Micmacs – Um Plano Complicado / Micmacs à tire-larigot

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Nota: ★★★☆

Micmacs – Um Plano Complicado, o sexto longa realizado por Jean-Pierre Jeunet, é um desses filmes de visual esplendoroso, magnífico. É uma superprodução cara, de orçamento altíssimo, coisa do cinemão comercial – e, no entanto, tem um estilo personalíssimo.

É um estilo, um visual que tem uma certa semelhança com as obras de Tim Burton e com algumas de Luc Besson.

É uma fantasia, uma aventura doidona, que parece adaptação de uma dessas histórias em quadrinhos – perdão, novelas gráficas para adolescentes de todas as idades. E no entanto não se baseia em novela gráfica coisa nenhuma – é uma história original, feita diretamente para o cinema por Jeunet e seu parceiro de sempre, Guillaume Laurant.

A trama é tão insólita, tão surreal, tão viajandona, e tem tamanha quantidade de trechos que beiram o incompreensível, que os distribuidores brasileiros explicitaram no título que se trata de um plano complicado.

É complicado mesmo. São tão complexos os esquemas armados pelo protagonista Bazil contra seus inimigos, e o ritmo do filme é tão acelerado, que é impossível compreender como foi exatamente que se planejou aquilo. Assim, das duas, uma: ou o espectador desiste de continuar vendo, ou então simplesmente dá de barato que os esquemas bolados por Bazil são mesmo difíceis de serem explicados pela lógica normal, e aí relaxa e curte o filme.

Fiquei com a segunda opção. Ainda bem.

Uma superprodução caríssima, reunindo dois realizadores de blockbuster

É necessário registrar que Micmacs marca o encontro – o primeiro, se não estou enganado – de duas figuras que bateram recordes no cinemão comercial francês. O Fabuloso Destino de Amélie Poulain, que Jeunet lançou em 2001, com orçamento de 11,7 milhões de euros, teve 8,5 milhões de espectadores na França; foi uma das melhores bilheterias até então.

zzmic2Dany Boon, que interpreta o protagonista deste Micmacs, lançou em 2008 uma comédia despretensiosa, A Riviera Não é Aqui/ Bienvenue chez les Ch’tis, feito com orçamento igual ao de Amélie Poulain, 11 milhões de euros; teve o absurdo de 20,4 milhões de espectadores em seu país, um recorde que, se não me engano, permanece até hoje imbatível. (Intocáveis, tremendo sucesso de público, chegou bem perto, com 19,213 milhões de entradas vendidas na França.)

Pela reunião desses dois nomes recordistas, seria de se esperar números sensacionais deste Micmacs. O custo do filme foi de fato sensacional – 27 milhões de euros, mais que a soma, portanto, dos orçamentos de Amélie Poulain e A Riviera Não é Aqui.

Mas não foi o estrondoso sucesso de público que, imagino, todos esperavam. Teve 1,262 milhão de ingressos vendidos.

Talvez Jeunet tenha exagerado um pouco na complicação, na complexidade de sua trama. Isso poderia explicar por que o filme não foi um estouro, um blockbuster.

Mas isso não significa, de forma alguma, que o filme não seja bom, não deva ser visto.

Micmac é, para o espectador que se deixar envolver por ele, uma fascinante viagem, sem a necessidade de tomar ácido.

E que visual extraordinário, meu Deus do céu e também da terra!

Os primeiros 15 minutos do filme são extraordinários, um tour-de-force formidável

A abertura do filme, os primeiros 15 minutos, são uma maravilha, um tour-de-force. É tanta informação junta, mas tudo tão bem realizado, com inteligência, belas sacações, quanto o início, por exemplo, de outra abertura genial de divertissement do cinema francês recente, As Múmias do Faraó/Les Aventures Extraordinaires d’Adèle Blanc-Sec, de Luc Besson (2010).

Um letreiro avisa: “Abril 1979 – Sahara Ocidental”.

Sob as vistas de alguns habitantes locais, um grupo de militares franceses procura bombas, minas deixadas na areia do deserto.

Um militar acha uma mina. Tenta, cuidadosamente, desmontá-la. A bomba explode.

Corte rápido para a casa – ampla, confortável – do oficial morto pela explosão da bomba, na França. Bazil, o filho único do oficial (interpretado por Noé Boon, na foto acima, filho do ator que fará o personagem adulto), examina papéis trazidos por militares; com auxílio de uma lente, vê o logotipo da empresa que fabricou a bomba que matou seu pai.

Corte rápido, e vemos a viúva, a mãe de Bazil, sendo levada da casa da família, muito provavelmente para um manicômio.

E Bazil é levado para um internato – de onde foge.

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Novo letreiro: “30 anos depois” – e vemos Bazil agora, em 2009, portanto, com uns 40 anos de idade. Trabalha numa locadora de filmes. Na TV da locadora, passa The Big Sleep, no Brasil À Beira do Abismo, na França Le Grand Sommeil, de Howard Hawks, 1946. Vemos na tela da TV Humphrey Bogart e Lauren Bacall, dublados para o francês, e vemos Bazil falando junto com os dubladores todo o diálogo, palavra por palavra.

De repente, Bazil é despertado de sua letargia diante do velho clássico de Hawks que ele sabe de cor.

A seqüência é literalmente extraordinária: na rua, um motoqueiro persegue um carro, atirando nele. Um dos tiros atinge o vidro frontal da locadora de vídeo.

Bazil se levanta da poltrona, vai até a porta da loja.

Desgovernado, o carro bate em um poste bem perto da loja. O motoqueiro está fugindo, mas o homem ferido cai do carro no asfalto e consegue atirar no motoqueiro. O revólver do motoqueiro voa para os ares, enquanto a moto cai no chão.

Quando o revólver cai no chão, dispara. A bala pega a testa de Bazil.

Big close-up do rosto de Bazil, visto de cabeça para baixo: o sangue escorre em direção ao nariz dele. Logo acima, na TV, Bogart beija a garotinha Lauren Bacall.

Vemos a bala dentro do cérebro de Bazil, e uma boa recordação de sua infância, ele jantando com o pai e a mãe.

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Na TV aparece The End – e começam os créditos iniciais de Micmacs à tire-larigot. Os créditos iniciais imitam com precisão a forma dos créditos dos filmes americanos dos anos 40; até a trilha sonora de Max Steiner aparece, citada na trilha escrita agora por Raphaël Beau.

Tudo isso acontece nos cinco, no máximo sete primeiros minutos do filme. Um tour-de-force extraordinário, espetacular.

Bazil vira mendigo, e é adotado por um clã de personagens fantásticos

No hospital, Bazil na sala de cirurgia, os médicos e enfermeiras conversam. Se tentar tirar a bala, diz o médico, o paciente corre o risco de virar um vegetal. Se deixar a bala lá como está, pode ser que ele viva, pode ser que não. Decidem a sorte no cara e coroa – Bazil deixa o hospital com uma bala dentro do cérebro.

O apartamento de periferia em que ele morava havia sido invadido. Seu emprego na locadora havia sido ocupado por uma mocinha. Bazil vira mendigo, ganhando trocados fazendo imitações no metrô, nas calçadas, e dormindo na rua.

Até que é adotado por um grupo de pessoas que só uma imaginação absolutamente desvairada poderia criar. O clã vive numa ampla, gigantesca caverna construída sob um ferro-velho nos arredores de Paris, e é chefiado por Tambouille (Yoland Moreau). Trabalham na reciclagem de objetos abandonados por nossa moderna sociedade consumo. Há Petit Pierre, inventor, artista (Michel Crémadès). Placard (Jean-Pierre Marielle), que passou boa parte da vida preso, e foi salvo da guilhotina porque ela enguiçou quando encostava na sua nuca – e então as autoridades decidiram soltá-lo.

Remington (Omar Sy, que brilharia logo depois em Intocáveis), que vive datilografando numa velha máquina de escrever, ex-estenógrafo em Brazzaville. Fracasse, fracasso (Dominique Pinon, na foto abaixo), que jura ter entrado para o Livro Guinness de Recordes em 1977 como o homem-bala que percorreu maior distância até então.

E ainda Calculette (Marie-Julie Baup), um autêntico computador, que sabe calcular tudo possível e imaginável. E, at last but not at least, La Môme Caoutchouc (Julie Ferrier), a malabarista, contorcionista.

Uma fantasia muito doidona, um panfleto contra a indústria armamentista

Bazil será acolhido generosamente por esse clã de malucos beleza. E aí, a partir de uns 20 minutos de filme, nosso herói vai, com a ajuda desse exército Brancaleone, combater os Maus, os Bandidos – François Marconi (Nicolas Marié) e Nicolas Thibault de Fenouillet (André Dussollier), cada um deles dono de sua gigantesca indústria de armamentos.

Nicolas construiu a mina que matou o pai de Bazil. Marconi construiu a bala agora alojada na cabeça do herói.

zzmic7Uau. Me alonguei no relato desse iniciozinho do filme – como sempre.

Mas o fato é que esta fantasia fantástica, essa aventura doidona, é um pretexto para divertir imensamente o espectador – e para fazer seu ataque à indústria de armamentos.

É mais ou menos assim um O Senhor das Armas versão Jean-Pierre Jeunet – doidona, maluca, de visual absolutamente impressionante.

A Paris do filme de Jeunet parece ter sido criada em computador. A luz é sempre outonal, com um amarelo pôr-de-sol que parece se impor sobre todas as demais cores.

 Um realizador que fez apenas sete filmes em 22 anos

É muito impressionante como a obra de Jeunet é enxuta. É um realizador de estilo oposto ao de Woody Allen e Clint Eastwood, por exemplo, que fazem um filme a cada ano. São apenas sete longa-metragens, em um período de 22 anos, a partir de 1991, quando fez Delicatessen. Em 1995 lançou Ladrões de Sonhos e, em 1997, Alien – A Ressurreição, o quarto filme da série,

E então, quatro anos depois dessa sua aventura no cinemão americano, em 2001, Jeunet lançou sua obra-prima, Amélie Poulain, aquele absoluto encanto. Em 2004, de novo com Audrey Tautou, transformada em estrela no filme anterior, fez Eterno Amor/Un Long Dimanche de Fiançailles, uma fascinante mistura de seu habitual estilo que beira o fantástico com um realismo cru sobre a Primeira Guerra Mundial.

Este Micmacs foi o sexto filme; neste ano de 2013, estreou na França o sétimo, L’extravagant voyage du jeune et prodigieux T.S. Spivet.

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Nessa filmografia enxuta, curta, Jeunet teve a experiência de dirigir atores que também se deram muito bem na direção: Matthieu Kassovitz em Amélie Poulain, Jodie Foster e Albert Dupontel em Eterno Amor, Dany Boon em Micmacs.

Influências de Branca de Neve, Toy Story e Missão Impossível

Aí vão informações sobre a produção do filme, retiradas do IMDb e do AlloCine, com alguns pitacos meus:

* Jeunet diz que o filme é uma espécie de mistura de Delicatessen com Amélie Poulain; como ainda não vi Delicatessen, não dá para avaliar a afirmação do realizador. Ele diz também que, na elaboração do filme, foi influenciado por Branca de Neve (1937), Toy Story (1995) e Missão Impossível – a série de TV de 1966, e não os filmes recentes com Tom Cruise.

* O papel do protagonista Bazil era de Jamel Debbouze, que havia trabalhado com Jeunet em Amélie Poulain. Dois meses antes do início das filmagens, no entanto, o ator abandonou o barco. Dany Boon foi, portanto, uma escolha de última hora – que deu certo.

* Diversas pessoas da equipe já haviam trabalhado ao menos uma vez com o realizador. É o caso dos atores André Dussollier, Dominique Pinon, Yoland Moreau, o roteirista Guillaume Laurant, o montador Hervé Schneid, a figurinista Madeline Fontaine.

* No entanto, o diretor de fotografia de Amélie Poulain e de Eterno Amor, Bruno Delbonnel, estava comprometido com as filmagens de Harry Potter e o Enigma do Príncipe. Jeunet chamou então o diretor de fotografia Tetsuo Nagata. O que é impressionante: mudou o responsável pela fotografia, mas o estilo visual do filme tem tudo a ver com o de Amélie Poulain e Eterno Amor.

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E o que raios será que quer dizer o título original do filme, Micmacs à tire-larigot – que, aliás, nos créditos iniciais aparece como Mic Macs a tire-larigot, com a primeira palavra dividida em duas e o a sem acento grave?

Bem, pode ser que haja algum sentido novo, moderno, coloquial que não descobri. Mas, literalmente, parece que significa “muita intriga secreta”, “intrigas secretas à larga”.

Seja o que for, é um filme que vale a pena ver. Opa, se vale.

Que maravilha de visual…

E pau em indústria de armamentos é sempre bem-vindo.

Anotação em dezembro de 2013

Micmacs – Um Plano Complicado/Micmacs à tire-larigot

De Jean-Pierre Jeunet, França, 2009.

Com Dany Boon (Bazil), André Dussollier (Nicolas Thibault de Fenouillet), Nicolas Marié (François Marconi), Jean-Pierre Marielle (Placard, o ex-preso), Yolande Moreau (Tambouille, a chefe do clã), Julie Ferrier (La Môme Caoutchouc, a contorcionista), Omar Sy (Remington, ex-estenógrafo em Brazzaville), Dominique Pinon (Fracasse, o homem bala), Michel Crémadès (Le Petit Pierre, o inventor-artista), Marie-Julie Baup (Calculette, a calculadora)

Argumento e roteiro Jean-Pierre Jeunet e Guillaume Laurant

Diálogos Guillaume Laurant

Fotografia Tetsuo Nagata

Música Raphaël Beau

Montagem Hervé Schneid

Produção Epithète Films, Tapioca Films, Warner Bros. Entertainment France, France 2 Cinéma, France 3 Cinéma, Orange Cinéma Séries.

Cor, 105 min.

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Um Trackback

  1. Por 50 Anos de Filmes » Chocolate / Chocolat em 23 novembro 2017 às 2:34 pm

    […] papel de Chocolat coube como uma luva para Omar Sy, essa força da natureza que começou a carreira em 2000 e se tornou mundialmente conhecido em 2011 […]

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