americana de Boston nascida em 1956 e radicada na Inglaterra. O livro foi muito recebido pela crítica, e ganhou vários prêmios, o Guardian Children’s Fiction Prize, o American Printz Award para literatura para jovens adultos e o Branford Boase Award. É prosa, como se vê, para o público infanto-juvenil.

Fico imaginando que, contada em prosa, a epopéia da garota Daisy pode talvez ser mais verossímil do que a mostrada na tela. A tela expõe mais cruamente o que parece pouco factível.

Deixando essa questão de lado, o filme começa assim: numa Inglaterra do futuro próximo, o terrorismo virou uma ameaça constante, perene. A segurança nos aeroportos, nas ruas, é redobrada. Tanques e militares fortemente armados patrulham as ruas. É como se uma guerra estivesse para começar – e todos os indícios são de que está mesmo.

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Daisy, uma garota americana de 16 anos (o papel de Saiorse Rona, repito), desembarca em Heathrow. Quem a recebe é um garoto de 14 anos, Isaac (Tom Holland, de O Impossível/The Impossible, 2012), que segura um cartaz com o nome Elizabeth. Nunca haviam se visto; era a primeira viagem da garota à Inglaterra.

O primeiro encontro entre a garotinha americana com roupas e jeitão meio dark, meio punk, meio grunge, ou seja lá o termo que se usa hoje em dia para designar o tipo de aborrescente que faz todo o esforço do mundo para ser esquisito e agressivamente feio, e o garoto inglês com roupas e jeitão absolutamente normais, esportivos, é de soltar faíscas.

A garota fala com ele com imenso desprezo: “Ninguém me chama de Elizabeth. Exceto meu pai, e ele é um imbecil. Então, se não se incomodar, meu nome é Daisy.”

Os roteiristas usam muitas elipses, neste começo de narrativa. O espectador vai compreendendo a situação bem aos poucos. Embora no diálogo inicial com Isaac ela negue ter parentesco com a família que vai acolhê-la, Elizabeth que se chama de Daisy é sim, prima de Isaac e seus dois irmãos.

Daisy é órfã de mãe – jamais conheceu a mãe, que morreu por complicações no parto. Lá pelo meio da narrativa a garota dirá que, se não tivesse nascido, sua mãe estaria viva – um fato que, para uma adolescente de cabeça perturbada, leva a uma baita culpa. O pai havia casado de novo, e um novo filho acabara de nascer. Contra a vontade de Daisy, ela havia então sido enviada para a Inglaterra, para ficar com a tia Penn (Anna Chancellor), irmã de sua mãe, que mora bem longe de Londres, no meio do campo inglês, um lugar de natureza luxuriante.

A tia Penn é uma pessoa extremamente ocupada. Figura importante, uma cientista social ativa, expert em assuntos ligados ao terrorismo que ameaça o mundo com o início de uma nova guerra mundial, fica trancada em seu escritório a maior parte do tempo, em contato com colegas de todo mundo via telefone e internet, trocando informações.

Assim, a casa fica por conta dos três filhos: Isaac, o do meio, de 14 anos, Piper, a caçula (e a garotinha Harley Bird é uma revelação, um grande talento), e Edmond (Matthew Barry, na foto abaixo), o mais velho, de uns 16, 17, que passa a maior parte do tempo ao ar livre, na floresta ou nos campos próximos.

E é uma casa bagunçada. Os três irmãos parecem alegres, se dão bem – mas, afinal, são garotos, e então a pia está sempre cheia de pratos sujos, e a casa tem coisas espalhadas por todos os lugares. Na maior parte do tempo fica lá também o vizinho e amigo Joe (Danny McEvoy)

Uma adolescente problemática – com motivos de sobra para ser problemática

Daisy detesta tudo aquilo. Tem nojo da pia suja, da cozinha bagunçada, da comida que os próprios primos preparam. Recebida com toda deferência – reservam para ela o melhor quarto da casa, o quarto que havia sido de sua mãe –, reage com desprezo a todas as tentativas dos primos de estabelecer contato com ela.

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Em suma: é a mais absoluta aborrescente pentelha.

O roteiro (assinado por Jeremy Brock, Tony Grisoni e Penelope Skinner) mostra, com talento e sensibilidade, que a pentelhice de Daisy, a ranhetice, a agressividade não são absolutamente gratuitas. Ela construir uma armadura para se refugiar do mundo que a tratou mal: afinal, , como já foi dito, é órfã, nunca viu a mãe, carrega a culpa pela morte dela, e ainda enfrenta a ausência do pai que tem um novo filho, a manda para longe, contra sua vontade, e sequer liga para ela para saber notícias.

Não que isso tudo justifique o comportamento atarantado de Daisy. Mas que explica, explica.

É bem provável que o espectador, como eu, ache Daisy uma aborrescente pentelha, no início da narrativa – e de fato ela é, embora com carradas de razão.

Mas o fato é que o filme faz o espectador começar a simpatizar por aquela jovem tão fechada em seu universo, aparentemente tão egoísta, tão centrada apenas em si mesma, que acaba sofrendo muito, penando demais.

Apesar de tudo o que achei de inconsistente, inverossímil na segunda metade do filme, a narrativa me envolveu: me peguei sofrendo por aqueles personagens, aquele bando de jovens, quase crianças ainda, pegas como vítimas num mundo que os adultos transformaram em inferno.

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Para que o filme consiga agarrar o espectador pela emoção, pelas sensações, para que a trama se mantenha de pé, é importantíssima, fundamental a atuação de Saoirse Ronan, essa jovem atriz de talento descomunal e uma beleza tão absolutamente estranha quanto o prenome gaélico que o pai irlandês lhe deu. (Saoirse significa liberdade e se pronuncia, segundo o IMDb, “seer-sha”, o que equivaleria em português a “sír-cha”.)

Saoirse Ronan nasceu em Nova York, mas seus pais se mudaram para a Irlanda quando ela tinha 3. Ela é de 1994; tinha 13 anos quando ganhou uma indicação ao Oscar de melhor atriz coadjuvante por sua interpretação da Briony Tallis de Atonement, no Brasil Desejo e Reparação. (Por causa desse papel, virei fã de carteirinha da menina.) Neste ano de 2014, em que completa 20 anos, coleciona 19 prêmios e 37 outras indicações.

Entre os diretores que a puseram em seus filmes estão os australianos Peter Weir (Caminho da Liberdade/The Way Back, 2010) e Gillian Armstrong (Atos Que Desafiam a Morte/Death Defying Acts, 2007), os neo-zelandeses Peter Jackson (Um Olhar no Paraíso/The Lovely Bones, 2009) e Andrew Niccol (A Hospedeira/The Host, 2013) e o americano Wes Anderson (O Grande Hotel Budapeste, 2014).

O jovem diretor que a lançou para o estrelato com Atonement, Joe Wright, a escolheu para ser a protagonista de Hanna, um filme de ação em que ela é uma adolescente preparada para ser uma máquina de matar. No mesmo ano de Hanna, 2011, ela fez também Violet & Daisy, em que interpreta uma assassina.

Espero que Saoirse Ronan seja inteligente o suficiente para não se transformar numa atriz apenas de filmes de ação.

Está excelente neste The Way I Live. Ela convence o espectador como aborrescente problemática, pentelha, como a jovem que vive a maravilha do primeiro amor, e como a jovem que tem que encontrar forças não se sabe de onde para sobreviver ao inferno. Mesmo se o filme não tivesse outras qualidades – e ele tem muitas –, valeria a pena vê-lo só por ela.

O filme mostra uma realidade cruel demais, apavorante

O IMDb diz, na página de Trivia – informações, curiosidades sobre a produção – que a intenção original do diretor Kevin Macdonald era escalar apenas rostos e nomes desconhecidos para interpretar os principais papéis. A equipe de casting procurava uma atriz amadora americana de uns 16 anos para fazer o papel de Daisy, mas fez um teste com Saoirse Ronan. A leitura que a garota fez provocou lágrimas no diretor, e ele deixou de lado a idéia de rosto e nome desconhecidos.

Dez atores fizeram testes para o papel de Edmond, lendo diálogos ao lado de Saoirse, antes de a direção de casting e o próprio Kevin Macdonald fechar com o 11º, George Mackay.

Na novela, Daisy está com 15 anos. Saoirse estava com 18 durante as filmagens, que começaram em junho de 2012. No filme, não se precisa exatamente se Daisy está com 15 ou 16 – mas, numa fala, ela diz que gostaria de completar 17.

O pai de Saoirse, Paul Ronan, que é ator, teve uma participação rapidíssima no filme. Ele interpreta um dos dois homens que, quando a narrativa já se aproximam do fim, seguram a garotinha Piper, com a clara intenção de estuprá-la.

A jovem atriz não leu, antes das filmagens, a novela em que o filme se baseia: preferiu se concentrar no roteiro, segundo afirma o IMDb.

O IMDb traz, no meio dessas informações às vezes de fato triviais, mais curiosas do que propriamente importantes, um dado bastante interessante: em quase toda a primeira metade do filme, a câmara usada foi uma de mão, para dar um toque suave, humano, prosaico. (Não é, no entanto, uma câmara de mão nervosa, de forma alguma; não há exageros, tremelicos, entortações.) Já na segunda metade, a Terceira Guerra Mundial chegando ao idílico campo inglês, foi usada uma câmara maior, mais pesada, para acentuar a sensação de coisa mecânica.

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Aproveito para fazer uma observação, um lembrete: este How I Live Now é o segundo filme feito num período curtíssimo de tempo mostrando algo que na realidade não existiu nos últimos muitos séculos: as Ilhas Britânicas sendo invadidas por tropas estrangeiras. Resistência/Resistance, de Amit Gupta (2011) é também uma distopia, como este filme aqui – só que, em vez de se passar num futuro próximo, a ação transcorre num passado recente, um passado alternativo: partindo do pressuposto (falso, é claro) de que o desembarque dos aliados na Normandia em 6 de junho de 1944 foi um fracasso, Resistência mostra soldados nazistas invadindo o País de Gales e a Inglaterra.

Uma pequena coincidência: parte das filmagens deste How I Live Now foi no País de Gales – a outra parte, na Inglaterra.

Para os ingleses – que foram bombardeados pela aviação nazista, mas sem que um soldado alemão pisasse seu solo –, devem ser especialmente cruéis, apavorantes as sequências da segunda metade deste filme.

Mas, na verdade, para qualquer pessoa que não seja black-bock, terrorista ou amante do terrorismo, o que o filme mostra é tremendamente cruel, apavorante.

Anotação em julho de 2014

Minha Nova Vida/How I Live Now

De Kevin Macdonald, Inglaterra, 2013.

Com Saoirse Ronan (Daisy), Tom Holland (Isaac), George MacKay (Eddie), Harley Bird (Piper), Danny McEvoy (Joe), Anna Chancellor (tia Penn), Stella Gonet (Mrs. McEvoy), Des McAleer (Major McEvoy)

Roteiro Jeremy Brock, Tony Grisoni, Penelope Skinner

Com a colaboração de Jack Thorne

Baseado na novela de Meg Rosoff

Fotografia Franz Lustig

Música John Hopkins

Montagem Jinx Godfrey

Produção BFI Film Fund, Cowboy Films, Film4, Passion Pictures.

Cor, 101 min

***

 

Um Comentário

  1. Lola Siqueira
    Postado em 17 julho 2015 às 10:21 am | Permalink

    Amei…

4 Trackbacks

  1. […] vida e melhorando volta e meia aparece no cinema – ainda outro dia vimos um caso extremo disso em Minha Nova Vida/How I Live Now, em que a protagonista, Daisy, interpretada por Saoirse Ronan, passa em um curto período de tempo […]

  2. Por 50 Anos de Filmes » ela / her em 24 Fevereiro 2015 às 7:25 pm

    […] (1984), Minha Nova Vida (2013), Fahrenheit 451 (1966), são do tipo […]

  3. Por 50 Anos de Filmes » Brooklyn em 19 setembro 2016 às 4:02 pm

    […] John Crowley e de seu diretor de fotografia Yves Bélanger fica paralisada diante do rosto de Saoirse Ronan. É quase um close-up – vemos os ombros e o rosto de Saoirse Ronan. Ela interpreta Eilis Lacey, […]

  4. […] Minha Nova Vida/How I Live Now, de Kevin Mcdonald, 2013 […]

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